Clarice 3

Agora, a última parte:

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O inusitado, o inesperado, o revelador. É assim, não necessariamente nessa ordem, que as coisas acontecem nos textos de Clarice. Esta cena no trem aparece na versão cinematográfica de A hora da estrela, em adaptação mais que impecável dirigida por Susana Amaral. Macabéa toma café e observa, ingênua e timidamente, envergonhada, o homem do outro lado do balcão que sorri para ela. Quando ele sai andando ela vê a bengala branca… É como se certo encanto se quebrasse, assim, do nada, de repente, inexplicavelmente. No conto que citei, Ana, no fim do dia, “se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.” Assim, uma mulher comum. Tão comum que assusta, espanta, encanta, subverte… É essa mulher que vendo constante repetidamente homenageada, revisitada em sua obra, através de suas projeções líricas em textos que sempre instigam. Mais uma homenagem é o poema a ela dedicado, da lavra de Carlos Drummond de Andrade, Visão de Clarice Lispector:

 

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.

Ou o mistério não era essencial,

era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,

onde a palavra parece encontrar

sua razão de ser, e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice

viveu por nós em forma de história

em forma de sonho de história

em forma de sonho de sonho de história

(no meio havia uma barata

ou um anjo?)

não sabemos repetir nem inventar.

São coisas, são jóias particulares de Clarice

que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

 

Clarice não foi um lugar-comum,

carteira de identidade, retrato.

De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice

só se pode encontrá-lo atrás da nuvem

que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos.

Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice

para ser igual a nós todos

em cortesia, cuidados, providências.

Clarice não saiu, mesmo sorrindo.

Dentro dela

o que havia de salões, escadarias,

tetos fosforescentes, longas estepes,

zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,

formava um país, o país onde Clarice

vivia, só e ardente, construindo fábulas.

 

Não podíamos reter Clarice em nosso chão

salpicado de compromissos. Os papéis,

os cumprimentos falavam em agora,

edições, possíveis coquetéis

à beira do abismo.

Levitando acima do abismo Clarice riscava

um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.

Deixamos para compreendê-la mais tarde.

Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

 

O poema de Drummond faz um retrato mais que emocionado de Clarice. Retrato difícil, no entanto. Não o que o poeta tenta no desenho de seus versos, mas o da retratada. De uma beleza selvagem e quase agressiva, Clarice, em seu raiar, plagiando o título de um artigo seminal sobre sua obra, de autoria do recentemente falecido Antonio Candido – No raiar de Clarice – cegou os olhos da Literatura Brasileira com a intensidade de seu brilho. Tanto é assim que, a meu ver, está nesta cegueira a fonte do equívoco que é a consideração da obra da escritora como hermética. A gente não consegue olhar para o sol, as ele está. Se a gente olhar para ele passa a não ver mais nada. Este é o paradoxo. Isto está por detrás, embaixo, do retrato drummondiano. A ele se apõe o que diz Lúcio Cardoso, com quem, dizem, Clarice Lispector alimentou a fantasia de uma paixão amorosa. Tudo por conta da intensa correspondência mantida com ele. Diz o escritor mineiro: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena, mas com o seu segredo, que é o que importa”. É isso!

Aqui seria o ponto de passar o vídeo com parte da entrevista a Affonso Romano de Sant’Anna – https://www.youtube.com/watch?v=hWYS-m-Pcd4)

Clarice Lispector, essa mulher, nasceu, provavelmente, no dia 10 de Dezembro de 1920. Sim provavelmente. Até nisso ela é especial. Nádia Battella Gotlib e Benjamin Moses, seus dois biógrafos mais celebrados, são unânimes em afirmar que há mais de um registro cronológico de nascimento para a escritora da língua presa. Isso passaria desapercebido, não fosse a quase perfeita coincidência na cronologia desse ser humano mais que especial: o mês de nascimento e morte é o mesmo. Por conta de um dia, a perfeição não se fez. Puf! Explosão, como diz o narrador de A hora da estrela. Mais uma epifania – para acompanhar o pensamento de Olga de Sá sobre Clarice Lispector. Uma revelação. Do jeito que apareceu no mundo, se foi! Muito obrigado.

