Vapt-vupt

Foi de uma sentada só. Peguei o livro, não muito certo do que ia encontrar. O título é, ao mesmo tempo sedutor e vazio. Remete a outro texto, do Camus. Já, já, digo o nome. Foi de uma vez. Comecei e não parei até a página76. Tive que parar, por conta de coisas que apareceram para serem feitas, inadiavelmente. Mas vou terminar e não vai demorar muito. Antes de dar o nome tenho que dizer outra coisa: há muita gente com o mesmo nome na face da terra. A gente não faz ideia. Hoje, com o recurso tecnológico do Dr. Google (“confesso minha constante e renovada surpresa e admiração com esta ferramenta de busca”!), fica mais fácil constatar isso. Por exemplo, ao digitar “Tito”, na primeira linha de ligações aparece a Wikipédia (nego-me a entrar no mérito da veracidade, do valor, da lusita, da coerência, do que quer que seja que se refira à autoridade de mais esta ferramenta. Simplesmente a uso, quando preciso, instrumentalmente). Daí, o seguinte:

 

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Acredite se quiser. Dada a fonte de consulta, algumas palavrinhas sobre o nome, ou melhor, a “personagem”. Tito é um menino. Um menino nascido em Veneza. Nascido em Veneza e hospitalizado em Pádua. Um menino que teve que vir para o Brasil tratar-se por força do clima tropical que aqui vivemos. Areia, terra, água, atividades físicas, em temperaturas elevadas do clima: estas as recomendações de um médico estrangeiro para auxiliar no tratamento de Tito. Sim, Tito é um menino com certa deficiência física. Tito vive com uma problema que recebe o nome de “paralisia cerebral”. Não vou repetir o que se lê no livro. Este conta a história de Tito, ou melhor, a história do pai de Tito que anota, fragmento a fragmento, cada dia na vida deste menino. Exatos 424 passos, seguindo o que está na capa do livro. O texto que se lê, pode ser lido como ficção. Pode também ser lido como autobiografia. Pode ainda ser lido como memória. Um livro multifacetado. E, por isso mesmo, multifacetadamente contundente. Escrevo sobre ele, mesmo sem ter acabado de lê-lo pela estupefação que ele me causou e, penso que posso me assegurar, vai me causar quando da leitura das 74 páginas que ainda me esperam… ali… quietas e calmas… “em estado de dicionário”, como diz Carlos Drummond de Andrade. O livro se chama A queda. Seu autor, um jornalista brasileiro que vive na Itália, é Diogo Mainardi. Conheci este autor através de um programa que ainda existe na televisão Manhattan connection. Gostei dos outros livros que ele escreveu, especialmente de um – Contra o Brasil. O título pode levar o autor a um equívoco, se ele se deixar influenciar definitivamente pela imagem do autor, Mas é um texto divertidíssimo, de uma erudição que é rara nas letras brasileiras, sobretudo nesse tempo em que prevalecem “oficinas de escrita criativa” e as “festas literárias”. Mais uma vez, deixo de lado a oportunidade de tecer qualquer comentário que seja sobre essas duas excrescências da “cultura” nacional… Contra o Brasil, paradoxalmente, celebra a brasilidade, numa prosa acidamente inteligente, acompanhando, às avessas, uma das trilhas pelas quais passou a nossa já combalida nacionalidade. Vale muito a pena ler. Voltando à vaca fria… A queda tem um subtítulo: “As memórias de um pai em 424 passos”. Viu como eu acertei quando falei que o livro poderia ser lido como “memória”… Pois é… Fica o convite.

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4 comentários sobre “Vapt-vupt

  1. Lerei. Por razões óbvias e por sua indicação, que respeito. Também gosto imensamente de Diogo Mainardi: texto leve, simpaticamente irônico e, sobretudo, inteligente. O blog O Antagonista é, hoje, a minha referência sobre matérias políticas. Tudo muito curtinho, mas abrangente, e alguns comentários que fazem pensar. Se o livro for seu, peço-lhe para me emprestar. Beijinho.

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