Gêmeos

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Terminou ontem a série “Dois irmãos”, construída “a partir” de obra homônima de Milton Hatoum. Faz um tempo que li o livro, mas ficou na memória que eu tendia a acreditar que o pai de Nael, o principal narrador do romance, é Yakub. Na televisão, o diretor resolveu deixar no ar a possibilidade – aparentemente mais concreta, por força das imagens televisivas – que o pai seria Omar. Nada de maniqueísmos. Apesar do contraste abissal e da impossibilidade de identificar qualquer similaridade plausível enre os dois irmãos – personagens-chave do romance – não há a menor possibilidade de aproximar o drama romanesco ao episódio bíblico de Caim e Abel, ainda que, ao final, os gêmeos façam referência explícita a uma possível “cena bíblica”. Bem… esta é a minha opinião, outro(s) leitor(es) pode(m) dizer exatamente o oposto. Adiante. A produção foi requintada, ainda que a minha chatice não se convença a abandonar a ideia de que houve certos exageros decorativos e comportamentais. Isso não tira o mérito e a impecabilidade de certas atuações: Eliane Giardini, na cena da morte de Halim, por exemplo… Já o exagerado conjunto de esgares e a babação de Cauã Reymond, pra mim que sou um chato, foi um tanto over. O ator que fez Nael adulto e, mesmo, o menino que fez a mesma personagem quando criança, merecem mais que os parabéns. Antônio Fagundes, bem, este é hors concour. O rapaz que faz os gêmeos quando adolescentes, em alguns momentos, não conseguiu diferenciar Yakub de Omar. No entanto, como “revelação”, merece cumprimentos protocolares. Ai como eu sou chato… Ao fim e ao cabo, fica a impressão de que a série não alcançou o nível de tensão narrativa que o romance alcança. Claro, como se trata de ficção “a partir de”, a circunscrição da série à trama romanesca fica fora de questão. Para não fugir do lugar comum, o livro, pra mim, em termos de narrativa, é infinitamente superior. Tal axioma não é regra irrecorrível… O romance conta a história de uma família de imigrantes libaneses na Amazônia, na primeira metade do século XX. A trama gira em torno das “memórias” de Nael, filho de Domingas a empregada da casa. Nada se diz sobre o pai desta criança. Talvez seja possível especular sobre traços autobiográficos a compor o narrador, dado que faz reiteradas afirmações sobre o ato de escrever, como algo que constrói a memória que o tempo destrói por influências diversas, enclisive de pecados “a cometer”. Halim, o pai dos gêmeos funciona, em certas passagens como segundo narrador, a trazer para Nael suas recordações de quando da chegada a Manaus e de seu estabelecimehto como comerciante. A perspectiva é sempre de Nael e o drama dos gêmeso transcorre sem que o narrador tome partido o que faz da narrativa um sucessão de sutilezas que só a Literatura consegie consolidar. Não há tecnologia televisiva igual ou suficientemente competente para isso. É “natural” na/da Literatura. Numa leitra subliminar, cdesenvolve-se exteso discurso acerca da amizade que une Nael e Halim. Talvez seja o motivo inconsciente para eu escrever hoje, aqui. Tenho pensado nos meus amigos. Naqueles que já se foram. Naqueles que eu não procuro. Naqueles que sentem falta de mim. Para todos eles, o meu afeto sempre, sincero e constante. Não digo eterno, porque eu não sou eterno. Os meus amigos me conhecem e sabem que, por vezes, fico alheio a quase tudo, menos a eles. Fica sempre o silêncio eloquente do afeto…

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