Certo/Incerto

O susto da morte. Susto? Susto, sim senhor!

Ainda lembro-me bem de certa noite, em Belo Horizonte, quando, acompanhando um amigo inesperadamente avisado da morte do pai, fazia a ronda pelas funerárias da cidade, de carro, prestando solidariedade. Numa das paradas, enquanto ele se informava no interior do prédio da Santa Casa de Misericórdia, fiquei caminhando diante das capelas do velório da mesma Santa Casa. Deparei-me, numa delas, com um corpo solitário, sujo, mal vestido. O rosto do cadáver tinha um esgar de dor, sofrimento, um espasmo, aparentemente. Fiquei perguntando onde teria ido o “sopro de vida” que fazia com que aquela “pessoa” sentisse dor, fome, frio… Onde?

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De outra feita, acompanhei o período de internação de meu irmão. Dia sim, dia não, ia ao hospital e estava com ele, conversando, animando, tentando acreditar que algo de bom sairia dali. Que a cura dar-se-ia. Que ele voltaria a ter a coloração comum de pele, no lugar daquele amarelão assustador. Duas semanas se passaram e ele se foi, destruído pela depauperação física. Um quadro triste, muito triste. De novo, no dia seguinte, a mesma pergunta ecoou, sem resposta.

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Hoje, a manhã do Brasil e, em parte, do mundo, começou com uma notícia absolutamente inesperada: um acidente aéreo. Um time de futebol, praticamente inteiro, morto num acidente: a queda de um avião. As especulações começaram algumas horas depois. O exagero televisivo na transmissão da dor (indizível) de pessoas absolutamente anônimas, enfrentando um momento igualmente anônimo, porque inexplicável, em que pesem as toneladas e toneladas de impressões, constatações, comprovações e demonstrações de responsabilidade. Por terceira vez, o eco da ausência de resposta à mesma pergunta.

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Detalhe

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Já escrevi sobre “José Matias”, um conto do Eça de Queiroz. Ou será Queirós? Vai saber. Já vi estas duas formas e imagino que deve haver mais uma ou duas perambulando por aí… Fato é que, salvo tropeço de memória, já escrevi sobre o conto. Uma história estranha. Um homem que se apaixona por uma mulher, de maneira quase santificada, e que se nega a consumar seu amor, apesar da insistência dela – a partir de certo ponto do relato. Estranho. Por duas vezes ela fica viúva e ele… nada. Ela insiste. Vai atrás dele. E ele… nada. Por fim, ela se casa com um sujeito que, em nada e por nada, se aproxima de seus dois primeiros maridos: um velhote rico e cheio de erudição, classe, status; um homem viril e altaneiro, alegoria perfeita do macho. O apontador, o terceiro marido da “divina Elisa”, é uma figura apagada. Muito apagada. Não tão apagada a ponto de desaparecer na narrativa. Ao contrário, desponta como estrela radiante na sequência final da história, quando do velório de José Matias. Deposita um ramo de flores sobre o esquife do protagonista, a pedido da “divina Elisa”. Estranho…

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Deixando as explicações de lado, outro dia pus-me a pensar um detalhe aparentemente inócuo deste conto. Há um artigo muito bom de Ana Paula Ferreira – devido ao “sistema” norte-americano de contratação de professores nas/das universidades norte-americanas, não sei por onde ela anda. Ela é portuguesa, mas vive nos Estados Unidos, faz muito tempo. Em seu artigo, ela associa a história de Eça ao pensamento de Platão. O que faz com brilhantismo e sedução. Minha humilde contribuição acrescenta o pensamento freudiano ao de Platão, com uma pitada de Nietzsche e sua ideia de “fracasso”. No fundo, pretendo sustentar hipótese de laços homoeróticos a unir José Matias e seus dois oponentes. A relação muda de perspectiva, quando os elementos são José Matias e o apontador. Mas isso fica para quem tiver interesse em ler os dois artigos (Vou ficar devendo as referências… Dr. Google negou-se a me auxiliar…). Voltando à vaca fria: o detalhe aparentemente inócuo a que me referi é que o narrador do conto, não nomeado, dirige-se a um interlocutor que não “interlocuta”. Ou seja, na primeira (Linda tarde, meu amigo!…) e na última (… Com efeito, está frio… Mas que linda tarde! ) frases do conto, sabe-se que ele está lá, mas ele não se manifesta. São dois homens que observam o féretro com o corpo de José Matias que vai baixar sepultura depois do périplo que vai ser relatado por esse narrador não nomeado. Ele me faz lembrar de Riobaldo. Esse detalhe pode render aproximação interessante. De um lado, a quase desfaçatez do narrador do conto; de outro, a surpresa inesperada do narrador do romance. Ou melhor, a surpresa inesperada que o narrador do romance coloca na reação do mesmo Riobaldo. Esta personagem icônica que, depois de anos passados, conta, para um interlocutor explícito e mudo, uma história que atravessa os tempos e os lugares por onde o mesmo narrador passou, numa espécie de saga à busca de uma resposta esclarecedora. No caso do conto, a mesma saga, mas em direção diversa: os observadores se debruçam sobre a inexplicabilidade das atitudes e reações do protagonista da história de Eça.

Fica a provocação!

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Cópia

Na onda de preguiça, cinismo (filosófico), ceticismo e mais umas quantas “qualidades” em que ando metido, resolvi reproduzir literalmente (Selecionar, copiar, colar) o texto que recebi de uma prima. Humor sofisticado, do tipo que não se encontra na televisão, nem em stand up‘s… Divirtam-se!

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Psicanálise 

Luis Fernando Verissimo na Terapia …

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. Durante quarenta anos, passei longe deles . Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses. Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um “consultório médico“, como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos: Na última quarta-feira, estávamos: 1. Eu 2. Um crioulinho muito bem vestido , 3. Um senhor de uns cinqüenta anos e 4. Uma velha gorda. Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados. O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime . Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do “Harmonia do Samba “? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala . Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina. E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido. Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava na quinta dezena em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse. Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha “viagem” na sala de espera. Ele ri… Ri muito, o meu psicanalista, e diz: – O Ditinho é o nosso office-boy. – O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades. – E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe. – “E você, não vai ter alta tão cedo….”

 

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