Perdas e ganhos

No dia 29 de Junho, quase um ano depois de aberto o processo, depois de ter passado pelo constrangimento infligido por um quarteto nada amistoso e muito apegado às aparências, à falsa celebridade, à famigerada glória e ao absolutamente inexistente “poder”, fui arguido por outro quarteto, este sim, sensato e ordeiro, e acabei por ser promovido a titular de carreira. Para ser politicamente correto, nos termos da “academia”, fui promovido da classe D com denominação de Associado para a classe E com denominação de Titular. Pronto. Mamãe queria muito ter estado, sobretudo se a arguição fosse da tese, mas foi do memorial. Ela não foi. Já estava cansada. Três dias depois, tive que correr com ela para um hospital, onde veio a falecer na semana seguinte. Uma tristeza imensa. Como se diz por aí, parece coisa que ela estava esperando a promoção acontecer… Segue, então, como homenagem à Dona Alice, esta mulher extraordinária com quem tive a honra de conviver durante 60 anos, minha mãe, mamãe, o texto do memorial apresentado à tal comissão. O texto é longo. São 36 páginas, mas há quem possa se interessar e, pasmem, gostar! Segue o dito cujo:

 

 

Memorial

 

 

 

 

José Luiz Foureaux de Souza Júnior

 

 

 

 

 

 

 

Peça do Processo de Progressão na Carreira: da Classe D, com denominação de Associado IV, para a Classe E, com denominação de Titular na Universidade Federal de Ouro Preto.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ouro Preto, MG

Maio de 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sumário

 

 

 

Sumário……………………………………………………………………………………………………………………………… 2

Da origem………………………………………………………………………………………………………………………….. 3

Da formação……………………………………………………………………………………………………………………….. 3

Da docência……………………………………………………………………………………………………………………… 27

Das publicações………………………………………………………………………………………………………………… 33

De Associações…………………………………………………………………………………………………………………. 35

Da projeção………………………………………………………………………………………………………………………. 36

Anexos

Anexo 1 – Texto original do livro “As cartas não menten”: da amizade entre António

Nobre e Alberto de Oliveira” …………………………………………………………….. 38

Anexo 2 – Aceite publicação de artigo ……………………………………………………………… 214

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da origem

 

Nasci em Belo Horizonte, no Hospital Felício Rocho, no dia 23 de Julho de 1956, uma quinta-feira, por volta das 17 horas; signo de Leão, com ascendente em Aquário, primeiro filho de José Luiz Foureaux de Souza, contabilista, e Alice Páschoa Foureaux de Souza, professora. Vivi, com meus pais e, aos cinco anos de idade, mais ou menos, mudei-me para casa própria construída no Bairro Coração Eucarístico. Ia à missa, aos domingos, no antigo seminário diocesano, hoje PUC-MG. Foi um período de formação religiosa intensa, num convívio diuturno com Dom Serafim Fernandes de Araújo e Dom João de Rezende Costa. Fui noviço jesuíta, em Campinas, de janeiro de 1977 a fevereiro de 1978. Retornando à casa, comecei a trabalhar. Infância e início de adolescência comuns, simples, sem grandes regalias. Disputei natação até os 20 anos representando o Mackenzie Esporte Clube. Fui um estudante medianamente regular. Atualmente resido em Contagem-MG.

 

 

 

 

 

Da formação

 

Fiz o Curso primário no Grupo Escolar Odilon Bherens (1º e 2º anos) e no Grupo Escolar Maurício Murgel (3º e 4º anos). Fiz o Curso de Admissão no Colégio Salesiano, onde, depois, cursei os dois primeiros anos do Curso Ginasial. Concluí o Curso Ginasial no Grupo Escolar Odilon Bherens. Comecei o Curso Científico no Colégio Estadual Prof. Milton Campos, onde estudei até o segundo ano. Fui transferido para a Escola Técnica onde concluí o Curso Técnico de Edificações. Ainda na Escola Técnica, comecei a tentar o vestibular. Foram vários para Arquitetura. Na época era atleta de natação e o trajeto até o Mackenzie Esporte Clube era feito de ônibus (dois) todos os dias, pelo mesmo itinerário. Para matar o tempo, comecei a pegar os livros que minha mãe mantinha em sua estante de professora. Toda a coleção dos “Clássicos Readers Digest” – compilações de clássicos da Literatura Universal. Praticamente todos os canônicos foram devorados diariamente. Assim começou meu interesse e gosto pela leitura de Literatura. Depois, durante o período em que fui noviço jesuíta em Campinas (1997-1998), conheci José Carlos Barcellos, amigo de Rogério Miranda de Almeida – meu colega de noviciado – que foram meus primeiros “mestres” no que diz respeito a estudos literários. Desse período em diante, consolidou-se meu gosto por Literatura e o desejo de me tornar professor. Há que ressaltar a importância da figura materna (professora), de uma de suas irmãs (pedagoga) e de dois tios advogados. Penso que esta ambiência só fez aprofundar, ainda que inconscientemente, o gosto e a dedicação ao campo dos estudos literários e da docência. Desde então, é raro eu dormir sem ter lido, pelo menos, umas dez páginas de um livro qualquer!

Em 1979, ingressei na PUC-MG, no Curso de Filosofia. Em 1980, transferi-me de Curso, transferindo-me para Letras-Português na mesma Universidade. Em 1981, mudei-me para Brasília onde vivi até 1982. Neste período tentei o décimo sétimo vestibular, desta vez, para Pedagogia, no CEUB, ainda em Brasília. Cursei apenas um semestre e voltei para Belo Horizonte. Entre 1983 e 1985, continuei o Curso de Letras e graduei-me. Em 1986, fui aprovado, em primeiro lugar, no exame de seleção ao Mestrado em Letras da UnB. Como, na graduação, tomei contato com a Psicanálise, e me encantei, resolvi tentar este Mestrado por conta do seu caráter teórico. A ideia foi aceita e aprovada pelo Colegiado do Curso e abraçada pela orientadora – Profª Drª Margarida de Aguiar Patriota – que, com sua verve cartesiana, indicou-me o “caminho das pedras” para desenvolver a pesquisa. Mudar para Brasília foi uma experiência pessoal de grande valia. Como fui bolsista da Capes, não trabalhei nos dois anos que lá vivi. O curso introduziu-me num universo novo de especulação epistemológica dos estudos literários quando tomei contato com a Estética da Recepção e a Literatura Comparada.

