Para “Tópicos de crítica” I

Boa tarde!

Como combinado em nosso encontro de ontem à noite, abaixo vocês têm a primeira postagem referente às quatro aulas que a mim couberam na reditribuição dos encargos da Cilza, afastada para tratmento médico e pós-doc. Como eu disse, hoje a postagem se refere aos textos de Freud, indicados previamente para leitura, sobre os quais falei panoramicamente ontem. Espero que tenham lido, sobretudo e principalmente “Escritores criativos e devaneios” e “Recordar, repetir, elaborar”. O trecho que segue é retirado do primeiro destes dois textos. Vamos lá!

freud

“O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relação entre o brincar infantil e a criação poética. Dá [em alemão] o nome de ‘Spiel‘ [‘peça’] às formas literárias que são necessariamente ligadas a objetos tangíveis e que podem ser representadas. Fala em ‘Lustspiel‘ ou ‘Trauerspiel‘ [‘comédia’ e ‘tragédia’: literalmente, ‘brincadeira prazerosa’ e ‘brincadeira lutuosa’], chamando os que realizam a representação de ‘Schauspieler‘ [‘atores’: literalmente, ‘jogadores de espetáculo’]. A irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem, porém, conseqüências importantes para a técnica de sua arte, pois muita coisa que, se fosse real, não causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si são realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representação da obra de um escritor.

Existe uma outra circunstância que nos leva a examinar por mais alguns instantes essa oposição entre a realidade e o brincar. Quando a criança cresce e pára de brincar, após esforçar-se por algumas décadas para encarar as realidades da vida com a devida seriedade, pode colocar-se certo dia numa situação mental em que mais uma vez desaparece essa oposição entre o brincar e a realidade. Como adulto, pode refletir sobre a intensa seriedade com que realizava seus jogos na infância, equiparando suas ocupações do presente, aparentemente tão sérias, aos seus jogos de criança, pode livrar-se da pesada carga imposta pela vida e conquistar o intenso prazer proporcionado pelo humor.

Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham do brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem quanto abdicar de um prazer que já experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada; apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto ou sub-rogado. Da mesma forma, a criança em crescimento, quando pára de brincar, só abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia. Constrói castelos no ar e cria o que chamamos de devaneios. Acredito que a maioria das pessoas construa fantasias em algum período de suas vidas. Este é um fato a que, por muito tempo, não se deu atenção, e cuja importância não foi, assim, suficientemente considerada.

As fantasias das pessoas são menos fáceis de observar do que o brincar das crianças. A criança, é verdade, brinca sozinha ou estabelece um sistema psíquico fechado com outras crianças, com vistas a um jogo, mas mesmo que não brinque em frente dos adultos, não lhes oculta seu brinquedo. O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais íntimo, e em geral preferiria confessar suas faltas do que confiar a outro suas fantasias. Pode acontecer, conseqüentemente, que acredite ser a única pessoa a inventar tais fantasias, ignorando que criações desse tipo são bem comuns nas outras pessoas. A diferença entre o comportamento da pessoa que brinca e da fantasia é explicada pelos motivos dessas duas atividades, que, entretanto, são subordinadas uma à outra.

O brincar da criança é determinado por desejos: de fato, por um único desejo – que auxilia o seu desenvolvimento -, o desejo de ser grande e adulto. A criança está sempre brincando ‘de adulto’, imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos. Ela não tem motivos para ocultar esse desejo. Já com o adulto o caso é diferente. Por um lado, sabe que dele se espera que não continue a brincar ou a fantasiar, mas que atue no mundo real; por outro lado, alguns dos desejos que provocaram suas fantasias são de tal gênero que é essencial ocultá-las. Assim, o adulto envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e proibidas.”

Bom. Depois da releitura desse trecho, devo salientar (repetindo-me) que a pergunta a ser respondida leva em consideração a leitura do romance, preferencialmente. Em outras palavras, para responder à pergunta: levem em consideração como “pano de fundo”/ perspectiva/referência, o romance de José Luiz Passos. Além disso, é, para mim, aqui, muito mais importante a sua OPINIÃO que uma resenha do texto freudiano ou, mesmo, uma tentativa de interpretação. Vamos lá!

Freud aproxima a criança e o escritor. Nesta aproximação, ele usa como instrumental a ideia de fantasia. Segundo o raciocínio daí decorrente, você considera plausível/possível/justificável aproximar esta ideia à de ficção, no campo dos estudos literários? Tente justificar e, quem sabe, ilustrar a sua resposta! Boa leitura!