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Segue a segunda parte:

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No universo quase mágico da escrita de Clarice, a criança tem lugar. Joana, de Perto do coração selvagem é uma delas. Personagem que guia um leitor pelos desvãos da descoberta da feminilidade numa relação com o pai que beira o insólito, muito canhestramente gravada na descrição de um banho, cena reveladora. Outra, talvez mais intrigante, é a coadjuvante de “Felicidade clandestina”, conto que completa a seleção de volume homônimo. Diz a voz narrativa sobre a coadjuvante: “Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.” Essa menina é má, perversa, sádica. Tem um livro que é desejado pela narradora que de um tudo faz para poder pegá-lo emprestado, em vão… O requinte de maldade da coadjuvante é expresso nas repetidas e descosidas desculpas que inventa para não emprestar o livro: não acabei ainda, não pude ler ontem, esqueci de ler tal página. Os dias correm, a angústia da narradora aumenta até que a maldade tem fim. Diz a narradora: “Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Pois é assim. Clarice, como eu disse, não hesita em apresentar animais quase como personagens de seus escritos. Nesse universo muito particular, a popular associação de animais com infância não perde seu lugar. Mas a particularidade supera em muito a universalidade. A prova disso pode aferida em duas outras obras: A mulher que matou os peixes e O mistério do coelho pensante. Este, traz um coelho filósofo e foi resultado do insistente pedido de um de seus filhos para escrever um livro para ele. O outro, traz no texto um tema que não está, em princípio, associado à infância: a morte. Isso não é tudo. Este nicho na bibliografia dessa mulher, a infância e os animais, brinda seus leitores com uma pérola: A vida íntima de Laura. E pasmem. Laura é uma galinha. Sim, uma galinha. O mesmo bicho que aparece num de seus contos, apavorada com a possibilidade de se ver para um almoço em família, motivo pelo qual tem uma crise existencialista e fica tergiversando sobre isso. Parece muito para reduzir a criação de Clarice ao perímetro de certa “normalidade”. Os livros infantis, pelo que se sabe, foram escritos numa máquina de escrever portátil, que Clarice carregava de um lado para outro e sua casa e pousava nos joelhos, enquanto, ninava, alimentava, cuidado de seu filho mais novo. Sim, escrevia com a máquina sobre as pernas, sentada, cuidado do filho. Prática inesperada, para dizer o mínimo. Não tão inesperada como fumar, o que ela fazia com frequência. Esta era tanta que certa feita causou um pequeno incêndio em seu apartamento. Cochilou, deixou o cigarro cair no carpete e pronto. Resultado: uma deformação séria na mão direita. Mais um detalhe que se juntou à língua presa que tantos equívocos provocava.

No turbilhão da leitura de sua obra, dois ouros contos me chamam a atenção por encantamento e inquietação. Respectivamente: “A menor mulher do mundo” e “O corpo”, respectivamente. No primeiro, a história de um antropólogo que descobre uma pigmeia que media 45 cm. Nas palavras do narrador: “ Entre mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se cm uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada. “Escura como um macaco”, informaria ele à imprensa, e que vivia no topo de uma árvore com seu pequeno concubino. Nos tépidos humores silvestres, que arredondam cedo as frutas e lhes dão uma quase intolerável doçura ao paladar, ela estava grávida.” De um lado o maravilhamento do descobridor, de outro, as diversas reações mais inusitadas de uma sociedade que vivia apenas de seus padrões e crenças e não enxergava o mistério da menor mulher do mundo “escura como um macaco”. O inusitado da descoberta não consegue vencer a mesmice da reação da sociedade que recebe a micro mulher de maneira diametralmente oposta ao que poder-se-ia supor. Afinal, o desconcerto do mundo, tão caro a Camões, aparece transfigurado nesse espécimen esquisito do feminino. Esta é outra marca da escrita de Clarice. Do outro lado, o duplo feminino se revela no conto que narra a história de um triângulo amoroso, o tipo de triângulo que leva a um desfecho que, em nada e por nada, mais que surpreende: leva o leitor a um estado de quase catatonia por conta do espanto. Num trecho mais adiantado da história lê-se o seguinte:

Então foram à cozinha. Os dois facões eram amolados, de fino aço polido. Teriam força?