O impacto destas duas orientações metodológicas e teóricas para os estudos literários despertaram em mim o interesse pela interlocução entre Literatura e História, como uma espécie de concretização de ideias surgidas de articulação anterior: Literatura e Psicanálise, como depois veio a se consolidar – ainda que em parte – na Tese de doutoramento. Para além disso, a experiência na UnB, como bolsista da Capes, abriu a possibilidade para eu ser representante discente no Colegiado do Curso. O conhecimento da estrutura administrativa da pós-graduação, aliada à formação acadêmico-científica no Mestrado foi de especial valia, em primeira instância, para o processo de doutoramento e, sem segunda, para o exercício docente e administrativo na UFSM.

Defendi a Dissertação, em Teoria da Literatura, no ano de 1988. O trabalho intitulou-se “Estética do romance intimista no Brasil”. A orientação comparatista, implícita, já se podia perceber no encontro discursivo entre Literatura e Psicanálise que, ao lado de certa inclinação historiografia, procurou mapear elementos estruturantes da narrativa intimista, em sua especificidade; notadamente, a partir do conceito de narrador que, implicitamente, na dissertação, articulou-se ao de sujeito na/da Psicanálise. A dissertação procurou desenhar, a partir do percurso histórico do romance – como gênero narrativo – em dimensão sintética, evidentemente, a estrutura do romance intimista, objeto da consolidação de uma tradição intimista no/do romance Brasileiro. O período analisado vai dos 30 do século 20, com Cornélio Penna e Lúcio Cardoso; chegando aos 80 do mesmo século, com Clarice Lispector e Lya Luft. Deste trabalho, surgiu a primeira comunicação apresentada no encontro “Mulher e Literatura”, realizado em Florianópolis, em 1989, salvo engano. Os dois primeiros artigos que publiquei – “Recepção literária: um dos espelhamentos da Modernidade” e “Aproximações: ensaio de método” (vide Lattes) são um sinal claro do rumo que a Dissertação de Mestrado apontou e que continuei a seguir no doutoramento e na carreira docente que então começava. De tal maneira que, em muitas das disciplinas que lecionei – sobretudo as de caráter teórico – este eixo de orientação aparece explicitado. Exemplo disso é a disciplina Literatura Comparada, ministrada em 2015-2, quando retornei à dissertação e à tese, desenvolvendo novas abordagens de quatro dos romances analisados na Dissertação de Mestrado. Tal situação vem se renovando continuamente ao longo dos 25 anos de docência que completo agora!

No ano seguinte, fui aprovado, em sexto lugar, num concurso para Teoria da Literatura, na Universidade de São Paulo. No segundo semestre de 1989 e no primeiro de 1990, cursei duas disciplinas isoladas no Doutorado em Literatura Comparada da UFMG. Ainda em 1990, no segundo semestre, fui aprovado no exame de seleção ao mesmo Doutorado. Em Setembro de 1991, fui trabalhar em Londrina, na UEL, substituindo uma amiga, Ana Maria de Oliveira Domingues, até Janeiro de 1992. Esta foi a primeira experiência profissional numa instituição de renome. Como a experiência no ensino fundamental e médio, ser professor substituto foi uma experiência que deu mais “jogo de cintura” ao meu desempenho. Por um lado, a responsabilidade de substituir uma profissional respeitada na instituição e que deixou uma lacuna bastante sensível. Por outro, o fato de haver uma inter-relação profícua com os professores do departamento em que atuei. Esta, por sua vez, propiciou-me a percepção da “mudança de registro” necessária para me desempenho como professor: um aprofundamento do que já vinha acontecendo nos anos em que trabalhei na FAFI-BH.

Neste período, fiz concurso para Assistente em Teoria da Literatura, na UFSM, no Rio Grande do Sul, onde vivi até 1997. Esta mudança física foi radical, assim como o conjunto de experiências vividas naquela cidade/instituição. O Departamento de Letras Vernáculas contava, quando nele ingressei, com quatro professores de Literatura, dois deles estavam afastados para doutoramento – Sílvia Paraense e Eunice Gai. A carga horária, então, ficou a cargo dos três homens – Hélio Neiss, Robson Pereira e eu. No ano seguinte à minha chegada, ingressei no colegiado do Curso de Mestrado em Letras, então em processo de reformulação e consolidação. Logo assumi o posto de coordenador acadêmico do mesmo. Somado às disciplinas da graduação o trabalho na pós-graduação foi muito importante e frutífero. Tive oportunidade de ministrar disciplinas obrigatórias do Curso como o “Seminário de Dissertação II”. Neste, desenvolvia um processo de construção do “miolo” da dissertação dos estudantes. Paulatinamente, levava-os a escrever 5, 10, 20, 30, 50 e 70 páginas – num crescendo – que culminavam com boa parte do texto a ser defendido. Cada etapa correspondia a um dos cinco elementos estruturantes de um trabalho de dissertação, em nível de Mestrado. Estes respondiam às cinco perguntas básicas: O quê? (Introdução), Como? (Metodologia), Por quê? (Justificativa), Para quê? (Objetivos) Com o quê? (Corpus e Bibliografia).

Como docente permanente da pós-graduação na UFSM, tive oportunidade de orientar seis Dissertações de Mestrado (vide Lattes), a saber:

– Leitura de um percurso erótico na poesia de Manuel Bandeira e Cecilia Meireles, 1998. Neste trabalho, a poesia de Cecília Meireles e de Manuel Bandeira são objeto de uma leitura que privilegia aspectos de expressão do erotismo, sobretudo na perspectiva do pensamento de Georges Bataille; perspectiva essa circunscrita a elementos de recepção de sua obra;

Macário e Noite na Taverna: uma leitura de recepção literária. 1996. Como o próprio título da Dissertação explicita, a Estética da Recepção é o eixo de orientação do trabalho que recupera boa parte da fortuna crítica acerca dos autores, numa revisão bibliográfica – considerada exemplar pela banca – do Romantismo alemão;

– Carnavalização em O vampiro de Curitiba: uma possibilidade de leitura. 1996. Nesta Dissertação, as ideias de Bakhtin, associadas, uma vez mais, à recepção da obra de Dalton Trevisan, dão personalidade própria à abordagem desenvolvida na Dissertação que revisita as estações da Paixão de Cristo, a partir do que propõe a Literatura Comparada em seu capítulo dedicado à Estética da Recepção;

