A moeda

moeda

Vai se enganar quem está esperando por um texto que fale de dinheiro, de numismática ou de economia e quejandos… Engano redondo. Redondíssimo. A metonímia aqui é por conta de expressão popular já há muito desgastada, em que pese sua permanência no sentido prático de quase tudo: “toda moeda tem dois lados”. Cara ou coroa, par ou ímpar, preto ou branco, claro ou escuro, doce ou amargo… y tako dalje!

ramon

Deito falação por conta de dois filmes que acabo de ver, em seguida. Um, aparentemente produzido para a televisão. Não sei quem dirigiu, não sei quando foi feito, não conheço nenhum dos atores que nele trabalharam. O nome que o canal de televisão anuncia é Bom dia, Ramón! (Guten tag, Ramon, no original). A história gira em torno de um rapaz mexicano que, seguindo uma dica de um amigo se manda para a Alemanha, em busca da meia irmão do amigo que se surpreende quando recebe o telefonema de Ramon. A tal meia irmão jamais aparece. Os dramas vividos por Ramos ao chegar em solo alemão, sem saber uma única palavra do idioma de Goethe, sem dinheiro, sem documento, sem conhecer ninguém. Ao ser escorraçado por um morador de rua, tem em sua defesa uma senhora idosa que lhe dá abrigo. Ela mora num prédio pequeno com outros idosos aposentado que vivem da seguridade social (na Alemanha!!!). Entre eles há um morador que não gosta do rapaz alemão. A convivência entre Ramon e o grupo de idosos vai  aprofundando. Ele é um tipo faz tudo no prédio e todos se tomam de carinho e atenção. Até que um dia ele é preso porque foi denunciado pelo velhote que dele não gostava. A senhora que o abrigou por primeira vez resolve enviar todas as suas economias para ele. O rapaz, já em sua terra Natal, sorri de felicidade pois, enfim, vai poder cuidar melhor da mãe e da avó!.

sully

O ouro filme se chama Sully, no original. Na tradução tropical, acrescentaram um aposto “o herói do Rio Hudson!. Uma dessas bobagens que, na cabeça de alguns tapados, chama mais audiência. O nome do piloto basta para o drama que se desenrola. Piloto experiente pousa forçadamente nas águas do Rio Hudson, na altura de New Jersey e sai ileso, juntamente com os 155 passageiros e a tripulação. Foi considerado um milagre. Sem muito exagero na dose de empáfia e moralismo, o diretor consegue mostrar a tensão do drama do piloto que se vê objeto de “investigação” que soa falsa, forçada e recheada de segundas, terceiras e quartas intenções. É só ver o filme para ver.

cinema

Dois filmes. Duas histórias. Duas atitudes. Duas vidas. Duas experiências humanas. Os opostos se explicitam e as duas faces de uma mesma moeda se consolidam…. Basta ter olhos de ver… Perfeito seria poder ver essas películas num CINEMA. Mas já não os há, desafortunadamente. Hoje existem apenas as famigeradas salas de projeção de shopping: com todos os estereótipos: bilheteiras automáticas, a pipoca, o refrigerante, a falta de educação da plateia… uma chatice. Resta ver pela televisão, pela internete ou em dvd…

Ainda uma vez

Ainda não acabei de ler o livro de Martim Vasques da Cunha. Um cartapácio de 628 páginas de puro deleite para os olhos e o cérebro de qualquer leitor interessado. Ele leva o título de A poeira da glória: uma (inesperada) história da literatura brasileira. Atenção: só usei “cartapácio” por soar bem, me agrada, é uma palavra bonita, conspícua, elegante. Nada de pejorativa aqui. O livro de Martim, até onde o li, é estupendamente gostoso, ácido, demolidor, sensato, vertical e abrangente. Fez-me lembrar da História da Literatura Brasileira (outro cartapácio!), de Carlos Nejar, de que gosto imenso. Sei que muita gente, mas muita gente mesmo, torce o nariz para o livro do Carlos Nejar. Imagino se puserem os olhos no livro de Martim. De um jeito ou de outro, gosto dos dois. Recomendo os dois. Mesmo! De verdade! Ainda quero falar sobre esse livro aqui, o do Martim, mas em outro momento. Por conta dele, no entanto, só vou registrar o trecho de um poema de Mário de Andrade que ele analisa. Faço o registro e deixo qualquer comentário circunscrito à esfera da possibilidade. Afinal, hoje é sábado…

martim

Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei
Todos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!
E eu não sabia! eu bailo de ignorâncias inventivas,
E a minha sabedoria vem das fontes que eu não sei!
Quem move meu braço? quem beija por minha boca?
Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração?
Quem? sinão o incêndio nascituro do amor?…
Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras,
Bardo mestiço, e o meu verso vence a corda
Da caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e enrouquece
Úmido nas espumas da água do meu rio,
E se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo Amor.
Por que os donos da vida não me escutam?
Eu só sei que eu não sei por mim! sabem por mim as fontes
Da água, e eu bailo de ignorâncias inventivas. (ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, p. 542, v. 1.)

mario

Retorno

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Faz algum tempo, numa aula sobre Eça de Queirós (ou será Queiroz?) comecei a falar sobre uma leitura comparativa que eu tinha feito entre dois textos do autor português – A cidade e as serras e “Civilização” – a partir do fato de que primeiro poderia ser  lido como um desenvolvimento do segundo. Neste sentido, a conclusão do enredo, em ambos poderia apontar para cartas dose de contradição no discurso ficcional de Eça. Foi quando este aluno, Emmanuel Santiago – hoje doutor em Literatura Brasileira – pediu a palavra e começou a falar. Cruzei os braços e escutei. Quase uma hora de observações pertinentes, brilhantes, instigantes e muito vivazes. Fiquei impressionado, tanto que escrevi uma comunicação para apresentar num congresso e depois o publiquei, como artigo. Segue a primeira versão, a do congresso, com, mais, uma vez, meus cumprimentos admirados pelo brilhantismo desse sujeito mais que inteligente, o Emmanuel.

