Viagens “porteñas”

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Há um texto de Borges “Pierre Menard, autor do Quixote”, que sempre me intrigou. De cara, põe-se uma questão relevante: a que gênero pertence este texto. Que fique claro que não sou sócio vitalício do clube que congrega aqueles que não vivem rotular um gênero num texto. As desculpas são esfarrapadas. Os resultados, tendem a ser pífios. Mas a questão é relevante, por mera curiosidade intelectual. Eu não sei dizer! Geralmente, leio que se trata de um conto. Muitos artigos e teses e críticas e resenhas e… e… e… denominam o texto como conto. Talvez seja por conta de sua dimensão. Talvez, por conta de tratar de uma única personagem, Pierre Menard. Talvez por que narra apenas um passus na vida desta personagem. Estas indagações me levam a considerar a segunda questão: quem é Pierre Menard. Logo no início da narrativa, é apresentada, pelo narrador, uma lista de (supostas) publicações desta personagem, o tal Pierre. Com o auxílio do Dr. Google fica fácil. Basta digitar o nome Pierre Menar na barra de endereço e voilá! Claro que já fiz. quem negar que faz isso pode ter vergonha de si mesmo, e apenas de si mesmo… a ninguém mais importa… a vergonha. Voltando à vaca fria, cria-se um clima de dúvida e ambiguidade. Ao mesmo tempo que alguns dos trabalhos citados pelo narrador do texto de Borges são encontrados na linha de pesquisa do dr. Google, outros não aparecem. Fica então a dica: pesquisar se de fato existiu o tal de Pierre. Será que vale a pena?

O segundo passo nestas circunlocuções aqui escritas, vem a passagem abaixo:

Es una revelación cotejar el don Quijote de Menard con el de Cervantes. Éste, por ejemplo, escribió (Don Quijote, primera parte, noveno capítulo):

la verdad  cuya madre es la historia, émula del tiempo, de­pósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertência de lo por venir.

Redactada en el siglo diecisiete, redactada por el “ingenio lego” Cervantes, esa enumeración es un mero elogio retórico de la historia. Menard, en cambio, escribe:

la verdad  cuya madre es la historia, émula del tiempo, de­pósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertência de lo por venir.

La historia, madre de la verdad; la idea es asombrosa. Menard, contemporâneo de William James, no define la historia como una indagación de la realidad sino como su origen. La verdad histórica, para él, no es lo que sucedió; es lo que juzgamos que sucedió. Las cláusulas finales — ejemplo y aviso de lo presente, advertência de lo por venir —  son descaradamente pragmáticas.

También es vívido el contraste de los estilos. El estilo arcaizante de Menard — extranjero al fin — adolece de alguna afectación. No así el del precursor, que maneja con desenfado el espanol corriente de su época.

a transcrição, no original, é proposital. De um lado pode apontar para minha imodéstia. de outro, para uma certa classe que o idioma de Cervantes impõe por sua elegante sonoridade. Ainda por outro lado (se existir…), pela preguiça de usar a tradução. Pelo sim,m pelo não, o original revela o sabor dos dois trechos em itálico. Percebe-se, de cara, e não com menos espanto (Evoé, Platão!) que trata-se do mesmíssimo texto. sem tirar nem por, com todas as letras. Esquisito, no mínimo. lendo de novo, repete-se a constatação e aumenta a esquisitice. Do alto de minha ignorância, e do fundo de minha incompetência, em sala de aula, nas inúmeras vezes que já tecai comentários sobre este texto, afirmei que não se trata de engano. Não é um truque, muito menso um ato falho. Nem pensar em cogitar de gralha. Não. jamais! Nunca! Costumo dizer, porque é assim que “LEIO” este texto, que se trata de considerar duas perspectivas de leitura. Em outras palavras, no contexto da narrativa de Borges, a primeira citação é devida, evidentemente, a seu autor, Cervantes. A segunda citação, ainda que literalmente idêntica, é devida a Pierre Menard. Este foi leitor daquele. caso contrário não teria conhecimento da passagem que “copia”. Na verdade, o que fica registrado nesta passagem, pela pena de Borges, é que a diferença entre os dois textos – o de Cervantes e o de Pierre – é que o primeiro é lido por seus coetâneos, o segundo, por seus pósteros. Ora, esse intervalo cronológico impõe ao texto uma série de interferências semântico-discursivas que, na perspectiva da LEITURA, estabelecem a diferença, referida pela voz do narrador. Uma sutileza, uma diatribe deste fenômeno cultural ao qual se deu o nome de LITERATURA. Leia. Pare pra pensar. E, então, me diga: não é mesmo possível?!

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