Passado

Numa de mexer em “papéis” velhos, encontrei esta comunicação apresentada em Viçosa em 2007. Nasceu de um artigo publicado em Santa Maria-RS, logo depois de lá ter chegado. Tenho a impressão de que publiquei uma terceira versão do mesmo texto, mas já me lembro onde…

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O evangelho segundo Jesus Cristo: notas acerca de um (certo) parricídio

José Luiz Foureaux de Souza Júnior, Ph.D. (UFOP)

Nos termos do que Freud chamou de romance familiar, a identidade é considerada com toda a ambivalência não resolvida de uma crise edípica em que não existe, estranhamente, nenhum pai simbólico que venha dar resgate.

Harold Bloom, Abaixo as verdades sagradas

Esta comunicação encerra um conjunto de apontamentos necessários para a formalização de uma proposta de trabalho que pretende se estender por um tempo incalculável, como sempre acontece com a pesquisa acadêmica. Nesse sentido, não se trata de apresentar resultados, por impossível, mas de organizar as pistas até agora encontradas para a realização de um percurso de leitura. Essa é a palavra-chave aqui: leitura. O evangelho segundo Jesus Cristo, romance de José Saramago, é aqui o objeto dessa leitura, numa perspectiva que se quer, necessariamente, circunstancial e penúltima, dado que um exercício hermenêutico que privilegia o texto e seus desdobramentos, em lugar de teorizações circulares e fronteiriças, desprezando o que de melhor um texto de romance pode oferecer. Trata-se de uma tentativa de pensar uma categoria psicanalítica, a do parricídio, que remete, discursivamente à do mito de Édipo, na sua conotação clínica – a que aponta para a necessidade de constituição de um lugar para o sujeito na conjuntura cultural lusitana de todos os tempos.

Jesus Cristo, segundo a tradição, nasceu há mais de dois mil anos. Aqui também ele não é o autor do evangelho: a sua boa nova, nesse caso, é outra e faz pensar no escritor que anuncia a sua própria boa nova. O “Evangelho” de Saramago tem, na verdade, muito pouco de boa nova: sua história é velha, antiquíssima. Partindo do drama do filho de Deus, considerando a palavra drama em seu sentido etimológico, Saramago sai da ficção em direção à tentativa de revestir a ela mesma de vida própria. Seus movimentos são desejados em tormentas de dias passados, tanto da tradição bíblica, quanto da História de Portugal. José Saramago abre sua narrativa com a descrição pontual de uma obra de arte, a gravura de Albert Dürer, em que os elementos essenciais para articular a leitura, que aqui desejo apresentar, são destacados:

O sol mostra-se num dos cantos superiores de rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos que os mantêm, cravados fundo. Pela expressão d acara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom ladrão. O cabelo, todo aos caracóis, é outro indício que não engana, sabendo-se que anjos e arcanjos assim o usam, e o criminoso arrependido, pelas mostras, já está no caminho de ascender ao mundo das celestiais criaturas. (…) Tal como José de Arimateia, também esconde com o corpo o pé desta outra árvore que, lá em cima, no lugar dos ninhos, levanta ao ar um segundo homem nu, atado e pregado como o primeiro, mas este é de cabelos lisos, deixa pender a cabeça para olhar, se ainda pode, o chão, e a sua cara, magra e esquálida, dá pena, ao contrário do ladrão do outro lado, que mesmo no transe final, de sofrimento agônico, ainda tem valor para mostrar-nos um rosto que facilmente imaginamos rubicundo, corria-lhe bem a vida quando roubava, não obstante a falta que fazem as cores aqui. Magro, de cabelos lisos, de cabeça caída para terra que o há-de comer, duas vezes condenado, à morte a ao inferno, este mísero despojo só pode ser o Mau ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou a consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza. (…) Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo destino fatal e outros muitos o virão a ter, mas este homem, nu, cravados de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores. É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena, este que faz chorar o sol e a lua, este que ainda agora louvou o Bom Ladrão e desprezou o Mau, por não compreender que não há nenhuma diferença entre um e outro, ou, se diferença há, não é essa, pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro. Tem por cima da cabeça, resplandecente de mil raios, mais do que, juntos, o sol e a lua, um cartaz escrito em romanas letras que o proclamam Rei dos Judeus e, cingindo-a, uma dolorosa coroa de espinhos, como a levam, e não sabem, mesmo quando não sangram para fora do corpo, aqueles homens a quem não se permite que sejam reis em suas próprias pessoas. Não goza Jesus de um descanso para os pés, com o têm os ladrões, todo o peso do seu corpo estaria suspenso das mãos pregadas no madeiro se não fosse restar-lhe ainda alguma vida, a bastante para manter erecto sobre os joelhos retesados, mas que cedo se lhe acabará, a vida, continuando o sangue a saltar-lhe da ferida do peito, como já foi dito. (SARAMAGO, 1991, p.13-20)