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Entre o campo e a cidade: ou, de uma sabedoria desconhecida

 Será isso a sabedoria? Escrever eruditamente sobre alguns autores bem selecionados, de um passado longínquo ou mais próximo, que chegaram até nós duvidosamente autênticos após séculos de releitura e desgaste, (o que terá sido autêntico?) e sobre os quais já há pouco a dizer de original ou de diferente. Será isso a sabedoria que nos falta, quando nem sequer sabemos por que gostamos do que não gostamos, por que reduzimos a lixo tudo o que tocamos, por que dilapidamos todo o nosso esforço para sobreviver, pagando contas nos supermercados globalizados, de artigos horríveis e utilidade duvidosa… Será isso a sabedoria?

Toda a grande literatura do passado e até do presente será realmente mais valiosa que um detergente para lavar roupa com grânulos azuis, com ante ermes, com aditivos para avivar as cores e amaciantes para agradar à pele e perfumes para o prazer do nariz, que deve ser usado numa máquina com telecomando? Será isso a sabedoria que os gregos  não tiveram nem imaginaram?

Ponho de lado uma elegante caneta branca, de bom design, barata e descartável, mas penso numa barroca pena de pato, bem afiada e preparada para escrever, ou numa cânula em bizel para gravar no barro macio os caracteres cuneiformes. Que ganho eu com isso, além duma lembrança do que não vi? Será isso a sabedoria?

E.M.de Melo e Castro, Politicamente correto, Discutindo literatura, ano 1, n.2, São Paulo, 2005, p.18.

A intenção inicial deste trabalho é proceder a uma leitura comparativa entre dois textos de Eça de Queiroz: “Civilização” e A cidade e as serras. A leitura comparativa teria como ponto de fuga a Adicionar ao dicionário do narrador em ambos os textos. Este aspecto, ainda que porventura muito veiculado por outras leituras igualmente comparativas, constitui, a meu ver, um ponto de articulação interessante para a discussão de um certo contexto cultural da terra lusitana: o que se instaura nas letras portuguesas, a partir dos “efeitos” do pensamento e da ação da geração de 70. Neste sentido, haveria a possibilidade de se reler as duas narrativas, como espaço de articulação de discursos que, por força da atuação do narrador, acabam por se confrontar e estabelecer uma rede de indefinições e, por que não, contradições, nas interpretações mais corriqueiras do texto do conjunto de obra de Eça.

Ainda que partindo de pressupostos já visitados e operacionalizados, a leitura aqui pretendida ousa anunciar um horizonte de expectativas um tanto mais alargado. Este, na economia da narrativa realista do autor português, interfere em sua fortuna crítica de maneira a questionar os pressupostos político-ideológicos por detrás do discurso ficcional. Isto, num sentido muito particular: o de colocar em questão a afirmação de um processo de (re)valorização da terra, como uma saída para os impasses que a Modernidade começava a apresentar para a cultura portuguesa, à altura da publicação dos dois textos aqui epigrafados.

No entanto, problemas que fugiram a meu controle, impediram-me de proceder à comparação como idealizada. De fato, o que vai aqui explicitado é apenas uma primeira parte do trajeto esboçado em projeto, quando da ideia de escrever este texto. De qualquer maneira, este pequeno trecho da comparação já aponta para as principais redes axiomáticas da leitura pretendida. É, ao fim e ao cabo, um exercício de leitura do trecho do celebrado autor português que, sem querer me demorar, causa coceiras no cérebro de quem se põe a deslizar a vista sobre suas linhas. Acrescento, ainda, aqui, que a versão dos textos que aqui compulso fazem parte do primeiro volume das Obras de Eça de Queiroz, coleção editada por Lello & Irmão, editores; na cidade do Porto, sem  a indicação da data.

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Foi numa quinta-feira, durante os dois primeiros horários de aula. Não fazia frio nem calor. Os alunos estavam costumeiramente desinteressados e a conversa girava em torno da obra de Eça de Queirós. O tópico específico tratava da relação da obra deste escritor com a História portuguesa, marcada, naquele século 19, pela Questão Coimbrã. Não havia como despertar mais interesse que o costumeiro. Vá lá. Lembrei-me então de uma observação alheia, que dizia da minha incapacidade de lecionar Literatura Portuguesa, pelo simples fato de que eu gosto de usar vírgulas, em abundância. Dei tratos à bola e comecei a falar de proximidades e distâncias no contexto de um conto de Eça: “Civilização”. O que alimentava a minha falação naquele momento era, exatamente, o fato de que o texto do conto apresenta apenas “parte” de relato que seria desenvolvido num texto mais longo. Este fato, complexo e rico de detalhes, deixava aberta uma brecha por onde um dos alunos, inesperadamente, penetrou. Quando foi comentado o final da narrativa, o estudante levantava a hipótese de que todo um discurso “revolucionário”, desenvolvido pelo ficcionista português no texto do conto, podia ressumar uma ideologia passadista, para não dizer saudosista, o que faria do tópico uma fonte de mais dissensão.

