Cartas

António e Alberto se conheceram em Coimbra, no finalzinho do século 19. Eram ambos nascidos no Porto, mas foram se conhecer na cidade sede da universidade mais antiga de Portugal. Mero acaso (?). Estudaram Direito. Alberto acabou por se formar em Coimbra António, foi duas vezes reprovado e, desgostoso, mudou-se para Paris onde veio a concluir seu curso. Neste período de separação, com direito a um encontro ou dois na cidade luz, António e Alberto trocaram cartas e bilhetes postais. Estes últimos constituíram o que chamaram de “Diário”. Para além de impressões e poemas e notícias, partilharam afetos postais com intensidade O mesmo se pode dizer das cartas que escreveram um o outro. Bem… Cabe uma explicação. Alberto escreveu, sim, para António. No entanto de suas cartas, restam quatro. Três que tratam de assuntos diversos e não foram endereçadas exatamente a António. E uma, a “joia do Nilo” – no contexto da correspondência, bem entendido – que faz par a outra, escrita por António e a que chamei de as cartas do rompimento. Não fui original, tenho certeza, já não alimento esse tipo de vaidade… Voltando à vaca fria…  A carta que António escreve a Alberto cobrando deste a devolução de seus papeis tem tom radicalmente oposto às demais endereçadas a seu “amigo mais querido”, o “Betinho”. Já a de Alberto para António, parece manter o senso de afeto e amizade profunda que uniu esses dois homens numa relação que até hoje causa estranheza… inexplicavelmente. Alberto, antes e morrer, pediu que seus papeis fossem queimados. Até prova em contrário – passei seis meses tentando encontrar uma pista que fosse para satisfação de minha ilusão de encontrar algumas dessas cartas perdidas num recanto qualquer da península – foram mesmo queimadas, mas restou a “do rompimento”. Um único cartão postal também escapou do “incêndio” e foi analisado por Mário Cláudio num ensaio publicado pela Revista Colóquio Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma joia rara! Pois bem. Hoje trago aqui a carta de António. Amanhã, se minha preguiça deixar, trago a de Alberto. Depois de amanhã, seguindo a mesma toada, talvez teça mais alguns comentários.

autorid21205

Terça-feira                                                                 26— Rua de Carreiros

25-8-1893                                                                   S. João da Foz

Meu caro Sr. Alberto de Oliveira:

Quando eu, há dias, lhe enviei polidamente uma se­rena carta, convidando-o a restituir-me o meu «Diário», cri fazê-lo ao grande amigo do meu passado, não ao delegado da 2.a vara. Este senhor, porém, foi quem me respondeu e de código na mão: «a correspondência, uma vez expedida, pertence ao destinatário.» Ora eu já sabia deste pormenor legislativo. Há, contudo, nos usos sociais certas fórmulas de cortesia que em algumas circuns­tâncias se aplicam, tal a correspondência que se troca entre homem e menina. Ora o Sr. Alberto de Oliveira foi a menina de nossa correspondência. Confiado na dignidade de cada qual, enceta-se uma palestra postal que, às vezes, pelos mais inexplicados [?] da sorte acaba, um dia, e, nesse dia, se troca. Que seria ao con­trário da reputação dos amorosos correspondentes? O nosso «Diário» está nesses casos. Seria a minha morte moral o seu conhecimento, na publicidade: posso eu ir-me breve, podemos ambos irmo-nos, moços, e assim ficaria nossa intimidade à mercê do primeiro curioso que, ao ver essa diária correspondência europeia dum homem conhecido, a tornaria pública, a princípio no círculo das suas relações e, mais tarde, ele ou outro, iria dá-la a Guttenberg. Não quero tal. Quero antes a incineração. Quando, há alguns meses, em Lisboa, moti­vos seus me levaram a cortar com o senhor as minhas melhores relações, não eram aqueles os meus desígnios: era ainda muito seu amigo e sabia-o meu a valer, para lhe dar um golpe desses que a mim próprio me feriria. Pensava que havia morte e temia os seus remorsos. — «Não era urgente pedi-lo, um dia será.» Quando se extinguem minhas relações com amigos queridos, respeito-os como aos mortos. Nem uma palavra de ultraje, quanto mais uma acção! Vi, porém, que da sua parte, contra todas as suas tradicionais regras de fidelidade e leal­dade e bondade, se portou para comigo de maneira tal, por palavras que surpreendi e factos que vi com estes olhos tristes (que ainda o ficaram mais) que para a qualificar teria de quebrar a linha perdendo a minha serenidade. Começou naturalmente a extinguir-se a mi­nha estima pelo senhor e a amarelecer essa flor «Não sei quê» que em si brotara e me dominava — a nobreza da sua alma: aí tem a acusação que eu lhe faço, dele­gado de outra vara, — e diga-me agora: não é humano, justo (justo delegado) que eu reclame um objecto que é uma honra possuir, não pelo espírito que o ditou, mas pela alma rude de carpinteiro (mas amiga) por essas três mil páginas esborrachadas a tinta? Os grandes cadáveres pertencem ao Pantheon, não às gavetas da sua secretária. Há dias enviei a sua casa a minha «bonne» para receber o meu «Diário» e entregar-lhe um pacote das suas cartas que tenho em Portugal. Esse pacote foi-me devolvido e esse ultraje fez-mo o senhor a mim, fazendo-se representar pela sua criada de meio. Assim fez a [?], Ontem procurava encontrá-lo no Porto para lhe pedir uma explicação deste facto. Não o encon­trei. Devolvo-lhe, pois, dentro desta a eloquente carta que me escreveu, como um desforço à sua afronta. Quanto ao cumprimento da minha vontade, adio este incidente até ao meu regresso de Paris: no campo em que me coloco, necessito já agora da sua correspon­dência. Eu, abaixo assinado, quero o meu «Diário». E isto basta.

Antônio Nobre

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