A descrição da gravura de Dürer, feita pelo narrador de Saramago, coloca a figura de Jesus Cristo como conclusão do passo descritivo que explicita a imagem do corpo, como um ícone operador da leitura que aqui se pretende. Os detalhes serão aqui dispensados, não por insuficiente ou inutilidade, mas por uma questão de tempo e espaço. No entanto, essa gravura anuncia a inversão de que trato aqui, na leitura do romance. O Jesus Cristo do escritor português, que dá título ao romance, pode estar recuperando apenas parte de sua trajetória terrena, na ficção de José Saramago, a gravura referida visualiza e sustenta essa hipótese.

Colocado no meio de dois ladrões, sua apresentação constitui uma síntese que explicita a verve irônica impiedosa do autor, no esboço da imagem do “filho do homem”. A ironia se dirige a uma das linhas de força da cultura lusitana, herdeira da visão carola e romantizada de um Cristo – paradigma especular da imperial figura do sujeito português. Em outras palavras, a subversão de uma divindade absoluta e inquestionável, numa humanidade de moral duvidosa e ética cambiante: a que, edipicamente, mata o pai, para tentar encontrar o seu próprio lugar, como soe acontecer.

O romancista conta histórias, colocando a História de cabeça pra baixo. Afinal, enquanto o mundo de um passado distante tem sua realidade própria, independentemente de quem tente visualizá-lo e descrevê-lo, a visão de um escritor é subjetiva, na medida em que seu próprio ponto de observação e as complexas lentes do preconceito, do interesse e da predisposição moldam o que ele discerne e, com isso, o que ele consegue escrever. Falo aqui, ainda que implicitamente, na subjetividade. Esta não reduz a possibilidade de encarar o narrador como representação de uma nacionalidade, de uma identidade cultural, para além de um individualismo tacanho.

Por outro lado, o preconceito ameaça a leitura realizada por Saramago que coloca a nu uma certa dose de hipocrisia que, em momento algum, pode ser utilizada como sustentáculo de uma excomunhão, uma vez que a narrativa toca fundo em alguns dogmas sagrados, tanto da Religião, quanto da História de Portugal. José Saramago coloca, na consciência do leitor, a reflexão sobre o imponderável da realidade artística. Quando provoca essas reviravoltas, misturando História e ficção, faz com que a realidade passe a não suportar o seu próprio reflexo, rejeitando-o. Assim, apenas uma realidade outra pode ser alocada no lugar daquela que se quis expressar. Sendo diferentes entre si, História e ficção se mostram explicando-se, se enumeram. A realidade como invenção que foi, a ficção como realidade que deseja ser.

Passar de uma área à outra é fazer a travessia de um rio. Essa passagem, no romance de fundo, aqui, se dá pelo viés da Religião. Este  destaca a figura do Cristo que coloca um ponto  de interrogação no discurso legitimado pela tradição cristã. A ação que, numa narrativa – seja ela literária ou histórica – dramatiza a travessia e é a construção de uma ponte, se explicita no texto que é lido. Assim é porque a História fala daquilo que não poderá ser visto duas vezes seguidas da mesma forma, uma vez que ela narra os fatos “reais” que têm o homem como ator: A História é uma espécie de “romance real”. A Literatura, por sua vez, pode recriar o mesmo fato, sem que necessariamente se transforme em outro, num segundo ou num terceiro. Pode ser sempre o mesmo: vai depender dos “olhos de ler”.

Em O evangelho de Jesus Cristo, o protagonista duvida da própria divindade. As aparições de Deus estão sempre envoltas em fumaça e em obscuridades, o que não aparece nos textos da tradição bíblica. Bifurca-se o caminho da interpretação da realidade: por um lado, o percurso do poder instituído, na História sócio-política de Portugal, apresenta-se diante da própria essência da sombra – se se toma aqui o mito do sebastianismo, como “o encoberto”, aquele que vai voltar para restaurar a grandeza de um (quinto) império. Por outro lado, Jesus Cristo fica sempre reclamando de seu pai a contraparte de um projeto que o envolve, mas que não o considera para negociações necessárias à conclusão do mesmo. Penso aqui nas ideias que Eduardo Lourenço lança sobre a História de Portugal, enfocando literariamente os processos de libertação política, de construção de uma autonomia franca e ampla. Se a História é o horizonte em que melhor se percebe o que é ou não é a realidade, a autópsia psico-religiosa da identidade cultural portuguesa, realizada pelo romance de Saramago, ela revela o irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses, com a ajuda da Igreja, fazem de si mesmos. Essa História é marcada por um caráter mítico de um destino grandioso que faz com que o sujeito português se confunda, sentindo-se perdido, na desesperança de reencontrar um fim, um sentido que começou a ser construído sem ele.

