Para “Tópicos de crítica” II

livro

A postagem de hoje tenta unir o útil ao agradável. Claro está que os dois textos de Freud – “Escritores criativos e devaneios”  e “Recordar, repetir, elaborar” são o pano de fundo, sobretudo o segundo. Acima de tudo o segundo! Do outro lado, está o romance de José Luiz Passos que vocês já leram, estão lendo ou estão em vias de… Pois bem. Para começar, proponho que vocês leiam o seguinte trecho:

“Trazer alguma coisa de volta, para o desesquecimento: quando começa canhestramente a marinhar pelos primeiros degraus da sua escada de Jacó particular, todo pobre de Deus que escreve aprende, aos poucos, às suas próprias custas, o que isso quer dizer. E não pela razão – porque não foi esse truão do conhecimento quem lhe ensinou isso, foi, ao contrário, um carma luciferino, o mesmo que lhe soprou nas ventas, a um tempo, o fogo estigmatizador de seu ofício de escrevinhar e o abrasador alento com que o pobre diabo que rabisca sobe, às vezes, e às vezes – ah! demasiadas vezes! – baixa pelos degraus dessa escada; não, o escritor que vale a pena não é nunca adestrado pelo bobo da corte da razão, mas pelas Fúrias que o penetram em suas insônias, no mínimo a Nêmesis que cada sujeito que escreve incorpora à força em seu couro, como um cavalo de Umbanda possuído por um orixá incontrastável, a que sele empresta sua temerosa voz e sua desajeitada expressão, mas expressão verdadeira, como quer que seja, em quanto finge no furor do seu transe. O que há de notável, então, que, joguete das obscuras forças que o dominam, o escritor oscile e mude ao sabor das mudanças que as palavras e os dias imprimem a tudo que alternadamente criam e devoram, como Cronos a seus filhos? Ao fim e ao cabo, a mudança é movimento, o movimento é a expressão física, espácio-temporal, de um querer, e o querer é vida. Ser é estar sendo transformado, ser é vir a ser – tudo o que vive  se metamorfoseia e se converte em algo diferente de si mesmo.” (LOPES, Edward. A palavra e os dias. São Paulo: Edusp; Campinas: Ed.Unicamp, p.22-23.)

edward

O autor deste trecho é professor e está a falar do ato de escrever como criação ficcional. Ainda que não explicite estes termos. Pois bem. Escolham um capítulo de O sonâmbulo amador. Escolha um de que você mais gostou. Releia-o à luz do texto freudiano – “Recordar, repetir, elaborar” -, relacionando-o com o trecho de Edward Lopes. Escreva, não menos que dez linhas, comentando o resultado de sua leitura. Uma vez mais: interessa-me mais a sua OPINIÃO (“crítica”) e não a repetição de ideias alheias. Boa leitura!

passos

 

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8 comentários sobre “Para “Tópicos de crítica” II

