Cartas

Faz (já!) mais de um ano, conclui um segundo estágio de pós-doutoramento em Coimbra. Foram seis meses recheados de coisas/momentos inesperadas, revisitações, lembranças e experiências. Tudo muito instigante e absolutamente gratificante, com o devido pedido de perdão pela involuntária rima pobre… Seis meses inesquecíveis. Já de volta aos trópicos, fiquei sabendo do lançamento de mais um livro do Pedro Eiras, jovem professor do Porto, também poeta e ensaísta. Dele já tinha lido A cura e Bach. Estes dois são impecáveis, como linguagem narrativa, como concepção de gênero, como exercício estético oriundo de uma cabeça pensante, brilhantemente pensante (De novo, com os devidos pedidos de perdão pela involuntária rima…). No primeiro, a figura do Papa se encontra com sombras de Freud, numa trama alimentada pelo drama de um psicanalista que vivencia crise de relação afetiva e certa descrença em seu métier… Quase um thriller, pois não acontece assassinato ou roubo que valesse a pena alimentar o suspense deste gênero. No entanto, o enredo, envolve e cativa, encanta e seduz, e o final, surpreendente, não deixa nada a desejar. No segundo, Bach, o músico, alinha as histórias que se escrevem e contam por meio de textos do mais diverso cariz. Numa espécie de homenagem velada, os dramas narrados se embalam ao som de cantatas anunciadas a cada capítulo. A curiosidade me fez ler este livro. Quem mo indicou enfatizou que ouvir as cantatas, quando da leitura de cada capítulo, além de elevar o espírito, empresta elegância e sofisticação a esta narrativa de difícil “classificação” – para quem não é capaz de viver sem uma…

Bem. Isso não é tudo! O livro de que vou falar dá coceira no cérebro, como eu gosto de dizer. Já na capa, dois elementos ilustrativos instigam a curiosidade (na edição portuguesa que adquiri): a figura de Fernando Pessoa e uma imagem – à maneira de marca d’água – que mostra um maço de papeis rabiscados e manchados, como que velhos. Mesmo sem saber, o inconsciente já solta as enzimas do prazer do suspense, da curiosidade. E abre-se a primeira página: primeira surpresa, o título do capítulo: “Breve explicação”. Num romance? Vá lá. Não é tão inusitado assim. Pode até ser “pós-muderno”… há quem queira assim… Mas a nota explica sobre a procedência a matéria que vai constituir a narrativa a ser lida: “Em 1995, numa ida a Paris, decidi procurar o antigo Hôtel de Nice, onde Mário de Sá-Carneiro viveu os últimos meses e se suicidou. O hotel figa em Pigalle, bairro vermelho da cidade…” (p. 7). Mário de Sá-Carneiro se matou. Eu sempre disse que foi com um tiro. O autor informa, mais adiante, que foi envenemanto. Isso é caso para pensar. Em se tratando de ficção, praticamente tudo se constitui mistério e se faz objeto de dúvida e especulação. Adiante… Ainda no âmbito da “explicação”, o autor informa que trabalhou com transcrições de cartas que Fernando Pessoa teria escrito para Mário de Sá-Carneiro, especificamente no período compreendido entre 1915 e 1916: “Durante as longas sessões de transcrição, num mometo em que Monsieur Lange se afastou, arrisquei fotografar uma carta com o telemóvel. (…). Apesar da evidente falta de qualidade, publico também neste livro essa única fotografia.” (p. 13). Desse pequeno trecho, deduz-se: há uma “personagem” chamada “Monsieur Lange; o autor transcreveu cartas e uma fotografia aparece no texto do romance (?). Interessante: isso prepara o leitor para o que vai ler.

Menor não é a surpresa ao ver, logo em seguida, depois da página com a foto, o início do segundo capítulo do livro que leva o nome de “Critérios editoriais”. Faz sentido: se houve uma transcrição, critérios para estabelecimento de texto se faz indispensável. Mas… num romance? Duplica-se a dúvida. Dobra-se a rasura do texto num subtexto que não emerge e faz-se pergunta: as cartas “transcritas” existem mesmo? De acordo com o capítulo anterior, sim. Mas… E pra completar, ao final do segundo capítulo, uma lista com quatro referências bibliográficas. Uma vez mais, a mesma pergunta: num romance? A repetição da pergunta se faz pertinente porque acredito que disto se trata: de um romance. Um romance que se conta, de fato, nos dois primeiros capítulos. A sequência das cartas, apresentada ao longo de 159 páginas, conforma outra história. Então são duas, as histórias contadas neste “romance”. A decisão de confirmar ou não esta hipótese fica a critério de seus leitores. Não me dei por vencido e fui procurar um dos volumes anunciados nas referências bibliográficas, de onde, diz o autor do livro, algumas cartas foram tiradas. Na verdade, duas delas são do punho de Fernando Pessoa endereçadas a Mário de Sá-Carneiro. Então…

