Para LET874

Abaixo, leem-se dois poemas que compõem o livro Mensagem, de Fernando Pessoa (ortônimo). São o primeiro e o último, respectivamente. Leia-os com atenção!!

livros_fernando_pessoa

BRASÃO

  1. Os campos

O dos castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar ’sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal

*********************************************************

NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!

Valete, Fratres.

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Costumo dizer que este livro de Fernando Pessoa pode ser abordado como uma leitura de Os lusíadas, na perspectiva do Modernismo português, levando-se em consideração o “clima” que se instaura em Portugal (porque deu-se o mesmo na Europa) no período da História geralmente reconhecido como “entre guerras”. Tendo este pressuposto como ponto de partida, deixando de lado – por enquanto! – tudo o que você já leu e ouviu sobre a heteronímia, pense no significado de Os lusíadas para a História e a Literatura de Portugal. A partir destes dois elementos destaque alguns versos dos poemas acima e comente-os, ressaltando o “tom” melancólico que se pode depreender da leitura, Não se esqueça de que a mim importa a SUA opinião, o resultado de SEU raciocínio. Seja franco e sincero e objetivo e escreva como se estivesse dando uma explicação a qualquer outra pessoa, que não a mim! Bom proveito!

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26 respostas para “Para LET874”.

  1. Para muitos o estado de melancolia fazia com que mais criações acontecessem em campos artísticos, principalmente no campo da Literatura. Fernando Pessoa até disse que sua melancolia o ajudava nas criações poéticas. O título nos remete ao lado histórico, onde os castelos serviam de inspiração. O sujeito lírico parece não querer entrar no poema. Há um distanciamento, uma melancolia. A introdução da história se dá de forma bem “lusíada”, onde o país é colocado de uma forma bem divina. “A mão sustenta, em que se apoia o rosto” é um trecho que me marcou para todo o contexto. Mostra um lado mais solitário e melancólico. Já no outro poema, alguns trechos, ao meu ver, demonstram mais o tom melancólico do heterônimo de Pessoa. Podemos ver claramente nos trechos: “Que é Portugal a entristecer — Brilho sem luz e sem arder, Como o que o fogo-fátuo encerra”. O clima de Potugal narrado no segundo poema também demonstra bem esse lado melancólico, como na comparação que ele faz com o tempo, ao dizer que é como um “nevoeiro”. Assim como as incertezas narradas no segundo poema também servem para elucidar os tons melancólicos, como as “incertezas”: “Tudo é incerto e derradeiro.”

  2. No primeiro poema, através de metáforas, o eu-lírico faz a localização geográfica da Europa apresentada como uma figura feminina “românticos cabelos”, “olhos gregos”, “o cotovelo esquerdo”, “o direito” “a mão sustenta” “o rosto”. Em Os Lusíadas, Portugal é apresentado como “o cume da cabeça da Europa”, como sendo uma parte essencial da Europa. Da mesma forma que a cabeça é insubstituível no corpo humano, Portugal é valorizado dessa mesma forma no poema.
    No segundo poema, nota-se um tom geral de tristeza e melancolia, marcado por palavras e expressões negativas como “nem paz”, “a entristecer”, “sem luz” etc. Resgata o mito sebastianista em que diz que o rei irá voltarem uma manhã de nevoeiro, uma vez que o nevoeiro é a situação em que se vive Portugal, concluindo ,assim, o pema.

  3. No período “entre guerras”, a poesia portuguesa foi tomada por um impulso melancólico e saudosista, devido ao estado de decadência pelo qual o país passava, em virtude do regime totalitário que lá se instalou, o Salazarismo. Dessa forma, a lembrança de uma época em que Portugal fora grandiosa e exaltada era constantemente tema dos escritos do período, o que pode ser visto nos poemas de Fernando Pessoa apresentados acima. Em “O Dos Castelos” é possível visualizar o caráter saudosista com relação ao período das navegações, em que Portugal exercia grande influência em relação a outros países e, dominava diversas porções de terra: “Fita, com olhar ´sfingico e fatal, / O Ocidente, futuro do passado. // O rosto que fita é Portugal”.
    Nessa passagem, nota-se a melancolia portuguesa, que, por meio de uma personificação, atribui a característica de fitar ao próprio país de Portugal, como se este fosse realmente um rosto e olhasse com saudade as suas conquistas no ocidente, em épocas passadas.
    Já em “Nevoeiro”, acredito que haja uma espécie de crítica, também, ao período “entre guerras”, o qual, como mencionado anteriormente, foi marcado por um regime ditatorial, que cerceava as liberdades individuais e coletivas, assim como impediu o desenvolvimento econômico de Portugal. Na realidade, enquanto os outros países europeus investiam em industrialização, a economia portuguesa estava cada vez mais agrícola, o que só agravava seu estado de atraso. A fase é então, como aborda o poema, cercada por incertezas e inseguranças, como nos versos: “Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”. Assim como em um dia de névoa não é possível enxergar direito o que está posto a nossa frente, para Portugal, naquele período, não se delineavam com clareza os traços de seu futuro.