  1. Do livro “O sonâmbulo Amador”, de José Luiz Passos, elegi o capítulo entitulado por “Tirar o pó da cara cansa”, do Segundo Caderno, como aquele que mais gostei de ler. O livro todo é bem confuso, retratando as memórias de um homem que é internado em uma clínica no Recife após atear fogo no carro da empresa em que trabalhava, enquanto estava a caminho de Recife à trabalho. Pela leitura, deduz-se que sequer a família saiba do ocorrido com Jurandir. Este capítulo em especial chamou-me a atenção por conter uma passagem que fiz questão de anotar: “Concordei com a opinião dela, sobre os sonhos serem algo sem coerência, muito embora para mim essas visões sejam, de fato, nossas grandes claraboias da noite” (p. 120). Jurandir narra aqui uma conversa que teve com Madame Góes em que lhe contava um sonho que havia tido e, em seguida, ela tece um comentário sobre os sonhos não terem sentido algum. Ao que Jurandir reflete que, apesar de concordar com a opinião dela, ele acredita que os sonhos sejam “claraboias da noite”. A esta expressão podemos interpretá-la como sendo uma referência aos sonhos serem uma fuga ou luz da memória. Neste capítulo, há um exemplo interessante de metalinguagem em que o Autor utiliza-se do texto para explicar onde e como o texto está sendo escrito. Jurandir conta que escreve todos os dias seus relatórios mentais, com seus sonhos, leituras e balanços do dia-a-dia. Ainda neste capítulo, Jurandir conta sobre o livro que Dr. Ênio ensaia com os internos, escrito pelo próprio doutor, uma apresentação, em que Jurandir tem um papel central. A técnica utilizada pelo médico de Jurandir é aquela explicitada no texto de Freud “Recordar, repetir e elaborar”. O médico o faz escrever sobre o que aconteceu com ele, sobre o que acontece nos dias atuais e sobretudo sobre os sonhos que tem. Embora não tenha lido qualquer diálogo entre o médico e o personagem principal do livro, ele narra, certa hora que o médico o faz recordar coisas do passado, fazendo-lhe perguntas que ele não sabe, ou acredita não saber. Como por exemplo, quando lhe pergunta se quando seu filho estava na UTI muitas pessoas foram visitá-lo, ao que ele apenas responde não saber, mas que Heloísa sabe. Talvez, como Freud mesmo explicou, ele saiba mas tornou esta uma lembrança reprimida, por ser algo que claramente, pela leitura do texto, constitui todo o seu drama e seu trauma, qual seja, a perda do único filho.

  2. “O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias.” Com essa afirmação, Freud explica como as fantasias do escritor nos encantam e seduzem, além de proporcionar prazer ao leitor atento.
    Como afirma o próprio Freud, sentimos repulsa ou indiferença quando nos contam fantasias, mas encontramos nas histórias ficcionais, além de um deleite, uma identificação com as personagens. The Portrait of a Lady, de Henry James é um livro que fez com que me encontrasse. O meu modo de pensar e, muitas vezes, de agir se encontravam nas páginas do livro, o que ao mesmo tempo que causa satisfação, causa também um certo desconforto. Entretanto, caso eu resolvesse expor meus pensamentos pessoais para um ouvinte duas situações seriam possíveis: 1) A pessoa provavelmente não se importaria; e 2) A pessoa provavelmente não entenderia. Mas se levarmos em conta a leitura do romance, além de o leitor se identificar com a história, ele entenderia muito mais sua situação através do herói, do que através de palavras de pessoas que não compreendem o que se passa tanto dentro da mente, quanto da vida do indivíduo.
    No romance O Sonâmbulo Amador, de José Luiz Passos, é muito fácil se identificar com a personagem, já que, muitas vezes, ele passa por conflitos que passamos constantemente. Jurandir, personagem do romance, devaneia em diversas ocasiões.
    Freud afirma: “As forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória.”. O problema maior é que, nem sempre, o devaneio é algo romântico, como o exemplo de Freud sobre o “pobre órfão”, muitas vezes é algo de que deveríamos nos envergonhar. Quem nunca ouviu aquela famosa frase: “Estou sorrindo para você, mas na minha cabeça já te matei de três formas diferentes”? É mas ou menos isso que Jurandir faz no capítulo Quase nos reduzimos a simples espíritos,:

    “Puxei para fora da bolsa o revólver, que me pareceu menor, apertado em minha mão, e apontei para o advogado.
    Você agora vai parar de falar essa besteira, eu disse.
    Nilo Rangel levantou os olhos e me viu com o braço esticado na sua direção.
    O que é isso?
    Isso é para você, eu disse, e puxei o gatilho.”