Teriam, sim.

Foram armadas. O quarto estava escuro. Elas fraquejaram erradamente, apunhalando o cobertor. Era noite fria. Então conseguiram distinguir o corpo adormecido de Xavier.

O rico sangue de Xavier escorria pela cama, pelo chão, um desperdício.

Carmem e Beatriz sentaram-se junto à mesa da sala de jantar, sob a luz amarela da lâmpada nua, estavam exaustas. Matar requer força. Força humana. Força divina. As duas estavam suadas, mudas, abatidas. Se tivessem podido, não teriam matado o seu grande amor.

E agora? Agora tinham que se desfazer do corpo. O corpo era grande. O corpo

pesava.

Então as duas foram ao jardim e com auxílio de duas pás abriram no chão uma cova.

E, no escuro da noite – carregaram o corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito.

Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava.

Puseram o grande corpo dentro da cova, cobriram-na com a terra úmida e cheirosa do jardim, terra de bom plantio. Depois entraram em casa, fizeram de novo café, e revigoraram-se um pouco.

Beatriz, muito romântica que era – vivia lendo fotonovelas onde acontecia amor contrariado ou perdido – Beatriz teve a ideia de plantarem rosas naquela terra fértil.

Então foram de novo ao jardim, pegaram uma muda de rosas vermelhas e plantaram-na na sepultura do pranteado Xavier. Amanhecia. O jardim orvalhado. O orvalho era uma bênção ao assassinato. Assim elas pensaram, sentadas no banco branco que lá havia.

Xavier era, como se diz, o pivô crime. Amante de Carmen e Beatriz. Se não me falha a memória, eram professoras, assim como a protagonista de A maçã no escuro, outro livro fascinante de Clarice. No conto em questão, a banalizada violência do assassinato é suplantada pela indiferente constatação de vazio que acomete as duas amantes do açougueiro. Enterram o corpo do amante no jardim, plantam rosas em cima e vão tomar café. Mas a indiferença, aqui, não se reduz à frieza e/ou à maldade gratuita. Esta é, de fato, sublimada e transmutada, pela ficção de Clarice, na constatação da impotência absoluta, algo que pode beirar uma contraposição ao pensamento de Schopenhauer. Isso mesmo. Tudo em Clarice é assim. Aparentemente banal e assustadoramente revelador. No caso deste conto, em particular, há um paralelo, por antítese, a um conto de Rubem Fonseca. Mas isso é assunto para outra conversa.

Clarice, essa mulher, é assim… Assim mesmo, como Ana, a mulher que, no bonde, carrega uma sacola com compras e entre elas ovos. A personagem pressente mais uma epifania: a certeza de que sua vida não é ada do que ela sempre soube que fosse e sempre esteve vivendo. Este é o plot do conto “Amor”, constante da seleção de Laços de família:

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô. (…) seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. (…) Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia (…). Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. (…) O bonde se arrastava, em seguida estacava (…). Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. (…) Era um cego. (…) O que mais havia que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles. (…) olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente parar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir (…). Ana olhava-o. (…) o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão (…) Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada. (…) Ana se aprumava pálida (…) os ovos se haviam quebrado (…). Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede.

