Do contra

Li o artigo que segue por conta da indicação da Glícia, minha amiga querida. O original, em inglês, pode ser encontrado na ligação que segue, ao final do texto – comme il faut. Trata-se de expressão subjetiva e peculiar acerca dos jogos olímpicos, com as quais tenho que concordar, com prazer. E esta concordância não se respalda em contrato de subserviência ideológica, mas de ponto de vista. Gosto do autor por conta de seu sarcasmo e da inteligência de sua escrita. Ele, de acordo com informação da minha amiga, Glícia, é de direita, um tanto conservador, mas diz o que tem de dizer. Ele chegou naquele estágio da existência – pretensiosa e humildemente considero-me um dos alistados nesse time – em que o sujeito diz o que pensa. Period! A tradução (livre) pode ter erros, é claro. No trecho que fala da Nova Zelândia, senti-me um pouco inseguro, mas penso que não assassinei o sentido desejado pelo autor. Coloquei duas notas de rodapé, no sentido de colaborar na compreensão de cada passo que dei. Tomara que esteja claro e que faça sentido. No original, o texto é delicioso…

th

A história não contada

Os verdadeiros vitoriosos de Olímpia

(Por Theodore Dalrymple, em 20 de Agosto de 2016)

Mais uma vez o único país de qualquer tamanho que, até onde eu posso ver, emerge dos Jogos Olímpicos com algum crédito é a Índia. Respondendo por algo como um sexto da população mundial, não tinha – na última vez que eu verifiquei as estatísticas – não ganhou uma única medalha em qualquer evento. Isto prova que, pelo menos a este respeito, tem as suas prioridades. Tem se recusado firmemente a medir-se pelo número de medalhas que ganha nos Jogos Olímpicos e não faz o que quer que seja para incentivar os cidadãos a dedicar suas vidas a tentar saltar um quarto de centímetro mais longo ou mais alto do que qualquer outro na história humana.

Este é o tipo de objetivo que regimes totalitários definem para os seus cidadãos (ou talvez eles deveriam ser chamados prisioneiros). O Marquês de Custine observou há muito tempo, em seu grande livro Rússia em 1839, que tiranias demandam esforços imensos de suas populações para produzirem ninharias, e não pode haver frivolidade maior que um recorde olímpico, ou até mesmo uma vitória sem um recorde. Para ser o melhor do mundo em alguma coisa não é uma conquista a não ser que aquilo em que você é o melhor seja algo que, em si, valha a pena. Um homem que joga um dardo mais longe do que qualquer um (eu nem sei se ainda existe essa modalidade) não é para ser admirado, mas lastimado, pelo menos, se ele tiver dedicado muitas horas para isso que, presumivelmente, o levou a ser o melhor neste mundo de tolos.

Não vale a pena fazer algo a não ser que seja bem feito, mas o que é bem feito é, de fato, algo ruim – muito pior, na verdade, que fazer mal feito algo que valha apena. Entre outras coisas, isso evidencia uma perda de capacidade, o que seria uma ofensa a Deus, se habilidades foram dadas por Deus.

“Ser o melhor do mundo em alguma coisa não é nenhuma realização, a menos que você seja melhor em si mesmo.” Pensei nisso pela primeira vez há muitos anos quando meu irmão insistiu em me levar ao cinema para ver um daqueles tecnicamente sofisticados, mas em todos os outros aspectos infantis filmes, que muitas vezes são comercialmente muito bem sucedidos.

“O que você acha desse filme?”, perguntou o meu irmão quando saímos do cinema.

“Eu penso que é um lixo.”

“Mas foi muito bem feito.”

“Lixo bem feito ainda é lixo”, eu disse. “O fato de que ele é bem feito o torna pior, não melhor.”

Isso foi um pouco duro, sem dúvida. Homens, mesmo diretores de cinema, têm de viver, e nós, todos nós, por várias razões, muitas vezes fazemos menos do que o melhor que podemos. No entanto, a produção deliberada de escória intelectual, moral e artística – que Orwell chamou prolefeed[1] em 1984 – é uma forma peculiarmente maligna de cinismo.

