O Tempo Seca o Amor

Tomando emprestado de meu amigo português…;-)

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Santo António

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Não. O nome do santo não está com grafia estropiada. Nada disso. O registro se faz em Português castiço, da terra do santo, do outro lado do grande lago. Mesmo que enterrado em terras italianas – até prova em contrário -, é o santo de Portugal. Salve ele!

Conta-se por aí que pregando um sermão, soube de problemas longe de onde estava e saiu para resolvê-los… sem deixar de pregar o sermão. Um milagre. Daí, quem sabe, vem a expressão “tirar o pai da forca”, tal a velocidade com que o santo foi e voltou…

Minha mãe, devota contumaz e fervorosa do santo, sempre apela para ele quando precisa encontrar algo que não encontra com facilidade. Presenciei uma destas ocasiões, na secretaria de educação do estado de minhas gerais – na atualidade da História política “nacional” vai assim mesmo, tudo em minúsculas, sem pompa nem circunstância – quando precisava de um documento que já era tido como irremediavelmente perdido, inexistente. Baixou a cabeça, rezou, apelou para Santo António e, não mais que dez minutos depois, vem a funcionária, com cara de quem viu um fantasma, sobraçando o desejado e necessário documento!

O mais que afamado Padre Vieira dedica ao santo um de seus magistrais sermões, quando o santo prega… aos peixes. Ou, por outra, usa e fala aos peixes como referência às reprimendas que extravasa de seu ardente coração jesuíta, sedento de justiça. Um sermão estupendo, o “de Santo António aos peixes”!

Sou devoto, sem causa definida. Uma fé misturada de crenças em várias potencialidades do santo. Faço a ele, de coração uma homenagem e, de tabela, ao dileto amigo de todas as horas e de sempre – desculpem, mas não resisti ao assédio de uma “licença poética”… – o Gerson. Sim, porque há amigos de sempre e de todas as horas… quem tem ouvidos de dizer que ouça. A homenagem, da tabela, é a reprodução da mensagem que Gerson escreveu sobre o santo em sua página no Facebook. Vale a leitura, por tudo e mais um pouco! Vejam lá:

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“13 de junho é dia de festa em todo Portugal, pois comemora-se o meu caro, simpático e sorridente Santo António de Lisboa. Sou possivelmente uma das criaturas no mundo que mais Santos Antónios tem em casa. Numa conta rápida, creio que devo ter uns seis, presenteados por amigos. Mas há algo de errado, pois com tantos Antónios pela casa, casamento que é bom ainda não apareceu. Prefiro pensar que os santos foram presenteados para afastar uniões que me só trariam sarilhos e enguiços. De norte a sul de Portugal são festas, comidas, bandeirolas e bailaricos contagiantes para comemorar, como dizem os portugueses, O Santo.
E aí de quem invente de chamar a alma seráfica de “António de Pádua”, pois, à golpe de navalha ou socos, o sangue é capaz de correr aos borbotões por alguma viela da Alfama, onde, segundo a tradição, nasceu o taumaturgo. Santo António nasceu português dos quatro costados. Na Alfama, há uma igrejita muito bela a marcar o local do nascimento nobre de Fernando de Bulhões/Santo António e o pequeno museu antoniano que vale uma visita. Acho que os portugueses nunca aceitaram o fato de que António foi sepultado em terra italiana, embora reconheçam, com orgulho nacional, que Santo António foi uma espécie de Cristiano Ronaldo dos campos cristãos da Idade Média. Ele causou furor convertendo almas empedernidas pelo pecado, desentortando pernas coxas, reconcedendo vista aos cegos, fazendo ladrões devolverem prontamente o roubado, fazendo mulas ajoelharem nas portas das Igrejas. Nunca advogou os milagres para si, mas os atribuiu a Deus. Além disso, revelou um forte empenho na defesa dos pobrezinhos e necessitados do tempo, subjugados pelos usurários e pela Igreja Católica romana enriquecida. Na melhor linha do seu mestre e pai São Francisco de Assis, esteve na linha da vanguarda social cristã do tempo. Com todo o respeito por esse amigo de corda na cintura, sou um fã declarado de manjericos e do simpático ar bonachão desse querido português, patrimônio cultural comum dos nossos povos lusófonos. Em geral, quando estou prestes a perder a paciência, lembro-me do caro Santo António e fico a pensar e a dizer para mim e para ele: cá estamos nós, meu amigo, eu com os meus problemas e você com casos mais difíceis e maiores, pois tem milhares de devotos no seu pé, que pedem de casamento à loteria. Sou bastante compreensivo com Santo António, pois fico a pensar que, além de todos esses trabalhos, é necessário também ter muita força de espírito e resignada paciência para carregar em cima de um grosso livro, por toda eternidade, um Menino Jesus rechonchudo e fofinho que, pelos meus cálculos, deve pesar uns bons 10 quilos.”