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O título do livro pode ser tomado como uma provocação: Cartas reencontradas de Fernando Pessoa a  Mário de Sá-Carneiro. As duas cartas que, de fato, são do poeta ortônimo, têm sua correspondência documental registrada num outro volume, o que reúne as cartas de Mário de Sá-Carneiro para Fernando Pessoa.

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Se a leitura do livro de Pedro Eiras não chama a atenção de críticos mais sisudos, não será por falta de provocação. De outro lado, esta mesma leitura desconcerta as retinas – umas fatigadas, outras nem tanto, e ainda outras absolutamente virgens – que sobre as páginas do volume passeiam atentas, deslumbradas, estupefatas mesmo! Ave, leitura! E sendo, uma vez mais, repetitivo: fica o convite!

Palavras

A língua, qualquer que seja sua “nacionalidade” faz de tudo e mais um pouco para dar expressão a ideias, sentimentos, experiências, fatos, coisas… Não chega a ser vão, este esforço, mas fica próximo. Em certos casos, uma língua consegue criar uma palavra que fica única no universo linguístico da humanidade. Uma palavra que olustra de maneira incontestável é SAUDADE.

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Por outro lado, do alto da minha chatice (e tenho quase absoluta certeza de que não estou sozinho!) há palavras que irritam, incomodam, por conta do que se encerra em seu horizonte de expectativas semânticas. Uma delas é “tolerância”:

n substantivo feminino
1 ato ou efeito de tolerar; indulgência, condescendência
2 qualidade ou condição de tolerante
3 tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às adotadas por si mesmo
4 isenção de norma, de regra geral; licença, dispensa
Ex.: t. de horário
5 quantidade, para mais ou para menos, permitida pela lei no peso ou no título das moedas
6 diferença ou margem de erro admissível em relação a uma medida ou a um padrão
7 Rubrica: farmácia.
fenômeno caracterizado por uma diminuição dos efeitos sobre o organismo de uma dose fixa de substância química à medida que se repete sua administração
8 Rubrica: toxicologia.
capacidade de o organismo suportar doses de determinada substância sem apresentar sinais de intoxicação

Pois é. Penso que não é equivocado dizer que esta palavra, em sua variada abrangência semântica tem um pressuposto comum: o erro. Explico-me. Na cópia que fiz do Dicionário Houaiss e reproduzo acima, o verbete apresenta as acepções conhecidas da palavra. É fácil perceber o que eud isse acima sobre “erro”. Basta atentar para as acepções 4, 5 e 6. Em outras palavras, “tolerar” é aceitar o que não é aceito, considerado certo, comum. Logo, há que se levar em conta que o que é “tolerado” não entra no âmbito da “normalidade”. Portanto, é exceção. É como se um sujeito fosse condescendente, quase compassivo. O ato de “aceitar” compõe, de maneira tendenciosa, o ato de “tolerar”. Estou como as moscas em torno da lâmpada e há uma razão para isso: minha irritação com certa “militância” que usa essa palavra como “emblema”, sem atentar para nuances semânticas que nela mesma convivem. Todo cuidado é pouco. Paea além, muito além, da língua, há o discurso. Então… Toda atenção é pouca…

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Tempo

Hoje faz 30 dias que meu irmão morreu. A gente passa bom tempo da vida pensando em se preparar para a morte, própria e alheia. Um aprendizado aparentemente inócuo. De um lado, o inevitável, que parece desafiar qualquer tentativa de pertinência. Por outro, o imponderável, que dizima outro tanto de esforço por conta do susto. Sim. Susto. A morte chega, ainda que “anunciada”, de repente. Não há como prever. A preparação, então, se faz, como já disse, inócua. Meu irmão é o segundo de minha família, a célula mater, a ir-se. Primeiro foi meu pai. E lá se vão quase cinco anos. O tempo passa rápido.

