Maré

Outro dia, vendo mais um capítulo da chatíssima novela “Velho Chico”, encantei-me com a leitura de uns versos que, logo vi, seriam da pena de Fernando Pessoa ortônimo ou de um de seus heterônimos. À parte o fato desse “mistério” alimentar o pensamento de muita gente – em lugar de simplesmente fruir a singela beleza dos versos do poeta -, causou-me espécie que o volume que Camila Pitanga segurava enquanto lia era apenas uma edição compilada dos versos do português publicada pela afamada (e saudosa) Livraria Editora Agir – agora a chatice é minha… uma vez mais. No tal capítulo, os versos serviam como luva à situação vivida pela personagem representada por Camila. Nada mais óbvio. Fui atrás do livro de Fernando Pessoa e encontrei: a quinta parte de O guardador de rebanhos, do Alberto Caeiro. Dos quatro mais afamados heterônimos de Fernando Pessoa, este é um dos três de que mais gosto. Os outros dois são o Álvaro de Campos – um tantinho menos – e o Bernardo Soares – que sempre me perturba. Ainda não aprendi a gostar do Ricard Reis e seu… digamos… cinismo… Mas quem sabe um dia…

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O Guardador de Rebanhos

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»…
«Sentido íntimo do Universo»…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo dos coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me: Aqui estou!

(…)

PS: ler é como a maré… por isso a referência! E na maré da leitura na novela…

6 respostas para “Maré”.

  1. Nunca me cansarei de falar sobre Fernando Pessoa, talvez o favorito dos favoritos. Amo-o porque a poesia sai dele como se fosse um suspiro, um pouco de ar, ou ele mesmo. Beijinho.

  2. Pois é… E sem ar ninguém vive!

  3. É incrível como Pessoa continua atual! Por vezes, até assusta.
    Quanto à novela, ainda aqui não chegou. Só se estiver na Globo Premium.
    Abraço

  4. Pois é… A cada visada, um respiro de renovação. Um bálsamo. Se a novela chegar, não se importe, não vale apena… Já fui noveleiro, mas depois de Gilberto Braga (até O dono do mundo) e Silvio de Abreu, com algumas exceções… já deu… Boa semana! Abraço

  5. Fernando Pessoa é e será sempre “imortal”.
    .

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