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29 comentários sobre “Para “Tópicos de crítica” I

  1. Sim, perfeitamente plausível. A fantasia freudiana e a escrita ficcional se aproximam na medida em que são produtos de atividades de projeções de pensamentos sobre a realidade. Quando o adulto (digo “adulto” pois Freud considera a fantasia como uma atividade adulta, separada do brincar infantil pela relação que os sujeitos têm com suas narrativas: no caso do adulto ela não é mediada pelo brinquedo, pelo jogo, etc.) produz devaneio, ele, invariavelmente, produz narrativas, organiza personagens e situações dentro de um tempo e espaço imaginários, o que se assemelha sobremaneira ao ato da escrita de ficção. Ambas atividades traçam uma linha entre realidade e imaginário e transportam através desta fronteira elementos que de um lado seriam impossíveis, de outro seriam indesejáveis, a fim de tecer com eles um determinado produto que agrade a quem o experimenta. O público que vai experimentar estes produtos seja, talvez, uma das separações entre fantasia escrita ficcional, pois a fantasia tem como audiência seu criador, enquanto a escrita, em geral, tem um público exterior ao escritor. Estas audiências não são necessariamente fixas, nada impede que a escrita ficcional seja experimentada apenas pelo escritor, assim como nada impede que a fantasia de alguém seja tornada pública, apesar de ser difícil imaginar como esta hipótese não produziria necessariamente um texto.

    A apresentação da fantasia e da ficção também levanta um ponto acerca das semelhanças e separações das duas coisas. A exemplo, Jurandir, em “O Sonâmbulo Amador”, escreve seus sonhos e alucinações em forma de relatório. Estas são narrativas irreais, claramente descritas como irreais. Esta escrita, é ficção? Penso haver uma maneira introdutória de tratar esta questão: se o ato da fantasia se separa do ato da escrita ficcional pela transformação e transferência das projeções de pensamento para o texto escrito, então não há nenhuma diferença entre ficção e o que foi produzido por Jurandir, ainda que este fosse produzido em forma de relatório, afinal de contas, seriam textos escritos de narrativas irreais. Mas é difícil aceitar que um sonho escrito está no mesmo plano de um livro de ficção. Há um determinado nível de expectativa sobre a produção literária, a de que o escritor tenha “controle” sobre a produção da narrativa, que ele não seja simplesmente alguém que escreva fantasias. Entra então algo que não existe na atividade da fantasia, mas que existe na produção de escrita ficcional: a técnica. Espera-se que o escritor seja capaz de trabalhar suas fantasias (ainda que não sejam chamadas assim, podem ser simplesmente chamadas de “idéias”, o que não altera o que são) a fim de estas serem consumidas desta ou daquela maneira pelo leitor. De quem fantasia não se espera nada neste sentido. Ademais, se espera que esconda suas narrativas de fantasia, como Freud aponta, fantasias são tratadas como objetos de vergonha.

  2. Acredito que o princípio de manutenção do desejo, como afirma Freud, que transforma a fantasia da criança no devaneio do adulto, seja responsável pela necessidade de ficcionalização que observamos no sujeito literário. O desejo de criação de outros mundos e possibilidades é uma tendência que emana tanto do indivíduo em crescimento quanto do já formado, porém, guardadas deverão ser as devidas proporções desse ato para cada um, já que as condições para sua realização dependem de suas estruturas psíquicas.

    Isso quer dizer que à criança seja lícito que o desejo de criar outros mundos se dê, sem restrições, no ato de brincar, enquanto ao adulto, esse mesmo desejo é regulado pelo princípio de realidade (super ego) e por isso torna-se o chamado devaneio. Essa estrutura, que na experiência infantil ainda está por ser construída, ocorre finalizada (teoricamente ou neuroticamente) no indivíduo crescido. O super ego interpõe-se como uma estrutura reguladora cuja principal função é tornar lícito ou constrangedor determinados atos, de maneira a regular a ação do indivíduo segundo expectativas sociais no plano do real.

