Cartas

Faz (já!) mais de um ano, conclui um segundo estágio de pós-doutoramento em Coimbra. Foram seis meses recheados de coisas/momentos inesperadas, revisitações, lembranças e experiências. Tudo muito instigante e absolutamente gratificante, com o devido pedido de perdão pela involuntária rima pobre… Seis meses inesquecíveis. Já de volta aos trópicos, fiquei sabendo do lançamento de mais um livro do Pedro Eiras, jovem professor do Porto, também poeta e ensaísta. Dele já tinha lido A cura e Bach. Estes dois são impecáveis, como linguagem narrativa, como concepção de gênero, como exercício estético oriundo de uma cabeça pensante, brilhantemente pensante (De novo, com os devidos pedidos de perdão pela involuntária rima…). No primeiro, a figura do Papa se encontra com sombras de Freud, numa trama alimentada pelo drama de um psicanalista que vivencia crise de relação afetiva e certa descrença em seu métier… Quase um thriller, pois não acontece assassinato ou roubo que valesse a pena alimentar o suspense deste gênero. No entanto, o enredo, envolve e cativa, encanta e seduz, e o final, surpreendente, não deixa nada a desejar. No segundo, Bach, o músico, alinha as histórias que se escrevem e contam por meio de textos do mais diverso cariz. Numa espécie de homenagem velada, os dramas narrados se embalam ao som de cantatas anunciadas a cada capítulo. A curiosidade me fez ler este livro. Quem mo indicou enfatizou que ouvir as cantatas, quando da leitura de cada capítulo, além de elevar o espírito, empresta elegância e sofisticação a esta narrativa de difícil “classificação” – para quem não é capaz de viver sem uma…

Bem. Isso não é tudo! O livro de que vou falar dá coceira no cérebro, como eu gosto de dizer. Já na capa, dois elementos ilustrativos instigam a curiosidade (na edição portuguesa que adquiri): a figura de Fernando Pessoa e uma imagem – à maneira de marca d’água – que mostra um maço de papeis rabiscados e manchados, como que velhos. Mesmo sem saber, o inconsciente já solta as enzimas do prazer do suspense, da curiosidade. E abre-se a primeira página: primeira surpresa, o título do capítulo: “Breve explicação”. Num romance? Vá lá. Não é tão inusitado assim. Pode até ser “pós-muderno”… há quem queira assim… Mas a nota explica sobre a procedência a matéria que vai constituir a narrativa a ser lida: “Em 1995, numa ida a Paris, decidi procurar o antigo Hôtel de Nice, onde Mário de Sá-Carneiro viveu os últimos meses e se suicidou. O hotel figa em Pigalle, bairro vermelho da cidade…” (p. 7). Mário de Sá-Carneiro se matou. Eu sempre disse que foi com um tiro. O autor informa, mais adiante, que foi envenemanto. Isso é caso para pensar. Em se tratando de ficção, praticamente tudo se constitui mistério e se faz objeto de dúvida e especulação. Adiante… Ainda no âmbito da “explicação”, o autor informa que trabalhou com transcrições de cartas que Fernando Pessoa teria escrito para Mário de Sá-Carneiro, especificamente no período compreendido entre 1915 e 1916: “Durante as longas sessões de transcrição, num mometo em que Monsieur Lange se afastou, arrisquei fotografar uma carta com o telemóvel. (…). Apesar da evidente falta de qualidade, publico também neste livro essa única fotografia.” (p. 13). Desse pequeno trecho, deduz-se: há uma “personagem” chamada “Monsieur Lange; o autor transcreveu cartas e uma fotografia aparece no texto do romance (?). Interessante: isso prepara o leitor para o que vai ler.

Menor não é a surpresa ao ver, logo em seguida, depois da página com a foto, o início do segundo capítulo do livro que leva o nome de “Critérios editoriais”. Faz sentido: se houve uma transcrição, critérios para estabelecimento de texto se faz indispensável. Mas… num romance? Duplica-se a dúvida. Dobra-se a rasura do texto num subtexto que não emerge e faz-se pergunta: as cartas “transcritas” existem mesmo? De acordo com o capítulo anterior, sim. Mas… E pra completar, ao final do segundo capítulo, uma lista com quatro referências bibliográficas. Uma vez mais, a mesma pergunta: num romance? A repetição da pergunta se faz pertinente porque acredito que disto se trata: de um romance. Um romance que se conta, de fato, nos dois primeiros capítulos. A sequência das cartas, apresentada ao longo de 159 páginas, conforma outra história. Então são duas, as histórias contadas neste “romance”. A decisão de confirmar ou não esta hipótese fica a critério de seus leitores. Não me dei por vencido e fui procurar um dos volumes anunciados nas referências bibliográficas, de onde, diz o autor do livro, algumas cartas foram tiradas. Na verdade, duas delas são do punho de Fernando Pessoa endereçadas a Mário de Sá-Carneiro. Então…

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O título do livro pode ser tomado como uma provocação: Cartas reencontradas de Fernando Pessoa a  Mário de Sá-Carneiro. As duas cartas que, de fato, são do poeta ortônimo, têm sua correspondência documental registrada num outro volume, o que reúne as cartas de Mário de Sá-Carneiro para Fernando Pessoa.

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Se a leitura do livro de Pedro Eiras não chama a atenção de críticos mais sisudos, não será por falta de provocação. De outro lado, esta mesma leitura desconcerta as retinas – umas fatigadas, outras nem tanto, e ainda outras absolutamente virgens – que sobre as páginas do volume passeiam atentas, deslumbradas, estupefatas mesmo! Ave, leitura! E sendo, uma vez mais, repetitivo: fica o convite!

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4 comentários sobre “Cartas

    1. Não deixe de ler. Para além de revisitar o pensamento de Pessoa, o autor do livro se excede na qualidade crítica implícita. Não vai se arrepender! Abraço e bom final de semana. Obrigado pelo elogio!

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