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Diz a mitologia que Cronos era um titã. Um titã era como se fosse um gigante (na mitologia nórdica). Os gigantes eram anteriores aos deuses, os titãs em vez de serem deuses protetores de alguma coisa, eles eram aquela coisa, como no caso de Cronos ele era titã que representava o tempo. Cronos era filho de Urano (o céu) com Gaia (a terra) e era casado com a titã Réia e com ela teve 6 filhos, eram eles: Deméter, Hera, Hades, Zeus, Poseídon e Héstia. Seu pai Urano odiava os filhos por isso quando eles nasciam os colocavam de volta no ventre da mãe, Gaia cansada disso, escondeu seu filho Cronos e fez de seu seio uma lamina em forma de foice e a deu para Cronos que, junto com os seus irmãos, castrou Urano enquanto dormia e Cronos virou o senhor do Olimpo, mas Urano disse que assim como ele foi destronado por seu filho, aconteceria a mesma coisa com Cronos. Apavorado, este começou a devorar todos os seus filhos com Réia, mãe extremosa, escondeu seu último filho (Zeus) e o trocou por uma pedra. Assim, Cronos comeu a pedra, Zeus cresceu e junto com sua mãe Réia atacou seu pai, e rasgou a sua barriga e libertou seus irmãos ja adultos e aprisionou os titãs no Tártaro. Zeus se tornou o senhor do Olimpo que virou um lugar de prosperidade chamado de “idade dourada”.

Aparentemente, a mitologia explica muita coisa. No caso da morte, relacionada com o tempo, o mito de Cronos acrescenta aspectos instigantes que fazem um “colorido” inesperado para uma experiência, ainda e sempre, tão incolor… Vale sempre ter em mente que o processo da existência é, por essência, dinâmico. Sua repetitividade é inesgotável e não diminui em nada a profundidade de seus efeitos. Fica a saudade…

renato

 

Literatura

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Em tempos de gritaria por conta da atribuição do prêmio Nobel de Literatura, vi um pequeno vídeo sobre uma explicação para a morte do Ayrton Senna. O objetivo era demonstrar que alguma coisa aconteceu com o piloto antes da fatal batida. Teoria da conspiração? Depois deste, vi outro, sobre um “militar” que, numa manifestação pacífica, tem sua egrégia cabeça tocada pela faixa dos manifestantes. Sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar, saca uma arma e atira num dos manifestantes (era bala de borracha, mas quand même…). Por outro lado, vi mais um que conta a história de um menino alemão que encontra uma menina judia escondida num armário de uma casa evacuada durante o extermínio do gueto… Ela lhe dá um unicórnio de porcelana. O garoto, fascinado, manda-a fugir. Depois, o superior do garoto bate nele por conta da facilitação da fuga. O unicórnio é estilhaçado pela pisada forte e pesada do nazista. Anos mais tarde, um homem entrega uma caixa para uma mulher igualmente madura. Dentro da caixa o unicórnio restaurado (as marcas das colagens aparecem). Sem palavras. Por fim, vi um filme, pelo Netflix, chamado Those people. Na abertura do filme, o protagonista conta uma história: um garoto ganha uma tartaruga, mas não gosta do casco dela. Então passa a enfeitá-la com pedras preciosas. São tantas que, por conta do peso das joias, a tartaruga morre esmagada. Vejam o filme…

Mas o que é que isso tudo tem a ver com o título desta postagem? Já chego lá! Para tentar fazêlo, cito literalmente um poema:

Cecília Meireles, “Nós e as sombras”

E em redor da mesa, nós, viventes,
comíamos e falávamos, naquela noite estrangeira,
e em nossas sombras pelas paredes
moviam-se, aconchegadas como nós,
e gesticulavam, sem voz.

Éramos duplos, éramos tríplices, éramos trêmulos,
à luz dos bicos de acetilene,
pelas paredes seculares, densas, frias,
e vagamente monumentais.
Mais do que as sombras éramos irreais.
Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos.
E gostávamos de estar vivos, entre vinhos e brasas,
muito longe do mundo,
de todas as presenças vãs
envoltos em ternura e lãs.
Até hoje pergunto pelo singular destino
das sombras que se moveram juntas, pelas mesmas paredes…
Oh!, as sem saudades, sem pedidos, sem respostas…
Tão fluidas! Enlaçando-se e perdendo-se pelo ar…
Sem olhos para chorar…
A “simbólica” Cecília consegue, neste poema, tocar em questões filosóficas de tensão imensa, de profundidade inescrutável e, simultanemanete, de uma delicadeza inegável.A sombra da morte aparece, absoluta, como entidade que orienta os atalhos que a existência busca e encontra, por vezes. Além disso, a luta entre o bem e o mal – “a noite era um jardim de neve e lobos” – dinamiza ainda uma vez a visão poética desta mulher. Poeta ou poetisa? Certa feita, quase levei uma surra por ter chamado Cecília Meireles de poeta. O argumento para a surra era de que, como mulher, deveria ser chamada de poetisa. O primeiro termo demarcava terreno semântico de teor machista. Bobagens… Etimologicamente, “poeta” supera qualquer constructo cultural. Voltando ao poema, “Nós e as sombras”, a voz poética decanta em verso a melancolia, amiga da solidão, que se desfaz nas sombras que se espraiam implícita e explicitamente. E aqui está a palavra-chave desta postagem: sombras. Quem quiser que dê tratos à bola para entender o porquê!
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Sombras

