Clarice 1

Era pra ser uma performance… em nada transgressora, mas pretensiosamente impactante. Uma vez mais, as condições ínfimas e quase inexistentes da egrégia instituição cujas instalações são usadas, em Mariana, para o evento, não permitiram… Era para começar com um pequeno vídeo ao som de Edith Piaf. Depois de certo tempo de leitura, mais um pequeno vídeo com um trecho de entrevista, celebérrima e cheia de revelações… Ficou só na leitura, ao som de Eric Satie e com repetição incessante de 92 fotos, tiradas das páginas de um livro e da “rede”. Foi bom, de qualquer maneira. Falo da conferência (não gosto da palavra “palestra”) que ontem fiz durante a segunda sessão ordinária do ano de 2017 da/na Alacib. Foi bom. Hoje vai um trecho. Os outros seguem nos dias que virão…

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Clarice, essa mulher

Era sexta-feira. Depois do café da manhã, passei pela sala de leitura, bem à frente da porta de entrada da casa situada na Rua Ricardo Tim, no Bairro Ponte Preta, em Campinas. Rogério lia os jornais do dia, coisa habitual. Entrei, bati um papo e peguei um dos jornais, a Folha de São Paulo. Na primeira página, bem abaixo, ao lado de uma foto muito granulada, vinha a manchete “C. Lispector morre no Rio aos cinqüenta anos”. Assim mesmo, com C maiúsculo e ponto! A foto granulada. No fim a chamada “FOLHA ILUSTRADA”, em caixa alta. Foi assim que tive contato, pela primeira vez com essa mulher, Clarice Lispector. Era mais um dia comum na vida de um noviço jesuíta. Depois de ler o jornal, ainda bati um papo com Rogério trocando impressões com Rogério. Ele foi o primeiro a me guiar nas sendas da Literatura Brasileira. O primeiro livro que dela li foi A paixão segundo GH, livro estranho forte, considerado hermético que continha a famigerada cena da personagem que esmaga uma barata na parede e a come. Na economia semântico-discursiva da obra desta judia/nordestina a cena funciona como um dos momentos de epifania – para ficar com termo cunhado por Olga de Sá, freira de Lorena, uma das primeiras brasileiras a publicar um livro sobre Clarice Lispector e sua obra: A escritura de Clarice Lispector, de 1979.

Clarice Lispector, essa mulher. Inicio fazendo uma blague: “Eu sou mansa, mas minha função de viver é feroz”, dizia você que, pouco tempo depois de nascer, Perto do coração selvagem, já se mostrava iluminada, clara, no centro dos salões parecida com O lustre. Um fenômeno inesperado, uma epifania, a revelação momentânea e fugaz, etérea, tudo envolvendo em miasmas A cidade sitiada pelo espírito inquieto, de uma mulher que veio de longe e arrebatou a todos, sem exceção, com o corte ferino de sua linguagem incomum, equivocadamente tida como hermética, por absolutamente óbvia que é. “Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim não falte”, repete você, em sua voz marcada por um defeito físico que muita gente confundia com sotaque da terra distante de onde veio, de onde trouxe já apertados – na multiplicidade semântica do particípio – os Laços de família que a fizeram resistir e ousar. É assim, na sua particularidade de mulher, de mulher estrangeira que opta pela solidão, que você se apresenta, como A maçã no escuro, no escuro da alma humana que, abissal, você vasculhou e revelou, sem meias palavras, dura, liricamente dura, melancolicamente épica, desbravadamente dramática. Mulher, você jamais abandonou a menina, aquela que descobre o prazer, seja num banho demorado, seja no desvendar mágico da leitura. Menina e mulher, simultaneamente duplicada na unidade existencial que faz a descoberta: Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante. Assim você dilacera o espírito feminino na aventura de amar, A paixão segundo G. H. que, filosoficamente, é vislumbrada por uma mulher sem nome, que se faz conhecer e se dá a conhecer por duas letras e que, na parede do quarto, no traço incerto do desenho e no caminhar da barata revela a inquestionável e absoluta verdade do existir: desconhecimento e, depois, espanto platônico – Platão estava certo!

Clarice, essa mulher, é autora de vários livros dos quais cito alguns na blague, a saber: A legião estrangeira (1964), O mistério do coelho pensante (1967), A mulher que matou os peixes (1968), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), Felicidade clandestina (1971), Água viva (1973), Onde estivestes de noite? (1974), A via crucis do corpo (1974), A vida íntima de Laura (1974), A hora da estrela (1977), O ovo e a galinha (1977), Um sopro de vida (1978), Quase de verdade (1978), Quase de verdade (1978), A bela e a fera (1979), A descoberta do mundo (1984), Como nasceram as estrelas (1987).

Clarice, essa mulher, foi um indivíduo esquisito. Conta a lenda que certa feita, depois de voltar da Colômbia, para onde tinha ido convidada a participar de um congresso de bruxaria, Clarice foi convidada para uma conferência na PUC-RJ, convite feito pelo então coordenador da pós-graduação naquela instituição, Affonso Romano de Sant’Anna. Alvoroço, expectativa, frisson geral. Arredia, que sempre fora, avessa a aparições públicas de pompa e circunstância, o convite aceito causo alarde. Há que se destacar uma exceção: a participação de Clarice numa passeata contra a ditadura, rodeada de outros escritores, atores e atrizes, intelectuais, estudantes, juventude. A foto correu mundo e continua hoje circulando na rede. Voltando ao convite… auditório cheio, balbúrdia. Compõe-se a mesa e, como soe acontecer na universidade, pompa e circunstância na apresentação da conferencista. Affonso Romano quase babava. Terminada a apresentação, ele passa a palavra a ela. Silêncio sepulcral. Absoluto. O ambiente energizado de angustiante espera, quase vibra de tanta expectativa. Clarice acende um cigarro, fuma tranquilamente. Apaga o cigarro no cinzeiro, com gestos calmos, aparentemente alheia ao que acontece à sua volta. Quando termina o gesto, levanta-se e sai tranquilamente do auditório. Perguntada se não iria fazer a conferência, responde tranquilamente e misteriosamente: acabei de fazer…