– MACHADO DE ASSIS: um leitor dele mesmo. 1996. Trabalho que considero exemplar. Nele, a estudante procede a uma leitura comparativa das ideias críticas de Machado de Assis, em confronto direto com um conjunto significativo de seus contos, enfatizando o tópico do “fracasso” como operador de leitura do processo implícito – na obra do autor carioca – de construção de certa identidade nacional. Trabalho que abre espaço para a articulação entre Literatura e História, um dos pilares de sustentação de meu modo de pensar a Literatura;

– Erico Verissimo e a importância da mulher na formação social do Rio Grande do Sul: uma introdução. 1998. Nesta Dissertação, a estudante procurou apontar elementos estruturantes da ficção do autor gaúcho, notadamente em O tempo e o vento. O caráter sociológico de sua abordagem cria perímetro crítico interessante para ilações a partir do diálogo da Literatura com a História;

– O existencialismo na obra de Erico Verissimo: uma introdução. 1998. O trabalho se volta para uma leitura crítica de elementos do pensamento existencialista – sobretudo Sartre e Camus – no desenvolvimento da obra de Erico Verissimo, sobretudo em Olhai os lírios do campo. Uma vez mais, a Literatura Comparada aparece como eixo organizador da abordagem desenvolvida no trabalho.

Orientar essas Dissertações foi um exercício muito profícuo de aprofundamento de ideias, experimentação metodológica e diálogo com pontos de vista diferenciados. A coincidência – todos os trabalhos foram escritos por mulheres – não pode ser deixada de lado. Retrospectivamente, vejo nisso uma manifestação de minha curiosidade em relação às ilações que a sexualidade – neste caso, a feminina – pode propiciar ao trabalho da leitura crítica de obras literárias de gênero vário. Ainda que apenas Cecília Meireles tenha sido a única representante do gênero feminino – no rol de autores estudados – tal “coincidência” foi feliz e criou, para mim, mais uma oportunidade de confronto de ideias e princípios éticos e críticos. Tudo isso, sem sombra de dúvida levou-me a um grau mais aprofundado de amadurecimento intelectual e moral, o que não é senão um contributo a mais para a formação continuada e meu exercício docente.

Em Março de 1995, defendi a Tese de Doutoramento, na UFMG. A tese intitulou-se “Caleidoscópio de fragmentos e vestígios: visões da literatura intimista no Brasil”. Apesar de certo equívoco causado pelo termo “visões” – de fato, o texto da tese defende a hipótese historiográfica e crítica de uma tradição intimista do romance no Brasil, sobretudo no período compreendido entre os anos 30 e 80, do século 20 – a tese aprofunda o caráter comparatista que viria a consolidar-se em meu trabalho acadêmico ao longo dos anos. Por outro lado, a articulação com a Psicanálise se fez definitiva, abriu espaço para a História e inseriu-se, neste campo, o pensamento de Iser e Jauss, os iniciadores, entre outros, da Estética da Recepção. Este tópico, com o passar do tempo, solidificou-se como perspectiva primacial do trabalho que desenvolvi desde então e que venho tentado continuar. Exemplo disso são alguns artigos e a própria tese de doutoramento. Destaco dela um trecho para respaldar o que afirmei:

 

Como as investigações que vinha fazendo levaram-me a considerar outra hipótese interessante, a constituição de uma tradição ficcional paralela ao Regionalismo, no âmbito da historiografia literária no/do Brasil, fui levado a retomar o caminho da dissertação de mestrado e a pensar nessa outra possibilidade para estudar o intimismo.

Assim, um passo adiante foi dado, uma vez que nessa direção poderia desenvolver algo de instigante a partir da hipótese de João Luiz Lafetá, que defende a ideia de que a nacionalidade da Literatura Brasileira deve tudo a o Regionalismo por sua preocupação “essencial” com o que se pode chamar de exercício de remapeamento estético do território literário brasileiro, ao mesmo tempo em que construía um discurso de denúncia dos descompassos histórico-culturais pelos quais passava o país entre os anos 30 e 50 – em que pese o fato de que esse conceito, o de nacionalidade, ser, por si só, um problema insolúvel, que parece destituído de qualquer relevância, mas que, em certa medida, persiste como uma sombra ou uma camada de lodo que vai sendo decantado com o passar dos tempos:

 

Um exame comparativo, superficial que seja, da fase heroica e da que se segue à revolução mostra-nos uma diferença básica entre as duas: enquanto na primeira a ênfase das discussões recai predominantemente no projeto estético (isto é, o que se discute principalmente é a linguagem), na segunda a ênfase é sobre o projeto ideológico (isto é, discute-se a função da literatura, o papel do escritor, as ligações da ideologia com a arte). Uma das justificativas apresentadas para explicar tal mudança de enfoque diz que o Modernismo, por volta de 30, já teria obtido ampla vitória com seu programa estético e se encontrava, portanto, no instante de se voltar para outro tipo de preocupação. Veremos isso adiante. Por enquanto importa assinalar essa diferença (…). (LAFETÁ, 2000, p. 28)

 

 

É nessa diferença que a minha hipótese de trabalho, no momento da tese, se respaldava. Esse mesmo argumento, o da “diferença”, é o que faz persistir a relevância desse tipo de abordagem, dado que nenhuma conjectura historiográfica, por mais “documentada” que seja, é suficiente para sustentar uma resposta definitiva às inumeráveis questões que a interlocução entre Literatura e História suscita. Não existe uma “verdade” que por si só responda a todas as perguntas que se fazem no correr do tempo:

 

(…) um livro de história não é, na realidade, o que aparenta ser (…). Por baixo da superfície tranqüilizadora da narrativa, o leitor, a partir do que diz o historiador, da importância que parece dar a este ou àquele  tipo de fatos (a religião, as instituições), sabe inferir a natureza das fontes utilizadas, assim como as lacunas, e essa reconstituição acaba por tornar-se um verdadeiro reflexo; ele adivinha o lugar de lacunas mal preenchidas, não ignora que o número de páginas concedidas pelo autor aos diferentes momentos e aos diversos aspectos do passado é uma média entre a importância que estes aspectos têm a seus olhos e a abundância da documentação (…) Sabe, sobretudo, que, de uma página para outra, o historiador muda de tempo, sem prevenir, conforme o “tempo” das fontes, que todo livro de história é, nesse sentido, um tecido de incoerência, e que não pode ser de outro modo; esse estado de coisa é, certamente, insuportável para um espírito lógico e basta para provar que a história não é lógica, mas, para isso, não há remédio, nem pode haver. (VEYNE, 1995, p. 18)

 

As lições de Jauss e Iser, na perspectiva de uma lógica particular – o que favorece a abordagem da historiografia literária nesta mesma direção –, são profundamente importantes. Existe certa similaridade de raciocínio entre o que dizem os scholars alemães e Paul Veyne: a particularidade de uma lógica historiográfica que tem que se repensar, a cada passo dado, na construção de sua própria narratividade. A partir daí, sustento a hipótese de que o intimismo – essa nova linha da tradição ficcional no Brasil – assegura a si mesmo o papel importante de refazer o caminho apontado por Lafetá, segundo orientação diversa que, em nada e por nada, destitui seu valor enquanto produção ficcional preocupada com a realidade nacional: o intimismo refaz o caminho traçado pelo Regionalismo, numa chave do “subjetivo” e não na chave do “social”.