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Estavas, linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
(Camões, III, 120)

Não. Não serve. Com o eco dos passos sobre as placas frias de pedra barroca no assoalho – que em nada e por nada lembram o frio das paredes de pedra dos porões do museu Machado de Castro – minhas memórias de quase vinte anos esboroam-se e não podem ser associadas a versos tão liricamente dramáticos, no caminho da tragédia anunciada. Não. Não hei de manchar o nome da mítica Inês e a mão que a escreve com associações tão mesquinhas. Sobretudo porque, aqui onde estou, hoje, o que me faz ressentir é a decepção e a preguiça de perceber que as cabeças de burro enterradas sob este lugar ainda emanan miasmas invisíveis de retrocesso, inércia, beirando a estupidez que mesquinhamente pauta atitudes e “certezas”… paradoxalmente… incertas… Não. Penso em algo mais trágico e igualmente paradoxal como os versos de Augusto dos Anjos:

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Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija! (Versos íntimos)

O vai-e-vem de sensações confunde, espanta, encanta – com a devida vênia pela rima paupérrima! A antítese que marca a experiência existencial, em suas nuances mais inusitadas, porque inumeráveis, salta aos olhos do poeta que se desfaz em palavras, em nada e por nada lamentosas, porque conscientes. A sisudez dos sentimentos, porventura ensaiadas em uma leitura plausível, só fazem destacar a beleza de versos explícitos em certeza do que se vive, se sente, se pensa, se constata. Em poucos momentos, as linhas de um poema tocam o olhos do furacão, o coração das trevas do sentimento humano: sua desrazão. Amargura? Não diria. Razão seria mais acertado: a irrecorrível certeza da vida como ela é – muito longe do senso de Nelson Rodrigues. Muito longe mesmo.

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Ainda assim, numa sobreonda descomunal, o reverso da moeda me mostra outros versos, desta vez, de Jorge Luiz Borges:

Tras los fuertes barrotes la pantera
Repetirá el monótono camino
Que es (pero no lo sabe) su destino
De negra joya, aciaga y prisionera.
Son miles las que pasan y son miles
Las que vuelven, pero es una y eterna
La pantera fatal que en su caverna
Traza la recta que un eterno Aquiles
Traza en el sueño que ha soñado el griego.
No sabe que hay praderas y montañas
De ciervos cuyas trémulas entrañas
Deleitarían su apetito ciego.
En vano es vario el orbe. La jornada
Que cumple cada cual ya fue fijada. (La pantera)

Destino e repetição. Ilusão e possibilidade. Caminhos bifurcados que no mundo animal – sem a inútil divisão (aqui) imposta pela diferença impressa por um o prefixo (racional/irracional) marcam o deslindar da percepção de que a vida não se reduz ao que dela ideia se forma. Difícil? Quase impossível: a certeza de que existe a mínima chance de compreensão. Os desvãos da história de cada um acabam por revelar um certo “calcanhar” que, oriundo da mitologia, acaba por enfraquecer a base, o chão, a segurança. O olhar determina a extensão da possibilidade, por isso, a ideia de limite se impõe.

Tudo isso passaria despercebido de qualquer um. Ao contrário de quem caminha por esse chão forrado de lages de pedra fria que guarda segredos inefáveis. Um misto de tristeza e saudade (não são primas, estas sensações?). A certeza de que o tempo esvaído deixa marcas que, por força dele mesmo, vão se desfazendo no olvido de quem anda sem prestar atenção aos passos que dá…