  4. A obra “Mensagem” é uma versão moderna e espirituosa de “Os Lusíadas”. No primeiro poema, percebi que Portugal é destacado como “a cabeça da Europa”, assim como vemos em “Os Lusíadas”, o país é colocado de forma bem espirituosa nos versos “A mão que sustenta, me que se apoia o rosto/ Fita com olhar sphyngico é fatal”, concluindo nos versos seguintes,”O rosto com que fita é Portugal”. Nesse poema, podemos observar um eu-lírico com traços nostálgicos, e não melancólico.
    No segundo poema, o eu-lírico parece manifestar uma certa angústia íntima pelo fato de que esta tudo incerto, tendo um pensamento reflexivo, fazendo assim, surgir um tom melancólico, como podemos ver nos versos : ” Que é Portugal a entristecer-/Brilho sem luz e sem arder”.

    1. Uma “versão moderna e espirituosa” é expressão questionável que pode levar a equívocos!!!
      Nostalgia é um dos componentes da melancolia, se não estou lendo Freud equivocadamente!
      Gostei de “angústia incerta”, ainda que, de incerta ela não teria quase nada!
      Bom!!!

  5. A melancolia nessa época vinha como elemento de inspiração para as construções poéticas, ou seja, a desilusão com o presente e uma esperança no futuro são elementos que estão presentes tanto na obra de Camões como nas de Fernando Pessoa. O poema Brasão de Fernando pessoa assim como os Lusiadas mostra a figura de Portugal perante o mundo, colocando assim em evidência o todo o esplendor de Portugal no que dizia respeito a seu valor simbólico e sua influência na formação da sociedade ocidental.”O rosto com que fita é Portugal…” Em um segundo momento Fernando Pessoa define mito como algo que em nada contribui no que diz respeito aos impulsos para a construção da realidade, Fernando Pessoa assim como Camões coloca o povo português em elevação, sendo apresentados em suas obras como um povo heroico e guerreiro, outro elemento comum nos Poemas é a mulher portuguesa, que é colocam como mãe dos fundadores do país. Já o poema Nevoeira, coloca em evidência essa desilusão e usa do título como forma de mostrar a incerteza do que virá, fazendo uma referência a crise de identidade que o país vinha sofrendo “Brilho sem luz e sem arder”.
    “Tudo é incerto e derradeiro.
    Tudo é disperso, nada é inteiro.
    Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”
    Esses trechos deixam claro como o povo português vinha sofrendo com essa incerteza, e como o espirito melancólico se espalhava por todo o país, mas mais forte que o espirito melancólico, o que fica claro tanto em Fernando Pessoa como em Camões é que mesmo que Portugal passe por crises a esperança de dias melhores também é algo presente na obra de ambos os autores.

  6. “A Europa jaz, posta nos cotovelos:
    De Oriente a Ocidente jaz[…]”
    A afirmação do declínio europeu, no período entre guerras, se torna visível nestes versos, uma vez que além de apresentar uma forma lírica para expressar toda a derrocada de uma grande nação, trás consigo um contexto para além fronteiras. Sendo assim, a Europa inteira declina, a Europa inteira jaz, toda ela está posta nos cotovelos, fitando e pensando nos velhos tempos em que uma fase heroica era festejada e aclamada.
    Concomitante a este pensamento nostálgico e no contexto temporal, relacionado ao período entre guerras, no poema Nevoeiro, pode-se destacar os seguintes versos:
    “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
    Define com perfil e ser
    Este fulgor baço da terra
    Que é Portugal a entristecer[…]”
    Esses versos destacados nos mostra, por exemplo, a dicotomia paz e guerra, forte referência a um período desestabilizador que Portugal viveu, por isso o país está a entristecer. Tudo é névoa, embaraçoso e com pouca nitidez, não é sólido e preciso, mas sim “incerto” e “derradeiro”, tudo é “Nevoeiro”, por isso “ é hora!”. Hora de encarar e fortalecer o amado Portugal que, em tempos antigos, era honrado e proclamado.

    1. Gostei! No entanto, cuidado com a sintaxe: “Esses versos destacados nos mostra”… O correto é Esses versos destacados nos mostram… A apropriação de palavras dos poemas funcionou!