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Era pra ser uma performance… em nada transgressora, mas pretensiosamente impactante. Uma vez mais, as condições ínfimas e quase inexistentes da egrégia instituição cujas instalações são usadas, em Mariana, para o evento, não permitiram… Era para começar com um pequeno vídeo ao som de Edith Piaf. Depois de certo tempo de leitura, mais um pequeno vídeo com um trecho de entrevista, celebérrima e cheia de revelações… Ficou só na leitura, ao som de Eric Satie e com repetição incessante de 92 fotos, tiradas das páginas de um livro e da “rede”. Foi bom, de qualquer maneira. Falo da conferência (não gosto da palavra “palestra”) que ontem fiz durante a segunda sessão ordinária do ano de 2017 da/na Alacib. Foi bom. Hoje vai um trecho. Os outros seguem nos dias que virão…

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Clarice, essa mulher

Era sexta-feira. Depois do café da manhã, passei pela sala de leitura, bem à frente da porta de entrada da casa situada na Rua Ricardo Tim, no Bairro Ponte Preta, em Campinas. Rogério lia os jornais do dia, coisa habitual. Entrei, bati um papo e peguei um dos jornais, a Folha de São Paulo. Na primeira página, bem abaixo, ao lado de uma foto muito granulada, vinha a manchete “C. Lispector morre no Rio aos cinqüenta anos”. Assim mesmo, com C maiúsculo e ponto! A foto granulada. No fim a chamada “FOLHA ILUSTRADA”, em caixa alta. Foi assim que tive contato, pela primeira vez com essa mulher, Clarice Lispector. Era mais um dia comum na vida de um noviço jesuíta. Depois de ler o jornal, ainda bati um papo com Rogério trocando impressões com Rogério. Ele foi o primeiro a me guiar nas sendas da Literatura Brasileira. O primeiro livro que dela li foi A paixão segundo GH, livro estranho forte, considerado hermético que continha a famigerada cena da personagem que esmaga uma barata na parede e a come. Na economia semântico-discursiva da obra desta judia/nordestina a cena funciona como um dos momentos de epifania – para ficar com termo cunhado por Olga de Sá, freira de Lorena, uma das primeiras brasileiras a publicar um livro sobre Clarice Lispector e sua obra: A escritura de Clarice Lispector, de 1979.

Clarice Lispector, essa mulher. Inicio fazendo uma blague: “Eu sou mansa, mas minha função de viver é feroz”, dizia você que, pouco tempo depois de nascer, Perto do coração selvagem, já se mostrava iluminada, clara, no centro dos salões parecida com O lustre. Um fenômeno inesperado, uma epifania, a revelação momentânea e fugaz, etérea, tudo envolvendo em miasmas A cidade sitiada pelo espírito inquieto, de uma mulher que veio de longe e arrebatou a todos, sem exceção, com o corte ferino de sua linguagem incomum, equivocadamente tida como hermética, por absolutamente óbvia que é. “Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim não falte”, repete você, em sua voz marcada por um defeito físico que muita gente confundia com sotaque da terra distante de onde veio, de onde trouxe já apertados – na multiplicidade semântica do particípio – os Laços de família que a fizeram resistir e ousar. É assim, na sua particularidade de mulher, de mulher estrangeira que opta pela solidão, que você se apresenta, como A maçã no escuro, no escuro da alma humana que, abissal, você vasculhou e revelou, sem meias palavras, dura, liricamente dura, melancolicamente épica, desbravadamente dramática. Mulher, você jamais abandonou a menina, aquela que descobre o prazer, seja num banho demorado, seja no desvendar mágico da leitura. Menina e mulher, simultaneamente duplicada na unidade existencial que faz a descoberta: Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante. Assim você dilacera o espírito feminino na aventura de amar, A paixão segundo G. H. que, filosoficamente, é vislumbrada por uma mulher sem nome, que se faz conhecer e se dá a conhecer por duas letras e que, na parede do quarto, no traço incerto do desenho e no caminhar da barata revela a inquestionável e absoluta verdade do existir: desconhecimento e, depois, espanto platônico – Platão estava certo!

Clarice, essa mulher, é autora de vários livros dos quais cito alguns na blague, a saber: A legião estrangeira (1964), O mistério do coelho pensante (1967), A mulher que matou os peixes (1968), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), Felicidade clandestina (1971), Água viva (1973), Onde estivestes de noite? (1974), A via crucis do corpo (1974), A vida íntima de Laura (1974), A hora da estrela (1977), O ovo e a galinha (1977), Um sopro de vida (1978), Quase de verdade (1978), Quase de verdade (1978), A bela e a fera (1979), A descoberta do mundo (1984), Como nasceram as estrelas (1987).