    O leitor fica extremamente supresso com este desfecho, até mesmo chocado com a atitude da personagem, para logo em seguida Jurandir explicar o que realmente acontece: “Claro que quis estourar a cabeça de Nilo Rangel e colocar ali em cima um lencinho, para o caso de alguma moça passar perto e não se espantar com aquilo. Mas vocês sabem que não foi isso que aconteceu. Ninguém precisou pular de canto nenhum.”
    Devanear é algo que todos fazem, seja para imaginar aquela cena na qual o seu professor elogia o seu trabalho em frente de toda a turma, seja aquela que você toma coragem e fala poucas e boas para o seu chefe mau educado. O que mais importa é o fato de ser um ato presente, o que gera uma identificação, que nos causa contentamento e satisfação durante a leitura e nos faz pensar que não estamos sozinhos em nosso modo de pensar e ver o mundo.
    “Deve-se dar ao paciente tempo para conhecer melhor esta resistência com a qual acabou de se familiarizar, para elaborá-la, para superá-la, pela continuação, em desafio a ela, do trabalho analítico segundo a regra fundamental da análise.”. Essa afirmação pode ser associada ao romance da mesma forma que a anterior.
    O último capítulo, Bebemos Sempre dos Mesmos Copos, se inicia da seguinte forma: “Amanhã cedo finalmente vão começar a pintar nossa casa toda de branco. Os muros e a fachada ainda são do azul original e com o tempo descascaram muito…, pedi ajuda à minha esposa e fomos embrulhar em jornal os livros e as gavetas de minha cômoda, que também ia mudar de cor. Heloísa quer tudo novo.”. É possível notar que, após todos os acontecimentos do decorrer do livro, Jurandir conseguiu vencer seu tempo na clínica e se modificar, buscando um novo começo e iniciando uma nova fase de sua vida e isso pode ser comprovado pela última frase do livro: “Desejo a todos, do fundo de quem agora sou, tudo do bom e do melhor, e mais, e principalmente, uma boa entrada nesta nossa longa e maravilhosa noite.”
    Por fim, como paciente de uma clínica, podemos relacionar Jurandir com o texto freudiano Relembrar, Repetir e Elaborar. Ao escrever seus sonhos e sua vida, Jurandir tem uma maior visão de sua situação o que, como mostra o livro, o ajuda a modificar sua vida. Não é incomum o escrever para recordar. No romance The Outsiders, de S. E. Hiton, a personagem também considera válido escrever sobre os acontecimentos de sua vida, tanto para que a história não seja esquecida, quanto para ajudá-lo a lidar com a situação passada e traumatizante.

  3. Com foco no capítulo “Quase nos reduzimos a simples espíritos” é possível abordar a temática presente no texto “Recordar, repetir, elaborar” no que diz respeito ao compartilhamento por um paciente quanto aos fenômenos que o molestam. Ao longo da narrativa do romance, a personagem de Jurandir toca em assuntos relacionados a seu filho, gradualmente adicionando detalhes que compõem a imagem sobre o garoto. Inicialmente pouco exposta, cada vez mais trabalhada, a relação com o menino é contada com a adição de detalhes que se apresentam à medida que a história avança. Coadunam com isso as passagens do texto freudiano que fazem menção à gradual aceitação de determinado paciente de fenômenos que causem sua enfermidade, e o subsequente possível enfrentamento desta. Acredito que o cerne da questão se encontre no trecho “O paciente tem de criar coragem para dirigir a atenção para os fenômenos de sua moléstia. Sua enfermidade em si não mais deve parecer-lhe desprezível, mas sim tornar-se um inimigo digno de sua têmpera, um fragmento de sua personalidade […] Acha-se assim preparado o caminho, desde o início, para uma reconciliação com o material reprimido que se está expressando em seus sintomas, enquanto, ao mesmo tempo, acha-se lugar para uma certa tolerância quanto ao estado de enfermidade”. Aqui, percebo o paralelo com o enfrentamento de Jurandir ao longo do texto quanto a sua forma de lidar com seu filho, sobretudo no que diz respeito à lenta e gradual forma com que cada vez mais detalhes são adicionados a sua história. A resistência proposta por Freud que sobre o paciente se forma quanto ao reconhecimento de uma enfermidade seria, como devidamente abordado no fim de seu texto e possível de se encontrar na figura de Jurandir é, assim entendido, um passo que se constrói ao longo do romance. Quando Jurandir se torna familiarizado a contar sua história e perceber como se deram os acontecimentos de sua vida, torna-se para ele mais fácil discorrer sobre a questão de seu filho, ponto doloroso para a personagem principal que é aos poucos passível de enfrentamento. Creio dizer, com isso, que a elaboração do sofrimento de Jurandir é justamente o que torna a ele possível lidar com sua dor.

