Sombras

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Estavas, linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
(Camões, III, 120)

Não. Não serve. Com o eco dos passos sobre as placas frias de pedra barroca no assoalho – que em nada e por nada lembram o frio das paredes de pedra dos porões do museu Machado de Castro – minhas memórias de quase vinte anos esboroam-se e não podem ser associadas a versos tão liricamente dramáticos, no caminho da tragédia anunciada. Não. Não hei de manchar o nome da mítica Inês e a mão que a escreve com associações tão mesquinhas. Sobretudo porque, aqui onde estou, hoje, o que me faz ressentir é a decepção e a preguiça de perceber que as cabeças de burro enterradas sob este lugar ainda emanan miasmas invisíveis de retrocesso, inércia, beirando a estupidez que mesquinhamente pauta atitudes e “certezas”… paradoxalmente… incertas… Não. Penso em algo mais trágico e igualmente paradoxal como os versos de Augusto dos Anjos:

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Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija! (Versos íntimos)

O vai-e-vem de sensações confunde, espanta, encanta – com a devida vênia pela rima paupérrima! A antítese que marca a experiência existencial, em suas nuances mais inusitadas, porque inumeráveis, salta aos olhos do poeta que se desfaz em palavras, em nada e por nada lamentosas, porque conscientes. A sisudez dos sentimentos, porventura ensaiadas em uma leitura plausível, só fazem destacar a beleza de versos explícitos em certeza do que se vive, se sente, se pensa, se constata. Em poucos momentos, as linhas de um poema tocam o olhos do furacão, o coração das trevas do sentimento humano: sua desrazão. Amargura? Não diria. Razão seria mais acertado: a irrecorrível certeza da vida como ela é – muito longe do senso de Nelson Rodrigues. Muito longe mesmo.

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Ainda assim, numa sobreonda descomunal, o reverso da moeda me mostra outros versos, desta vez, de Jorge Luiz Borges:

Tras los fuertes barrotes la pantera
Repetirá el monótono camino
Que es (pero no lo sabe) su destino
De negra joya, aciaga y prisionera.
Son miles las que pasan y son miles
Las que vuelven, pero es una y eterna
La pantera fatal que en su caverna
Traza la recta que un eterno Aquiles
Traza en el sueño que ha soñado el griego.
No sabe que hay praderas y montañas
De ciervos cuyas trémulas entrañas
Deleitarían su apetito ciego.
En vano es vario el orbe. La jornada
Que cumple cada cual ya fue fijada. (La pantera)

Destino e repetição. Ilusão e possibilidade. Caminhos bifurcados que no mundo animal – sem a inútil divisão (aqui) imposta pela diferença impressa por um o prefixo (racional/irracional) marcam o deslindar da percepção de que a vida não se reduz ao que dela ideia se forma. Difícil? Quase impossível: a certeza de que existe a mínima chance de compreensão. Os desvãos da história de cada um acabam por revelar um certo “calcanhar” que, oriundo da mitologia, acaba por enfraquecer a base, o chão, a segurança. O olhar determina a extensão da possibilidade, por isso, a ideia de limite se impõe.

Tudo isso passaria despercebido de qualquer um. Ao contrário de quem caminha por esse chão forrado de lages de pedra fria que guarda segredos inefáveis. Um misto de tristeza e saudade (não são primas, estas sensações?). A certeza de que o tempo esvaído deixa marcas que, por força dele mesmo, vão se desfazendo no olvido de quem anda sem prestar atenção aos passos que dá…

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