Como se pode notar, a aproximação com a História se fez na sequência das especulações circunscritas à interlocução da Literatura com a Psicanálise. Na Dissertação de Mestrado, a preocupação de caráter teórico que identifica no narrador o ponto de fuga para a realização de uma estética intimista no/do romance. Como desdobramento, na Tese de Doutoramento, a ideia de narrador é envolvida à de sujeito, esta, oriunda da Psicanálise. Na tese, eu chego a cogitar a possibilidade de cunhar um conceito, o de sujeito-narrador, para completar o périplo pela tradição intimista do romance brasileiro. Ainda na Tese, este mesmo sujeito é tomado – ainda que um tanto implicitamente – como o articulador de um discurso, desta feita, de caráter historiográfico. No centro da argumentação da Tese está a ideia de que o romance intimista constitui entre os anos 30 e 80 do século 20, importante veio de circulação de ideias que culminariam com a consolidação do que chamei de tradição intimista do romance.

Faz-se interessante, destacar ainda, no conjunto de publicações (vide Lattes) alguns artigos que podem ilustrar estas ideias, concernentes que são ao processo de minha formação em sua amplitude. Do que consta no Lattes, selecionei dez por considerar que são os mais representativos do já referido processo de formação, bem como os que considero os mais ilustrativos do desenvolvimento do meu modo de pensar os estudos literários. Neles, enxergo minha contribuição para estes estudos, sobretudo os que se respaldam nas articulações entre Literatura, Psicanálise e História, metodologicamente circunscritos à amplidão do horizonte de expectativas da Literatura Comparada. A lista abaixo se organiza em ordem cronológica, do mais antigo para o mais atual:

  1. Recepção literária: um dos espelhamentos da modernidade. Revista Letras, Santa Maria, v. 3, p. 29-35, 1992. Este é o primeiro artigo que publiquei em que faço um elogio à Estética da Recepção como principal instrumento de trabalho do comparatista. Seu teor eminentemente teórico explicita as principais linhas de força que a Estética da Recepção detém e a partir das quais comecei a desenvolver meus trabalhos na universidade;
  2. Aproximações: ensaio de método. Revista do Centro de Artes e Letras, Santa Maria, v. 14, n.1-2, p. 7-34, 1992. Neste artigo, publicado no mesmo ano, retomo as ideias do primeiro apresentando, de maneira mais equacionada, as referidas linhas de força, ensaiando algumas ilações de ordem metodológica para a compreensão da efetividade e da eficácia da Estética da Recepção. Nele faço a apresentação de algumas possibilidades “práticas” para a efetiva utilização dos princípios da recepção literária, no âmbito da Literatura Comparada;
  3. Narrativa de gosto a gosto. Revista Letras, Santa Maria, v. 6, p. 95-103, 1993. Primeiro artigo em que considero como ponto de partida teórico-metodológico o diálogo entre Literatura e História: um dos binômios que orientam, desde o começo da atividade docente na universidade, o meu trabalho. O artigo propõe uma leitura do romance Agosto, de Rubem Fonseca, na perspectiva deste binômio, ensaiando algumas aproximações comparativas com a série televisiva que, a partir do romance, foi produzida e apresentada;
  4. Sujeitos e sujeitos: Pessoa em questão. Revista Letras, Santa Maria, v. 10/11, p. 132-155, 1995. Primeiro artigo em que considero como ponto de partida teórico-metodológico o diálogo entre Literatura e Psicanálise: um dos binômios que orientam, desde o começo da atividade docente na universidade, o meu trabalho. O artigo propõe uma leitura de algumas passagens poéticas de Fernando e seus três principais heterônimos, como forma de agenciar a aproximação anunciada. O conceito psicanalítico de sujeito, aqui, serve de bastião para a consideração do fenômeno da heteronímia;
  5. A metrópole e a colônia: imagens de Portugal e do Brasil na poesia árcade. Expressão, Santa Maria, v. 1, n.1, p. 77-82, 1998. Este artigo foi, originalmente, a prova escrita para o concurso de provas e títulos para professor Adjunto de Literatura Luso-Brasileira na UFOP. Retomando o binômio Literatura e História, o artigo propõe uma tese: o da existência do espírito nacionalista no pensamento e na poesia árcade no Brasil, em que pese o fato de alguns eles serem de origem lusitana. Durante a realização do concurso, o texto da prova – em sua maior parte retomado aqui – provocou interessante discussão com a banca. O fato se deu porque eu era candidato único e o tempo foi suficiente para que tal discussão ocorresse[1];
  6. O espelhamento do silêncio: literatura e homoerotismo num conto de Machado de Assis. Espelho, Porto Alegre: West Lafayette, IN, v. 5, p. 53-75, 1999. Este artigo foi, originalmente, uma comunicação durante a 57th Kentucky Foreign Languages Conference, anualmente realizada em Lexington, KY. O professor Paul Dixon, então presente, gostou do texto e convidou-me a publicar na revista em que trabalhava como editor: a revista Espelho, publicação conjunta, da PUC-RS e da University of Indiana, Purdue. O artigo trata, pela primeira vez do (ainda implícito) conceito de olhar homoerótico que veio a se tornar um dos embriões de meu trabalho como pesquisador e docente. Guarda, para mim, importância especial, pois se trata do primeiro artigo publicado explicitando minha imersão nos estudos acerca do homoerotismo;
  7. O narrador, a Literatura e a História: questões críticas. Gragoatá, Niterói, n.6, p. 127-142, 1999. Um dos artigos marcados no Lattes como mais importante e de fato o é. O breve retorno à relação da Literatura com a História é aqui realçado pelo viés psicanalítico introduzido e mantido pela articulação do conceito de narrador (seu similar ficcional para o de sujeito da Psicanálise). Nesta interlocução, um pouco do que tratei sobre o assunto em artigo anterior – o que apresenta a abordagem do romance de Rubem Fonseca, Agosto) –, é retomado, reforçando a interlocução com a Psicanálise;
  8. Nacionalidade como metáfora: fronteiras (possíveis?) entre Literatura e História. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 35, n.122, 2000. Outro dos artigos marcados comum dos cinco mais importantes no Lattes. Retomo aqui à História como tropo de articulação da leitura do romance de Diogo Mainardi, Contra o Brasil. A calculada desfaçatez do autor é transmutada no descompromisso do narrador que retoma certo capítulo da História do Brasil, mergulhando-a no universo de um romance policial. Considero este artigo importante por conta da insistência na relação com a História como uma das saídas para a constante indagação sobre a(s) função(ões) da Literatura e sua relevância, como matéria de estudo;
  9. Para uma agenda de leitura: literatura, história e homoerotismo. Revista da ANPOLL (Impresso), São Paulo, v. 11, p. 155-176, 2001. Este artigo foi escrito a partir das pesquisas que já fazia e que culminariam no projeto do primeiro estágio pós-doutoral que fiz, na UFF. A esta altura, o grupo de pesquisas (então embrionário) acerca da relação Literatura e Homoerotismo foi apresentado num encontro da ANPOLL. Nesta ocasião fui convidado para uma mesa redonda sobre o tema e minha comunicação foi incluída na publicação. Considero um trabalho interessante por demarcar um horizonte de expectativas instigante para os estudos acerca do homoerotismo. O teor do texto, acredito, é bastante viável e sempre o utilizo como introdução ao assunto em minhas aulas;
  10. O romance português e a História: a narrativa de Eça de Queirós e Almeida Faria. Agalia (A Corunha), v. 97/98, p. 9-32, 2009. Segunda publicação internacional (a primeira foi feita num livro que reúne comunicações feitas num colóquio que teve lugar em Toulouse, no ano anterior. Neste capítulo, escrevi sobra a metaforização discursiva da punição de três mulheres: Emma Bovary, Luíza e Capitu – vide Lattes), este artigo marca definitivamente a minha atenção sobre a relação da Literatura com a História. O artigo apresenta leitura cooperativa entre os dois autores portugueses e, originalmente, é foi fruto de trabalho de iniciação científica, cujo bolsista foi Thiago Ribeiro dos Santos, hoje Doutor em Literatura Portuguesa pela UFSC, em cuja tese ainda considera os princípios teóricos e metodológicos vinculados à relação entre Literatura e História. Acredito ter contribuído de alguma forma para a formação deste profissional. Com ele estou estruturando um projeto de livro sobre análise da obra de Almeida Faria, autor pouco estudado no Brasil, infelizmente;
  11. Mário de Sá-Carneiro sob a mira do homoerotismo. Revista Convergência Lusíada, v. 26, p. 50-69, 2011. Publicado originalmente num sítio virtual da rede, sem indexação, este artigo representa a consolidação teórica, para mim, do conceito de olhar homoerótico, como operador de leitura de textos literários. Na primeira versão, a atenção se volta totalmente para a abordagem psicanalítica de A confissão de Lúcio, texto do autor que dá título ao artigo. Nesta, acrescido que foi do desenvolvimento de conceitos e inferências relativos ao homoerotismo, acredito dar contribuição significativa para este campo de estudos, alargando seu horizonte crítico e acrescentando um texto representativo a seu corpus. Considero importante destacar que este artigo estabelece ponte intertextual com outro artigo meu anteriormente publicado: Sujeitos e sujeitos: Pessoa em questão. Revista Letras, Santa Maria, v. 10/11, p. 132-155, 1995, sobretudo no que diz respeito à fundamentação teórica de cariz psicanalítico, desta feita referindo-se à poesia pessoana.
  12. Dimensões conceituais do desvio: do Formalismo ao Homoerotismo. Jangada, v. 1, p. 73-84, 2013. Este artigo foi escrito a partir de uma síntese apresentada à Faperj como peça constitutiva do relatório parcial, referente á bolsa que recebi desta instituição, para realizar meu primeiro estágio pós-doutoral na UFF. O supervisor do estágio, José Carlos Barcellos (de saudosa lembrança) pediu-me para a presentar uma síntese do projeto numa mesa redonda de evento interno da UERJ, onde também trabalhava. Em sua opinião (infelizmente não registrada por escrito), foi um texto que, de maneira cabal, apresenta a questão do homoerotismo relacionada com os estudos teóricos de literatura, proposta a partir de ideia original e instigante: a aproximação com o conceito de “desvio”, do Formalismo Russo. Este artigo é mais um que considero fundamental para a minha formação e para meu exercício docente, pela contribuição que traz para os estudos acerca do homoerotismo[2];
  13. Ecos e reverberações: o caminho (oculto) da amizade. Letras de Hoje, v. 50, p. 493, 2015. Este artigo foi o primeiro a ser publicado logo depois do segundo estágio de pós-doutoramento. Nele, ficam claras as linhas de força identificadas em publicações anteriores e se consolidam minhas convicções acerca dos estudos literários;
  14. Nas entrelinhas do desejo: uma carta. Nau Literária, v. 11, p. 1-22, 2015. Como no item anterior, este artigo representa a finalização do segundo estágio de pós-doutoramento e ratifica minhas convicções.
  15. Sem patente nem comenda: ‘Sargento Garcia’, de Caio Fernando Abreu. Jangada, v. 7, p. 4-37, 2016. Último trabalho publicado, este artigo desenvolve análise de conto do escritor gaúcho sob a perspectiva do homoerotismo, dialogando com índices de ficcionalização de movimentos de repressão e representação de poder. Em que pese o fato da homossexualidade do autor, por ele mesmo assumida pouco antes de morrer, não é esta a peculiaridade que me interessa – como procurei deixar claro em todas as publicações anteriores sob a mesma orientação – implícita ou explicitamente. De fato, quanto menos evidente a “homossexualidade”, mais interessante se me apresenta a proposição de leitura[3]!