  4. As passagens do primeiro caderno formaram meu referencial para tentar compreender a obra como um todo. Percebi, comparando os primeiros capítulos com os demais, que há um perceptível desenvolvimento da personagem Jurandir ao decorrer da obra. Não só dele, mas das personagens que ele vai apresentando ao leitor à medida que refaz suas memórias. Por exemplo, a primeira impressão que, como leitora, tive do Jurandir era de uma personagem seca, sem muitos floreios, quase “sistemático” ou impessoal. E nessa perspectiva me vi sendo, por ele, apresentada a Minie como uma colega qualquer de trabalho. Entretanto ao decorrer dos capítulos percebi o Jurandir mais aberto, se expondo mais, demonstrando seus sentimentos e inseguranças. E com isso, ou melhor, por causa disso, tudo (e todos) que ele, como narrador, me permitia conhecer também ganhava mais contornos e detalhes. Minie agora se apresentava não mais como sendo uma colega de trabalho qualquer, mas uma amiga. E outros detalhes do seu passado, sentimentos, descrições de situações e sonhos que tinha, iam sendo descritos com mais nitidez e vivacidade. Uma passagem em especial me chamou a atenção: “ainda hoje, quando Mine me ouve contando isto, ou coisas dessa época, posando interessada, segurando o copo e tomando seus golinhos de Coca, ela me olha de um jeito mais vago. Vou acrescentando detalhes que antes não tinham feito parte da história.” Apesar de poder ser interpretada num sentido mais específico, a de que ele acrescenta detalhes do dia do acidente na sua infância ou “coisas dessa época”, em minha opinião é possível universalizar esta última fala do Jurandir com a obra como um todo, pois praticamente em todo o livro Jurandir faz repetições, seja de memórias ou até pensamentos, mas sempre “acrescentando detalhes” e isso dá, em minha opinião, uma sensação de desenvolvimento das personagens e da obra, por conseguinte. Essa minha interpretação teve como pano de fundo um aspecto da leitura que fiz do texto freudiano. Essas repetições, e por fim acréscimos, das memórias que Jurandir fazia se davam porque ele estava justamente nesse processo de “recordar, repetir e elaborar”. À medida que, após vencer as suas restrições e barreiras, ia se recordando ia também repetindo suas memórias para ser, enfim, ser capaz de elaborá-las.