Clarice, essa mulher, foi um indivíduo esquisito. Conta a lenda que certa feita, depois de voltar da Colômbia, para onde tinha ido convidada a participar de um congresso de bruxaria, Clarice foi convidada para uma conferência na PUC-RJ, convite feito pelo então coordenador da pós-graduação naquela instituição, Affonso Romano de Sant’Anna. Alvoroço, expectativa, frisson geral. Arredia, que sempre fora, avessa a aparições públicas de pompa e circunstância, o convite aceito causo alarde. Há que se destacar uma exceção: a participação de Clarice numa passeata contra a ditadura, rodeada de outros escritores, atores e atrizes, intelectuais, estudantes, juventude. A foto correu mundo e continua hoje circulando na rede. Voltando ao convite… auditório cheio, balbúrdia. Compõe-se a mesa e, como soe acontecer na universidade, pompa e circunstância na apresentação da conferencista. Affonso Romano quase babava. Terminada a apresentação, ele passa a palavra a ela. Silêncio sepulcral. Absoluto. O ambiente energizado de angustiante espera, quase vibra de tanta expectativa. Clarice acende um cigarro, fuma tranquilamente. Apaga o cigarro no cinzeiro, com gestos calmos, aparentemente alheia ao que acontece à sua volta. Quando termina o gesto, levanta-se e sai tranquilamente do auditório. Perguntada se não iria fazer a conferência, responde tranquilamente e misteriosamente: acabei de fazer…

Clarice Lispector, essa mulher. Numa célebre entrevista dada ao mesmo Affonso, a escritora afirma não saber a origem de seu nome. Argumenta que pode ser forma corrompida de palavra oriunda do vocabulário da língua fala na Ucrânia, de onde veio sua família. Comenta ainda que Lispector tem, aparentemente duas partes: “lis”, de flor de lis, símbolo de nobreza, pureza, virgindade e “pector”, talvez originalmente termo latino, significando “peito”. Então… flor no peito… peito de lis… Vai saber. Ela não sabia.

A primeira biografia de Clarice da lavra de Nádia Battella Gotlib, professora da USP, intitulada Uma vida que se conta, traz observações luminosas sobre a vida dessa mulher. A mais recente, da lavra de Bejamin Moser, enfant gaité do tout petit monde universitário norte-americano é bem mais recente e um tanto mais conspícua, quase sisuda, ainda que seu texto seja apaixonado. Lá pelas tantas, na biografia escrita pela professora brasileira, há outra passagem instigante da vida dessa mulher, Clarice. Diz  biógrafa que, durante certo tempo, Clarice assinou coluna feminina num diário carioca. Na página sob sua responsabilidade, a escritora escrevia sobre os mais diversos assuntos. Publicou ali também algumas de suas celebérrimas crônicas. No entanto, chamou-me a atenção a referência que Nádia faz a esta página que, em certa edição do jornal, estampava em seu canto superior esquerdo, um “tijolo” – nome que em jornalismo é usual para identificar uma secção pequena numa página de jornal – com uma receita de bolinhas de queijo para coquetel. Lista os ingredientes, orienta o modo de fazer e pronto. Na mesma página, no cato inferior direito, outro “tijolo”. Desta feita, a receita ensinava a fazer bolinhas de veneno para matar baratas. O curioso é que ingredientes e modos de fazer eram, quase na íntegra, os mesmos. Em se tratando dessa mulher, não há espanto que chegue.

