Margens

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Nise, o coração da loucura. Este é o nome do filme que acabei de ver. Poderia estar passando a limpo as notas do semestre (que já estão passadas a limpo). Poderia estar fazendo contas dos pontos distribuídos pelo semestre. Poderia estar tentando acabar de ler o quinto volume de À procura do tempo perdido. Depois de muitas tentativas malogradas ao chegar ao terceiro volume, terminei, na semana passada, a leitura do quarto volume. Ontem, antes de dormir, como de hábito, comecei a ler o quinto volume. Confesso, sem pudor: que chatice! A expressão, em sua veemência (invisível aos olhos de quem lê), mas palpável quando da leitura – vá se entender um bagulho desses! – justifica-se: é a minha opinião. Uma chatice. Confesso que considero o livro do Proust, uma chatice. Diferentemente de outras duas chatices – no âmbito da leitura – Os lusíadas e Grande sertão: veredas. Estes dois, ao se enfrentar a tal chatice, deságua vislumbradamente numa beleza poética que não encontra limites nem palavras como expressão. Uma chatice que dá prazer, imenso. Prazer de ler. Penso, na minha intimidade, que esta experiência escapa quando da leitura do romance francês. Longe de mim afirmar que tal portentosa obra de escrita e “fabulação” não presta para nada. Jamais! No entanto, repito: o livro de Proust é uma chatice! E hei de vencer os seis volumes da edição brasileira há muito, por mim, comprada. Guardada durante anos e umas três tentativas de leitura. Na altura dos mais de 60, hei de ler todos os volumes. O delírio sobre o romancista francês me leva ao encontro das primeiras linhas de hoje. Falo do impacto que o filme causou. No início, resisti, e deixei aberta página do Netflix, sem coragem de continuar a ver, temendo por cenas corriqueiras, melodramáticas e tendenciosas. Ledo engano. O filme, que conta com desempenho impecável (mais um!) de Glória Pires, narra um intervalo da história de um processo de cura através da arte. Na verdade, a constituição de um método terapêutico no tratamento de “anomalias” psíquicas. Um portento! Ao fim do filme, pensei no Proust e na relatividade absoluta – em que pese a sedutora contradição em termos – de todos os juízos que fazemos. Nise da Silveira ousou pular no abismo, como narra metaforicamente a voz em off no início de Freud, além da alma – filme de 1962, dirigido por John Huston, estrelado pelo legendário e icônico Montgomery Clift. Imperdível! A psiquiatra praticamente erige, sozinha, contra a corrente machista, tacanha, subserviente e interesseira de um hospital que não liga para os !clientes” como diz a médica. Uma história mais que tocante. Uma pedrada – como a que leva o “Lima”, personagem do filme. Uma pedrada na falsa certeza de que podemos afirmar categoricamente alguma coisa, sem reconhecer que, antes de mais nada, somos incapazes de abarcar a totalidade do que tentamos afirmar.Um paradoxo, como a própria existência humana. Vale a pena conferir.

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