Detalhe

eca

Já escrevi sobre “José Matias”, um conto do Eça de Queiroz. Ou será Queirós? Vai saber. Já vi estas duas formas e imagino que deve haver mais uma ou duas perambulando por aí… Fato é que, salvo tropeço de memória, já escrevi sobre o conto. Uma história estranha. Um homem que se apaixona por uma mulher, de maneira quase santificada, e que se nega a consumar seu amor, apesar da insistência dela – a partir de certo ponto do relato. Estranho. Por duas vezes ela fica viúva e ele… nada. Ela insiste. Vai atrás dele. E ele… nada. Por fim, ela se casa com um sujeito que, em nada e por nada, se aproxima de seus dois primeiros maridos: um velhote rico e cheio de erudição, classe, status; um homem viril e altaneiro, alegoria perfeita do macho. O apontador, o terceiro marido da “divina Elisa”, é uma figura apagada. Muito apagada. Não tão apagada a ponto de desaparecer na narrativa. Ao contrário, desponta como estrela radiante na sequência final da história, quando do velório de José Matias. Deposita um ramo de flores sobre o esquife do protagonista, a pedido da “divina Elisa”. Estranho…

riobaldo

Deixando as explicações de lado, outro dia pus-me a pensar um detalhe aparentemente inócuo deste conto. Há um artigo muito bom de Ana Paula Ferreira – devido ao “sistema” norte-americano de contratação de professores nas/das universidades norte-americanas, não sei por onde ela anda. Ela é portuguesa, mas vive nos Estados Unidos, faz muito tempo. Em seu artigo, ela associa a história de Eça ao pensamento de Platão. O que faz com brilhantismo e sedução. Minha humilde contribuição acrescenta o pensamento freudiano ao de Platão, com uma pitada de Nietzsche e sua ideia de “fracasso”. No fundo, pretendo sustentar hipótese de laços homoeróticos a unir José Matias e seus dois oponentes. A relação muda de perspectiva, quando os elementos são José Matias e o apontador. Mas isso fica para quem tiver interesse em ler os dois artigos (Vou ficar devendo as referências… Dr. Google negou-se a me auxiliar…). Voltando à vaca fria: o detalhe aparentemente inócuo a que me referi é que o narrador do conto, não nomeado, dirige-se a um interlocutor que não “interlocuta”. Ou seja, na primeira (Linda tarde, meu amigo!…) e na última (… Com efeito, está frio… Mas que linda tarde! ) frases do conto, sabe-se que ele está lá, mas ele não se manifesta. São dois homens que observam o féretro com o corpo de José Matias que vai baixar sepultura depois do périplo que vai ser relatado por esse narrador não nomeado. Ele me faz lembrar de Riobaldo. Esse detalhe pode render aproximação interessante. De um lado, a quase desfaçatez do narrador do conto; de outro, a surpresa inesperada do narrador do romance. Ou melhor, a surpresa inesperada que o narrador do romance coloca na reação do mesmo Riobaldo. Esta personagem icônica que, depois de anos passados, conta, para um interlocutor explícito e mudo, uma história que atravessa os tempos e os lugares por onde o mesmo narrador passou, numa espécie de saga à busca de uma resposta esclarecedora. No caso do conto, a mesma saga, mas em direção diversa: os observadores se debruçam sobre a inexplicabilidade das atitudes e reações do protagonista da história de Eça.

Fica a provocação!

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