A última deste ano

 

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RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(ANDRANDE, Carlos Drummond de. Discurso de Primavera e outras sombras.)

images

 

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Imagem

th

De noite (ou no escuro!), todos os gatos são pardos…

De perto ninguém é igual…

Quem vê cara não vê coração…

As aparências enganam…

Por fora bela viola, por dentro pão bolorento…

O adagiário popular está repleto de expressões similares. Todas elas falam de aparência, de imagem. O verbete no dicionário, não deixa dúvidas, quanto a tratar-se de substantivo feminino, mas…:

– representação, reprodução ou imitação da forma de uma pessoa ou de um objeto; representação de seres que são objeto de culto, de veneração;

estampa, sem caráter de obra original ou rara, que reproduz temas diversos ou, mais esp., motivos religiosos;

– aspecto particular pelo qual um ser ou um objeto é percebido; cena, quadro;

 – reprodução invertida de um ser ou de um objeto, transmitida por uma superfície refletora;

 – reprodução estática ou dinâmica de seres, objetos, cenas etc. obtida por meios técnicos;

 – derivação: sentido figurado: pessoa muito bonita; cromo; aquilo que apresenta uma relação de analogia, de semelhança (simbólica ou real); réplica, retrato, reflexo; pessoa que representa, simboliza ou faz lembrar alguma coisa abstrata; personificação; opinião (contra ou a favor) que o público pode ter de uma instituição ou personalidade;

 – na rubrica: literatura: qualquer maneira particular de expressão literária que tem por efeito substituir a representação precisa de um fato, situação etc. por uma alegoria, visão, evocação etc.;

 – na rubrica: matemática: elemento determinado pela aplicação de uma função em um determinado ponto;

 – na rubrica: óptica: representação de um objeto que emite ou recebe luz e que é formada por raios luminosos que passam por uma lente, espelho ou qualquer outro sistema óptico;

 – na rubrica: psicologia: representação ou reprodução mental de uma percepção ou sensação anteriormente experimentada;

 – na rubrica: psicologia: representação mental de um ser imaginário, um princípio ou uma abstração.