    Ao adulto não será mais permitido brincar, mas seu desejo não se esvai, ele encontra a forma de devaneio, que é, basicamente, fantasiar de olhos abertos. Podemos exemplificar essa formulação a partir da fala de Jean Starobinski ao concluir que a obra de Rousseau, “Julie, ou la nouvelle Héloïse”, reúne temas que pareciam ocupar a linha de frente do pensamento de Jean-Jacques e que, assim, o romance seria uma espécie de “devaneio prolongado”. Igualmente podemos rastrear esse sentido em outro romance, “K.”, do escritor brasileiro Bernardo Kucinski, onde nas páginas iniciais lemos: “Caro leitor: tudo nesse livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”, evidentemente trazendo a mesma ideia de escrita como fantasia consciente. Mas além desse comentário direto do autor ao início da narrativa, há também no personagem principal, K., o levantamento da questão a respeito do teor de fantasia lúcida no exercício da escrita. Nela, a questão surge não como estímulo, mas como restrição, pois, não consegue ficcionalizar o sumiço da filha, professora de química da USP, desaparecida política da ditadura. A realidade é esmagadora demais para K. realizar um desvio onírico que fosse representado no formato de narrativa, de maneira que acaba abdicando da tarefa. Não seria também a única narrativa onde o personagem se vê interpelado pela questão da escrita como devaneio e este, por sua vez, uma mistura de fantasia com consciência. Em “El secreto de tus ojos” (2009) Espósito, oficial de justiça aposentado, também se vê interrompido de escrever suas memórias da época no tribunal pelos flashes da violência de um caso que havia marcado sua carreira. Aqui mais uma vez a relação entre o real, a ficção e, consequentemente, o texto, se relava diretamente ligada em todas as suas etapas, o que me faz concordar com a relação freudiana entre a criança e o escritor criativo.

  3. A partir da leitura do texto, “Escritores Criativos e Devaneio”, acredito que o processo criativo de uma estória tenha como fonte, assim como explicou Freud, as fantasias e devaneios do ser humano. Assim como a criança que brinca, que cria um mundo de fantasia a partir de seu único desejo de ser grande e adulto; o adulto, fantasia, constrói todo um universo chamado de devaneio. No entanto, o adulto envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e muitas vezes proibidas, o que faz com que ele as mantenha ocultas em si. Partindo dessa perspectiva, a ficção elaborada pelo adulto, como, neste caso, um escritor, pode começar como um devaneio, um desejo profundo de sua alma, de ser rei, ser herói, mágico, mas a complementação de tudo isso depende de estudo e dedicação, como um laboratório a fim de que se torne palpável aquilo que se deseja, uma vez que nem sempre compreende-se todas as implicações daquilo que é o maior desejo.
    Explico: aquilo que pode ser o maior desejo do escritor, por exemplo, ser um médico, pode servir de base para o seu romance, mas ele precisará elaborar toda uma trama com base nisso, o que pode resultar em uma pesquisa muito maior do que se esperava a fim de dar um tom de veracidade àquilo que deseja, caso seja sua intenção. Outro texto que nos ajuda a compreender a questão dos desejos e sonhos é o “Recordar, Repetir e Elaborar”. Nesse texto Freud nos explica que algumas experiências ocorridas na infância e que não foram compreendidas na ocasião, não foram guardadas na memória, mas subsequentemente foram compreendidas e interpretadas. E delas obtemos o conhecimento através dos sonhos. O que significa que não só de desejos ocultos vivem os sonhos, mas de experiências vividas e não interpretadas conscientemente. No livro “O Sonâmbulo Amador”, Jurandir, incentivado pelo psiquiatra, resolve escrever suas memórias e relembra os momentos que passou ao lado da mulher, da amante, do filho e do amigo de infância. Dentre essas ‘memórias’, ele nos conta, relembra e revive sonhos que teve, inclusive.
    Desse raciocínio traçado, acredito que seja possível aproximar o processo criativo de um escritor ao brincar de uma criança, à medida em que é sabido que nada se cria. Até mesmo as ideias são transformadas a partir de algo vivido ou desejado. Talvez esta seja, inclusive, a razão para termos alguns escritores que são excelentes em produzir um tipo de literatura específica, porque estão presos àquilo que é o seu maior desejo.

