Trecho

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“Qual seria o nome do que se sente quando se percebe que o tempo passou? Isso tem nome? Será que alguém pode sintetizar em palavras o que é que se vai percebendo na medida da passagem do tempo? Essas e outras perguntas podem perturbar a mente de qualquer um. Indubitavelmente. Todos os dias fazer a mesma coisa, seguir uma espécie de roteiro que não foi escrito, que não foi previamente preparado. A produção não tem recursos pois não sabe o que ou quem previu toda a sequência de episódios, de cenas, de detalhes. O tempo simplesmente passa e as cenas vão se desenrolando. Uma sequência jamais é idêntica a outra porque as pessoas são diferentes. No entanto, a similaridade de detalhes e de pontos comuns não pode ser contestada. Verificar se a lâmpada foi apagada antes de ir dormir. Fechar todas as janelas e trancar as portas. Ter certeza de que o cão foi solto para toma conta da propriedade. Dormir. Sobressaltos? Inconscientemente, eles são controlados, sem deixar de subsistir a qualquer relaxamento. Os sonhos estão aí pra isso, para tentar esclarecer pontos obscuros, medos guardados, desejos alienados na linha do tempo, um tempo que nem a consciência nem a razão conhecem. Não sonham em dominar. Acordar correr ao outro quarto a verificar se ela ainda respira. A essa altura pode parecer repetitivo, mas é um cuidado, uma delicadeza. Pressuposto de , no mínimo uma situação que, por natureza e origem não pode ser controlada. Não é controlada, jamais. O dia passa no mesmo compasso. As horas diante do computador, as cartas, os livros, as ideias. A pausa para a refeição do meio do dia que, invariavelmente, quase nunca é no meio do dia. Não esquecer dos remédios, pela manhã e à noite. O colírio, para o mosquitinho que insiste em acompanhar a leitura do que quer que seja com as presença quase incômoda, mas nada divertida. Apenas aturada. Mais uma tarde entre afazeres comuns, que não imputam celebridade a ninguém. A noite chega e os cuidados se repetem. A televisão em sua sequência diária, imutável repetição de prazeres rasos que não satisfazem mas alimentam a imaginação. Dormir de novo e, no dia, seguinte, mais uma vez, sempre repetir. Será isso viver? Por que as pessoas fazem falta quando menos se espera sentir falta delas? Um pedaço de música, um verso, uma cena de filme, um cheiro. Qualquer coisa leva a lembrar que o tempo passou e que todas as pessoas passam, assim como o tempo”.

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