Escuridão

Hoje, no Jornal Hoje (corro o risco de ser chamado de coxinha por assistir a este canal. Não me importo. Aliás, coxinha é um salgadinho gostoso, unanimidade nacional, está presente em todo tipo de festa. Logo… Espero que quem ler estas linhas tenha acuidade para perceber a ironia…

Pois bem, voltando ao jornal, estava eu a ver o noriciário e escuei a esfuziante comunicação do âncora a anunciar o Verão, como se fosse uma efeméride. Fiquei meio assim… Por que tanta celebração? Por que tanta euforia? Eu que não gosto nem um pouco e calor (ainda que tenha que confessar que já tive meus dias de bacon: ficar deitado tostando ao sol, quando ainda acreditava que um bronzeado era um aforidisíaco… Mais uma vez, conto com a ironia). Não vi razão para tanto. Daí pensei nas nuvens acinzentadas que insistiram em marcar prssença no horizonte de expectativas do ano que finda… Daí que, lendo um livro (A poeira da glória, Martim Vasques da Cunha, Rio de Janeiro, Record, 2015) deparo-me com um trecho do poema de Mário de Andrade que vai aqui reproduzido. Trata-se de Meditação sobre o Tietê. Ele revela bem um pouco do meue stado de espírito numa época do ano em que, geralmente, todo mundo se diz feliz e deseja a alegria, a paz, a prosperidade, o amor e mais, muito mais, pelo Natal. O que reproduzo aqui é apena a primeira estrofe do pome. Degustem!

tiete
Água do meu Tietê,

Onde me queres levar?

– Rio que entras pela terra

E que me afastas do mar…

É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável

Da Ponte das Bandeiras o rio

Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.

É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,

Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta

O peito do rio, que é como si a noite fosse água,

Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões

As altas torres do meu coração exausto. De repente

O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,

É um susto. E num momento o rio

Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,

Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam

Agora, arranha-céus valentes donde saltam

Os bichos blau e os punidores gatos verdes,

Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,

Luzes e glória. É a cidade… É a emaranhada forma

Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.

E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.

Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,

Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam

Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.

É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado

É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.

Meu rio, meu Tietê, onde me levas?

Sarcástico rio que contradizes o curso das águas

E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,

Onde me queres levar?…

Por que me proíbes assim praias e mar, por que

Me impedes a fama das tempestades do Atlântico

E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?

Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,

Me induzindo com a tua insistência turrona paulista

Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!…

mario

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3 comentários sobre “Escuridão

  1. Não há mais coxinhas, ou mortadelas, segundo o facebook, o grande guru dos tempos “modernos”. Somos todos pamonhas…(sic) Ótima alegoria: um momento de luzes e beleza e ilusão, e então voltam a sujeira, “o ólio”, o ódio, a tristeza, o marasmo, a perfídia, a intolerância, as mazelas de sempre. E o rio segue… Um Natal normal e genuíno para você! Beijinho.

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