  5. Relendo o capítulo “Tirar pó da cara cansa” do segundo caderno, de “O sonâmbulo amador”, observei como a escrita de José Luiz Passos se apoia no passado para compor sua ficção, lembrando a ideia freudiana de que a ficção seria a forma do adulto brincar com suas fantasias. Fantasias essas que podem estar ligadas as memórias passadas do escritor uma vez que, em entrevistas, o autor José Luiz Passos conta que antes de começar a escrever o romance seguiu os rumos da herança de seu pai e registrou em diários e anotações seus sonhos, devaneios, fragilidades e fantasias. O autor fez o laboratório de se autoconhecer para escrever sobre uma personagem que, por meio da escrita, tenta resgatar memórias do passado para preencher as lacunas que havia deixado antes de ser internado na clínica Belavista; é nesse aspecto que vejo a ligação direta/autobiográfica entre autor e a obra, assim como Luiz Passos transfere suas fantasias para o “papel” projetando sua obra ficcional, a sua personagem transfere seus sonhos, devaneios e seus pontos mais frágeis para tentar reencontrar seu caminho, se “entender com o passado”. Esse método de transferência, segundo a perspectiva freudiana, contribui para que o paciente ao recordar de suas “dificuldades” apenas repita o que já era claro para o tratamento analítico, permitindo ao paciente que seus desejos, medos, dificuldades, etc. saiam do inconsciente. É o que acontece com Jurandir ao registrar suas ações, sonhos e eventos nos cadernos. Para nós o que, a princípio, seriam relatos confusos cobertos de lacunas podem nos ajudar a compreender a personagem principal. Ao longo da leitura percebemos os espaços vazios que ele deixa entre fatos, talvez, do meu ponto de vista, acontecem por Jurandir não conseguir lidar com a perda e a tensão. Como acontece logo no início do romance, pois, desde o primeiro caderno percebemos que Jurandir não lida muito bem com situações que saem da sua zona de conforto, assim, explica-se o surto psicótico que o leva a ser internado. O desequilíbrio emocional ocorre em meio a viagem e último caso de segurança do trabalho da personagem, caso, inclusive, que, desde o primeiro momento, percebemos que há grande empatia de Jurandir para interceder legalmente pelo acidentado. Além disso, Jurandir lida com a mudança que a esposa fez no quarto do filho falecido, um dos acontecimentos que reflete a forma como Jurandir trabalha com suas memórias. Há um descompasso entre ação e sentimento, talvez seja isso o que o torna um “sonâmbulo amador”, pois, assim como sujeitos que sofrem de sonambulismo e vivem situações que provocam lacunas nas suas ações como, por exemplo, dormir em sua habitual cama e acordar na casinha do cachorro, Jurandir vai nos apresentando e revelando ao longo dos cadernos seus sonhos mais confusos. É a partir do encontro com o inconsciente e pela repetição na escrita dos cadernos que Jurandir se permite a se reencontrar.

  6. A perspectiva freudiana acerca da técnica de análise psicanalítica utilizada por meio da repetição, recordação e elaboração com seus pacientes, pode ser empregada também no viés literário. Há inúmeras obras de autores que apresentam esta característica estrutural. Como por exemplo, o último romance vencedor do prêmio oceanos em 2016, “A resistência” (2015), de Julián Fuks.

    O romance é narrado em primeira pessoa, pelo personagem chamado Sebastián. O mesmo decide escrever sobre seu irmão adotivo, que também é o primogênito da família. Pai e mãe dos irmãos são psicanalistas argentinos e mudaram-se para o Brasil durante a ditadura argentina, na década de setenta. O enredo, tal como o título, faz-se presente de resistências em todos os sentidos: resistência para rebuscar as memórias e falar sobre o irmão que fora adotado, resistência perante à ditadura argentina, visto que seus pais eram subversivos, resistência aos diálogos na mesa de jantar, entre outros rigores técnicos que numa mescla de ficção e biografia do autor, acaba por tornar o romance ambíguo. A crítica literária, Márcia Lígia Guidin fez o seguinte comentário sobre o livro de Julián Fuks, “Penso que ingressamos no domínio da autoficção, neologismo para certo tipo de narrativa contemporânea (ainda sob muitas controvérsias teóricas e parcos estudos) em que o eu real e o eu fictício se esbarram numa escrita na qual experiência, memória, verdade e invenção se interpenetram e se confundem”.

    Ou seja, o comentário de Márcia torna-se totalmente pertinente se a obra for lida com a devida atenção à sua estrutura pautada na técnica psicanalítica freudiana. Uma vez que o romance, “A resistência” fora constituído destes aparatos. O narrador quer e não quer buscar no passado a verdadeira história que há por trás da adoção de seu irmão; quer e não quer saber mais sobre a militância de seus pais no período ditatorial argentino; quer e não quer saber mais sobre as inquietudes que assolam o irmão mais velho, e, que acaba por causar infortúnios também no próprio Sebastián. Tudo isso acontece pelo fato do narrador perscrutar suas memórias profundamente, a partir das lembranças superficiais, da mesma forma que a técnica da psicanálise trabalha: recordando, repetindo, elaborando. O ato de escrever uma obra, uma ficção engendrada pelas inquietudes, pela fuga da razão daquele que escreve, é o que dá a melhor forma ao seu trabalho, fazendo com que a narrativa se expresse de forma genuína, assim como Edward Lopes diz que um escritor precisa ser provido, “[…] o escritor que vale a pena não é nunca adestrado pelo bobo da corte da razão, mas pela fúria que o penetra em suas insônias […]”.

