Clarice 2

Segue a segunda parte:

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No universo quase mágico da escrita de Clarice, a criança tem lugar. Joana, de Perto do coração selvagem é uma delas. Personagem que guia um leitor pelos desvãos da descoberta da feminilidade numa relação com o pai que beira o insólito, muito canhestramente gravada na descrição de um banho, cena reveladora. Outra, talvez mais intrigante, é a coadjuvante de “Felicidade clandestina”, conto que completa a seleção de volume homônimo. Diz a voz narrativa sobre a coadjuvante: “Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.” Essa menina é má, perversa, sádica. Tem um livro que é desejado pela narradora que de um tudo faz para poder pegá-lo emprestado, em vão… O requinte de maldade da coadjuvante é expresso nas repetidas e descosidas desculpas que inventa para não emprestar o livro: não acabei ainda, não pude ler ontem, esqueci de ler tal página. Os dias correm, a angústia da narradora aumenta até que a maldade tem fim. Diz a narradora: “Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Pois é assim. Clarice, como eu disse, não hesita em apresentar animais quase como personagens de seus escritos. Nesse universo muito particular, a popular associação de animais com infância não perde seu lugar. Mas a particularidade supera em muito a universalidade. A prova disso pode aferida em duas outras obras: A mulher que matou os peixes e O mistério do coelho pensante. Este, traz um coelho filósofo e foi resultado do insistente pedido de um de seus filhos para escrever um livro para ele. O outro, traz no texto um tema que não está, em princípio, associado à infância: a morte. Isso não é tudo. Este nicho na bibliografia dessa mulher, a infância e os animais, brinda seus leitores com uma pérola: A vida íntima de Laura. E pasmem. Laura é uma galinha. Sim, uma galinha. O mesmo bicho que aparece num de seus contos, apavorada com a possibilidade de se ver para um almoço em família, motivo pelo qual tem uma crise existencialista e fica tergiversando sobre isso. Parece muito para reduzir a criação de Clarice ao perímetro de certa “normalidade”. Os livros infantis, pelo que se sabe, foram escritos numa máquina de escrever portátil, que Clarice carregava de um lado para outro e sua casa e pousava nos joelhos, enquanto, ninava, alimentava, cuidado de seu filho mais novo. Sim, escrevia com a máquina sobre as pernas, sentada, cuidado do filho. Prática inesperada, para dizer o mínimo. Não tão inesperada como fumar, o que ela fazia com frequência. Esta era tanta que certa feita causou um pequeno incêndio em seu apartamento. Cochilou, deixou o cigarro cair no carpete e pronto. Resultado: uma deformação séria na mão direita. Mais um detalhe que se juntou à língua presa que tantos equívocos provocava.

No turbilhão da leitura de sua obra, dois ouros contos me chamam a atenção por encantamento e inquietação. Respectivamente: “A menor mulher do mundo” e “O corpo”, respectivamente. No primeiro, a história de um antropólogo que descobre uma pigmeia que media 45 cm. Nas palavras do narrador: “ Entre mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se cm uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada. “Escura como um macaco”, informaria ele à imprensa, e que vivia no topo de uma árvore com seu pequeno concubino. Nos tépidos humores silvestres, que arredondam cedo as frutas e lhes dão uma quase intolerável doçura ao paladar, ela estava grávida.” De um lado o maravilhamento do descobridor, de outro, as diversas reações mais inusitadas de uma sociedade que vivia apenas de seus padrões e crenças e não enxergava o mistério da menor mulher do mundo “escura como um macaco”. O inusitado da descoberta não consegue vencer a mesmice da reação da sociedade que recebe a micro mulher de maneira diametralmente oposta ao que poder-se-ia supor. Afinal, o desconcerto do mundo, tão caro a Camões, aparece transfigurado nesse espécimen esquisito do feminino. Esta é outra marca da escrita de Clarice. Do outro lado, o duplo feminino se revela no conto que narra a história de um triângulo amoroso, o tipo de triângulo que leva a um desfecho que, em nada e por nada, mais que surpreende: leva o leitor a um estado de quase catatonia por conta do espanto. Num trecho mais adiantado da história lê-se o seguinte:

Então foram à cozinha. Os dois facões eram amolados, de fino aço polido. Teriam força?

Teriam, sim.

Foram armadas. O quarto estava escuro. Elas fraquejaram erradamente, apunhalando o cobertor. Era noite fria. Então conseguiram distinguir o corpo adormecido de Xavier.

O rico sangue de Xavier escorria pela cama, pelo chão, um desperdício.

Carmem e Beatriz sentaram-se junto à mesa da sala de jantar, sob a luz amarela da lâmpada nua, estavam exaustas. Matar requer força. Força humana. Força divina. As duas estavam suadas, mudas, abatidas. Se tivessem podido, não teriam matado o seu grande amor.

E agora? Agora tinham que se desfazer do corpo. O corpo era grande. O corpo

pesava.

Então as duas foram ao jardim e com auxílio de duas pás abriram no chão uma cova.

E, no escuro da noite – carregaram o corpo pelo jardim afora. Era difícil porque Xavier morto parecia pesar mais do que quando vivo, pois escapara-lhe o espírito.

Enquanto o carregavam, gemiam de cansaço e de dor. Beatriz chorava.

Puseram o grande corpo dentro da cova, cobriram-na com a terra úmida e cheirosa do jardim, terra de bom plantio. Depois entraram em casa, fizeram de novo café, e revigoraram-se um pouco.

Beatriz, muito romântica que era – vivia lendo fotonovelas onde acontecia amor contrariado ou perdido – Beatriz teve a ideia de plantarem rosas naquela terra fértil.

Então foram de novo ao jardim, pegaram uma muda de rosas vermelhas e plantaram-na na sepultura do pranteado Xavier. Amanhecia. O jardim orvalhado. O orvalho era uma bênção ao assassinato. Assim elas pensaram, sentadas no banco branco que lá havia.

Xavier era, como se diz, o pivô crime. Amante de Carmen e Beatriz. Se não me falha a memória, eram professoras, assim como a protagonista de A maçã no escuro, outro livro fascinante de Clarice. No conto em questão, a banalizada violência do assassinato é suplantada pela indiferente constatação de vazio que acomete as duas amantes do açougueiro. Enterram o corpo do amante no jardim, plantam rosas em cima e vão tomar café. Mas a indiferença, aqui, não se reduz à frieza e/ou à maldade gratuita. Esta é, de fato, sublimada e transmutada, pela ficção de Clarice, na constatação da impotência absoluta, algo que pode beirar uma contraposição ao pensamento de Schopenhauer. Isso mesmo. Tudo em Clarice é assim. Aparentemente banal e assustadoramente revelador. No caso deste conto, em particular, há um paralelo, por antítese, a um conto de Rubem Fonseca. Mas isso é assunto para outra conversa.

Clarice, essa mulher, é assim… Assim mesmo, como Ana, a mulher que, no bonde, carrega uma sacola com compras e entre elas ovos. A personagem pressente mais uma epifania: a certeza de que sua vida não é ada do que ela sempre soube que fosse e sempre esteve vivendo. Este é o plot do conto “Amor”, constante da seleção de Laços de família:

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô. (…) seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. (…) Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia (…). Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. (…) O bonde se arrastava, em seguida estacava (…). Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. (…) Era um cego. (…) O que mais havia que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles. (…) olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente parar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir (…). Ana olhava-o. (…) o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão (…) Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada. (…) Ana se aprumava pálida (…) os ovos se haviam quebrado (…). Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede.

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