Sem assunto

E não chove faz tempo. Enquanto isso a secura provoca mal estar em muita gente. O frio desapareceu em pleno Inverno (ainda há inverno?). E a la nave va

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Já faz tempo também que sempre falo de minha proverbial preguiça. Proverbial não porque eu seja um mito, uma celebridade, alguém que deva ser lembrado para a eternidade… Na verdade, quem o é… de fato??? A proverbialidade é mais por conta da blague com o texto do Mario de Andrade que, se não me falha a memória, diz mais ou menos o seguinte: a saúde e a saúva os males do Brasil são. Alguém poderia perguntar: o que é que tem a ver o cu com as calças? (Não vou pedir desculpas pelo calão… penso que há ocasiões – como esta – em que não se pode ceder ao chamado “bom gosto”. Afinal, alguém sabe mesmo definir o que seja isso?). A relação que eu estabeleço é íntima em demasia para que eu tenha sequer a capacidade de tentar explicar. O que posso dizer é que sinto certa ligação semântica (ui que chique!) entre o suposto (a suposição é por conta da minha incerteza) texto do Mário de Andrade e a preguiça do Macunaíma uma sua criação. Ou seria melhor eu dizer uma criação sua? Vai saber. Pois bem. Dada a minha proverbial preguiça (aqui, os moderninhos e antenados de plantão colocariam uma sequência de letras “K”… ou um emoticon), fico com um texto de Carlos Drummond (não, não é o poema que foi declamado – elegantemente – em dueto por Fernanda Montenegro e Judy Densh, na famigerada abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro). Aí vai ele:

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Procurar o quê

Carlos Drummond de Andrade

O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa. Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando. Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro. Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeira, nas gretas do muro, nos espaços vazios. Até agora não encontrei nada. Ou, encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada. Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda. Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível. Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Nesse dia vou rir de todos. Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.

In: Boitempo I, p.142-143

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2 comentários sobre “Sem assunto

  1. Penso eu que o passar dos anos não nos tira essa vontade de procura por sei-lá-o-quê não-sei-onde. A preguiça é porque a gente já sabe, de antemão, que não irá encontrar, mas segue procurando… Não conhecia o texto de Drummond, mas do “herói” brasileiro Macunaíma gosto muito. Beijinho.

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