  4. Nem seria necessário ler a afirmação freudiana para ter a certeza de que o adulto envergonha-se de expor suas fantasias; isso é notável nas relações interpessoais, nos coleguismos fortalecidos por diálogos receosos, repletos de palavras cuidadosamente pensadas antes de serem ditas, “para não causar má impressão”. É assim que vivem a maioria dos adultos: escondendo as fantasias sob os véus da vergonha e da hesitação. Há, contudo, aqueles que rasgam esses véus e vestem suas fantasias com o traje da ficção, com o qual elas podem desfilar livremente, podem ser vistas e até mesmo apreciadas. A obra de José Luiz ilustra justamente esse processo de exposição das fantasias e do surgimento da ficção, o que pode ser notado em função de alguns aspectos.
    O romance está disposto na forma de cadernos, escritos pelo narrador e personagem Jurandir como parte do seu tratamento psiquiátrico. A disposição em cadernos transmite a ideia de algo pessoal e não destinado ao público. Quando se escreve em casa, em um caderno, basta deixar que o lápis seja a ponte que conduz o que se pensa até o papel, sem se preocupar com a cronologia, com a semântica ou com o que for. Não é preciso medir o peso das palavras nem elaborar hipóteses sobre o efeito do que se diz, de modo que não é preciso imaginar o julgamento e/ou as pilhérias das pessoas diante do que está escrito; apenas dá-se, às fantasias, a liberdade. Destarte, entende-se que o autor implicitamente acredita ser a ficção algo que possibilita a exposição das fantasias.
    O local e o período da vida em que Jurandir escreveu os cadernos é também algo a ser considerado: foram escritos em uma clínica, em um período de tratamento psiquiátrico, onde e quando a pessoa está buscando ajuda, cura, alívio. Disso, deduz-se que escrever uma ficção ajuda o autor a curar-se, aliviar-se. Toda a força empregada para suprimir as fantasias gera uma doença que enfraquece a alma. Escrever uma ficção é ir contra essa força.
    Todavia, afirmar que o autor de uma ficção é o espelho fiel de seu personagem seria um equívoco. Mais pertinente seria dizer que o escritor retira parte de si e transforma em texto. Por isso diz-se que escrever é tão doloroso. O doloroso é deixar arrancar uma parte de si, doloroso é deixar ir, deixar conhecer o mundo. Ainda mais doloroso quando é aquela parte mais humilhada, rejeitada; aquela que a parte predominante de si mais desprezou, mais feriu. É essa parte pequena e frágil que é expandida e compartilhada nas obras de ficção.
    Afinal, quantas partes podem coexistir dentro de um ser humano? Somos todos muito complexos para sermos definidos simploriamente. O que acontece é que, no mundo adulto da repressão de fantasias, todos são restritos a adjetivos que, sob a regra, não podem se contraditórios, de modo que uma pessoa alegre não pode jamais ser triste, uma pessoa extrovertida não pode jamais ser tímida, uma pessoa calma jamais pode ser nervosa. E assim, todos os adultos recebem o adjetivo que melhor lhes define, ou melhor, que mais fortemente os reprime. Em relação a isso, o narrador de O Sonambulo amador sugere uma experiência:
    Quem quiser, faça uma coisa. Diante do espelho, olhe nos olhos e repita duas ou três vezes aquele seu nome de infância. Jura, Jura, isto no meu caso. Vão e façam igual, qualquer coisa lá dentro se abre. Na vertigem dessa palavra vão voltar, tenho certeza, de bem longe as cenas de um tempo adormecido, o começo das coisas, momentos que passaram sem se fazer notar, com gente que não nos pedia nada em troca. Eram apenas o que eram. E não deixa de ser incrível que uma centelha disso tudo sobreviva nas meras cinzas de um mero apelido defasado…”
    Percebe-se que a sugestão do narrador é generalizada, com uma certeza de que, seja quem for, terá a mesma sensação. Tamanha certeza baseia-se em uma verdade: todos os adultos carregam o desejo de liberdade. Trata-se da liberdade de ser definido por adjetivos antônimos, de não ser apenas uma parte de si, mas todas as partes simultaneamente. Ao olhar no espelho e trazer o apelido da infância, relembra-se saudosamente de quando a personalidade naturalmente não estava definida, quando os pais e os tios faziam apostas de quais seriam as afinidades e as atitudes futuras da criança. A experiência de enxergar a versão infantil é reviver a beleza de poder ser mais de um, de não ter de abraçar uma parte de si e ocultar as outras, mas abraçar todas ao mesmo tempo. E é essa a experiência que o escritor de ficção tem: um escritor, portanto, torna-se uma criança, um alguém que pode ser muitas partes e, a cada obra, dolorosamente extirpar uma parte, e depois, suspirar aliviado e deleitar-se da alegria de ver suas fantasias passeando pelas páginas, e, das páginas, para as vidas dos leitores.

