Entre os dois, meu coração balança

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Dois verbos que, a princípio parecem antagônicos e excludentes: lembrar e esquecer. Mas só parecem. Na verdade, um não existe sem o outro, quando usados para expressar o que quer que seja, em uma oração, para expressar qualquer coisa. De fato, um não existe sem o outro. É só parar e pensar um pouquinho. O raciocínio pode até se assemelhar ao que se faz quando se tenta responder a uma pergunta, da mesa forma, aparentemente inócua e inútil: quem veio primeiro, ovo ou a galinha? Pois bem Quem ainda não experimentou a sensação de já ter estado em determinado lugar, inesperadamente e ter dito aquelas palavras, naquele horário, para aquela pessoa. Estranho. Estranho mesmo, mais ainda que o sentido desta palavra na lição de Freud. Nesta situação, a gente não sabe muito perceber se é memória ou outra coisa. Como a lembrança não é vívida, a experiência parece um tanto mágica, quase misteriosa. Mas simultaneamente, tem-se a certeza da repetição. Nesta situação, o sujeito pode parar e refletir sobre a experiência que viveu e há duas, no mínimo, possibilidades: ter-se equivocado e reportar a experiência ao acaso, à coincidência; constatar que se recorda de algo parecido, esquecido no tempo e que volta, por um motivo desconhecido, pela menos de sua consciência.

Há muita coisa sendo escrita na face da terra sobre os mais diversos tópicos. A famigerada “literatura de auto ajuda” consegue desfazer, de maneira questionável, alguns enigmas. A horizontalidade desse tipo de abordagem devolve a dúvida. Ao fim e ao cabo, não esclarece, não explica. O fato permanece intocável, creio, por força da superficialidade de argumentos, da generalização exagerada, da despreocupação com o rigor do pensamento. Tudo isso põe por terra qualquer tentativa minimante séria, o que faz com que referida “literatura” caia, cada vez mais aprofundadamente, no esquecimento. Sintomaticamente, isso faz lembrar da lição freudiana do chiste, ou mesmo, de seu voluptuoso conceito de inconsciente. Ambas as noções poderiam funcionar como esteio de um raciocínio que se desejasse um tanto ais espesso, mais complexo, por isso mesmo, mais esclarecedor. Entre estas duas possibilidades, vislumbro um caminho de esclarecimento – aquele que faz “lembrar” da quase “esquecida” mitologia, e duas de suas personagens: Mnemosyne e Léthe – que poderia ser apontado pelo seguinte:

“Entre as duas reinava uma resistência, uma discordância, uma discrepância, uma hiância ou um conflito primordial que, justamente por isso, apontava para um vínculo originário ou para a impossibilidade mesma de se pensar uma sem a outra, ou de se conceber uma sem, simultaneamente, deduzir que ambas se imbricavam, incluíam-se, completavam-se e, mutuamente, evocavam-se.” (p. 9)

 Mnemosyne e Léthe são duas entidades mitológicas. A primeira era uma titânide, filha de Urano e Gaia. É a deusa que personificava a memória. O segundo, um dos rios do Hades. Aqueles que bebessem de sua água ou, até mesmo, tocassem na sua água experimentariam o completo esquecimento. Como a mitologia faz parte dos fundamentos da cultura na qual nascemos e pela qual fomos educados, parece-me mais que pertinente a referência. O trecho citado é retirado de um livro mais que interessante: A memória, o esquecimento e o desejo (São Paulo, Ideias&Letras, 2016). Seu autor, Rogério Miranda de Almeida (dileto amigo a quem devo o início de meu interesse pela Literatura e os primeiros fundamentos daquilo que hoje chamo de sinceridade e de honestidade intelectuais).