  7. A primeira obra possui uma poesia empírica -lírica. Nesta narrativa épica, há um tom de exaltação heróica e uma grande exaltação dos perigos. Onde fica claro a preocupação em abordar a temática de fundação de portugal. Pode – se dizer que há uma personificação da Europa e sua cultura.
    O poema Nevoeiro apresenta – se o contraste entre o desânimo do presente e a esperança de o país melhorasse no futuro. Na primeira estrofe do poema já podemos perceber esse desânimo:
    ” Nem rei nem lei, nem paz nem guerra […]”
    E já no fim do poema percebemos uma espécie de vocativo,[…]É a hora! ” para que Portugal acorde, e abra -se as perspectivas de um futuro radiante. Há uma nítida mudança daquele país que estava desanimado para um país que se apossa desse processo de positividade.

  8. O épico está presente em ambos poemas retomando Os Lusíadas, porém com tons metafísicos,míticos e espirituais. No primeiro poema, nos versos “A Europa jaz, posta nos cotovelos:De Oriente a Ocidente jaz,fitando” o verbo ‘jazer’ (conotação fúnebre e melancólica), a posição contemplativa de uma pessoa apoiada nos cotovelos e os verbos “fitar” e “lembrar” como únicas ações realizadas por este corpo.Há uma necessidade de despertar um continente adormecido (o corpo). Portugal (Rosto da Europa) poderá despertar o velho continente na procura de um novo império espiritual. No segundo poema, a melancolia é mais perceptível que no primeiro, pois o eu-lírico tem ansiedade de mudar o caráter de indefinição e obscuridade que Portugal vivia.

  9. O poema faz descrição do mapa da Europa (citando alguns países)
    “Aquele diz Itália onde é pousado;
    Este diz Inglaterra onde, afastado,”

    “A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
    Fita, com olhar esfíngico e fatal,
    O Ocidente, futuro do passado.” Me faz imaginar uma pessoa pensativa e cansada, mas com a força concentrada no olhar.

    “O rosto com que fita é Portugal” Levando a entender que Portugal é o país mais importante e que sustenta a Europa, responsável em ligar o Oriente ao Ocidente.

    O segundo poema é fortemente marcado pela melancolia. Pessoa caracteriza Portugal em um estado de espírito indefinido e de grande tristeza
    “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
    define com perfil e ser
    este fulgor baço da terra
    que é Portugal a entristecer –
    brilho sem luz e sem arder,
    como o que o fogo-fátuo encerra.”

    “Ninguém sabe que coisa quer.
    Ninguém conhece que alma tem,
    Nem o que é mal nem o que é bem.”

    No final encontra-se um apelo para a construção de um futuro diferente, para o qual deveriam começar a agir “É a Hora!”

  10. Fernando Pessoa é conhecido por suas inúmeras personalidades e ao escrever o livro “Mensagem”, de onde fazem parte os poemas “O dos castelos” e “Nevoeiro”, assina o seu próprio nome. Em ambos os poemas, Pessoa explora como características principais a melancolia, a nacionalidade e a glória de Portugal; no primeiro poema a melancolia é menos exposta, pois o autor se retrai e “recusa” a participar do poema, mas parece se inspirar nos “Lusíadas” para relatar a divindade do país (“o rosto com que fita é Portugal”) e o título do capítulo, “Brasão”, nos remete ao símbolo de uma nação orgulhosa por suas vitórias; já no segundo poema, a melancolia toma conta do autor e tudo se torna incerto (“ninguém sabe que coisa quer”), (“tudo é incerto e derradeiro”), desiludido (“tudo é disperso, nada é inteiro”), sem vida (“que é Portugal a entristecer — Brilho sem luz e sem arder”), negativo (“brilho sem luz e sem arder”), triste (“que é Portugal a entristecer”) e demonstra um período de crise da época (“nem rei nem lei, nem paz nem guerra”). A partir dessas análises, vemos que Camões e Pessoa assemelham-se ao terem esperança de uma mudança positiva no país já que estão desapontados com a realidade vividos na época de cada um.

    1. Ele “assina o seu próprio nome” porque, de fato, Fernando Pessoa, ele mesmo (Ortônimo) é o autor do poema!

  11. A personificação da Europa é a base da poesia, deixando nítido as referências a partes do corpo humano.
    A primeira estrofe do poema diz que um percurso que explicará a natureza da própria Europa.
    A segunda estrofe, prolonga o visualismo com as referências a partes do corpo e reforça, ao mesmo tempo, a ideia de uma cultura constituída por elementos diversos, com a indicação de mais dois países.
    Na penúltima estrofe, chega-se, finalmente ao rosto, mais especificamente ao olhar.
    A Europa vê, então, no Ocidente, o “futuro do passado”, ou seja, o momento presente, correspondente ao culminar dessa viagem que começou no Oriente.
    No poema “Nevoeiro”, consegue-se ver claramente um clima de degradação da pátria, de melancolia e tristeza, enfatizado pelo recurso a palavras e expressões que revelam negatividade “Nem rei nem lei”; “Brilho sem luz”, etc.

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