Delicadeza e prazer

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Duas palavras que podem levar leitor desatento a equívoco. Desliza da atenção ou da indução inconsciente que podem ser outros instrumentos desta experiência reveladora que é o equívoco. Sobretudo quando provocado por terceiros. Parece não ser bem este o caso aqui. Não sei se o número ideal para um equívoco é dois. Pode ser três. Pode ser um. Vai saber… O fato é que o equívoco é mais, muito mais, que uma simples ocorrência aleatória. Ainda que não tenham escrito nenhuma “teoria” a respeito. Aliás, num mundo cada vez mais “sustentado” por teorias de tudo – nada a ver com filme homônimo no reinado de Pindorama, se não me equivoco(!) – mais uma menos uma teoria parece não fazer incômodo. Ou causar incômodo seria mais apropriado? Num e/ou noutro caso, fica o alerta. Há que ter ouvidos de ouvir e olhos de ver…

Nem tudo no mar é água e Os invernos da ilha. O que pode haver de comum entre essas duas expressões, para além da implícita relação entre “ilha” e “água”? Bem… a imaginação se faz presente e mostra as suas garras. Já adianto que se trata de dois títulos. De dois títulos de livros. Dois títulos de livros publicados em duas terras separadas pelo mar. Ambas têm no mar um ponto de referência, um ponto de fuga. Num caso, explícito; noutro, implícito. Quem ler os dois livros vai saber qual é cada um.

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O primeiro título veio de uma terra que, a cada dia, aprendo a mais amar. É obra de delicadeza insuperável. Obra que desenha com linhas tênues os meandros de uma memória peculiar: a do afeto. Aquele partilhado desde que se abre os olhos até o momento em que a lucidez da maturidade faz revisitar reentrâncias, conhecidas ou não, mas todas elas reveladoras e que, platonicamente, espantam: levam a um aprendizado que não encontra epíteto que o particularize. Abrangência do existir. Punto i basta! Um trecho que pode servir de teasing àqueles que se deixam seduzir pela curiosidade:

“Isto” tinha batido de chapa na água, sendo de imediato abandonada pela minha fiel foca, que agora flutuava sozinha, mansamente, enquanto eu entrava num mundo turvo, em tons de azul e verde. Era estranho que não visse as coisas com mais nitidez… sentia bolhas à minha volta e por todo o corpo envolvia-me uma água muito mais fria. O fundo também estava mais próximo; cada vez mais próximo e as manchas esbranquiçadas que eu bem conhecia da borda do cais, estavam mesmo ali, sob os meus pés… Foi então que este mundo de silêncio foi estremecido por rompantes jactos de água e de som. O mar estremecera agora, e depois, e depois, as bolhas aumentavam e eram já quase espuma. De súbito, alguém me agarra, invertendo o sentido da minha descida. Segundos depois e já o sol nos aquece os rostos. O meu confiante e sorridente e o do Carlinhos Capela pálido e ainda tenso…”

A passagem se refere à primeira experiência de pular na água sozinha, durante umas férias. Experiência reveladora. A aveludada delicadeza da visão infantil do desconhecido transforma-se nas páginas do livro de Ana Paula Martins Goulart em matéria de quase-ficção. O quase, aqui, nada tem de pejorativo. Pelo contrário, inicia um processo mental que faz repensar  perímetro do conceito no qual não se encaixam as 258 páginas de seu livro. O primeiro aqui referido.

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O segundo caso é, sim, numa visão mais “quadrada”… ficção. Um romance daqueles que fazem a gente querer saber para onde vai, por onde passa, como é que faz… depois que as sinopses e as orelhas do volume anunciam uma série de referências que, particularmente, de pouco serviu para este leitor que, aqui escreve sobre o que leu. Isto também não tem intenção pejorativa. Só faz ressaltar o ceticismo apontado em observação anterior quanto ao que se chama corriqueiramente de “conceitos”… e suas “teorias”. Neste caso, o volume nasceu em terras de Pindorama mesmo. O rapaz que o escreve, de acordo com o que se lê nas abas das capas do livro, desenvolve “trama” que remete a ícones clássicos, canônicos da arte de narrar. Confesso que assim não o li. Não tive esta preocupação. Muito longe da delicadeza do livro de Ana Paula, o de Rodrigo Duarte Garcia – recomendado por críticos de renome – seduziu-me não pelas qualidades adiantadas, mas pelo prazer de acompanhar um percurso de formação – isso renderia algumas páginas de linhas “teóricas” –  do narrador que, em muitas nuances, levou-me à identificação plena. Um candidato à vida religiosa, seus amigos e professores, uma garota que o seduz, as anotações de um viajante estrangeiro de outras épocas e a austeridade geográfica do espaço que acolhe o relato. Estes são os elementos que constituem o fluxo de sedução e prazer que a escrita desse romance oferece aos olhos de um leitor interessado. Um exemplo poderia ser o que segue:

“Dizia W.H. Auden que Narciso não se apaixona pelo próprio reflexo porque é bonito, mas porque é o seu reflexo. Se apenas a beleza o atraísse, a inevitável decadência que o tempo carrega poderia enfim deixá-lo livre. No entanto, poços fundos na forma de espelhos acompanham o tempo, profundos como olheiras. E a tentação de olhar para eles não diminui ruga após ruga. Talvez aumente. E por isso há riscos, há sempre riscos em escrever diários ou reconstituições confessionais. A nobreza de um propósito autodeclarado qualquer pode muitas vezes esconder a paixão solipsista e mimada de quem se ama acima de tudo. Mas quem quer ouvir Tirésias, pobre Tirésias, ceco como um morcego?”.

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Delicadeza e prazer. Não se excluem. Podem se completar. Entre os dois… meu coração balança… mas nem tanto. Boa leitura!

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