  5. Através da leitura do trabalho de Freud em questão, e com base no romance do autor José Luiz Passos, é possível que se faça uma aproximação entre a criação da ficção e o exercício das crianças de brincadeiras.
    Quando se trata de analisar o processo criativo da ficção, é possível que se diga, de certa forma, que o autor é livre para experimentar com conceitos dentro de um universo criado por si e exposto através da difusão de sua obra. Com isso, se liga a liberdade da criança, descrita por Freud, para, através da imaginação, moldar sua brincadeira de fantasia com noções que a tornem agradável a quem brinca.
    No romance O Sonâmbulo Amador, de Passos, é possível inferir a liberdade e possibilidade para o autor de colocar Jurandir, seu protagonista, em um universo que atenda às necessidades de construção de enredo que Passos deseja ao contar sua trama. Trabalhando com a viagem de Jurandir e suas histórias em primeiro plano, e com os sonhos e devaneios da personagem, em segundo, José Luiz é capaz de entregar ao leitor sua visão do que compõe o universo de suas personagens, suas criações.
    Tal como o autor expõe seu universo com o livro, Jurandir é o narrador da história em que interage com outras personagens e a elas conta episódios de sua vida e sua relação com as pessoas que o cercam.
    Em última comparação com o texto freudiano, pode-se dizer que, assim como a criança é livre para expor sua brincadeira e criação ao mundo, como se diz que o adulto não o é pela expectativa social de seriedade, o autor de uma ficção pode, também e através dessa, expor sua ideia e visão de seu universo.
    Dessarte, com a noção de liberdade com que se entende que determinada pessoa pode imaginar e contar seu mundo de fantasia, é plausível, sim, que esta possa ser não apenas possibilitada, como canalizada pela ficção.

    1. Quando você diz “o exercício das crianças de brincadeiras”, você quis dizer “o exercício de brincadeiras pelas crianças”? Melhor usar “destare” no lugar de “dessarte” que não está registrado em dicionários…

  6. Ao observarmos a literatura “comercial” de hoje, podemos notar que as autoras e autores, constroem suas histórias baseadas em suas fantasias, principalmente as autoras de romances românticos, como Abbi Glines e Coleen Hoover. Essas estórias que são tão caras aos jovens e que nutrem o pensamento romântico da mocidade, são sonhos/fantasias que a maioria dos indivíduos busca. A ideia de amor, de uma realidade melhor e mais “bonita”, repleta de felicidades e, os obstáculos que aparecem sendo apenas um caminho para o happy ending.
    Contudo, se levarmos em conta obras como O Sonâmbulo Amador, Nove Noites e Eles Eram Muitos Cavalos, a ideia de fantasia se modifica. Ao meu ver, a literatura brasileira contemporânea é desenvolvida a partir da realidade mais palpável do mundo – problemas, vícios humanos -, o que iria contra as fantasias criadas por escritores românticos – ideia de mulher ideal, relacionamentos sem defeitos, realização profissional.
    Em O Sonâmbulo Amador, José Luiz Passos, elabora um mundo muito mais real e verossímil, do que muitos dos romances românticos que vendem diariamente nas livrarias, e que são tão adorados pelos leitores. O escritor constrói suas personagens a partir de uma visão de mundo que não pode ser considerada fantasiosa, apesar de o herói fantasiar.
    Todavia, se seguirmos esse argumento – da personagem fantasiadora – , podemos dizer que o autor, através de seu protagonista, compatível com um ser humano real, cria suas fantasias e as “oculta” em sua personagem, tornando-o portador e, com isso, confessa suas fantasias, sem confessá-las diretamente. Como afirma Freud: “O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas.”. Os escritores de romances românticos, diferentemente de José Luiz Passos, não são, ou talvez não consigam ser, tão sutis, expondo suas fantasias e desejos íntimos aos olhos dos leitores, e não separam o eu do narrador/personagem. Apesar da tentativa de criar personagens que se diferenciem deles próprios no sentido da aparência, a essência pessoal ainda é mantida.
    Durante a leitura do romance, eu “sentia” que o autor se perdia dentro dele mesmo, tentando passar algo para o livro, que no final, acabou por ser sua própria alma, juntamente com seus medos, defeitos, problemas e desejos.
    Concluo então que, como afirma Freud: “O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade.”, mas que ao mesmo tempo, por mais que separe o mundo ficcional do mundo em que vive, não consegue se distinguir entre um e outro, colocando sua personalidade, seus impasses, dilemas, dúvidas, medos, enfim, seu próprio ser em sua obra.