Em Fevereiro de 1997, fiz concurso para Adjunto em Literatura Luso-Brasileira, na UFOP. Mudei-me para Mariana. Pela segunda vez, uma mudança radical. Por questões pessoais, esta mudança foi mais que necessária. Dar início a esta segunda etapa de minha carreira docente numa instituição pública foi processo mais facilitado pela experiência acumulada durante os cinco anos em Santa Maria-RS. Para além das aulas na graduação, quando do ingresso na UFOP, atuei na pós-graduação que começava a funcionar. Anteriormente já me referi ao fato de que o Curso de Mestrado em Literatura Comparada não obteve credenciamento. A proposta de uma pós-graduação interdepartamental também não obteve resultado positivo. Participei ativamente da construção desta proposta. Ainda assim, tive a oportunidade de orientar a Dissertação intitulada “O bruto e o lapidado: uma leitura dos processos de formação e representação de identidade”, 1999. O trabalho versou sobre análise do livro Minha vida de menina, de Helena Morley. Escrito e defendido por Gizelia Maria de Abreu Machado, esta Dissertação procura mapear índice do processo de formação e representação de uma identidade feminina, agenciando conceitos e procedimentos da Psicanálise, no âmbito comparatista da Estética da Recepção.

Entre 2002 e 2003, fiz meu primeiro estágio de pós-doutoramento, sob supervisão de José Carlos Barcellos, da UFF. O resultado deste estágio está expresso no livro “Os herdeiros de Sísifo: teoria da literatura e homoerotismo”, que publiquei em 2007. Neste livro, o conceito de homoerotismo é apresentado como núcleo duro do que procuro operacionalizar na abordagem do literário. De certa forma, ele já estava presente nos primeiros escritos de minha autoria. Em vários artigos e comunicações, aparece de maneira explícita e definitiva. Sobre o livro, lê-se em sua “Apresentação”:

 

(…) ao contrário de outras ciências em que a impossibilidade refletida é objeto de demonstração (por exemplo, o nadir, lugar impossível de ser pisado, pode ser demonstrado em um corte miniaturizado do globo terrestre, com a exposição de um boneco de um lado e o toque com o dedo no extremo oposto), a impossibilidade literária é exclusivamente ilocucionária – só se faz dizendo, só se mostra no moto contínuo da paráfrase, jamais fora do universo conceitual. O nadir é projeção, enquadra-se no universo do impossível, mas é uma realidade do mundo físico. A reflexão lingüística, no entanto, não se resume ao mundo textual (igualmente ao nadir, realidade física), porque é essencialmente discursiva; portanto, do mundo conceitual. E este é exclusivamente psíquico, organizador dos fazeres ilocucionários, que só se realizam no (e pelo) dizer. Sísifo é metáfora de um fazer real que leva a nenhum lugar, do fazer inútil, do fazer penoso sem resultados.

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Embora este tema seja o motor do empreendimento de Foureaux, subjacente a ele está a questão crucial para os estudos literários, talvez dirigida aos alunos de graduação em Letras, que é a de se perder o medo da proposição de novidades, de se admitir que os estudos literários se inscrevem nas instâncias dos exercícios intelectuais da compreensão e da interpretação dos fatos sociais e culturais.

Se a discussão sobre os conceitos de homoerotismo e homossociabilidade é um problema que leva, não raro, a futilidades e devaneios, a preocupação central da reflexão de Foureaux enceta para um fazer científico, como forma de organização de procedimentos metodológicos para tratamento desse tema, não a partir de um corpus que seja constituído de uma suposta literatura gay, mas de como estratégias discursivas permitem tematizar o homoerotismo nas mais diversas obras literárias. O olhar homoerótico operacionaliza os procedimentos de leitura do pesquisador, liberto de cânones tradicionais que tipologizam os produtos literários. Se a tarefa do estudioso da literatura parece inócua aos destinos da humanidade, que possa, pelo menos, assessorar a formação humanística na tarefa de compreensão da heterogeneidade e da subjetividade do sujeito.

 

Este trecho da “Apresentação” ilustra bem o porquê desse livro expressar o que, atualmente, é meu “centro de interesse” no que diz respeito a estudos literários. Num primeiro exercício avançado de especulação, o que escrevo nesse livro é a explicitação de parte de minhas inquietações científico-intelectuais. Não obstante ter-se iniciado com perguntas feitas a “manuais”, o discurso que no texto se explicita é o de questionar exatamente a função e a  relevÂncia de se estudar Literatura: ou seja, o ato da leitura é que impera, mesmo que, por vezes, obnubilado por uma insistência equivocada de certa ”teoria”.

O segundo estágio de pós-doutoramento foi realizado no período entre 2014 e 2015, em Coimbra, sob supervisão de Ana Paula dos Santos Duarte Arnaut. O resultado deste segundo estágio está explicitado no livro “As cartas não mentem: da amizade entre António Nobre e Alberto de Oliveira” (Anexo 1). O livro encontra-se em processo de avaliação pela Imprensa Universitária da Universidade de Coimbra, onde pretendo publicá-lo. Neste volume, consolido a centralidade do homoerotismo no/do meu campo de interesse e desenvolvo abordagem recepcional e comparatística da correspondência entre os dois poetas portugueses. Neste sentido, cito textualmente a “Introdução” do livro, pois acredito que o “panorama” do trabalho está nele esboçado e respalda o que dele afirmo aqui:

 

Uma tese é uma proposição que se apresenta para ser discutida e defendida por alguém, com base em determinadas hipóteses ou pressupostos. A palavra tem origem grega, thesis, e significa “proposição”. Por sua vez, a expressão “em tese” significa “de modo geral”, “de acordo com o que se supõe”, “em princípio”, “em teoria”. Neste sentido, advogo aqui o direito de falar de um assunto já estudado e discutido, mas ainda, é claro, não esgotado.

A tese acadêmica constitui-se de abordagem de um único tema, resultado de investigação, sempre que possível, acurada, elaborada de acordo com metodologia apropriada. Por conseguinte, deve equacionar um problema demonstrando hipóteses formuladas por argumentação e raciocínio lógicos. É de se esperar que a tese constitua progresso para o campo do conhecimento ao qual se circunscreve. Em síntese, a tese é uma dissertação na qual se defende uma ideia científica, sempre que viável, original, na busca da produção de conhecimento. Pode-se dizer que é resposta para uma pergunta científica e, por isso, tem a forma de afirmação. Até aqui, nenhuma novidade!