O fato aqui é que a abordagem do estudante não deixa de transpirar coerência e interesse. Ele dizia que por Jacinto permanecer nas serras, deixando abismado o amigo José Fernandes – por conta de sua mudança de comportamento e de compreensão do mundo –, o leitor poderia ser levado a concluir que se tratava de uma narrativa que celebrava o “retorno” à terra, a volta dos valores campesinos, tão causticamente ironizados pelo mesmo escritor de O primo Basílio e A ilustre casa de Ramires. O que dizer acerca disso? Fiquei prestando atenção, enquanto o estudante falava, e, de repente, me dei conta de que tudo isso não passa de especulação, não a especulação gratuita e superficial, mas uma outra, que chega a levar o leitor a imaginar a possibilidade de deslindar um mistério, ou encontrar um ponto de fuga definitivo. Fiquei prestando atenção, enquanto tentava organizar as idéias ouvidas, em diálogo, nem sempre surdo, com as minhas, com o intuito incontornável de deixar o raciocínio suficientemente armado e livre para prosseguir com a proposta de discussão.

Antes de tratar da atualidade dessa novela, entretanto, talvez valesse a pena situá-la melhor no seu contexto de origem. Para tanto, seria necessário observar que, para além de uma tipologia em que se polarizassem a cidade e o campo, esta obra nos apresentaria uma discussão sobre as possibilidades de um direcionamento para a sociedade burguesa, em que o valor supremo é o dinheiro e tudo o que ele pode comprar. Uma solução finissecular foi o Decadentismo. Isso pode ser percebido quando se lê em certas narrativas de então, uma recusa à vida em sociedade, na tentativa de criar um mundo à parte, regido pela estética e pelo gosto mais refinado: a casa de Jacinto é um exemplo:

Nesse palácio (floridamente chamado o Jasmineiro) que seu pai, também Jacinto, construíra sobre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal – existia, creio eu, tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens têm criado, através da incerteza e dor, desde que abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das Água Fáceis, o doce país ariano. (p.744)

A casa constitui um ambiente controlado, em que tudo caminha na direção seguida pelo espírito burguês, mantendo o sujeito português preservado de qualquer contato com a vida social e com as formas comuns de sentir e de agir. Ora, em “Civilização”, o protagonista é um dândi, um homem rico, que decide criar, numa casa, um ambiente muito diferenciado. Entretanto, seu caminho não é o isolamento, mas a integração. Assim, Jacinto busca integrar-se completamente no novo mundo burguês, financista e industrial, por intermédio do culto da informação e da técnica modernas. Na mesma medida, ele, por algum tempo, pensará que é pela ciência e pela tecnologia que poderá potencializar mais as suas faculdades espirituais. Jacinto, depois de adquirir todas as novidades do conhecimento e da tecnologia, termina por ficar completamente inapetente – fracassa na consecução do seu objetivo:

Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de seda frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.

E era este bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e filósofos. Que faltava a este homem excelente? (…) E todavia bocejava constantemente, palpava na face com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! (…) Era doloroso testemunhar o fastio com que ele, para apontar um endereço, tomava o seu lápis pneumático, a sua pena eléctrica – ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telefónico!…  Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o brado constante que lhe ia na alma: – Que maçada! Que maçada! (…) Debalde! Mesmo de explorações tão cativantes como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava mais murcho, com bocejos mais cavos! (…)

Mas porque rolara assim a tão escura desilusão – o saudável, rico, sereno e intelectual; Jacinto? O velho escudeiro Grilo pretendia que “sua exa. sofria de fartura”! (p.748-749)

O fastio de Jacinto é por demais sintomático, de tal maneira explícito, que não há o que acrescentar ao que sobre ele já foi dito. O texto de Eça, contudo, não se encerra no momento em que se demonstra a falência do projeto de Jacinto. Trata-se aqui, como se pode ler, de uma história de salvação, com final feliz, desenvolvida em três momentos bem marcados: uma vivência de caráter “infernal”, uma experiência de redenção e, entre ambas, um momento de purificação, de iniciação numa nova realidade. No que diz respeito à questão ideológica implicada por essa estrutura triádica, diferentemente do que pareciam acreditar alguns dos seus críticos, “Civilização” é um texto cuja atualidade só tem aumentado com o passar do tempo. A ideia de que qualquer crítica à ciência e à tecnologia representa um ponto de vista reacionário e passadista já não faz sentido nos dias que correm. Tampouco é sustentável atribuir imediatamente à nostalgia da vida rural – em que sobrevivem valores pré-industriais – uma coloração apenas regressiva.

Nesse quadro, a narrativa de Eça passa por uma nova leitura e valorização, e os discursos que faz a personagem Zé Fernandes, tentando mostrar a Jacinto todos os aspectos negativos da “super civilização” a que seu amigo sofregamente parece se agarrar, tem uma atualidade e um fascínio que não podia ter para os homens de há quatro décadas. Da mesma forma, também o escritório de Jacinto, que recebe e difunde tanta informação inútil, é uma divertida versão oitocentista de uma central informática, antecipando o que hoje sucede já em muitas casas e escritórios, invadidos pela banalidade da comunicação interativa por meio da Internet e pela profusão de canais de televisão a cabo.

Não existe nessa novela uma proposta de recusa completa à civilização e aos seus produtos tecnológicos. Trata-se, antes, de uma recusa à tecnologia (e à cidade, entendida como o lugar de sua produção), enquanto forma de relação com o mundo, enquanto alternativa à vida “natural”. Porque, afinal, é disso que trata a narrativa: da contraposição entre o “natural” e o “artificial” e da necessária absorção de um pelo outro. Daí que na cidade seja o “artificial” que triunfe, absorvendo o “natural”, ao passo que no campo idealizado, que é a serra de Jacinto, a vitória seja do “natural”. Este, uma vez triunfante, pode sem perigo absorver aquilo que lhe seja necessário do mundo “artificial”, técnico. Entretanto, embora o sentido geral do enredo seja muito claramente perceptível, é preciso observar que a narrativa se faz por intermédio de um narrador que é também uma personagem importante: Zé Fernandes. De fato, não é possível ignorar que a representação de Jacinto, bem como dos seus ambientes e ideias, sejam veiculadas e filtradas pelos olhos e pelas palavras desse narrador astuto, que tem uma tese a demonstrar:

Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros – que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante natureza – os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ônibus, a trama encarceradora da vida urbana… Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges. (p.765)

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Louvado seja Deus! O meu Jacinto estava, enfim, provido de civilização! Subi contente. Na sala nobre, onde o soalho fora composto e esfregado, encontrei uma mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com louça branca de Barcelos e cadeira de palhinha, orlando as paredes muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. (p.758)

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Eu escutava, assombrado, esse Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao surge et ambula que lhe tinham sussurrado as águas e os bosques de Torges, ele erguia-se do fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de Poole, et ambulabat, e começava a ser ditoso. (p.759)

Os adjetivos, no conjunto do relato falam por si. Não cabe aqui esticar este assunto, inclusive por questões de dimensão argumentativa. No entanto, pode-se ter como seguro que Zé Fernandes, quando bem observado, revela-se um narrador ambíguo: dissimulado quanto ao que de fato sabe e pensa; contraditório algumas vezes, fascinado sempre pela cidade que, no nível do discurso, renega e combate. Há, sobretudo, um traço importante na personalidade desse narrador, que é uma ponta de ressentimento que ora aflora como provincianismo, ora como timidez frente ao grand monde urbano e civilizado. Ora, como é Zé Fernandes, o narrador, quem defende, desde o começo, a tese de que o enredo acaba por provar, as suas intenções e a sua caracterização psicológica não podem passar desapercebidas ao leitor que quiser obter desse texto inteligente todo o prazer que ele pode propiciar.

O conto é escrito em primeira pessoa por um Zé Fernandes, personagem secundária. O narrador centraliza seu interesse na figura de Jacinto, descrevendo-o como um homem extremamente forte e rico, que tem seus proventos recolhidos de Portugal, onde a família possui extensas terras, desde os tempos de D. Dinis, com plantações e produção de vinho, cortiça e oliveira, que lhe rendem bem. Zé Fernandes foi chamado pelo tio e parte para Guiães e, somente após sete anos de vida na província, retorna e reencontra Jacinto. A partir daí, o narrador observa, com maior atenção, o amigo. Nos raros momentos em que conseguiam passear, confessava ao amigo que o barulho das ruas o incomodava, a multidão o molestava: ele atravessava um período de nítido desencanto. Alguns incidentes contribuíram sobremaneira para afetar o estado de ânimo de Jacinto: o rompimento de um dos tubos da sala de banho, fazendo jorrar água quente por todo o quarto, inundando os tapetes, foi o bastante para aparecer uma pilha de telegramas sobre o acontecido.

Jacinto não “retorna”, quem voltou foi Zé Fernandes e, sentindo-se abandonado e entediado, descobriu uma porção de fantoches a viverem uma vida falsa e mesquinha. Percebeu que os antigos conhecidos eram seres frágeis e vazios, idênticos entre si e massas impessoais, amorfas, feitas para agradar ou desagradar os outros conforme seus interesses. Não suportando a cidade, retornou a Portugal. Este serrano que anteriormente valorizava os encantos da civilização foi tomado pelos mesmos sentimentos de Jacinto e confirmou uma simples verdade: no fundo, reabilitou Eça de Queirós com o seu Portugal.

Se a ambiguidade do narrador pode ser percebida, não há por que negar ao leitor a dúvida sobre a veracidade de seu discurso, quando da finalização de seu relato. Ou seja, ao voltar ao casarão de Jacinto, percorrendo cinzas, teias de aranha., mofo e ruína, ele não se decide entre a alegria e a nostalgia. Da mesma forma, quando volta a se encontrar com o Jacinto, “civilizadíssimo amigo”, sua reação não deixa entrever clareza e decisão, entre a alegria e o espanto. Das duas posições, ainda que em situações diferentes, pode-se inferir uma outra ambiguidade: a do discurso revolucionário da geração de 70, da qual o autor era partidário. Claro está que a definição de uma posição definitiva e única não cabe ao papel decifrador do leitor, por equivocado que ficaria nesta posição. No entanto, a admissão do fato de que Jacinto havia encontrado a felicidade no campo, tendo prática e pragmaticamente esquecido os confortos da modernidade destroçada nas ruínas de seu casarão, pode ser lido como uma lacuna a ser preenchida pelo leitor. E aqui está todo o respaldo de que a presente leitura se serve. Não fosse a verve irônica e a acuidade sarcástica do autor do conto, não haveria como denegar esta outra possibilidade e optar por concordar com uma certa tradição que define o papel de “revolucionário” por uma renovada visão da nação portuguesa, que valorizasse a “suas coisas” metaforicamente representada pela “serra” – esta depois retomada em narrativa inacabada. No entanto, ainda por isso, persiste a dúvida, e não se pode dizer que esta teria sido a “ideia” autoral. Isto porque este “retorno” de um certo recalcado, faria supor uma perversão narcísica, já apontada por Eduardo Lourenço em ensaio brilhante – como de hábito. Este fato apontaria para uma impossibilidade: a de se encerrar a “interpretação” do texto queirosiano por um viés apenas, aquele que uma certa tradição que insiste em utilizar esta mesma interpretação como amarra legitimadora.

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Infelizmente, continuo perdido entre as vírgulas que já me valeram o epíteto de incompetente. Dado que estou lembrando de uma passagem didática, de uma discussão nem tão acalorada assim, não posso deixar de lembrar que a dúvida vai persistir. A sombra de um Dom Sebastião mítico, por que de outra natureza não se pode valer sua “identidade” nostálgica, prevalece sobra uma desejada clareza que, nem mesmo a maior acuidade sintática poderia supor no uso indevido das vírgulas. De mais a mais, a “comunicação” se faz não por explicitar uma conclusão definitiva, um raciocínio acabado, uma constatação irrefutável. Muito ao contrário, este ato subjetivo e interlocutório, o de comunicar, deve prevalecer-se de sua prerrogativa efêmera, passageira, fugaz e transitória. Eça de Queiroz vai continuar causando coceira no cérebro de quem se presta à sua leitura. Que bom para quem assim o fizer!