  7. Hector Rodrigues Feltrin – Matrícula: 14.1.3826

    Sabemos que tudo no mundo está sob constantes mutações. E, na literatura, não é diferente. São inúmeras as rupturas feitas na história da arte. Essas mudanças se dão por conta do contexto histórico de cada época e das inovações técnicas aplicadas pelos artistas com o passar do tempo, já que não há um rigor técnico e linear a ser sempre seguido. Na era clássica, a literatura era chamada de Belas Letras, e a noção do nome Literatura, em si, é bastante posterior a este tempo remoto. Basta observarmos todas as nuances ocorrentes em variados períodos literários até os dias de hoje. Contudo, se a composição literária – em qualquer gênero – passa inevitavelmente por inúmeras mutações, é possível levantarmos também o seguinte questionamento: algo perdura no fazer literário? Ou seja, se existe algo imanente na criação literária, o que seria? Qual é o requisito que há em comum no projeto de toda criação ficcional?
    Segundo Freud, o que se faz necessário em todos os artistas é a capacidade de criar. Entendemos por criação uma disposição para fantasiar, ou melhor, o escritor necessita de dispor-se de certa sensibilidade artística para devanear e assim forjar sua fantasia tornando-a um produto de criação ficcional. É importante sabermos que a capacidade de devanear não precisa necessariamente de ser um talento inato naquele que produz uma obra, uma vez que todo ser humano é capaz de fantasiar e apresentar sintomas presentes no seu inconsciente. Para o professor e poeta Eucanaã Ferraz, o conceito de fantasiar consiste e compor um Romance, um Conto, um Poema, uma Crônica ou qualquer outro gênero literário estando atento ao espetáculo do mundo. Portanto, ainda que a Literatura não seja algo pragmático na maioria da vida das pessoas, a sua mágica pode ser capaz de arrebatar o leitor. No entanto, para isso acontecer, o artista depende de uma prática que em inglês é denominada de, day dream. Se levarmos a tradução do termo ao pé da letra, teríamos a seguinte oração, sonho do dia. Mas para elucidar melhor o significado deste conceito, diremos que, day dream é o mesmo que sonhar acordado. E, sonhar acordado é o que, para Freud, é responsável por definir um autor criativo. Pois somente um escritor criativo, assim como uma criança quando fantasia e devaneia no seu mundo imaginário, poderá engendrar sua obra para que a mesma possa ser um produto com rigor artístico significativamente aguçado. Esta capacidade de transpor seus devaneios em forma de linguagem literária e lapidá-los a ponto de construir uma ficção é o que diferencia um escritor dos demais. Visto que, para Freud,
    “O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais íntimo, e em geral preferiria confessar suas faltas do que confiar a outro suas fantasias. Pode acontecer, conseqüentemente, que acredite ser a única pessoa a inventar tais fantasias, ignorando que criações desse tipo são bem comuns nas outras pessoas. A diferença entre o comportamento da pessoa que brinca e da fantasia é explicada pelos motivos dessas duas atividades, que, entretanto, são subordinadas uma à outra.” (FREUD, 1908, p.3).
    Logo, o escritor trata a linguagem com certa peculiaridade, transformando-a em arte. Não é de total predominância o conteúdo (assunto), nem por isso também se faz menos relevante; poética e hermenêutica caminham de mãos dadas. O que realmente importa na Literatura é como se constituirá a harmonia entre forma e conteúdo. O intuito é alcançar o belo. Para lograr de tal façanha, o autor necessita de uma criatividade de composição capaz de gerar a multiplicidade de inferências. A dialética entre obra, autor e leitor hão de ser inesgotáveis. Isto somente é possível no momento em que o artista deixa emergir seus devaneios. Ainda que seja difícil, quiçá impossível compor uma obra provida de total impessoalidade do autor, a subjetividade, quando moderada, não ameaça a integridade estética do produto final. Se enxergarmos de maneira positiva a subjetividade mesclada com a impessoalidade do autor, poderemos analisar as obras a partir de uma perspectiva onde as metáforas entre outras figuras de linguagem acabam por conferir literariedade ao texto, podem dizer muito sobre o que foi repreendido pela consciência, exilada no inconsciente. Consequentemente, fantasiar é dar uma faceta à ficção preenchendo suas lacunas com as memórias que outrora estavam retidas, tais como, os desejos reprimidos, lembranças boas e ruins, etc. Ou seja, tudo aquilo que em outros tempos fora reprimido. Logo, escrita e devaneio possuem uma relação íntima, desde que o artista saiba elaborar seu produto. Portanto, fantasiar é ser criativo!