    Não obstante, para continuar ilustrando a técnica da recordação, repetição e elaboração da psicanálise na literatura, há também o romance do escritor, José Luiz Passos, “O sonâmbulo amador” (2012). Nesta obra, o narrador Jurandir está cercado de memórias do passado, inquietudes, adultério, entre muitas outras complexidades que tangem o caráter humano. Jurandir por meio de suas recordações e repetições dessas memórias acaba por elaborar inúmeras passagens que vão constituindo unidade ao texto. E, somente com o decorrer da leitura que algumas pontas vão sendo amarradas, outras não. Por exemplo, logo no início do livro Jurandir apresenta um problema em uma de suas pernas, obrigando-o a caminhar sempre lentamente, sobretudo ao subir e descer escadas. Mas, a revelação de tal motivo de seu problema se dá mais à frente do texto. O narrador mostra que seu trauma é oriundo de uma queda de carrinho de rolimã, ainda na infância. Portanto, é possível notar a presença do recurso técnico freudiano na construção literária, porque a voz que narra, vai acrescentando detalhes às informações de forma gradual, e por meio das recordações, até tudo ficar claramente explicitado ou não. Por fim, não há como negar que a literatura não é feita para consolar, mas sim para perturbar, mexendo com os sentidos de quem a cria e de quem a lê. A literatura faz do leitor mais do que um mero observador; mas, inevitavelmente, um coautor.

  7. O capítulo “É preciso andar com um pouco de tudo” ilustra perfeitamente o que trata o trecho de Lopes. O capítulo tem início com a descrição da mudança no meio que outrora fora lugar de deleites e agora tornava-se cenário de cobranças: a casa de Minie, sua amante. Linhas após, Jurandir expressa a dificuldade em unir, em uma só, as diferentes personalidades de sua amante, do que entende-se que as mudanças do espaço são consequentes da metamorfose naquela com quem vivenciara doces momentos naquele local:
    “tentando colocar as duas numa só, aquela que tinha chorado acocorada meses antes e esta que me soava escrupulosa demais, e eu desta fusão querendo tirar um plano de como proceder, mas sem conseguir chegar a tanto, enfim, acabei percebendo o volume da ansiedade que hoje me persegue. ”.

    Em seguida, voltando-se para sua própria casa, Jurandir descreve a mudança do cômodo que anteriormente fora o quarto de seu filho. A narração do sonho logo após reforça a semelhança entre o real e o onírico: não se sabe nem o como nem o porquê. O narrador, após despertar do sonho, atenta-se às mudanças em Heloísa. Inicia sua contemplação da mudança na beleza, porém há uma metonímia entre a beleza da face da esposa e a do relacionamento dos dois. Passeando em seu relacionamento, Jurandir passa pelo namoro, chega ao matrimônio e culmina na análise das mudanças desde que seu filho era criança.
    A reflexão sobre tantas mudanças explanam a ação aparentemente impulsiva de Jurandir ao incinerar o veículo. Todavia, não há nada de brusco e impulsivo na ação do narrador; a impulsividade reside no espaço e no tempo em que ele está inserido, de modo que sua atitude nada mais é que a consequência do impacto de tantas mudanças. Os ambientes já não eram mais familiares a Jurandir: as mudanças nas pessoas acarretaram mudanças nos ambientes, de modo que não havia, para ele, um local que lhe fosse aconchegante e familiar. Estando ele na estrada, surge, então uma repulsa por aquilo que o conduz ao velho que já não é mais como fora um dia: o quarto do filho mudou, a casa de sua amante mudou, a beleza de sua mulher mudou, todas as suas relações foram vítimas de metamorfoses. Resta, então, o receio de que Recife, local de tantos momentos preciosos na infância, tenha sido também vítima das metamorfoses. A solução é destruir o veículo, destruir aquilo que o leva adiante, aquilo que conduz ao repentinamente novo. A solução foi andar a pé, devagar e seguir em frente apenas quando alguém parasse, ou seja, quando alguém lentamente metamorfoseado lhe desse atenção: “Quando alguém parasse, se parassem para mim, eu seguiria adiante.”
    O narrador chega à conclusão de que as mudanças bruscas e suas tentativas de acompanhar as mudanças ao redor lhe foram prejudiciais. Desfaz do veículo que o conduz em maior velocidade, pois deseja deslocar-se através do tempo em seu ritmo lento:
    “Mas ia só, no meu ritmo. Do único jeito que era pra eu ter deixado a comodidade de casa.”.
    Na verdade, o narrador não foge da metamorfose, inevitável a quem vive, ainda mais a quem escreve, mas permite-se viver tal processo lentamente, o que marca o início de se tratamento, o início da escrita dos cadernos. O próprio fato de estar narrando algo que aconteceu antes do momento da escrita demonstra a atitude de viver e/ou reviver lentamente cada momento, de transformar-se com cautela, compreendendo cada etapa de tão complexa metamorfose.