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Passado

Na minha proverbial e incorrigível vibe de preguiça (ai como eu abomino essa gíria…) resolvi colocar aqui um texto que escrevi nos anos 90 do século passado. Nossa! Parece uma coisa tão antiga… Nem verificar nos arquivos do blogue pra ver se já tinha sido postado eu verifiquei. Então aí vai, para aproveitar eu falei desse texto em sala de aula. A plateia ouviu, não sei se escutou; estava lá, mas não sei se acompanhou. Eu sei que escrevi… e sobrevivi! Ah… o texto foi dedicado a Amanda e Hélène.

falubert   eca   machado

AS MULHERES E AS LÍNGUAS: PUNIÇÃO E IDENTIDADE PELA LEITURA

(…) a ardilosa realidade da condição feminina confrontou muitos homens da ciasse média – e muitas mulheres também – com a necessidade de clarificar atitudes, de pôr preconceitos à prova, de tomar decisões. A auto percepção do homem estava em jogo. Os sentimentos exasperados que essa situação provocou, e as numerosas controvérsias que ela gerou, só podem deixar atónitos aqueles que não conseguem perceber a preponderante parcela de sentimentos ocultos existente na criação de atitudes sociais e ideologias politicas. (Peter Gay)

Não há muito exagero em dizer que esse século é marcado por dois momentos ideológicos contraditórios, aliás, aparentemente contraditórios: a paródia e o ceticismo. Duas observações iniciais são necessárias. A questão da ideologia é por demais complicada, mas tomo aqui a palavra em seu sentido mais primário, aquele que se refere a um conjunto de ideias, em torno de um tema comum, por exemplo. A segunda observação se refere à contradição, ainda que aparente, passível de ser detectada entre esses dois movimentos. Essa contradição exigiria um ensaio completo para sua sustentação. Insisto nela apenas por uma questão de colocar em xeque as questões aparentemente certas e livres de problemas, dúvidas, etc.

Toda essa introdução se justifica por força da qualidade de um escritor latino-americano que, em minha opinião, e conforme o quadro de referências apresentado, pode ser tomado como paradigma dessa situação, principalmente no que se refere à literatura. Trata-se de Jorge Luiz Borges. Esse nome é aqui referido explicitamente, por conta de uma de suas personagens mais intrigantes: Pierre Menard. Essa personagem é responsável pela tentativa de reescrever o Quixote, tentativa que acaba por deixar metaforizada a grande ansiedade da literatura, a busca de uma origem e/ou de uma originalidade absoluta, uma utopia.

A referência a Pierre Menard vai me levar ao ponto inicial de minhas considerações nessa comunicação. Trata-se de um artigo de Silviano Santiago, chamado Eça, autor de Madame Bovary”.  Em linhas gerais, o ensaio do crítico brasileiro coloca em discussão uma das instâncias textuais mais complexas, o autor. Santiago coloca em questão a composição narrativo-estrutural de dois romances escritos em Língua Portuguesa – O primo Basílio, de Eça de Queirós e Dom Casmurro, de Machado de Assis – ambos tomados como uma reapropriação de Madame Bovary, de Flaubert. Por que a insistência no nome dos autores? Porque, na verdade, essa referência vai explicitar um dos objetivos mais genéricos dessa comunicação que é pensar a questão da identidade que se constitui, também, na língua e em seus usos. Essa identidade deve ser, aqui, considerada uma experiência permanentemente recomposta, inapropriável. Pois bem, Santiago discute a possibilidade de pensar a escrita de seu romance como um plágio[1] – ainda que essa seja uma palavra muito forte – do romance do escritor francês. O sentido de plágio, aqui, não se recobre de censura ou condenação porque enquanto o leitor de um texto é sempre um outro, é possível considerar que o texto é a lembrança de uma tela, algo que faz lembrar de um texto anterior. Assim, a leitura remete ao desejo de um grau zero da escritura[2] que nunca existiu.

Outra ideia a ser considerada aqui é a de que a leitura é sempre uma escritura de segundo grau, não apenas em relação à realidade cultural representada no texto, mas também da escritura ela mesma. Assim, o plágio é apenas um caso particular de escritura e, eu diria, um exercício de leitura sempre derivada de outra leitura. A proposta de discussão se assenta numa critica contemporânea a Machado de Assis que o teria acusado de plagiar o romance de Eça.

A argúcia do crítico brasileiro relê as linhas dessa proposta de polémica, género muito comum no final do século XIX e inicio do nosso, para desenvolver um raciocínio brilhante acerca da questão da questão da autoria de um texto literário, o que acaba por refletir-se na consideração do que costuma denominar de identidade cultural.

Meu interesse particular é propor, a partir dessas premissas, um caminho de reflexão sobre a relação intercultural que pode ser identificada e analisada a partir da leitura comparativa dos três romances anteriormente citado. Vale lembrar que a leitura é, ao mesmo tempo, uma atividade individual e social.[3] Ideologia e coletividade se intercambiam dando forma ao que podemos chamar de discurso cultural. Quando se faz esse tipo de consideração no âmbito do que se conhece por língua, é necessário afirmar que a leitura é, em si mesma, um acontecimento em que a própria língua se transforma. E claro que não vou concluir essa discussão aqui, nem, tão pouco, ouso desenvolver toda uma hipótese teórica. Minha arrogância se junta à minha honestidade intelectual para apenas determinar algumas linhas que considero plausíveis e básicas para repensar uma série de coisas – entre outras a relação inter-lingual que pode ser pensada nas atividades de leitura no ensino superior.