Clarice Lispector, essa mulher. Numa célebre entrevista dada ao mesmo Affonso, a escritora afirma não saber a origem de seu nome. Argumenta que pode ser forma corrompida de palavra oriunda do vocabulário da língua fala na Ucrânia, de onde veio sua família. Comenta ainda que Lispector tem, aparentemente duas partes: “lis”, de flor de lis, símbolo de nobreza, pureza, virgindade e “pector”, talvez originalmente termo latino, significando “peito”. Então… flor no peito… peito de lis… Vai saber. Ela não sabia.

A primeira biografia de Clarice da lavra de Nádia Battella Gotlib, professora da USP, intitulada Uma vida que se conta, traz observações luminosas sobre a vida dessa mulher. A mais recente, da lavra de Bejamin Moser, enfant gaité do tout petit monde universitário norte-americano é bem mais recente e um tanto mais conspícua, quase sisuda, ainda que seu texto seja apaixonado. Lá pelas tantas, na biografia escrita pela professora brasileira, há outra passagem instigante da vida dessa mulher, Clarice. Diz  biógrafa que, durante certo tempo, Clarice assinou coluna feminina num diário carioca. Na página sob sua responsabilidade, a escritora escrevia sobre os mais diversos assuntos. Publicou ali também algumas de suas celebérrimas crônicas. No entanto, chamou-me a atenção a referência que Nádia faz a esta página que, em certa edição do jornal, estampava em seu canto superior esquerdo, um “tijolo” – nome que em jornalismo é usual para identificar uma secção pequena numa página de jornal – com uma receita de bolinhas de queijo para coquetel. Lista os ingredientes, orienta o modo de fazer e pronto. Na mesma página, no cato inferior direito, outro “tijolo”. Desta feita, a receita ensinava a fazer bolinhas de veneno para matar baratas. O curioso é que ingredientes e modos de fazer eram, quase na íntegra, os mesmos. Em se tratando dessa mulher, não há espanto que chegue.

Depois que li, abismado, A paixão segundo GH, resolvi pegar emprestado de uma tia outro livro de Clarice: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. A história de Lori, professora primária que se envolve com seu professor de Filosofia e tem um cachorro chamado Ulisses é fascinante. Há que ressaltar que os animais – peixe, cachorro, coelho, galinha, cavalo, gato, entre outros – são presença constante nos textos dessa mulher. Deixam mito longe o estreito perímetro de figuras decorativas para ocupar um bestiário simbólico, de um lado, bem ao gosto da cultura judaica; de outro, eco de manifestações de um inconsciente insondável. Fazendo jus à minha fama de estraga prazeres, Lori não fica com o professor, nem se casa com ele, nem feliz para sempre com ele. Quem quiser saber o que acontece, vai ter que ler o livro. Voltando ao livro, já na universidade, fui informado, nos corredores desta egrégia instituição, que este livro teria sido fruto da experiência vivida por Clarice Lispector, numa relação afetiva com cronista famoso, Paulo Mendes Campos. Pai de duas filhas adoradas, quase endeusadas pelo cronista, a esposa deste, ao saber do affaire, ameaça desaparecer da face do planeta com as filhas. O caso amoroso acaba. Coincidentemente, pouco tempo aparece nas livrarias Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Vocês não fazem ideia das coisas que podem ser ouvidas nos bastidores de colóquios e congressos, nas antessalas de entrevistas, nos corredores de universidade, nos bares, cafés, motéis, etc…

Nesta mesma linha, há quem diga que A hora da estrela é livro autobiográfico. Tudo por conta da coincidência de “origem” de Macabéa e da própria Clarice. Como veio muito novinha para o Brasil, a escritora, até prova em contrário, se considerava brasileira, nordestina, como Macabéa. Daí à coincidência, é um passo. Não sei se esta hipótese se sustenta. O que sei é que a leitura desse livro me virou do avesso pela extrema e refinada melancolia que dele brota e pela contundente, nua e crua realidade que explicita. A cena de Macabéa chorando ao ouvir a ária “Una furtiva lacrima”, ária do último ato da ópera L’elisir d’amore, de Gaetano Donizetti é de uma beleza que não encontra palavras suficientemente capazes de ser expressa. Da mesma forma, quando Macabéa pede a Glória, sua colega de trabalho, uma aspirina e a mastiga e, Glória pergunta porque, a nordestina responde que é porque dói. O que dói, pergunta Glória. Dói, diz Macabéa. E mais não digo. Se Clarice é capaz de criar tais situações, não fica difícil entender, aceitar e gostar de afirmações como: “Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.”; ou então, “Eu mesma vivo me levantando e caindo de novo e me levantando. Não sei qual é o bem disso, sei que é essa forma confusa de vida que vivo.” Também nessa outra, a mesma sensação: “Uma pessoa que quisesse tomar minha direção seria bem vinda…Eu nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir.” Para completar, uma frase que poderia bem ser vir de epitáfio: “Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes.”

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