Literatura

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Em tempos de gritaria por conta da atribuição do prêmio Nobel de Literatura, vi um pequeno vídeo sobre uma explicação para a morte do Ayrton Senna. O objetivo era demonstrar que alguma coisa aconteceu com o piloto antes da fatal batida. Teoria da conspiração? Depois deste, vi outro, sobre um “militar” que, numa manifestação pacífica, tem sua egrégia cabeça tocada pela faixa dos manifestantes. Sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar, saca uma arma e atira num dos manifestantes (era bala de borracha, mas quand même…). Por outro lado, vi mais um que conta a história de um menino alemão que encontra uma menina judia escondida num armário de uma casa evacuada durante o extermínio do gueto… Ela lhe dá um unicórnio de porcelana. O garoto, fascinado, manda-a fugir. Depois, o superior do garoto bate nele por conta da facilitação da fuga. O unicórnio é estilhaçado pela pisada forte e pesada do nazista. Anos mais tarde, um homem entrega uma caixa para uma mulher igualmente madura. Dentro da caixa o unicórnio restaurado (as marcas das colagens aparecem). Sem palavras. Por fim, vi um filme, pelo Netflix, chamado Those people. Na abertura do filme, o protagonista conta uma história: um garoto ganha uma tartaruga, mas não gosta do casco dela. Então passa a enfeitá-la com pedras preciosas. São tantas que, por conta do peso das joias, a tartaruga morre esmagada. Vejam o filme…

Mas o que é que isso tudo tem a ver com o título desta postagem? Já chego lá! Para tentar fazêlo, cito literalmente um poema:

Cecília Meireles, “Nós e as sombras”

E em redor da mesa, nós, viventes,
comíamos e falávamos, naquela noite estrangeira,
e em nossas sombras pelas paredes
moviam-se, aconchegadas como nós,
e gesticulavam, sem voz.

Éramos duplos, éramos tríplices, éramos trêmulos,
à luz dos bicos de acetilene,
pelas paredes seculares, densas, frias,
e vagamente monumentais.
Mais do que as sombras éramos irreais.
Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos.
E gostávamos de estar vivos, entre vinhos e brasas,
muito longe do mundo,
de todas as presenças vãs
envoltos em ternura e lãs.
Até hoje pergunto pelo singular destino
das sombras que se moveram juntas, pelas mesmas paredes…
Oh!, as sem saudades, sem pedidos, sem respostas…
Tão fluidas! Enlaçando-se e perdendo-se pelo ar…
Sem olhos para chorar…
A “simbólica” Cecília consegue, neste poema, tocar em questões filosóficas de tensão imensa, de profundidade inescrutável e, simultanemanete, de uma delicadeza inegável.A sombra da morte aparece, absoluta, como entidade que orienta os atalhos que a existência busca e encontra, por vezes. Além disso, a luta entre o bem e o mal – “a noite era um jardim de neve e lobos” – dinamiza ainda uma vez a visão poética desta mulher. Poeta ou poetisa? Certa feita, quase levei uma surra por ter chamado Cecília Meireles de poeta. O argumento para a surra era de que, como mulher, deveria ser chamada de poetisa. O primeiro termo demarcava terreno semântico de teor machista. Bobagens… Etimologicamente, “poeta” supera qualquer constructo cultural. Voltando ao poema, “Nós e as sombras”, a voz poética decanta em verso a melancolia, amiga da solidão, que se desfaz nas sombras que se espraiam implícita e explicitamente. E aqui está a palavra-chave desta postagem: sombras. Quem quiser que dê tratos à bola para entender o porquê!
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