Instantes

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Eu ainda não tinha ouvido falar dele, ainda que seu nome não fosse totalmente desconhecido. Pelos inúmeros passeios entre as veredas da Literatura Brasileira, palmilhadas nas páginas de muitas de suas “Histórias”, seu nome ocorreu aqui e ali, na minha desatenta aventura de leitor. Um dia, assim, do nada, veio um convite de uma amiga de Niterói, a oferecer a oportunidade de participar de uma seleção para escrever uma recensão sobre um livro de poesia recentemente publicado no Brasil, a sair numa revista “de peso” da terra da António Nobre e Alberto de Oliveira, a Revistas Colóquio Letras – prestigiada publicação a cargo da Fundação Calouste Gulbenkian, cuja sede majestosa, em Lisboa, já tive o prazer de conhecer. Pois bem… Passados alguns dias, a mesma amiga de Niterói me informa que eu tinha sido O escolhido, dado que, no prazo estipulado, ninguém mais havia apresentado candidatura para o desempenho da tarefa. Segui as instruções: esperei o envio do volume de poemas, que seria feito pela prestigiada Fundação. Nada… mais alguns dias e o próprio poeta enviou-me o exemplar. Carlos Nejar é seu nome. O livro leva por título Odysseus, o velho. Foi uma surpresa mais que agradável. Um passeio delicioso pelos versos deste escritor gaúcho que até então não conhecia. O poema, longo e intrincado, vai “narrando” o retorno de Ulisses. Na maturidade, o herói revê suas posições e experiências, destila certa amargura, mas aconselha na mesma medida. Um texto rico, austero, soberbo. Fui “trocando figurinha” com ele, enquanto escrevia. Julguei terminado o trabalho e enviei para a pessoa indicada em Portugal. Mais alguns dias e ela devolveu-me o texto dizendo que eu deveria fazer uma “profunda e séria” revisão, dado que meu “estilo” era por demais “pessoal” e que as ideias circulavam o mesmo eixo de elogio e expressão opinativa de cunho subjetivo, o que deixava muito longe o horizonte de expectativas de uma “recensão”. Reescrevi, com preguiça, devo dizer. Submeti o texto a uma amiga para tornar o dito cujo mais o objetivo possível. Reenviei. Mais algum tempo e me veio uma carta dizendo que o texto não iria ser publicado porque não atendia ao que a revista esperava de um texto de tal natureza. Em outras palavras: não queriam o meu texto. Em mais outras palavras: diziam que meu texto não era acadêmico o suficiente… Já ouvi isso alhures…

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Foi assim que conheci Carlos Nejar. Mantenho, ainda que de maneira intermitente, certo contato com ele. Li dele um livro de ficção Carta aos loucos, que me deixou extasiado. No entanto, ainda não consegui vencer a preguiça e escrever a resenha desta narrativa deslumbrante, para além de poética, marca de todos os escritos do amigo gaúcho. Sim, ele é gaúcho. É pai de outro poeta muito conhecido nos dias que correm, Fabrício Carpinejar. Descobri que o pai, Carlos, escreveu um volume alentado História da Literatura Brasileira. Outra descoberta extasiante. Nejar escreve a “sua” História da Literatura Brasileira. Prosa leve, deliciosa, poética, delicada e incisiva. Nada parecida com o tom enfadonho que a tradição desse tipo de “História” costuma apresentar. Ele escreve a partir da própria experiência com e a partir da Literatura Brasileira. Ele leu os autores que comenta, por isso mesmo, sua opinião é tão incisiva, sem o ranço das “verdades secretas” que os outros livros de igual natureza costumam apresentar. Vai ver é por isso mesmo que sempre que cito o livro, sinto resistência, percebo narizes torcidos e esgares de desaprovação. Eu gosto do livro. É o que basta… pelo menos, para mim.

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3 comentários sobre “Instantes

  1. Primeiramente, gostei muito do texto e concordo plenamente com o final. Exitei em comentar antes, mas gosto muito da sua maneira de construir a narrativa escolhendo sabiamente cada palavra, é suave e instigante.
    Tenho uma pergunta, como você se sentiu quando percebeu que não queriam o seu texto?

    1. Olá! Obviamente, não gostei nem um pouco. Primeiro porque, por princípio, tenho ojeriza desse negócio de “artigo científico”, “escrita acadêmica” e “critérios/normas para publicação”, apesar de ter de me submeter a isso. O que incomodou mais foi a observação sobre a subjetividade do texto, como se isso fosse um defeito. Não vejo como emitir parecer de qualquer natureza se a subjetividade e o “gosto” não forem os primeiros critérios. Mas sou um chato! Houve uma compensação, o autor do livro, Carlos Nejar, escreveu carta para a afamada revista portuguesa dizendo-se indignado com a atitude da editora, defendendo meu trabalho e negando-se a colaborar (como já o tinha feito antes) com tal revista. E publicou a carta que escreveu! Fiquei honrado! Hoje dei-me conta de que acabei me esquecendo de publicar na postagem de ontem o texto da resenha recusada. Farei isso hoje, no horário de costume! Abraço e, mais uma vez, obrigado pela visita!

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