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Vapt-vupt

Foi de uma sentada só. Peguei o livro, não muito certo do que ia encontrar. O título é, ao mesmo tempo sedutor e vazio. Remete a outro texto, do Camus. Já, já, digo o nome. Foi de uma vez. Comecei e não parei até a página76. Tive que parar, por conta de coisas que apareceram para serem feitas, inadiavelmente. Mas vou terminar e não vai demorar muito. Antes de dar o nome tenho que dizer outra coisa: há muita gente com o mesmo nome na face da terra. A gente não faz ideia. Hoje, com o recurso tecnológico do Dr. Google (“confesso minha constante e renovada surpresa e admiração com esta ferramenta de busca”!), fica mais fácil constatar isso. Por exemplo, ao digitar “Tito”, na primeira linha de ligações aparece a Wikipédia (nego-me a entrar no mérito da veracidade, do valor, da lusita, da coerência, do que quer que seja que se refira à autoridade de mais esta ferramenta. Simplesmente a uso, quando preciso, instrumentalmente). Daí, o seguinte:

 

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Acredite se quiser. Dada a fonte de consulta, algumas palavrinhas sobre o nome, ou melhor, a “personagem”. Tito é um menino. Um menino nascido em Veneza. Nascido em Veneza e hospitalizado em Pádua. Um menino que teve que vir para o Brasil tratar-se por força do clima tropical que aqui vivemos. Areia, terra, água, atividades físicas, em temperaturas elevadas do clima: estas as recomendações de um médico estrangeiro para auxiliar no tratamento de Tito. Sim, Tito é um menino com certa deficiência física. Tito vive com uma problema que recebe o nome de “paralisia cerebral”. Não vou repetir o que se lê no livro. Este conta a história de Tito, ou melhor, a história do pai de Tito que anota, fragmento a fragmento, cada dia na vida deste menino. Exatos 424 passos, seguindo o que está na capa do livro. O texto que se lê, pode ser lido como ficção. Pode também ser lido como autobiografia. Pode ainda ser lido como memória. Um livro multifacetado. E, por isso mesmo, multifacetadamente contundente. Escrevo sobre ele, mesmo sem ter acabado de lê-lo pela estupefação que ele me causou e, penso que posso me assegurar, vai me causar quando da leitura das 74 páginas que ainda me esperam… ali… quietas e calmas… “em estado de dicionário”, como diz Carlos Drummond de Andrade. O livro se chama A queda. Seu autor, um jornalista brasileiro que vive na Itália, é Diogo Mainardi. Conheci este autor através de um programa que ainda existe na televisão Manhattan connection. Gostei dos outros livros que ele escreveu, especialmente de um – Contra o Brasil. O título pode levar o autor a um equívoco, se ele se deixar influenciar definitivamente pela imagem do autor, Mas é um texto divertidíssimo, de uma erudição que é rara nas letras brasileiras, sobretudo nesse tempo em que prevalecem “oficinas de escrita criativa” e as “festas literárias”. Mais uma vez, deixo de lado a oportunidade de tecer qualquer comentário que seja sobre essas duas excrescências da “cultura” nacional… Contra o Brasil, paradoxalmente, celebra a brasilidade, numa prosa acidamente inteligente, acompanhando, às avessas, uma das trilhas pelas quais passou a nossa já combalida nacionalidade. Vale muito a pena ler. Voltando à vaca fria… A queda tem um subtítulo: “As memórias de um pai em 424 passos”. Viu como eu acertei quando falei que o livro poderia ser lido como “memória”… Pois é… Fica o convite.

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Eco

Duas mulheres. Duas vozes que fazem sentido. Duas personagens dramáticas. O texto é de autoria de um sujeito fenomenal. Há que se esclarecer que este epíteto está circunscrito a um contexto histórico, cultural e literário que envolve miríades de detalhes, de nuances, de peculiaridades. A Literatura tem dessas coisas. Antes de entrar no assunto que me interessa, um interregno: a mitologia.

Eco (em Grego, Ηχώ) era uma bela jovem ninfa grega. Eco amava os bosques e os montes, onde muito se distraía. Era querida pela deusa Ártemis, a quem acompanhava em suas caçadas. Tinha, no entanto, um defeito: falava demais e sempre queria dar a última palavra em qualquer conversa ou discussão. Em certa ocasião, Hera desconfiou, com razão, que seu marido Zeus se divertia com as ninfas. Enquanto as ninfas se escondiam de Hera, Eco tentou distraí-la com uma conversa e, no entanto, foi castigada: só seria capaz de falar repetindo o que os outros dissessem. Eco era uma das Oréades, as ninfas das montanhas, e adorava sua própria voz. Como Zeus adorava estar entre as belas ninfas, visitava-as com grande frequência. Suspeitando dessas ausências do esposo, Hera veio à terra a fim de flagrá-lo com suas amantes. Sendo a prolixa Eco a única do grupo que não divertia-se com Zeus, intentou salvar suas amigas, falando com Hera ininterruptamente, de forma a possibilitar que o deus e as outras ninfas escapassem. Finalmente a deusa conseguiu livrar-se dela e, chegando ao campo onde os amantes estavam, encontrou-o deserto. Percebendo que tinha sido lograda, resolveu castigá-la. Ela não teria mais o poder de iniciar uma conversa, apenas de ter a última palavra.