Não interessa aqui a discussão pura e simples de diferenciações identitárias entre língua materna, língua estrangeira e língua segunda, por exemplo No entanto, acredito que tais especulações pode abrir mais um caminho para a discussão de questões pertinentes a essas três categorias.

Outra motivação para a apresentação de minha proposta de especulação é o fato de que nos três romances em referência, a cena final é idêntica. Cada um a seu modo, acaba por apresentar uma situação de punição da mulher que se identifica com um traço atávico da cultura ocidental, daí a possibilidade de pensar a identidade cultural, na interlocução entre língua portuguesa – do Brasil e de Portugal – e língua francesa. O pano de fundo é o trabalho com a leitura de textos literários, no ensino superior.

É necessário esclarecer que por cena finalestou entendendo, aqui, a sequência narrativa que culmina com a morte das três protagonistas – Ema, Luísa e Capitu. Em rápidas pinceladas o que acontece é o seguinte: no caso de Ema Bovary, o narrador nos apresenta o suicídio de Ema, por um motivo que é recorrente ao longo do romance – a insatisfação da protagonista e sua sede de prazer e felicidade, abortados pelos repetidos malogros amorosos, inclusive, o matrimónio; nesse caso a punição se dirige à devassidão. No caso do romance português, a protagonista é punida com uma febre inexplicável, e mortal. Sem quê nem porquê, da noite para o dia, Luisa amanhece febril, seus cabelos são cortados – aí está o significante da punição – e ela morre; seu pecado foi a traição aos princípios burgueses de fidelidade conjugal. Em Machado de Assis, a situação é análoga, mas a motivação é um tanto particularizada, porque burguesia e devassidão não se juntam, mas induzem Capitu a cair na rede do ciúme atormentado de Bentinho: não se pode afirmar que houve o adultério.

À parte as diferenças no tratamento ficcional dado ao tema do adultério nos três romances, considero importante colocar algumas reflexões pormenorizadas – guardadas as proporções do espaço de minha comunicação – acerca de cada uma das narrativas. Adianto que não vou me deter na questão vocabular por si mesma, ainda que, ao final, venha a propor um direcionamento das considerações para o campo da tradução.

No caso do romance de Flaubert, temos um casal de província que é – e esse fato é fundamental para entendermos um pouco das perspectivas de leitura de romances franceses do século XIX, devedores convictos de uma tradição descritivo-realista fundamental para a literatura da época, o casal de protagonistas sacramentam, com seu casamento, um contrato burguês no campo: nada da burguesia urbana que vai caracterizar outras narrativas ficcionais da época, mas a insistência na articulação entre provincianismo e vida no campo. Ema é uma mulher romântica , por vício de formação. Leitora dos românticos mais em voga, vive influenciada pelo imaginário romântico e desenvolve uma procura desesperada de ascensão social aliada ao prazer sensual. Nesse desejo desenfreado por mudança de status existencial, Ema recusa sua condição provinciana, em nome do desejo burguês de bem viver. Nesse sentido, seu casamento se reveste de uma aura de interesse, marcada pela busca de um status social diferenciado.

Em contrapartida, Charles, o marido, reconhece, ao longo do romance, sua falência como marido mesmo, enquanto instrumento de realização marital dos desejos de ascensão social de Ema. Ela ama sua mulher mas não perde de vista seu perfil estreito de médico de província, o que lhe impões e à mulher, uma série de limitações absolutamente frustrantes para ambos.

Dadas essas condições, a punição de Ema – veiculada por um suicídio que nada tem de covarde, mas funciona como admissão do fracasso, no sentido nietzcheano – funciona como sentença social provinciana para o pecado da devassidão. Na esteira da luxúria, Ema perde o controle da situação e se deixa arrastar numa enxurrada de crimes que não podiam ficar impunes: o moralismo provinciano da burguesia do campo não o permite. Num segundo momento, temos o casal formado por Luísa e Jorge, igualmente provincianos, mas de um provincianismo citadino, urbano – como requer o código da modernidade. Luísa também é leitora dos românticos franceses, mas ao contrário de Ema, não se sente atraida por mais nada além do que já possui: boa casa em Lisboa, empregados, um marido dedicado e todos os confortos que o modelo burguês poderia oferecer. Seu paraíso começa a ser ameaçado com a volta de um primo, amor antigo, atropelado pelo casamento apaixonado. O contrato burguês aqui se localiza na cidade, como já se disse. Há de se insistir que um certo provincianismo pode ser detectado nesse quadro narrativo, mas um provincianismo dirigido à situação de Lisboa no contexto europeu fin-de-siècle. Jorge é o protótipo do macho bem sucedido, para a época.

O detalhe que chama a atenção no aparente equilíbrio da cena de fundo é o fato de que a célula dramática do romance é espelhada no texto do próprio romance. Na mise-en-abyme realizada pelo narrador, Ernestinho, uma personagem, escreve uma peça cujo fim é vivenciado pelo casal de protagonistas. O marido é traído e deve decidir sobre o destino da mulher adúltera. Coincidentemente, ela morre, mas não por meio da febre que vitima Luísa. Esse espelhamento em profundidade pode remeter à narrativa de Flaubert, recuperada pela dicção narrativa de Eça de Queirós que, por meio de insistentes comparações da vida lisboeta com a mundanidade parisiense, acaba por reduplicar a situação de insatisfação vivida por Ema e sua punição que, no caso de Luísa, é revestida de uma erudição atávica no perfil culto-intelectual dos portugueses.

