Para LET874-2

saramago

“Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás.”

conto

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al berto

pai
decidi partir
não me pergunte para onde nem porquê
partir é o que ressoa na minha cabeça
viajar sem fim e jamais voltar
também é inútil perguntar me as razões de tudo abandonar
este conforto enjoa me esta vida dá me vertigens e diarreia
de resto duvido que existam razões de peso
tenho a certeza de suportar minha mulher
se ainda a amasse
partilharia com ela a loucura que adquiriu pela casa
a semanal mudança de lugar dos móveis
e mais estranho ainda
quando põe a máquina da roupa a trabalhar sem nada lá dentro
diz que adora aquele insuportável ronronar de aço
que lhe faz muita companhia
enfim
se eu ainda a amasse talvez

mas é certo que arranjei outras compensações
a amizade segura de um amigo
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo
que quer
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas
e de beber
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível
desde que me conheço que me fujo
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha
não leve a mal estes desvarios
no fundo teria sido melhor para mim ter ficado aí
onde o tempo parece não avançar e a terra é fértil
provavelmente hoje seria um desses pastores que meditam
sobre as fases da lua mesmo antes delas se iniciarem
é possível que hoje fosse um operário exemplar
trabalharia sem sequer me pôr a questão de que há outro mundo
por descobrir para lá do incessante roncar surdo das máquinas
tudo explodiu dentro de mim e não sei como dizer-lho
vou largar tudo
a mulher o trabalho a cidade onde vivo a casa de que não gosto
a cidade apagou em mim muitos desejos
a única coisa que ainda faço com prazer é vagabundear
o que não é muito
mas sinto me livre e feliz e anónimo

th

O primeiro trecho é retirado do conto de José Saramago, “O conto da ilha desconhecida”. O segundo, do livro de Al Berto, Três cartas da memória das Índias. Entre eles há similaridadeS discursivaS por conta de um referente comum: a viagem às Índias. As sutilezas são muitas. Até este ponto, a gente já comentou muitos aspectos plausíveis a partir deste pressuposto: a multifacetada similaridade discursiva entre estes dois textos, no caso, fragmentos deles. Pois bem. Vocês sabem que, acima de tudo e antes de mais nada, interessa-me a SUA opinião, o SEU modo de ler, a SUA conclusão a partir da LEITURA, qualquer que seja. Escreva sobre isso!

Boa leitura!

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20 comentários sobre “Para LET874-2

  1. Nos dois fragmentos apresentados, podemos perceber a inquietude de um homem diante as coisas cotidianas e irrelevantes, um homem que quer sair em busca do desconhecido,do novo, colocando seus sonhos e anseios em primeiro lugar.

    1. Faltou mencionar que ambos os textos remetem à História de Portugal, no capítulo referente aos descobrimentos, o que vai constituir núcleo temático de boa parte da produção literária portuguesa.

  2. No primeiro trecho, um homem vai de encontro ao rei para lhe pedir um barco com o objetivo de ir a procura da ilha desconhecida. Entende-se a necessidade de se buscar aquilo que não se pode ver, de construir o novo a partir do lugar onde nos encontramos, a partir dos sonhos que podem estimular as ações humanas e impedir a sua completa paralisação, impulsionando os indivíduos a manterem a esperança de se alcançar o novo. No segundo trecho também percebe-se essa vontade de buscar o novo, aquilo que é desconhecido, a inconstante busca pelo auto-conhecimento, do verdadeiro eu. A coragem de largar tudo o que é cômodo e ir atrás do que realmente nos impulsiona.

    1. Faltou mencionar que ambos os textos remetem à História de Portugal, no capítulo referente aos descobrimentos, o que vai constituir núcleo temático de boa parte da produção literária portuguesa.

  3. Pela leitura dos dois trechos é possível concluir que ambos eu-líricos tem vontade de buscar novas realidades, no primeiro trecho viagem à ilha desconhecida pode ser uma metáfora para essa procura de um novo eu e de novas experiências. No segundo trecho a ideia de largar tudo para viver algo que realmente importa é mais clara.

    1. Faltou mencionar que ambos os textos remetem à História de Portugal, no capítulo referente aos descobrimentos, o que vai constituir núcleo temático de boa parte da produção literária portuguesa.

  4. Ambos os fragmentos de textos tratam da necessidade de saída do local de onde os sujeitos se encontram para a vivência de experiências distintas e mais prazerosas. Devido a esse caráter de uma busca por algo desconhecido, podemos fazer uma analogia com a Viagem para as Índias, no período das Grandes Navegações, em que também havia essa necessidade de se projetar para fora de Portugal e conhecer novas terras. Como é comum na cultura portuguesa essa retomada de temas passados, principalmente os grandiosos, podemos entender como uma recuperação das produções de Camões, porém, com as especificidades da modernidade, apresentando o tédio devido a rotina, por exemplo, como está presente no segundo fragmento.