A mistura fascinante de quixotice e humildade, de imprevidência e confiança, de inconsciência e presságio, que constitui o fundo do caráter português, está ligada a um fundo trans-histórico que se faz em si mesmo, que se supera e se segue, antecedendo-se a si mesmo. O embate constante contra os mouros recupera historiográfica e culturalmente o que O evangelho segundo Jesus Cristo suscita: a discussão da viabilidade ou não de um projeto mítico. O mito de uma raça escolhida se perde num “labirinto de saudade”, onde o fio de Ariadne se rompe para dar lugar a uma teia muito bem urdida pela Literatura Portuguesa.

O parricídio se oculta na repetição do mistério cristão: a encarnação de Cristo. Estou pensando nos remorsos do carpinteiro José e nos sonhos de Jesus, que salpicam a narrativa de Saramago. Em ambos, a morte do pai aparece simbolicamente representada como a exigir a solução de um enigma. O sucesso da empreitada é de uma impossibilidade insofismável. Freud afirma que o homem – que o mesmo Freud qualifica de “moral” – é aquele capaz de reagir à tentação, tão logo a sente sem seu coração, sem submeter-se a ela. Trata-se, então, de um homem que peca e depois, sem remorso, exige padrões elevados morais, expondo-se à censura de tornar as coisas fáceis demais para si mesmo. É o sujeito que repete essas ações, sempre alternando entre o pecado e a culpa. Jesus Cristo, pelo menos o que está presente no texto de Saramago, pode ser lido como esse “homem moral”, na economia ficcional do texto. Seu pecado pode ter sido o sonho de realmente ser filho de Deus. A tentação era grande, tanto que ele tenta, desesperadamente, reagir, mas vai-se conformando com o destino que lhe é imposto. O nome de Deus, nome-do-pai, é evocado diversas vezes e o remorso aloja-se como desejo recalcado na figura ambígua e manca de José, o carpinteiro, o marido da mãe de Jesus. Marido sim, porque seu nome não fica inscrito na personalidade de Jesus. A figura do pai, então, tem que aparecer morta, para que o ciclo se feche e a alternância, como referido acima, se desfaça de uma vez por todas. Talvez a obediência seja o signo dessa conclusão: obediência que é ironizada nas últimas palavras do Jesus de Saramago, fazendo blague com as célebres “palavras” relatadas nos Evangelhos, como ao final do romance:

Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua vez ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois foi morrendo no meio de um sonho (…). (SARAMAGO, 1991, p. 444)

No universo ficcional do evangelho escrito por Saramago, o parricídio é mais que necessário, ele é, mesmo, essencial. Sem ele, a moralidade do homem Jesus esfacelar-se-ia. Jesus quer ser como os homens de sua época, mas esbarra no desejo interdito da perfeição divina. Divindade inexplicada e inexplicável que se inscreve no remorso de José. Ele sabia que Herodes ordenara a morte dos primogênitos com menos de um ano. Sabia e  não avisou a ninguém. Sabia e fugiu com a família. Não cedeu à tentação. Não é um homem moral. Do contrário, as coisas teriam sido fáceis demais. A salvação dos primogênitos teria confirmado a divindade de seu próprio filho? Ele não suportou a dúvida. Preferiu acreditar que sim para não aceitar a facilidade da outra opção. Excludentes, esses dois encaminhamentos possíveis não dariam conta de determinar a verdade dos fatos: aquela verdade que José procurou até morrer. Atormentado pelo remorso, ele matou a imagem divina da paternidade que gerara Cristo. Repulsa e desejo: elos de uma corrente que ensandece José. Ele não simboliza a sua refeição totêmica e emblematiza a denegação da imagem do homem moral de que Freud falava. Ademais, o anjo da anunciação confirma, por palavras tortas, a participação de José na geração de Jesus no ventre puro de Maria. No romance, essa pureza é questionável, como bem ilustra a seguinte passagem:

Maria veio abrir, o pedinte ali estava, de pé, mas inesperadamente grande, muito mais alto do que antes lhe tinha parecido, afinal é certo o que se diz, que há uma enorme diferença entre comer e não ter comido, porquanto a este homem era como se lhe resplandecesse a cara e faiscassem os olhos, ao mesmo que as roupas que vestia, velhas e esfarrapadas, se agitavam sacudidas por um vento que não se sabia donde vinha, e com esse contínuo movimento se nos confundia a vista, a ponto de, em um instante, parecerem os farrapos finas e sumptuosas telas, o que só estando presente se acredita. Estendeu Maria as mãos para receber a tigela de barro, a qual, em consequência duma ilusão de óptica em verdade assombrosa, porventura gerada pelas cambiantes luzes do céu, era como se a tivessem transformado em vaso de mais puro ouro, e, no mesmo instante em que a tigela passava dumas mãos para as outras, disse o mendigo com poderosíssima voz, que até nisto o pobre de Cristo tinha mudado, Que o Senhor te abençoe, mulher, e te dê todos os filhos que a teu marido aprouver, mas não permita o mesmo Senhor que os vejas como a mim me podes ver agora, que não tenho, ó vida mil vezes dolorosa, onde descansar a cabeça, Maria segurava a escudela no côncavo das duas mãos, taça sobre taça, como quem esperava que o mendigo lhe depositasse algo dentro, e ele sem explicação assim fez, que se baixou até ao chão e tomou um punhado de terra, e depois erguendo a mão deixou-a escorregar lentamente por entre os dedos, enquanto dizia em surda e ressoante voz, O barro ap barro, o pó ao pó, a terra à terra, nada começa que não tenha que acabar, tudo o que começa nasce do que acabou. Turbou-se Maria e perguntou, Isso que quer dizer, e o mendigo respondeu apenas, Mulher, tens um filho na barriga, e esse é o único destino dos homens, começar e acabar, acabar e começar, Como soubeste que estou grávida, Ainda a barriga não cresceu e já os filhos brilham nos olhos das mães, Se assim é, deveria meu marido ter visto nos meus olhos o filho que em mim gerou, Acaso não olha ele para ti quando o olhas tu, E tu quem és, para não teres precisado de ouvi-lo da minha boca, Sou um anjo, mas não o digas a ninguém. (SARAMAGO, 1991, p. 32-33)

Pode-se pensar aqui na efetiva relação histórica que a identidade cultural portuguesa mantém consigo própria: relação autotélica que reflete a congênita consciência de uma fraqueza insuperável. Instala-se, recalcadamente, a convicção mítica de uma proteção divina – que, por mais de uma vez, é explicada no “texto fundador” de Camões – revelada na fabula ficcional: uma nação pequena que desde a origem se recusou a assumir a sua própria pequenez e não conseguiu convencer-se de que se transformara numa grande nação. Historiograficamente, essa hipótese se sustenta no bom senso de não se perder na idealidade de um viver descontínuo, pouco resistente que se revela no sentimento de independência nacional. Essa “consciência” revela um destino anterior, previamente fixado. O viver nacional que sempre foi uma experiência de sobressalto e inquietação, paradoxalmente confiante no mito do destino grandioso, orienta-se para um futuro utópico pela mediação obsessiva do passado. Descontentes com o presente, os portugueses sonham simultaneamente com o passado e com o futuro: desejo insaciável que se revela alegoricamente na dúvida da paternidade de José.

A aparição do anjo, na figura de um pedinte que come a comida que Maria serve e que se confunde com o demônio, não dá explicações suficientes para apaziguar o espírito do marceneiro atormentado. Ciúme? O anjo diz que José participou da geração de Jesus. E daí? A magia da escrita de Saramago preenche de ironia as lacunas que os textos sagrados, em todas as suas traduções, insistem em manter. Numa tessitura que entrecruza discursos, o narrador vai revelando a urdidura de mitos e verdades, ficções que o texto do romance engendra para dar prosseguimento aos questionamentos que a própria História de Portugal não dá conta de responder, como demonstrado na análise que Eduardo Lourenço faz da cultura portuguesa em O labirinto da saudade, de 1978.

José Saramago abre espaço na narrativa para que criador e criatura dialoguem. A ironia é um instrumento de modernização do texto sagrado e, aqui, se instala outra dúvida: essa modernização parece dotar o texto sagrado de um espírito fragmentado, típico da cultura contemporânea. Ela consegue articular uma alegoria que explicita a questão da historicidade do sujeito que se fragmenta na escrita – própria ou alheia. A ficção de José Saramago é, mais uma vez, uma leitura crítica do passado, parecendo encaminhar-se para a formulação de um futuro fantasmático. Articular historiograficamente o passado não significa conhecê-lo “como realmente ele foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência como ela aparece num momento crítico, de tensão.