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Esta figura mitológica, penso eu, está no horizonte de expectativas de certa teorização sobre a intertextualidade e/ou o dialogismo. Aqui, vou deixar passar a oportunidade de “pontificar” sobre o assunto. Não é do meu feitio, apesar de ser lugar comum na “academia”. De um jeito ou de outro, penso que a tal de Eco pode ser “lida” desse jeito. Assim, as duas mulheres a que me referi, Madalena e Maria, personagens do drama Frei Luis de Sousa, do Almeida Garrett, são a bola da vez. Ambas praticam, mesmo sem o saber, um exercício intertextual ao aparecerem, no drama, lendo textos clássicos da Literatura Portuguesa. Olha só o que elas dizem:

“MADALENA
(repetindo maquinalmente e devagar o que acaba de ler)
Naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito…
Com paz e alegria de alma… Um engano, um engano de poucos instantes que seja. Deve de ser a felicidade suprema neste mundo. E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu! (Pausa). Oh! Que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo. Este medo, estes contínuos terrores, que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. Oh! Que amor, que felicidade. Que desgraça a minha! (Torna a descair em profunda meditação; silêncio breve).”

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“MARIA
— «Menina e moça me levaram de casa do meu pai» — é o princípio daquele livro tão bonito que a minha mãe diz que não entende; entendo-o eu. Mas aqui não há menina nem moça; e vós, senhor Telmo Pais, meu fiel escudeiro, «farás o que vos é mandado». E não me repliques, que então altercamos, faz-se bulha, e acorda a minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego. Aquele palácio a arder, aquele povo a gritar, o rebate dos sinos, aquela cena toda. Oh! Tão grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espetáculo como nunca vi outro de igual majestade! A minha pobre mãe aterrou-a, não se lhe tira dos olhos; vai a fechá-los para dormir e diz que vê aquelas chamas enoveladas em fumo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar e a devorar tudo com fúria infernal. O retrato do meu pai, aquele do quarto de lavor, tão seu favorito, em que ele estava tão gentil homem, vestido de cavaleiro de Malta com a sua cruz branca no peito, aquele retrato não se pode consolar de que lho não salvassem, que se queimasse ali. Vês tu? Ela, que não cria em agouros, que sempre me estava a repreender pelas minhas cismas, agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior, que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar do meu pai. E eu agora é que faço de forte e assisada, que zombo de agouros e de sinas. Para a animar, coitada! Que aqui entre nós, Telmo, nunca tive tanta fé neles. Creio, oh, se creio! Que são avisos que Deus nos manda para nos preparar. E há. Oh! Há grande desgraça a cair sobre o meu pai. Decerto! E sobre a minha mãe também, que é o mesmo.”

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De cara, a gente pode associar essa “citação” ao projeto dramático de Garrett, neste seu texto, com o intuito de criar clima propício para dizer o que deseja dizer. As citações, quer me parecer, não são gratuitas. A superstição de Madalena e a ingenuidade de Maria são traços que corroboram a coerência das mesmas citações. Por outro lado, no decorrer do drama, o “destino” de cada uma delas também é um atestado desta ausência de gratuidade na referência literal a Camões e a Bernardim Ribeiro. Além disso, há que ressaltar a fundamentalidade de ambos os autores no processo de consolidação da Literatura Portuguesa, em sua história, enquanto instrumento de sustentação de uma identidade cultural. Em outras palavras, a articulação dessas variáveis confirma uma das leituras mais comuns e razoáveis, para não dizer plausíveis, do texto de Garrett: a de possibilitar a leitura, na letra do drama, de um discurso de “nacionalização”, não apenas das letras lusitanas, como também de sua própria gente. Sintomático, por exemplo, o segundo incêndio apresentado no drama. A alegorização de fim de um período para implementação de outro é por demais óbvio para ser negado. Mas há mais, muito mais… No entanto, deixo isso à custa da curiosidade dos olhos que me acompanharam até aqui!

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