Pois muito bem, o presente livro é, então, na origem, uma tese. A pesquisa, a partir da qual foi escrita, fez-se consistente, mesmo que, como será visto, parta de um pressuposto que pode vir a ser considerado “falhado”. O termo, ainda que passível de correção quanto à sua propriedade, é mais que necessário e adequado. Há bastante argumentação disponível para corroborar a assertiva. Fico, no entanto, com um elemento apenas: a incontestável sombra da Psicanálise, como campo do conhecimento que circunda, protege e orienta as constatações que aqui serão apresentadas, ainda que não absolutamente explicitamente. A natureza do objeto destas mesmas considerações – a correspondência de António Nobre e Alberto de Oliveira – é suficiente para respaldar a escolha do percurso desenvolvido. Este objeto materializa-se, concretamente, nas cartas. A peculiaridade destas corrobora e reforça sua natureza operacional: a expressão de uma amizade “particular”. A relação expressa por esse termo é responsável, então, pela plausibilidade de seu próprio objeto, dando consistência ao percurso investigativo que, a partir dela, se realizou. Fica, então, fundamentada a ideia nuclear do livro.

Uma das palavras-chave deste trabalho é correspondência. No Dicionário Houaiss, o verbete apresenta as seguintes acepções como substantivo feminino: ato, processo ou efeito de corresponder(-se), de apresentar ou estabelecer reciprocidade; intercâmbio de mensagens, cartas etc. Por extensão de sentido, conjunto de cartas, mensagens, telegramas etc., expedidos ou recebidos; similitude, analogia entre pessoas, coisas, ideias; relação perfeita, harmônica. Na rubrica de jornalismo, a acepção é: artigo de jornal publicado em forma de carta. Na rubrica da matemática: regra por meio da qual cada elemento de um conjunto é associado a um ou mais elementos de outro conjunto.

Partindo da última acepção, mesmo que não faça parte do âmbito semântico do termo estabelecido pelo perímetro do presente texto, percebe-se a relação entre seu uso discursivo e a matéria de que trata o livro: a correspondência entre António Nobre e Alberto de Oliveira – a associação entre “cada elemento de um conjunto”. Os elementos aqui são os dois poetas. O conjunto, em princípio, a relação de amizade que se estabelece entre os dois e que se mantém ao longo de alguns anos, a despeito do carinho permanente de Alberto de Oliveira – exarado na resposta à carta “ do rompimento” como será visto. Essa relação de amizade se explicita nas cartas, sobretudo nas cartas escritas e publicadas que António Nobre escreve para seu “amigo mais querido”.

Sobre as outras acepções, algumas reflexões fazem-se pertinentes. Em primeiro lugar, a ideia de reciprocidade. Ainda que as cartas de Alberto de Oliveira – até prova em contrário – não tenham sido encontradas, mesmo com a indicação de que não existem mais, esta reciprocidade faz-se anunciada nas cartas de António Nobre. Por sua vez, a “analogia entre pessoas, coisas, ideias” só não é perfeita pelo motivo acima apontado. No entanto, nos textos que deixou publicados, Alberto de Oliveira não se deixa intimidar e professa esta mesma reciprocidade. Isso, por sua vez, não invalida a “relação perfeita, harmônica” – até o rompimento – entre os dois poetas, atestada pelas cartas de António Nobre.

Outra palavra-chave é “amizade”. Das acepções deste substantivo feminino destaco as seguintes: sentimento de grande afeição, simpatia, apreço entre pessoas ou entidades; relacionamento social (mais usado no plural); concordância de sentimentos ou posição a respeito de algum fato; acordo, pacto, aliança; e, quando usado informalmente, o termo denota atitude de benevolência. Do exposto, vê-se claramente a relação entre os dois poetas portugueses como uma relação de amizade. Para além do uso iterativo da palavra, os dois, nesta relação, primam por experimentar os afetos a ela concernentes. Disso são testemunhas, uma vez mais, as cartas, sobretudo a que Alberto de Oliveira escreve a António Nobre em resposta àquela que chamo de “carta do rompimento”. Tendo como perspectiva estas duas palavras – correspondência e amizade – é que se deve vislumbrar o conjunto de observações, análises e constatações de que é objeto este livro.

A amizade, por si só, não constitui tema “original” no âmbito dos estudos literários comparados. Em que pese o sentido e o significado de “originalidade – que fica longe de meu horizonte de expectativas aqui – permanece como elemento operacional eficaz e rico para abordagens como a que se pretende. Pode-se dizer, sem risco de repetir um lugar-comum, que sem amizade não há sociedade que se sustente. Aristóteles a definiu como “uma alma em dois corpos”. Muitas “personalidades”, nos mais diversos campos de atividade humana, deram mais importância a como estimular as relações de amizade do que a qualquer outro tema. Marco Aurélio, o imperador filósofo de Roma, afirmou que as pessoas nascem para ajudar umas às outras, assim como os braços quase nada fazem um sem o outro. Já Montaigne, o estoico tardio que iluminou a França no século 16, chega a afirmar que a natureza parece muito particularmente interessada em semear a necessidade de se ter amigos. O pensamento de Montaigne alonga-se sobre o assunto e defende a ideia de que o espírito humano é constantemente instigado a constituir-se como fusão da multiplicidade na unidade. Ele afirma que as almas se entrosam e se confundem em uma única alma, tão unidas uma à outra que não se distinguem e nem se percebe a costura entre elas. Penso que essa ideia cabe como uma luva quando se trata da abordagem da relação de amizade entre Alberto de Oliveira e António Nobre. O próprio Montaigne escreveu ensaio notável sobre a amizade, dedicado a seu grande amigo La Boétie. A morte deste mergulhou Montaigne numa “noite escura e aborrecida”. Tanto se acostumou a ser “sempre dois” que a morte do amigo fê-lo sentir-se “senão meio”.

O gênero epistolográfico não é um dos mais entusiasticamente preferidos pelos que se detêm na análise das produções textuais. A palavra, circunscrita a um contexto situacional particular e, por isso mesmo, individualizado, não parece exercer o mesmo fascínio ao estudioso, o leitor-crítico, que, em boa parte das oportunidades, recorre a outros tipos de composição como fontes de perquirição linguística. Neste gênero, entra-se em contato com experiências vivenciais do outro, marcadas pela temporalidade das ações na sua história social, porém, transferidas para os limites espaciais da carta e enclausuradas na iconicidade da escrita. Cabe, então, ao crítico, solucionar o problema das leituras interpretativas que cada exemplar oferece, em razão da estratificação gráfica dos fatos narrados ou comentados, no trabalho de desfazer a autonomia semântica de seu autor. O “desfazer a autonomia semântica” significa que o leitor crítico terá que resolver de início problemas hermenêuticos, em razão de que, na leitura, terá que distanciar-se do texto para não só evitar contaminar-se com as questões afetivas e emocionais que por acaso possam dele emanar, mas também e, principalmente, em razão de ter que solucionar questões outras como suprimir o distanciamento cultural que se interpõe entre o seu mundo e o do autor e preservar esse mesmo distanciamento cultural, a fim de promover o resgate da significação do texto e compreendê-lo dentro da conceituação ético-moral de quem assim o expressou.