Em outras palavras, a morte de Luísa remonta à punição medieval das mulheres tomada pelo demónio. Os jesuítas, mestres na arte de arrancarconfissões de obsessão de homens e mulheres têm uma participação mais que profunda na formação do caráter religioso dos portugueses. Essa marca se deixa transparecer quando Luíza tem a cabeça raspada. Esse elemento dramático pode ser associado ao ritual inquisítorial, já referido, o que, por sua vez, na economia do romance de Eça acaba por explicitar uma faceta da religiosidade – marca indiscutível da identidade cultural portuguesa.

Fiquemos, agora, com algumas considerações acerca do romance de Machado de Assis. De maneira diferente, em relação às duas protagonistas já citadas, Capitu tem uma personalidade forte. Moça decidida, resolve todas as situações com um senso de objetividade e equilíbrio, que superam o próprio Bentinho, personagem fraca e indecisa, apesar de nomear a narrativa, fato que o faz coincidir com Basílio, o vértice do triângulo de adultério estabelecido no romance português. Bentinho, como já se disse, é fraco e seu espírito frequentemente assaltado por dúvidas e inseguranças. Talvez seja resultado da força impositiva da mãe, substituída depois pela objetividade de Capitu. No fim de sua trajetória narrativa, Bentinho é um homem atormentado por um ciúme doentio, um pouco fruto de sua imaginação, associada à insegurança que lhe marca a personalidade Suas fantasia são comuns quando se pensa no perfil do homem burguês – na perspectiva de Peter Gay que coloca no homem um temor desmedido pelo sexo misterioso da mulher, o que acaba por refletir uma insegurança em relação à possibilidade de perda de seu lugar na hierarquia social da burguesia fin-de-siècle.

Ainda sobre Dom casmurro, é necessário que se diga que os nomes das personagens são significantes mais que sintomáticos das situações aqui referidas. A mãe de Bentinho se chama Glória; Capitu, na verdade, se chama Capitolina, o que remete o significado de seu nome para o campo semântico da superioridade que marca sua personalidade. Bentinho, ele mesmo, tem no nome um diminutivo ambíguo, ao mesmo tempo carinhoso e depreciativo.

Todas essas considerações, a meu ver, remetem para uma reflexão acerca do exercício da leitura. Não há como negar o valor das teorias que se debruçam sobre essa perspectiva de trabalho com o texto, seja ele literário ou não. No caso específico da literatura, pode-se pensar nas considerações de Wolfgang Iser[4] e todo um ideário acerca do ato de leitura, ato fundador pelo fato de ter tomado a categoria de autor como aquele – dentre outras -que privilegia a consideração de um discurso intercultural agenciado e permitido pela linguagem literária que é lida.

Assim, na conclusão desse conjunto de provocações, creio ter deixado clara a minha proposta de encaminhamento não apenas de uma discussão teórica sobre o assunto – no sentido d determinação de possíveis modelospra as análises possíveis -, mas um encaminhamento até certo ponto prático, um exercício demonstrativo das ideias que gostaria de ver discutidas e teorizadas aqui e em outras oportunidades. E nesse sentido que considero pertinente declarar que a Literatura Comparada, enquanto pretensa disciplina, é interessante para a leitura, enquanto metodologia de trabalho teórico na Universidade.

‘ SCHNEIDER, Michel. Voleurs de meta. 1985, p.47-70

[2] BARTHES. Roland. Le degrè zéro de l‘écriture. 1972, p.165-167.

[3] NUNES. Jose Horta. Formação do leitor brasileiro. 1994, p,9-12.

[4] ISER, Wolfgang. Te act of reading. A theory of aslhelic response, 1980.

emma     luisa     capitu

 

Será?

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Faz alguns dias terminei de ver uma série chamada Broadchurch. A história gira em torno de um corpo encontrado na praia e a subsequente investigação do pressuposto crime. A avalanche de detalhes e de reviravoltas é um dos elementos que eletrizam a atenção e que fazem com que a narrativa se torne sedutora e instigante. Ao ver os últimos episódios, tive a impressão de que já tinha visto aquilo. Uma sensação de déjà vu… A impressão mais forte foi a de que já tinha visto aquelas cenas, mas não em episódio diferentes, em sequência. Na verdade, ficou na memória a ideia de que vi um filme com as mesmas cenas, vividas pelos mesmo atores, em situações similares. Pois bem… Vi e gostei. Depois, fiquei cismando sobre a memória… Coisa estranha. Com o passar do tempo, ela vai ficando seletivo, para não dizer que ela falha… Por que ela falha. Para além destas duas possibilidades, há que se recuperar a lição freudiana sobre o inconsciente, comandante em chefe absoluto da mente humana que mexe os pauzinhos quando e como quer. Ele é danado. Faz com que a memória, sua vizinha, ou sua prima mais pobre, pregue peças na gente, fazendo a gente passar por situações como esta que acabo de relatar. Será isso um defeito? Será um sintoma de que algo não vai bem na minha cabeça? Poderá ser um sinal de que, de fato, estou a ficar velho e, por conta disso, começo a me esquecer de mais coisas? Pode ser isso. Pode ser nada disso… Vai saber…

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Missão

 

Na maré de desânimo e falta de incentivo em que me sinto imerso, o texto que segue me faz respirar e acreditar que alguma coisa faz sentido. Digo isso porque se afirmasse que sou obrigado a fazer determinadas coisas estaria dizendo apenas parte da verdade. Ainda há espaço, na minha cabela pelo menos, para inventar ousar, experimentar, sobretudo quando se trata de LER um TEXTO que se quer LITERÁRIO. Não sou original quando digo que Rodrigo Gurgel tem razão. E por meio dele, que Todorov também tem razão. Sem razão é aquele ou aquela que afirma – como já ouvi pasmado, num corredor de uma faculdade de letras de uma universidade “pública, gratuita e de qualidade” – que para dar aulas de literatura não precisava mais ler romances,contos ou poemas. Quando ouvi isso me perguntei – e ainda me pergunto – as aulas dadas são sobre o que então!!! Mesmo situação se repete quando, ao observar o programa de um curso de crítica literária numa outra instituição de igual quilate, o colega lista uma série de textos para leitura e discussão com os alunos. pasmado percebi que não havia nenhum poema, conto ou trecho de romance na lista. Se o curso era para ser de crítica literária…

O texto que segue, me foi enviado por uma amiga e se encontra no seguinte endereço eletrônico: https://www.facebook.com/RodrigoGurgelcriticoliterario/?fref=nf.