Como avaliar a experiência de recriar a personagem de um outro autor? É aí que aponta, mais uma vez, a sombra do parricídio: fonte do sentimento de culpa. Haveria outra interpretação plausível para os sonhos do jovem Jesus? O remorso de José é transfigurado nos sonhos do filho. O desejo de identificar-se completamente com o pai, para livrar-se da castração, não se satisfaz, Jesus é crucificado, apesar de protestar. Sendo impossível vencer o desejo do próprio pai, entrega-se à representação da morte por ele sonhada. Identifica-se. Mata, no próprio corpo, a imagem de um pai, impõe-se a sua lei. Isso remete novamente a Freud, quando analisa a situação de um “menino” que deseja estar no lugar de seu pai, pelo simples motivo de admirá-lo, pelo desejo comum de ser como ele; ao mesmo tempo, por desejar deixá-lo fora do campo, no que diz respeito à relação unária, inconscientemente “vivida” no útero materno. A isca edipiana fica também jogada nesse mar de palavras. Instala-se um diálogo inconsciente com fantasmas que remetem a uma realidade que, apesar de desejada, vai sendo, paradoxalmente, recalcada.

Se a cultura portuguesa pode servir de contraponto especular a este tipo de argumentação sobre o romance de Saramago, é uma pergunta plausível e instigante, passível de receber respostas, no mínimo, múltiplas. O que vale dizer é que a leitura deste romance traz ao pensamento a ideia de que a metáfora edipiana pode ser articulada ao desejo de recuperação de um corpo mítico e monumental, o de um império perdido na névoa do tempo. O corpo, de novo, alegorizado na imagem desejada do encoberto, “um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir”. Aproximação lírica que, num outro romance da Literatura Portuguesa, As naus, António Lobo Antunes descreve um percurso similar ao de Saramago, ainda que por sendas um tanto inesperadas, construindo em seu final uma alegoria oniricamente instigante:

Amparados uns aos outros para partilhares em conjunto do aparecimento do rei a cavalo, com cicatrizes de cutiladas nos ombros e no ventre, sentaram-se nos barcos de casco ao léu, no convés de varanda das traineiras, nos flutuadores de cortiça e nos caixotes esquecidos, de que se desprendiam, odores de suicida dado às dunas pela chibata das correntes. Esperamos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e dos guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tanger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termômetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som  de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível.(ANTUNES, 2000, p. 247)

A cena aqui descrita conclui o romance deste outro escritor português, numa espécie de fechamento de ciclo da leitura engendrada pelo romance de Saramago. O eco é patente, dado que a figura de Dom Sebastião, implícita no romance de Saramago aparece desenhada de maneira onírica, quase esquizofrênica, numa mistura multicultural de elementos trazidos pela expansão ultramarina. A ideia de um império fracassado pode ser aproximada à de uma missão cumprida, no sentido em que o narrador de Saramago anuncia o evangelho ironicamente invertido, segundo o “filho do homem”. Sim, a inversão, para não dizer a perversão da figura de Jesus Cristo admite, aqui, esse diapasão discursivo: o da ironia. Assim, metaforização da História, o evangelho anunciado revê um trecho da biografia de um dos sujeitos mais complexos da História de Humanidade, Jesus Cristo, que através da lente psicanalítica do parricídio, na voz narrativa do romance, explica o processo de constituição de uma subjetividade, simultaneamente, desejada e recalcada, dado que a humanidade de Cristo serve, ao mesmo tempo, de chave de leitura e de obstáculo intransponível para uma explicação do mistério. Essa mesma humanidade, traz à cena do romance a ideia de que a morte do pai é fato incontestável na economia do mito, retomada pela dicção terapêutica da Psicanálise, refletindo discursivamente na História. Esse percurso, realizado pela narrativa de José Saramago, reinventa a apresentação da cultura portuguesa, numa harmonia cadenciada de alegoria e fato, desta vez, privilegiando um dos motores da identidade cultural portuguesa, a sua carolice.

Referências bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. As naus. 4 ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000.

BOECHAT, Maria Cecília Bruzzi et alii (orgs.). Romance histórico: recorências e transformações. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2000.

LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade. Lisboa: Dom Quixote, 1978.

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