Retorno

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Faz muito tempo que li o romance Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Já o li algumas vezes – pode dever de ofício. Desde a primeira vez, costumava afirmar que se tratava de um xaropada melodramática. Numa blague, comentava que ao ler esse texto, tinha a impressão de que uma fila de baras e formigas ia se formando por conta do tom exageradamente açucarado da narrativa. Agora, na semana passada, terminei mais uma leitura do texto de Camilo e… surpresa!!! Retiro TUDO o que até hoje já disse sobre este romance. Que delícia de relato. Que soberba ironia. Que categoria de relato. Uma aventura inolvidável. Como dizem que, com a idade, as leituras podem ser melhores que as primeiras… Para arrematar, percebo que há duas informações instigantes dadas pelo narrador (autor?) do romance, logo na “Introdução” do romance – quecoisa inesperada… uma introdução… Poish… Nesta introdução, diz lá o texto:

“Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da Relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte: Simão Antônio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e assistente na ocasião de sua prisão na cidade de Viseu, idade de dezoito anos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco; estatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, cabelo e barba preta, vestido com jaqueta de baetão azul, colete de fustão pintado e calça de pano pedrês. E fiz este assento, que assinei — Filipe Moreira Dias. A margem esquerda deste assento está escrito: Foi para a Índia em 17 de março de 1807. Não seria fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o degredo de um moço de dezoito anos lhe há de fazer dó.” (Trecho retirado da versão digitalizada pela Universidade Federal da Amazônia, publicada na página “Domínio Público”:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00063a.pdf

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Dois detalhes: o fato de ter sido preso nesta cadeia o próprio autor do romance – Camilo Castelo Branco ocupou (1860) o quarto de São João, enquanto Ana Plácido recolhia ao pavilhão das mulheres, acusados, ambos, do crime de adultério -, e o nome da mãe de Simão António Botelho, um dos protagonistas do romance. Terá sido mera coincidência? Terá sido um chiste do escritor potuguês que, independetemente de ter sido consciente ou inconscientemente, resolve fazer coincidir seu próprio sobrenome ao do protagonista? Num caso ou noutro, creio que o horizonte de expectativas do romance, hoje, é acrescido de mais um possibilidade de leitura: a de contar, este romance, no rol de obras do Romantismo português que se destacam como exercício estétuco inovador das/nas letras portuguesas. Na dúvida que se estabelece a coincidência dos nomes chama a atenção. Por outro lado, o “fato” da prisão do autor do romance e sua “amante”, por força de um adultério, adiciona mais intensidade ao drama vivido por Simão e Teresa, que envolve Mariana, ao longo da ficção.

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Camilo é reconhecido como um dos nomes que “revolucionam” a narrativa portuguesa em prosa na vigência do Romantismo. Seu companheiro de lida estética, Almeida Garrett, vai fazer algo que remete à mesmoa hipótese. Basta ler Viagens na minha terra, de autoria deste que, entre outras coisas, ilusra o espírito revolucionário peculiar ao Romantismo do Ocidente, colocando as letras portuguesas, uma vez mais, em local de destaque.

Este meu “retorno” não quer apresentar-se aqui como crítica, no sentido mais estrito, como quer a “academia”. Limita-se à expressão de uma impressão de leitura, aliás, no meu entender, o primeiro passo irrecorrível do exercício hermenêutico que toma um romance como objeto de desejo desta tão decantada crítica. Implícito fica, então, o convite à leitura deste romance soberbo: Amor de perdição!

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6 comentários sobre “Retorno

  1. Os espíritas afirmam que Camilo Castelo Branco, ou melhor, seu espírito, é o autor da obra MEMÓRIAS DE UM SUICIDA, psicografada pela médium Yvonne do Amaral Pereira. É um livro pesado, mas muito esclarecedor a respeito do autoextermínio e seus desdobramentos no plano espiritual. Já li Amor de Perdição há milênios, no tempo de estudante do curso Normal no Colégio Pio XII. Nem me lembro mais Beijinho.

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