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Delicadeza e prazer

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Duas palavras que podem levar leitor desatento a equívoco. Desliza da atenção ou da indução inconsciente que podem ser outros instrumentos desta experiência reveladora que é o equívoco. Sobretudo quando provocado por terceiros. Parece não ser bem este o caso aqui. Não sei se o número ideal para um equívoco é dois. Pode ser três. Pode ser um. Vai saber… O fato é que o equívoco é mais, muito mais, que uma simples ocorrência aleatória. Ainda que não tenham escrito nenhuma “teoria” a respeito. Aliás, num mundo cada vez mais “sustentado” por teorias de tudo – nada a ver com filme homônimo no reinado de Pindorama, se não me equivoco(!) – mais uma menos uma teoria parece não fazer incômodo. Ou causar incômodo seria mais apropriado? Num e/ou noutro caso, fica o alerta. Há que ter ouvidos de ouvir e olhos de ver…

Nem tudo no mar é água e Os invernos da ilha. O que pode haver de comum entre essas duas expressões, para além da implícita relação entre “ilha” e “água”? Bem… a imaginação se faz presente e mostra as suas garras. Já adianto que se trata de dois títulos. De dois títulos de livros. Dois títulos de livros publicados em duas terras separadas pelo mar. Ambas têm no mar um ponto de referência, um ponto de fuga. Num caso, explícito; noutro, implícito. Quem ler os dois livros vai saber qual é cada um.

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O primeiro título veio de uma terra que, a cada dia, aprendo a mais amar. É obra de delicadeza insuperável. Obra que desenha com linhas tênues os meandros de uma memória peculiar: a do afeto. Aquele partilhado desde que se abre os olhos até o momento em que a lucidez da maturidade faz revisitar reentrâncias, conhecidas ou não, mas todas elas reveladoras e que, platonicamente, espantam: levam a um aprendizado que não encontra epíteto que o particularize. Abrangência do existir. Punto i basta! Um trecho que pode servir de teasing àqueles que se deixam seduzir pela curiosidade:

“Isto” tinha batido de chapa na água, sendo de imediato abandonada pela minha fiel foca, que agora flutuava sozinha, mansamente, enquanto eu entrava num mundo turvo, em tons de azul e verde. Era estranho que não visse as coisas com mais nitidez… sentia bolhas à minha volta e por todo o corpo envolvia-me uma água muito mais fria. O fundo também estava mais próximo; cada vez mais próximo e as manchas esbranquiçadas que eu bem conhecia da borda do cais, estavam mesmo ali, sob os meus pés… Foi então que este mundo de silêncio foi estremecido por rompantes jactos de água e de som. O mar estremecera agora, e depois, e depois, as bolhas aumentavam e eram já quase espuma. De súbito, alguém me agarra, invertendo o sentido da minha descida. Segundos depois e já o sol nos aquece os rostos. O meu confiante e sorridente e o do Carlinhos Capela pálido e ainda tenso…”

A passagem se refere à primeira experiência de pular na água sozinha, durante umas férias. Experiência reveladora. A aveludada delicadeza da visão infantil do desconhecido transforma-se nas páginas do livro de Ana Paula Martins Goulart em matéria de quase-ficção. O quase, aqui, nada tem de pejorativo. Pelo contrário, inicia um processo mental que faz repensar  perímetro do conceito no qual não se encaixam as 258 páginas de seu livro. O primeiro aqui referido.

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O segundo caso é, sim, numa visão mais “quadrada”… ficção. Um romance daqueles que fazem a gente querer saber para onde vai, por onde passa, como é que faz… depois que as sinopses e as orelhas do volume anunciam uma série de referências que, particularmente, de pouco serviu para este leitor que, aqui escreve sobre o que leu. Isto também não tem intenção pejorativa. Só faz ressaltar o ceticismo apontado em observação anterior quanto ao que se chama corriqueiramente de “conceitos”… e suas “teorias”. Neste caso, o volume nasceu em terras de Pindorama mesmo. O rapaz que o escreve, de acordo com o que se lê nas abas das capas do livro, desenvolve “trama” que remete a ícones clássicos, canônicos da arte de narrar. Confesso que assim não o li. Não tive esta preocupação. Muito longe da delicadeza do livro de Ana Paula, o de Rodrigo Duarte Garcia – recomendado por críticos de renome – seduziu-me não pelas qualidades adiantadas, mas pelo prazer de acompanhar um percurso de formação – isso renderia algumas páginas de linhas “teóricas” –  do narrador que, em muitas nuances, levou-me à identificação plena. Um candidato à vida religiosa, seus amigos e professores, uma garota que o seduz, as anotações de um viajante estrangeiro de outras épocas e a austeridade geográfica do espaço que acolhe o relato. Estes são os elementos que constituem o fluxo de sedução e prazer que a escrita desse romance oferece aos olhos de um leitor interessado. Um exemplo poderia ser o que segue:

“Dizia W.H. Auden que Narciso não se apaixona pelo próprio reflexo porque é bonito, mas porque é o seu reflexo. Se apenas a beleza o atraísse, a inevitável decadência que o tempo carrega poderia enfim deixá-lo livre. No entanto, poços fundos na forma de espelhos acompanham o tempo, profundos como olheiras. E a tentação de olhar para eles não diminui ruga após ruga. Talvez aumente. E por isso há riscos, há sempre riscos em escrever diários ou reconstituições confessionais. A nobreza de um propósito autodeclarado qualquer pode muitas vezes esconder a paixão solipsista e mimada de quem se ama acima de tudo. Mas quem quer ouvir Tirésias, pobre Tirésias, ceco como um morcego?”.

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Delicadeza e prazer. Não se excluem. Podem se completar. Entre os dois… meu coração balança… mas nem tanto. Boa leitura!