Eco

Duas mulheres. Duas vozes que fazem sentido. Duas personagens dramáticas. O texto é de autoria de um sujeito fenomenal. Há que se esclarecer que este epíteto está circunscrito a um contexto histórico, cultural e literário que envolve miríades de detalhes, de nuances, de peculiaridades. A Literatura tem dessas coisas. Antes de entrar no assunto que me interessa, um interregno: a mitologia.

Eco (em Grego, Ηχώ) era uma bela jovem ninfa grega. Eco amava os bosques e os montes, onde muito se distraía. Era querida pela deusa Ártemis, a quem acompanhava em suas caçadas. Tinha, no entanto, um defeito: falava demais e sempre queria dar a última palavra em qualquer conversa ou discussão. Em certa ocasião, Hera desconfiou, com razão, que seu marido Zeus se divertia com as ninfas. Enquanto as ninfas se escondiam de Hera, Eco tentou distraí-la com uma conversa e, no entanto, foi castigada: só seria capaz de falar repetindo o que os outros dissessem. Eco era uma das Oréades, as ninfas das montanhas, e adorava sua própria voz. Como Zeus adorava estar entre as belas ninfas, visitava-as com grande frequência. Suspeitando dessas ausências do esposo, Hera veio à terra a fim de flagrá-lo com suas amantes. Sendo a prolixa Eco a única do grupo que não divertia-se com Zeus, intentou salvar suas amigas, falando com Hera ininterruptamente, de forma a possibilitar que o deus e as outras ninfas escapassem. Finalmente a deusa conseguiu livrar-se dela e, chegando ao campo onde os amantes estavam, encontrou-o deserto. Percebendo que tinha sido lograda, resolveu castigá-la. Ela não teria mais o poder de iniciar uma conversa, apenas de ter a última palavra.

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Esta figura mitológica, penso eu, está no horizonte de expectativas de certa teorização sobre a intertextualidade e/ou o dialogismo. Aqui, vou deixar passar a oportunidade de “pontificar” sobre o assunto. Não é do meu feitio, apesar de ser lugar comum na “academia”. De um jeito ou de outro, penso que a tal de Eco pode ser “lida” desse jeito. Assim, as duas mulheres a que me referi, Madalena e Maria, personagens do drama Frei Luis de Sousa, do Almeida Garrett, são a bola da vez. Ambas praticam, mesmo sem o saber, um exercício intertextual ao aparecerem, no drama, lendo textos clássicos da Literatura Portuguesa. Olha só o que elas dizem:

“MADALENA
(repetindo maquinalmente e devagar o que acaba de ler)
Naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito…
Com paz e alegria de alma… Um engano, um engano de poucos instantes que seja. Deve de ser a felicidade suprema neste mundo. E que importa que o não deixe durar muito a fortuna? Viveu-se, pode-se morrer. Mas eu! (Pausa). Oh! Que o não saiba ele ao menos, que não suspeite o estado em que eu vivo. Este medo, estes contínuos terrores, que ainda me não deixaram gozar um só momento de toda a imensa felicidade que me dava o seu amor. Oh! Que amor, que felicidade. Que desgraça a minha! (Torna a descair em profunda meditação; silêncio breve).”

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“MARIA
— «Menina e moça me levaram de casa do meu pai» — é o princípio daquele livro tão bonito que a minha mãe diz que não entende; entendo-o eu. Mas aqui não há menina nem moça; e vós, senhor Telmo Pais, meu fiel escudeiro, «farás o que vos é mandado». E não me repliques, que então altercamos, faz-se bulha, e acorda a minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego. Aquele palácio a arder, aquele povo a gritar, o rebate dos sinos, aquela cena toda. Oh! Tão grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espetáculo como nunca vi outro de igual majestade! A minha pobre mãe aterrou-a, não se lhe tira dos olhos; vai a fechá-los para dormir e diz que vê aquelas chamas enoveladas em fumo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar e a devorar tudo com fúria infernal. O retrato do meu pai, aquele do quarto de lavor, tão seu favorito, em que ele estava tão gentil homem, vestido de cavaleiro de Malta com a sua cruz branca no peito, aquele retrato não se pode consolar de que lho não salvassem, que se queimasse ali. Vês tu? Ela, que não cria em agouros, que sempre me estava a repreender pelas minhas cismas, agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior, que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar do meu pai. E eu agora é que faço de forte e assisada, que zombo de agouros e de sinas. Para a animar, coitada! Que aqui entre nós, Telmo, nunca tive tanta fé neles. Creio, oh, se creio! Que são avisos que Deus nos manda para nos preparar. E há. Oh! Há grande desgraça a cair sobre o meu pai. Decerto! E sobre a minha mãe também, que é o mesmo.”

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De cara, a gente pode associar essa “citação” ao projeto dramático de Garrett, neste seu texto, com o intuito de criar clima propício para dizer o que deseja dizer. As citações, quer me parecer, não são gratuitas. A superstição de Madalena e a ingenuidade de Maria são traços que corroboram a coerência das mesmas citações. Por outro lado, no decorrer do drama, o “destino” de cada uma delas também é um atestado desta ausência de gratuidade na referência literal a Camões e a Bernardim Ribeiro. Além disso, há que ressaltar a fundamentalidade de ambos os autores no processo de consolidação da Literatura Portuguesa, em sua história, enquanto instrumento de sustentação de uma identidade cultural. Em outras palavras, a articulação dessas variáveis confirma uma das leituras mais comuns e razoáveis, para não dizer plausíveis, do texto de Garrett: a de possibilitar a leitura, na letra do drama, de um discurso de “nacionalização”, não apenas das letras lusitanas, como também de sua própria gente. Sintomático, por exemplo, o segundo incêndio apresentado no drama. A alegorização de fim de um período para implementação de outro é por demais óbvio para ser negado. Mas há mais, muito mais… No entanto, deixo isso à custa da curiosidade dos olhos que me acompanharam até aqui!

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