  8. Tanto a ideia de fantasia e ficção seguem o mesmo caminho elaborado da criação imaginária, pois, olhando para o papel do escritor e da criança, seguindo a perspectiva freudiana, percebo que ambos criam um lugar de imaginação o qual expõe suas fantasias, sendo o escritor, o adulto que parou de brincar, cercado por sonhos, criatividade e devaneios. Para os defensores de “arte pela arte” a obra literária está ligada diretamente ao processo criativo do escritor. Dessa forma, torna-se uma espécie de regra para o campo literário a autonomia da imaginação do artista, usando sua liberdade entre colocar em exercício a fantasia/ficção e a realidade. À título de exemplo, a obra de José Luiz Passos, O sonâmbulo amador, nos apresenta uma narrativa marcada por devaneios, sonhos, a propósito, bastante verossímeis, e flashbacks. Esses pontos são mesclados por um narrador-personagem tão complexo quanto suas fantasias, que ao longo da narrativa foram se entrelaçando com a realidade do protagonista, mas sem nos deixar desorientados durante a leitura, como é a situação de Jurandir.

    1. A afirmação “Dessa forma, torna-se uma espécie de regra para o campo literário a autonomia da imaginação do artista, usando sua liberdade entre colocar em exercício a fantasia/ficção e a realidade.” é confusa. A autonomia é que se torna uma espécie de regra? A segunda parte ajuda na confusão por não ficar claro quem é o sujeito responsável pela ação explicitada…

  9. Lendo o texto me pareceu bem convincente a aproximação do desenvolvimento da fantasia de uma criança e o processo criativo de um escritor. Poderia me justificar, em primeiro lugar, utilizando o que Freud diz sobre ambos, crianças e escritores, através da fantasia/ficção serem capazes de modificar seus respectivos “mundos reais” de acordo com o que lhes agrade e permutar os elementos dessa “realidade criada” conforme as diversas situações que experimenta no momento. Outro ponto que me faz crer ser justificável a aproximação entre fantasia e ficção é o entrelaçamento dos três tempos (passado, presente e futuro), a partir de uma realidade insatisfeita, apresentado por Freud: (…) dessa forma o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une. Assim, quer seja por um fato criado ou baseando-se em um existente o escritor, a partir de uma motivação do presente, busca na memória do seu passado (o que Freud afirma ser geralmente memórias da infância), e respaldado pela fantasia, criar um futuro. Sobre isso me recorro ao livro Nove Noites em que a partir de um fato existente no mundo real (a morte de Buel Quain) o escritor Bernardo Carvalho parece se encarnar no próprio enredo justapondo a realidade de Quain com a sua própria, resgatando e embutindo na sua obra seus próprios devaneios e memórias.

    1. Bem, a única coisa que me chamou a atenção foi o fato de você qualificar como “insatisfatória” a realidade que se articula no processo da criação literária. Insatisfatória por que? Para quem? A modificação pela qual passaria a realidade na ficção é mesmo resultado de um processo que se desenvolve “de acordo com o que lhes agrade”, sendo o referente do pronome “lhes” o autor ficcional e a criança? Fica parecendo uma relação de causa e efeito, por um lado. Por outro, fica parecendo que a função da ficção é agradar a seu autor. Estarei equivocado?