autor

Não é bolinho! No fundo (ou, como dizem os portugueses, “ao fim e ao cabo”) o ponto de fuga é a ideia de imagem. Pela multifacetada gama de nuances semânticas do termo, imagine-se (ops!) a igualmente multifacetada e inumerável gama de variações de sentido que se pode atribuir a seres, acontecimentos, fatos, ideias, etc., em associação com tal substantivo. Para além disso, note-se que se trata de substantivo de gênero feminino, o que levaria a pensar numa outra plausível gama de mais complexa e intrincada composição semântica: a ideia de sedução. Deixo de lado, por ora, tal variação. Parto da ideia de imagem para comentar, ainda que brevemente, um livro que estou terminar de ler. Academicamente falando, deveria terminar a leitura antes de ousar dizer alguma coisa sobre ele, o livro. Não estou na “academia” aqui… O livro se chama “Conquistadores: como Portugal criou o primeiro império global”. Seu ator, Roger Crowley – autor e pesquisador de origem maltesa, estudou Literatura Inglesa em Cambridge e viveu por algum tempo na Grécia e em Istambul, escreveu vários livros populares sobre guerra naval e conquistas de potências europeias nos tempos modernos. Desde 2005, vive em Gloucestershire -, faz uma leitura inesperada, instigante, detalhada e criativa da História das conquistas Portuguesas, sobretudo a já cantada em versos camonianos. O estabelecimento do caminho marítimo para as Índias, feito fenomenal dos lusitanos, é também objeto do escrutínio do autor que, na contramão da História oficial – consideradas aqui as versões documental e literária -, relê uma sequência de episódios, enfatizando a crueldade e a sanha conquistadora dos portugueses neste périplo que definiu os rumos de uma Europa em franco caminho para a Modernidade. Lê-se o livro como se lê um romance bem escrito, muito bem escrito. A intimidade com que trata as personagens – aqui, em seu duplo sentido – é de uma delícia anos-luz distante de qualquer palavra que se possa desejar usar. Não há como descrever. A facilidade com que conduz o leitor pelos meandros do poder naval em pleno séculos XV, XVI e XVII – como eu disse, o rigor acadêmico em sua ausência, aqui, me dá asas… e a imaginação pode voar livre e desimpedida! – faz com que certas “verdades” sejam definitivamente alocadas na categoria de imponderavelmente relativas e discutíveis. Aliás, o propósito do livro pode ser também compreendido como um exercício de afirmação deste axioma. De um jeito ou de outro, para o bem e para o mal, a “IMAGEM” dos portugueses não permanece inalterada depois da leitura do livro. Não ouso afirmar que ela fica manchada. Também não aposto na solene grandiloquência da possibilidade de cristalização de outra imagem: a de heróis. Tudo é absolutamente relativo, como bem demonstra o texto de Crowley. Cada passo, da História, aparece acompanhado, na história, por fatos que podem ou não ser ficcionais – ou inventados se assim o quiser o leitor -, inesperados e reveladores de maldade, da crueldade, do sadismo: tais peculiaridades não são assim tão correntes nas infinitas leituras que até hoje se produziram sobre este passo da História mundial. Unindo o termo “conquistadores” e a expressão “império global”, o intencional sarcasmo hermenêutico a que se entrega o pesquisador de língua inglesa não deixa dúvida sobre o seu ímpeto: contar “outra” história. E nisto não vai nenhuma intenção de desmerecer a História. Longe disso, muito longe. É preciso ter inteligência muito rasa para tomar literalmente as palavras do autor, como bastião de uma derrubada do caráter oficial que nos foi legado, depois de cantado em verso pelo poeta português. O fato permanece: na memória, nos documentos, nos textos que sobre eles se debruçam e a partir dele se escrevem e se escreveram. Eles permanecem como a camada de cera no “bloco mágico”, para lembrar Freud. O livro é extraordinariamente bem escrito, bem fundamentado e delicioso aos olhos de quem sobre ele desliza a atenção das retinas, mesmo que cansadas. Vale a pena!

livro

Escuridão

Hoje, no Jornal Hoje (corro o risco de ser chamado de coxinha por assistir a este canal. Não me importo. Aliás, coxinha é um salgadinho gostoso, unanimidade nacional, está presente em todo tipo de festa. Logo… Espero que quem ler estas linhas tenha acuidade para perceber a ironia…

Pois bem, voltando ao jornal, estava eu a ver o noriciário e escuei a esfuziante comunicação do âncora a anunciar o Verão, como se fosse uma efeméride. Fiquei meio assim… Por que tanta celebração? Por que tanta euforia? Eu que não gosto nem um pouco e calor (ainda que tenha que confessar que já tive meus dias de bacon: ficar deitado tostando ao sol, quando ainda acreditava que um bronzeado era um aforidisíaco… Mais uma vez, conto com a ironia). Não vi razão para tanto. Daí pensei nas nuvens acinzentadas que insistiram em marcar prssença no horizonte de expectativas do ano que finda… Daí que, lendo um livro (A poeira da glória, Martim Vasques da Cunha, Rio de Janeiro, Record, 2015) deparo-me com um trecho do poema de Mário de Andrade que vai aqui reproduzido. Trata-se de Meditação sobre o Tietê. Ele revela bem um pouco do meue stado de espírito numa época do ano em que, geralmente, todo mundo se diz feliz e deseja a alegria, a paz, a prosperidade, o amor e mais, muito mais, pelo Natal. O que reproduzo aqui é apena a primeira estrofe do pome. Degustem!

tiete
Água do meu Tietê,

Onde me queres levar?

– Rio que entras pela terra

E que me afastas do mar…

É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável

Da Ponte das Bandeiras o rio

Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.