Boa leitura!

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Como a universidade poderia auxiliar na formação de bons leitores de literatura, de bons professores de literatura ou de bons críticos literários?

Primeiro, ela precisa colocar o texto literário acima das teorias. Segundo, deve oferecer ao estudante um panorama fidedigno dos estudos literários — um panorama isento de ideologia. O que, é claro, não acontece.

Costumo dar um exemplo muito comum, que se repete em nossos cursos de Letras: quase todo estudante precisa ler, no Brasil, algumas páginas do “Poética da Prosa”, de Tzvetan Todorov, obra publicada em 1971. Mas é raríssimo encontrar professores que se esforçam para mostrar que Todorov continua ativo em seu trabalho intelectual e, passados mais de 30 anos, em 2007, publicou “A literatura em perigo”, livro no qual recusa as soluções que defendeu no início da carreira, quando participava do grupo estruturalista, e mostra como aquelas ideias prejudicaram a literatura e precisam ser superadas.

Como dizia Ezra Pound, referindo-se aos estudos literários, “o primeiro pântano de inércia pode ser devido à mera ignorância da extensão do assunto ou ao simples propósito de não se afastar de uma área de semi-ignorância. A maior barreira é erguida, provavelmente, por professores que sabem um pouco mais que o público, que querem explorar sua fração de conhecimento e que são totalmente avessos a fazer o mínimo esforço para aprender alguma coisa mais”.

As universidades voltarão a ser úteis quando abandonarem a mera doutrinação dos alunos e decidirem cumprir sua verdadeira função: inserir os alunos no grande debate da inteligência, em que todos podem evoluir e mudar livremente de pensamento.

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Aprendizagem

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Houve um tempo em que, para se comer uma pamonha de milho verde, levava-se quase um dia todo. Primeiro colher as espigas ou, se já colhidas estivessem, descascá-las – tomando cuidado para preservar as palhas melhores, para embrulhar as pamonhas -, limpá-las – tirar aquele “cabelinho” era muito custoso -, lavá-las e raspá-las “até o sabugo” – no adagiário popular esta expressão pode querer dizer outra(s) coisa(s), mas declino do direito de me alonga sobre tal assunto… Depois disso era moer tudo aquilo, numa máquina de moer carne, coisa que cansava, levava tempo e doía. Daí se coava aquela matéria quase líquida, o que demandava mais um tanto de tempo. O que resultava da coagem era cozido, lentamente. Acrescentava-se queijo, açúcar, leite e dá-lhe ficar mexendo – com um colher de pau, é claro! – até que ficasse cozido. O resultado era um mingau de milho verde, muito popular. Se, por acaso, se quisesse mesmo comer pamonha de milho verde, era necessário fazê-las, antes de cozinhar a matéria coada, como dantes. Fazia-se uma espécie de bolsa com uma ou duas palhas verdes de milho. Enchia-se esta bolsinha com o líquido amarelo, devidamente “temperado” – o queijo e o açúcar! – e colocava-se a bolsinha em água fervente para cozinhar. O tempo para ficar pronto, amim sempre pareceu intuitivo. Calma… ainda não acabou! Depois der cozido, esperava-se esfriar um pouco para então saborear o quitute… dos deuses. É de comer rezando, de joelhos, agradecendo a Deus a oportunidade de ter vivido com saúde, e paladar, até aquele momento! Ufa! \pode ser que alguém tenha se cansado e até desistido de chegar até aqui com a leitura. Ou pior, tenha desistido de experimentar a guloseima. Não desista. Se não quiser fazer esforço algum – perdendo, é claro, todo o prazer do processo de feitura – vá a uma casa que venda pamonhas ou então atenda ao reclame enjoado e repetitivo daqueles carros que passam gritando a mesma lenga-lenga de sempre: “Olha a pamonha!”. Não tem graça.

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Esta pequena historieta que aproveito de uma entrevista com um psicólogo que vi na internete esta manhã (esqueci de anotar o endereço eletrônico) é para fazer pensar sobre o que é – em um exemplo apenas – a educação de filhos. Conforme o psicólogo – e faço minhas as palavras dele! – os pais têm que se fazer respeitar para serem amados. Hoje, boa parte desta dupla de pessoas que se auto denominam “pais” querem ser amados, sem dispender o esforço de ensinar o que é respeito. Não dizem não. Atendem a todos os pedidos dos filhos. Não mostram e impõem limites. Não dão a palmada salvadora quando a acriança desobedece e põe a mão onde não devia, depois de avisada. E querem ter o respeito dos filhos. Não dá! Muitos pais não deixam seus filhos caírem no chão, quando estes dão seus primeiros passos, sob o falso e falaz argumento de que estão evitando acidentes e/ou um trauma. Bobagem! Firula! Covardia! A criança tem que cair para aprender a se levantar e aprender também que ela tem limites. A história da pamonha serviu para o psicólogo e agora serve pra mim na tentativa de sinalizar para a importância do convívio, da conversa, da troca de experiências, da exemplificação, da demonstração de como uma coisa é feita. A criança vai aprender que pamonha não “aparece” pronta do nada. Ela querer saber como e porquê. Ela vai “participar” interagindo e colaborando. Isso é aprendizagem. Não há tecnologia de inserção que consiga superar esta experiência…

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