Mas para retornar aos Jogos Olímpicos. É quase desnecessário dizer que, se eu fosse um brasileiro pobre nas favelas de São Paulo, que teve de lutar por duas horas todos os dias indo ou voltando do trabalho por causa de estradas ruins e transporte público insuficiente, e que testemunhou o gasto de bilhões de dólares em infraestrutura que logo se desmoronou pela inutilidade e falta de responsabilidade, tudo por causa do louco entretenimento mundial em um par de semanas, eu deveria ter ficado furioso e pronto para a revolta. Só alguém com cérebro de lantejoula (como Mr. Blair, ex-primeiro-ministro britânico, que trouxe os jogos para Londres) poderia ter pensado que valeria a pena; não tão ruim, talvez, como os intermináveis desfiles populares em Pyongyang, mas de um gênero similar.

Agora, se os jogos eram genuinamente amadores, se os concorrentes eram professores ou garis que, depois do trabalho, dirigiam-se a algum campo desportivo sombrio para praticar o arremesso de peso ou outra atividade estúpida, eu seria a favor deles, em vez de contra eles. Claro, o padrão de desempenho seria incomparavelmente menor, mas o nível de humanidade dos concorrentes seria correspondentemente maior.

No entanto, este é um sonho completamente utópico. Os jogos têm sido uma espécie de janela para patologia política, talvez mesmo antes dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936. Minha mãe viu Hitler no Estádio Olímpico, e eu me lembro de ter visto a chama olímpica passar mim em Amalfi no caminho para Roma em 1960, altura em que os jogos tinham sido por muito tempo um espetáculo profundamente vicioso. Quem agora se lembra das irmãs Tamara and Irina Press[2], ambas ganharam medalhas de ouro para a União Soviética nos Jogos Olímpicos de Roma, que foram precipitadamente aposentadas como atletas quando os testes sexuais obrigatórios foram introduzidos? Suponho que, nos dias que correm, tais testes não iriam eliminá-las ou serem considerados relevantes; afinal de contas, você é agora o sexo – ou gênero, para usar a terminologia correta – que você pensa que é. de qualquer forma, o sucesso das irmãs Press (ou irmãos, como elas foram depreciativamente chamadas) foi promovido em alguns setores como prova da superioridade do sistema social e político soviético, como se arremesso de peso, lançamento de disco, ou saltarcas barreiras (todas atividades em que as duas Press se destacaram, pelo menos contra a concorrência feminina) fossem o que Alexander Pope chamava de “adequado estudo da humanidade.”

Lamento dizer que o meu próprio país, a Grã-Bretanha, para sua eterna desgraça, tem se saído extremamente bem nos últimos jogos. Per capita tem superado muito os Estados Unidos. Embora, por isso mesmo, Nova Zelândia, para sua grande e eterna vergonha, tem superado mesmo que por tão grande margem.

Saiu recentemente um artigo no The Guardian, o Izvestia dos liberais britânicos (liberais no sentido americano, isto é, não no sentido econômico europeu), elogiando as glórias de planejamento central, em testemunho do que foi o sucesso – para não dizer, total dominância mundial – da equipe britânica de ciclismo. Isto foi atribuído ao “investimento” governamentala, na minha opinião, um malversação criminosa de fundos, em instalações para ciclistas.

Admitamos por um momento que ainda tem que ser provado, que o sucesso britânico nessa esfera não foi consequência de farmacologia superior: nós podemos razoavelmente perguntar que tipo de pessoa iria regozijar-se com tal vitória para seu país. Certamente, apenas um idiota, porém deve-se admitir que tal imbecilidade é bastante uniformemente distribuída em todo o mundo, com exceção da Índia.

Verdadeiramente, a Índia é a última esperança da humanidade. Que continue assim, para sua eterna glória, para ganhar sem medalhas.

 

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[1] Não encontrei termo similar para a palavra “prolefeed”, em Língua Portuguesa. O termo identifica certa produção de entretenimento que pode ser considerada “lixo”, como as mensagens espúrias que o Partido espalha pelas massas (no contexto do romance).

[2] Preferi colocar o nomes das duas irmãs a quem se refere o autor por conta da possibilidade de haver, entre os leitores desta postagem, algum que não tenha ideia do que se trata o que relata o texto.

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2 respostas para “Do contra”.

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