É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,

Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta

O peito do rio, que é como si a noite fosse água,

Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões

As altas torres do meu coração exausto. De repente

O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,

É um susto. E num momento o rio

Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,

Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam

Agora, arranha-céus valentes donde saltam

Os bichos blau e os punidores gatos verdes,

Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,

Luzes e glória. É a cidade… É a emaranhada forma

Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.

E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.

Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,

Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam

Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.

É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado

É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.

Meu rio, meu Tietê, onde me levas?

Sarcástico rio que contradizes o curso das águas

E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,

Onde me queres levar?…

Por que me proíbes assim praias e mar, por que

Me impedes a fama das tempestades do Atlântico

E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?

Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,

Me induzindo com a tua insistência turrona paulista

Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!…

mario

Mito

andreia

 

Quase 35 anos depois ela está viva. Vivíssima. Eu diria que, praticamente, reencarnada na pele de uma atriz que, como se diz por aí: deu conta do recado. Apesar dos lábios mais carnudos e um ou outro detalhe “técnico”, o desenho da atriz faz mais que jus à artista, a cantora, a mulher, ao mito: Elis Regina. Quase 35 anos e eu ainda me lembro daquela tarde de janeiro quando, voltando do intervalo do almoço, entrei na loja em que trabalhava e escutei no rádio a notícia triste. Os funcionários da oficina de reparos de móveis me ouviram chegar e subiram e, condoídos, tristes, cabisbaixos, vieram trazendo o rádio e me abraçaram como se eu fosse parente próximo da “Pimentinha”. Elis tinha sido encontrada morta em seu apartamento em São Paulo. Semanas depois, uma conhecida minha de Belo Horizonte dizia-me te visitado um amigo dela, muito próximo da Elis, que, segundo a minha conhecida, teria sido o sujeito que levou a cocaína que a Elis misturou com vermouth na golada fatal. Dizia, então, a amiga que  sujeito estava arrasado, sentindo-se responsável… O filme, faz sóbria homenagem na referência ao episódio final. O relance do nome de Milton Nascimento (que aparee na lombada de uma fita cassste e cuja voz se ouve, ao fundo, num solfejo delicado) é de uma elegância que faz ter vontade de quebrar a cara do capista da revista ISTOÉ que estampava de braços abertos, como num crucifixo. A manchete era horrorosa, tendenciosa e absolutamente deselegante. Uma gafe imperdoável para uma pessoa do quilate da cantora gaúcha. Andreia Horta impressiona. Mais que impressiona, consegue, galhardamente, encarnar a insubstituível Elis. Sim, insubstituível. Diz o adagiário popular que ninguém é insubstituível. Desculpe o autor do aforisma, mas Elis É insubstituível!!! A trilha sonora do filme é impecável. A fotografia leva a audiência a confundir Elis e Andreia, confundir Andreia e Elis. Há momentos em que é praticamente impossível dizer quem é quem. Exagero de fã? Pode ser, mas sincero. O respaldo está na produção que conseguiu pontuar momentos chave na trajetória daquela que deu uma guinada de 180º na música popular brasileira – claro que faltou muita coisa, para cada um de nós há detalhe que poderia ser acrescentado, como o desenho do Henfil, não o que é mostrado no filme, mas outro, o que foi publicado quando de sua morte, como numa condolência suplicante do cartunista. O filme, um tour de force admirável e consequente, esmerado, sincero, elegante, mais que bom. O eixo de referência da cultura musical brasileira não apenas deve muito a Elis, não teria tido a história que teve não fosse ela. Elis, a mulher. Elis, a cantora, a mãe, a artista. E também a Andreia: que sensibilidade, que entrega, que identificação. Acabei de ver o filme, ainda sinto o calor da hora, o coração selvagem do qual cheguei perto, uma vez mais, ao som da voz da Elis e da pele de Andreia. Gostei!

elis