Depois que li, abismado, A paixão segundo GH, resolvi pegar emprestado de uma tia outro livro de Clarice: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. A história de Lori, professora primária que se envolve com seu professor de Filosofia e tem um cachorro chamado Ulisses é fascinante. Há que ressaltar que os animais – peixe, cachorro, coelho, galinha, cavalo, gato, entre outros – são presença constante nos textos dessa mulher. Deixam mito longe o estreito perímetro de figuras decorativas para ocupar um bestiário simbólico, de um lado, bem ao gosto da cultura judaica; de outro, eco de manifestações de um inconsciente insondável. Fazendo jus à minha fama de estraga prazeres, Lori não fica com o professor, nem se casa com ele, nem feliz para sempre com ele. Quem quiser saber o que acontece, vai ter que ler o livro. Voltando ao livro, já na universidade, fui informado, nos corredores desta egrégia instituição, que este livro teria sido fruto da experiência vivida por Clarice Lispector, numa relação afetiva com cronista famoso, Paulo Mendes Campos. Pai de duas filhas adoradas, quase endeusadas pelo cronista, a esposa deste, ao saber do affaire, ameaça desaparecer da face do planeta com as filhas. O caso amoroso acaba. Coincidentemente, pouco tempo aparece nas livrarias Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Vocês não fazem ideia das coisas que podem ser ouvidas nos bastidores de colóquios e congressos, nas antessalas de entrevistas, nos corredores de universidade, nos bares, cafés, motéis, etc…

Nesta mesma linha, há quem diga que A hora da estrela é livro autobiográfico. Tudo por conta da coincidência de “origem” de Macabéa e da própria Clarice. Como veio muito novinha para o Brasil, a escritora, até prova em contrário, se considerava brasileira, nordestina, como Macabéa. Daí à coincidência, é um passo. Não sei se esta hipótese se sustenta. O que sei é que a leitura desse livro me virou do avesso pela extrema e refinada melancolia que dele brota e pela contundente, nua e crua realidade que explicita. A cena de Macabéa chorando ao ouvir a ária “Una furtiva lacrima”, ária do último ato da ópera L’elisir d’amore, de Gaetano Donizetti é de uma beleza que não encontra palavras suficientemente capazes de ser expressa. Da mesma forma, quando Macabéa pede a Glória, sua colega de trabalho, uma aspirina e a mastiga e, Glória pergunta porque, a nordestina responde que é porque dói. O que dói, pergunta Glória. Dói, diz Macabéa. E mais não digo. Se Clarice é capaz de criar tais situações, não fica difícil entender, aceitar e gostar de afirmações como: “Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.”; ou então, “Eu mesma vivo me levantando e caindo de novo e me levantando. Não sei qual é o bem disso, sei que é essa forma confusa de vida que vivo.” Também nessa outra, a mesma sensação: “Uma pessoa que quisesse tomar minha direção seria bem vinda…Eu nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.” Para completar, uma frase que poderia bem ser vir de epitáfio: “Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes.”

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Surpresa

Quase um mês sem escrever uma única linha. Umazinha sequer… Sem comentários. Para minha surpresa, deparo-me com o cartaz abaixo, publicado numa foto colocada em página de Facebook pertencente a uma ex-aluna e colega dos meus anos gaúchos de universidade “pública, gratuita e de qualidade”. A Maria Eulália. A foto me fez pensar…

cartaz

O texto é bonitinho, bem ao gosto do momento. Criativo? Um pouco. Instigante? Nem tanto.
Faz pensar, entretanto. Fico aqui imaginando nas colendas vaidades que se agarram a certo
osso, tentando assegurar um estatuto e uma “glória” que foram se perdendo ao longo do
tempo.
Minha mãe foi professora primária. Sua irmã também! Eu optei por esta carreira por
pensar, vaidosamente – sou leonino after all! – no sucesso que faria dando aulas, fazendo
conferências, escrevendo livros, sendo convidado para “eventos”. Ledo engano! Não me
arrependo, nem um pouco pois o ato de “dar aulas”, de falar sobre assunto de que gosto
imenso, ainda me causa certo prazer. O problema, a meu ver, está em mim também, e no
outro lado… Mas isso é assunto para outra conversa. Por agora, fica o registro da data, que
não conhecia como tal…