  10. É comum que levemos em consideração o autor para interpretação de sua obra. Dessa forma, é perfeitamente possível a ideia de vincular a ficção de um texto literário a possíveis fantasias de um escritor.
    Apesar de possível, é preciso tomarmos cuidado com esse modelo de interpretação. O autor não é a pessoa do discurso de uma obra literária. A interpretação do literário não pode estar restrita à uma biografia do autor, seus desejos e devaneios. Um mesmo autor pode escrever sobre temas diversos ligados ou não a sua vivência.
    Com exceção do gênero biográfico (talvez seja inocência pensar assim) não devemos procurar em textos literários sua relação com autor. É importante reconhecermos o contexto de produção das obras, mas não vincular a isto seu inteiro significado. Por mais fantasia do autor que um texto possa ser, existe um trabalho estrutural e linguístico por de trás de sua produção. Este trabalho, diferente da “fantasia de criação”, é consciente e exige certo esforço. O enredo, as escolhas lexicais, o título, as configurações sintáticas, entre inúmeras outras características são pensadas para gerar determinado efeito pretendido pelo autor. Pode ser que este efeito não seja alcançado, visto que um leitor nunca terá a mesma leitura de outros leitores e do próprio autor, por motivos já conhecidos dos estudantes das letras, porém, é inegável a intenção do autor para provocar determinadas impressões.
    No livro “O sonambulo amador” temos uma história narrada em primeira pessoa pelo personagem Jurandir. O enredo nos conta sobre a vida comum de Jurandir entrelaçando o real e o irreal, ou a fantasia. É difícil considerarmos Jurandir como autor de seu próprio livro ignorando José Luiz Passos. Caso consigamos imaginar Jurandir como o “escritor”, como aponta Freud, aproximar suas fantasias com a ficção do livro é bem mais verossímil.

    1. Gostei de seus comentários. Eles causaram-me curiosidade: por que seria mais verossímil “aproximar suas fantasias com a ficção do livro”? O possessivo nesta oração tem que antecedente. Como você responderia a isso?

  11. Neste trecho Freud busca esclarece que não é necessário buscar elementos no passado, pois segundo Freud eles estão presentes à flor da pele, bem na superfície da vida.

    1. Você quis dizer “esclarecer”, pois não? Eu não teria certeza de que é assim que Freud expões seu raciocínio. Caso contrário, ele não faria tanto esforço (louvável e procedente) para respaldar suas afirmações com o resultado das observações e comparações que fez!

  12. Sim, acredito que seja possível. Se pegarmos como exemplo o livro O Sonambulo Amador de Jose Luiz Passos veremos que a ideia de fantasia ou devaneio de Freud se encontra na narrativa. Em um dos momentos da historia Jurandir narra que ao contar seus casos de juventude a Minie acaba por acrescentar detalhes que não existiram na historia real. Ou seja, ele fantasia ao contar esses casos a colega. Essa invenção poderia ser um modo do narrador de lidar com as dificuldades do seu dia a dia. Em outro trecho ele também deixa claro esse momento de devaneio de que fala Freud, ele diz: “A verdade é que esta sensação que de vez em quando me toma, de comentar as lembranças de meu amigo, relatando a Minie casos da nossa juventude, é um efeito curioso e revela bem o tipo de conversa que prevalece nos horários de folga, quando alguém, animado pela bebida, acaba falando o que não deve”.

    1. Juliana, gostei da articulação que você faz entre a curta passagem do romance e as ideias iniciais sobre o texto do Freud. Sinto apenas que poderia ter se estendido mais, para explicitar melhor a situação que você aponta!

  13. Bom, penso que podemos considerar que a comparação de Freud sobre a fantasia da criança e a do escritor é digna de ser compreendida como uma possibilidade de se pensar no escritor de ficção e no seu processo criativo, a exemplo o autor José Luiz Passos.Primeiro porque, como bem sabemos, boa parte do que produz um bom escritor é invenção de sua memória e de sua imaginação. E segundo, que essa invenção torna-se ficção, pois não condiz com a realidade. Não há um processo mimético de recriação da realidade. Há uma nova realidade, inventada por fantasias de seu mentor. Uma realidade que condiz com questões internas de seu processo de criação. Obscuras, porque sempre serão um mistério, até mesmo para ele. Só não seria um mistério se houvesse um método (como o método científico), padronizado, de produção de ficção, em que qualquer estudioso da área dos estudos literários poderia dominar tranquilamente e produzir – até mesmo muitos críticos literários.
    Com isso, a fantasia jamais deixará de agir como base na produção de uma ficção.

    1. arlos, a expressão “pois não condiz com a realidade” soa um tanto radicalmente categórica. Condizer é um verbo rico, que pode servir à expressão de múltiplos sentidos. Eu não seria tão radical pois acredito que sempre sobrevive um tanto de realidade na invenção ficcional, nem que seja por mais absurdo que possa parecer. Mas como eu mesmo digo… tudo é relativo!

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