Não foi…

Era para ter sido uma palestra. “Era para ter sido”. Gosto do som desta expressão. Poderia ter usado “Era para ser” ou “Teria sido”. Mas não. Gosto da complexidade da expressão inicial. Sonoramente mais contundente… Ops… mais uma rima…

Pois é… Era para ter sido uma palestra. Mas não foi. Foi uma posse, um lançamento, uma apresentação e uma homenagem. Com direito a ressurreição do “professor Astromar”, a medalhas, diplomas, fotos, sorrisos… o de sempre.

A performance contaria com fundo musical: “Quadros de uma exposição”, de Mussorgsky. São sete páginas. Mas não vou colocá-las aqui. Vão aqui apenas os poemas que pontuariam o “passeio” que está proposto na palestra. Palestra que ninguém ouviu e que ninguém, pode ser, venha a escutar. Mas vão aqui alguns dos poemas de eleição:

Stop

A vida parou

ou foi o automóvel?” (Caros Drummond de Andrade)

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O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa. Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando. Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro.

Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeira, nas gretas do muro, nos espaços vazios. Até agora não encontrei nada. Ou, encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada.

Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda.
Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível.
Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Nesse dia vou rir de todos.

Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder. (Carlos Drummond de Andrade)

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Sou o que sabe não ser menos vão

Que o vão observador que frente ao mudo

Vidro do espelho segue o mais agudo

Reflexo ou o corpo do irmão.

Sou, tácitos amigos, o que sabe

Que a única vingança ou o perdão

É o esquecimento. Um deus quis dar então

Ao ódio humano essa curiosa chave.

Sou o que, apesar de tão ilustres modos

De errar, não decifrou o labirinto

Singular e plural, árduo e distinto,

Do tempo, que é de um só e é de todos.

Sou o que é ninguém, o que não foi a espada

Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada. (Jorge Luis Borges)

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“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doce

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…


A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…


Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: “vem por aqui!”?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

 

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

– Sei que não vou por aí! (José Régio)

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2 respostas para “Não foi…”.

  1. Não ouvi, mas não me conformo; quero lê-la. Tenho o direito. Ia lá para ouvi-la, mas quando soube que não aconteceria e que tudo seria mais do mesmo, não sacrifiquei meu joelho tão sofrido, que dói, dói… Faça-me o favor de enviar-la por e-mail, sim senhor. Agradeço. Beijinho. Saudade grande…

  2. Três dos grandes escritores famosos !

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