Partindo de ideias já muito estudadas, o autor passeia pela cultura ocidental tendo como guia o conceito de “desejo”. Motor do mundo, esse conceito, de feição ambivalente – no sentido positivo do termo – dado que oriundo do pensamento de Freud e Lacan, o desejo é o combustível que queima as arestas que possivelmente poderiam subsistir no embate representado alegoricamente entre as duas entidades mitológicas. A Psicanálise é, em minha opinião, sua primeira ferramenta de trabalho. Ao lado de Freud, Nietzsche e Santo Agostinho são seus outros bastiões. Estas duas forças da natureza humana, o esquecer e o lembrar, são coo cavaleiros medievais em torneios disputando a honra da princesa, sombreada pelas artimanhas do desejo – aproveitando a saga de Artur e os cavaleiros da távola redonda. Minha referência aqui se deve à arguta aproximação que o autor faz dos conceitos com os quais opera. A acuidade na/da escolha do vocabulário, a refinada ironia no desdizer de ideias preconcebidas e conceituações equivocadas, porque superficiais, completam o menu discursivo explicitado ao longo das 243 páginas do livro, que se lê com prazer e deleite.

Partindo da pseudo dicotomia “lembrar/esquecer”, Rogério discorre sobre os mecanismos da memória, evocando a dinâmica dos sonhos e a potencia do recalcamento, ideias psicanalíticas fundamentais para esboçar o perímetro do campo que é abrangido pela aventura mental que se desenrola entre lembrar e esquecer. Estas atividades mentais guardam um ponto comum: a “potência do esquecer”, tópico central a orientar as elucubrações feitas a partir das ideias do pensador alemão, sobretudo quando destaca que “é o próprio esquecimento, e não a recordação de uma promessa, que faz com que se desenvolvam os conceitos básicos da civilização: a justiça, a liberdade e o direito.” Interessante perspectiva de leitura, a proposta de Rogério sai do lugar comum das ideias de Nietzsche as alarga, circunscrevendo-as ao movimento subliminar do desejo. De novo, o adjetivo aqui atribuído a desejo, requer atenção, pois não o dinamiza, mas o “potencializa”.

A articulação entre História e Filosofia se apresenta neste passo do ensaio que o autor apresenta para o prazer de quem à sua leitura se dedica. “Biscoito fino” para apropriar-me da ideia de Oswald de Andrade, o texto demonstra o cuidado com os termos, sua significação e etimologia, os reflexos disso na construção do discurso e o cirúrgico cuidado na leitura deste, para a sustentação dos argumentos que apresenta, em defesa de suas hipóteses. No horizonte de expectativas da articulação do pensamento nietzscheano, vislumbra-se a discussão de situações com a da sociedade e suas ideologias. Num segundo plano, o pensamento de Marx diz presente, sobretudo na constatação de levar em consideração a ideia de que tudo o que o homem “produz” é efeito da “cultura”, mas não aquela que se vende com propósitos alheios à sua genealogia, ou seja,

“… sob a pena do discípulo de Dioniso, as produções culturais – no seu movimento niilista de destruição e reconstrução – apresentam-se como um contínuo desfilar de máscaras, ídolos, ideais, juízos e tábuas de valores. Esta é uma das razões pelas quais muito estudiosos têm relacionado Nietzsche com Marx e Freud quanto a saber até que ponto as produções culturais estariam intrinsecamente ligadas a interesses, seja de indivíduos, grupos ou classes.” (p. 116)

Passando de mera consequência, o dueto lembrar/esquecer demonstra certa autonomia em suas articulações, dada sua natureza dinâmica – porque oriunda do desejo – e a explicitação prática de seus efeitos – por conta de sua potência. Assim, faltaria ainda um aspecto para que o tripé não ficasse manco: o amor. Neste sentido, o recurso ao pensamento de Santo Agostinho se apresenta em toda a sua pujança. Auferindo os resultados das artimanhas desejo, na explicitação de uma potência criativa, os movimentos de lembrar e esquecer demandam também os afetos do espírito. A eles pode-se dar o nome de amor.

Raciocínio refinado, acuidade na escolha das palavras, sofisticada ironia. Três particularidades do texto de Rogério Miranda de Almeida. Sem se furtar ao rigoroso apanhado filosófico dos conceitos, o autor desliza leve e macio pelos meandros discursivos de seu raciocínio claro. Não é leitura para iniciantes. Da mesma forma, não se trata de tratado que esgota o assunto. Na aparente dicotomia que estes dois traços inauguram, ecoa um símile daquela que dá início a esta apresentação. Da mesma forma que nos outros volumes que escreveu e publicou, Rogério Miranda de Almeida seduz e conquista o leitor pela inteligência. Isso tem se tornado raridade. Fica o convite!!!

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