  5. O conto A Ilha desconhecida, de José Saramago, conta a história de um homem que sai em busca de algo que acredita ser existente e que denomina como uma ilha desconhecida. O conto revela a inquietude de um homem diante das coisas cotidianas e banais que deseja sair em busca do novo e desconhecido, colocando seus sonhos e anseios em primeiro plano. A personagem não pensa nas dificuldades que poderá encontrar, e sim nas coisas que poderá descobrir e conhecer ao realizar seu intento. Sente muita esperança e essa esperança o impulsiona a sair em busca da realização do seu mais precioso desejo.
    No texto de Al Berto, Três cartas da memória das Índias, encontra-se também aspectos mencionados acima, a busca pelo desconhecido, pelo autoconhecimento e a veracidade de se encontrar em si mesmo.

    1. Faltou mencionar que ambos os textos remetem à História de Portugal, no capítulo referente aos descobrimentos, o que vai constituir núcleo temático de boa parte da produção literária portuguesa.

  6. Os autores discorrem sobre uma inquietude com a situação vivida e a busca por algo que melhore sua condição, mas essa coisa a ser buscada ainda é algo desconhecido, ou seja se entende a necessidade de busca, mas não se sabe exatamente como ela vai acontecer, se ela irá refletir em sua vida pessoal ou se . O que acaba por nos remeter aos sentimentos típicos do povo português que mesmo diante dos problemas não se deixam abater e não tem medo de arriscar em prol de melhorias sejam elas pessoais ou de maiores dimensões em que ambos são movidos por um sentimento de esperança.

    1. Faltou mencionar que ambos os textos remetem à História de Portugal, no capítulo referente aos descobrimentos, o que vai constituir núcleo temático de boa parte da produção literária portuguesa.

  7. No primeiro fragmento, um homem fala com o rei e lhe pede um barco com o objetivo de ir conhecer a ilha desconhecida. Percebe-se no conto que o homem ao sair em busca da ilha desconhecida, ele está indo a procura de si próprio, do seu autoconhecimento, sua realização pessoal e desejo de encontrar algo novo. No segundo fragmento o mesmo acontece: o desejo de encontrar o novo, viajar em busca de seus sonhos, conhecer seu interior sem medo de abandonar tudo e ir ao encontro da descoberta do desconhecido que somos nós mesmo. Às vezes é necessário abandonar, deixar para trás uma vivência para encontrar o que não foi possível e ter esperança no desejo de uma realização. Seguindo em busca de uma mudança de vida.

    1. Faltou mencionar que ambos os textos remetem à História de Portugal, no capítulo referente aos descobrimentos, o que vai constituir núcleo temático de boa parte da produção literária portuguesa.

  8. Ambos os trechos mostram a vontade do eu-lírico em sair da vida que levam que já está estagnada e por isso sem novas emoções.
    Partir para novas conquistas, lugares desconhecidos, iria trazer para eles uma satisfação interior que há tempo não sentiam.
    Essa vontade de partir remete muito a história de Portugal, que em suas navegações iam em buscam do desconhecido e de novas conquistas.

  9. Há uma vontade do poeta em buscar novidades, já que sua vida parece estar na mesmice “chata” do dia a dia ( “este conforto enjoa me esta vida dá me vertigens e diarreia”). Ou até mesmo pelo histórico de Portugal, a viagem passa a ser necessária, já que é hora de novas descobertas. Tanto descobertas para o “eu” quanto para a situação atual do país. Na Ilha ele poderá buscar uma nova identidade ou até mesmo recuperar alguma identidade que já teve algum dia. Ele quer viver o seu “eu” como é de verdade.
    Ele está inquieto com as possíveis novas mudanças (“a amizade segura de um amigo… talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto… poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado”). Mas ele quer arriscar. Quer buscar algo que o faça feliz (“mas sinto me livre e feliz e anónimo”).

  10. Não podemos esquecer que Portugal estava em decadência na época em que Saramago escreve. Havia então a vontade de retomar Portugal como antes, na época das grandes navegações. Podemos entender então que esse homem quer um barco, que é um sonhador e critica em sua obra sobre a falta de sonhadores como antes.
    No texto de Al Berto, Três cartas da memória das Índias, encontra-se também aspectos mencionados acima. Há uma busca que alcançar e construir algo novo a partir de outros lugares, de outros sonhos.

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