  8. O sonâmbulo amador se mostra um romance muito interessante pois atua no campo do “realismo fantástico”. Podemos observar que as descrições realizadas por Jurandir são todas muito verossímeis, completas, não nos geram dúvida sobre o ambiente ou o modo como ele enxerga as pessoas. Se, por um lado, as descrições são fidedignas, por outro, desconfiamos do narrador no momento em que sabemos de sua internação após atear fogo no carro da empresa em que trabalhava. Aquilo que nos parecia uma fonte segura, deixa de ser a partir do momento em que sua sanidade mental (ou seja, aquilo que diz respeito a capacidade de julgamento) está em xeque. É comum que pessoas sejam rotuladas de “loucas” quando tem atitudes que fogem aquilo que a sociedade impôs como “normal”. Atear fogo no carro, seria uma dessas atitudes.

    A parte fantástica ocorre a partir do momento em que o narrador apresenta razões para não acreditarmos em tudo o que ele diz. Dessa forma, fica impossível saber se o narrado ocorreu ou não ocorreu. E, uma vez que tenha ocorrido, quais as razões (psíquicas) levaram Jurandir a narrar de determinada forma e não de outra (pensando que a narrativa é não linear). As escolhas de Jurandir por narrar alguns acontecimentos, mesmo que fora de ordem e mesmo sem sabermos se são reais pode ser explicada por este trecho: “[…] outro grupo de processos psíquicos – fantasias, processos de referência, impulsos emocionais, vinculações de pensamento – que, como atos puramente internos, não podem ser contrastados com impressões e experiências, deve, em sua relação com o esquecer e o recordar, ser considerado separadamente. Nestes processos, acontece com extraordinária freqüência ser ‘recordado’ algo que nunca poderia ter sido ‘esquecido’, porque nunca foi, em ocasião alguma, notado – nunca foi consciente.” (Riviere, 1924).

    Para exemplificarmos o que chamamos “realismo fantástico”, podemos utilizar o capítulo “Tirar o pó da cara cansa.” Em que temos: “Referi este sonho a doutor Ênio. Lembro que acordei transpirando. A conclusão que tirei, sem a ajuda dele, é que acho que estou me distanciando dos meus. Às vezes, sem razão, me sento na poltrona na sala da frente, olhando pela janela, e passo em revista as últimas semanas na clínica.” (PASSOS, p.70). Jurandir está em uma clínica. O modo que narra os acontecimentos, nos parece verídico, porém, podemos especular pela falta de fidedignidade que atribuímos ao personagem por sua condição. Logo, temos o real e o fantástico operando juntos para nos causar dúvidas e diversas possibilidades de leituras e interpretações para o mesmo romance.

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