Essa constante luta cultural entre o código escrito do remetente e o do destinatário é o que transforma o estudo do discurso numa espécie de arqueologia da palavra. Por serem destinadas a um dado sujeito particular e, por isso mesmo, aparentemente resguardadas das indiscrições dos que não compartilham do mesmo contexto situacional, as cartas são formas expressionais de grande valor analítico, por tentarem reproduzir uma passagem verdadeira, vivenciada, sentida, exteriorizada por quem confia na cumplicidade do receptor e do seu compromisso ético da não revelação. Inúmeros autores dedicaram-se a esse tipo de trabalho, nos mais diversos domínios do conhecimento humano. Isto vem propiciando aos interessados neste tipo de gênero literário, a possibilidade de compartilhar da leitura de pensamentos, muitas vezes exclusivos de destinatários específicos e, portanto, inacessíveis, na ocasião, ao público leitor. As abordagens daqui oriundas contam, entre outras, com a colaboração de, por exemplo, Algirdas Julien Greimas e Jacques Fontanille.

O salto no tempo se faz inescapável e, com ele, chega-se a um outro contexto situacional representativo de uma nova concepção de mundo que, em consequência, faz estabelecer uma nova relação entre o falante e a língua que utiliza. As cartas são testemunha material desse salto. Assim, uma carta é instrumento especular do homem. Por seu intermédio entreveem-se aspectos característicos da mudança por que a sociedade passou na sua marcha inexorável ao longo da trilha do tempo. Logo, a correspondência é fonte de investigação sócio-histórica e, a partir de sua análise, pode-se chegar a certo estado de regozijo, ou lamentar, que mudanças tão radicais tenham acontecido: é bem o caso do rompimento da amizade entre os dois poetas portugueses.

O ponto de partida, então, constitui-se no pressuposto de que o estudo da epistolografia é porta que se abre ao mundo do missivista, que acredita na manutenção sigilosa de seus rasgos de emoção, de fraqueza, de audácia. É por esse devassar das letras alheias, que se chega às diferentes capacidades de o homem dispor das palavras para dizer-se presente no mundo, para levar a sua voz impressa aos olhos reflexivos ou admirados do destinatário, através da capacidade de articulação complexa de pensamentos argumentativos, da dolorosa expressão de decepção amorosa, do lúdico desenvolver de articulações poéticas, das impressões juvenis de um poeta; das angústias de quem se sobrepôs intelectualmente à rejeição, de natureza vária.

O presente trabalho tem por objetivo, em primeira instância, investigar a correspondência entre Alberto de Oliveira e António Nobre na perspectiva da leitura crítica do exercício de explicitação de sua amizade, através de cartas. Claro está que muito já se tem publicado sobre os dois poetas e sua produção. Também a correspondência tem sido já, muito estudada. No entanto, com os recursos da Literatura Comparada, principalmente no recorte metodológico inaugurado pela Estética da Recepção, a interlocução entre Literatura e História e os estudos de epistolografia, faz-se pertinente um retorno a este material, sobretudo se feito sob a perspectiva hermenêutica dos estudos de Eve Kosofsky Sedgwick, na abrangência do seu conceito de homossociabilidade e de Jurandir Freire Costa e sua contribuição instrumentalizada pelo conceito de homoerotismo.

A partir disso, a amizade literária cultivada entre ambos pode ganhar novo fôlego em sua interpretação, acrescendo aspectos instigantes na já consagrada fortuna crítica de ambos os poetas. A hipótese aqui é revisitar a correspondência como instrumento de expressão do pacto homossocial na/da construção da amizade já atestada e admirada entre ambos os poetas, em contexto muito particular da Literatura Portuguesa. Isso assume um significado importante, porque a releitura deste material, sob o foco do olhar homoerótico, só tende a acrescentar subsídios para o estudo da poesia de ambos e da História da Literatura Portuguesa no/do final do século XIX em seus fundamentos estéticos.

Isto posto, cumpre asseverar que o livro busca desenhar perímetro para uma plausível renovação de subsídios para a leitura de produção poética, mais que relevante para o estudo da História da Literatura Portuguesa, num recorte comparatista, destacando a perspectiva da Estética da Recepção. Pode-se, para isso, partir do pressuposto de que outra palavra-chave aqui é “leitura”. As palavras de Stephen Vizinczey fazem-se pertinentes quando afirma:

 

Ler é um acto criativo, um contínuo exercício da imaginação que fornece carne, sentimentos, cor às palavras mortas da página; temos que ir buscar a experiência dos nossos sentidos para criar um mundo no espírito, e não podemos fazer isso sem envolver o nosso inconsciente e revelar o nosso ego. Em resumo, somos extremamente vulneráveis quando lemos, e só ficamos felizes com autores que partilhem, as nossas inclinações, preocupações, preconceitos, ilusões, pretensões, sonhos, e que tenham os mesmos valores, as mesmas atitudes em relação ao sexo, à política, à morte, etc. (VIZINCZEY, 1992, p. 244)

 

À parte certa tendenciosidade estilística e a radicalidade de posicionamento crítico-discursivos, a pertinência do trecho, em relação ao primado da leitura, faz-se consistente. Por outro lado, o indiciamento do prazer – a trazer a lembrança de Barthes – aponta para as “afinidades eletivas” que sempre exercem influências nas escolhas e no encaminhamento da(s) leitura(s) que cada leitor pode vir a fazer, como e o caso aqui. Confirma-se assim a vulnerabilidade de toda e qualquer proposta de leitura, dada sua natureza eletiva e sua índole subjetiva. Que outra perspectiva, senão esta, pode ser exemplarmente explicitada pela troca de cartas, gênero mais que subjetivo em sua “visceralidade essencial”?

A investigação realizada veio integrar, orgânica e coerentemente, um processo que, mesmo diversificado, foi sendo desenvolvido desde a elaboração da minha tese de doutorado em Estudos Literários – Literatura Comparada. Nessa fase da minha trajetória de pesquisa, estudei a produção literária de quatro escritores brasileiros: Otávio de Faria, Cornélio Pena, Clarice Lispector e Lya Luft. O recorte comparatista e a ênfase na recepção continuam a orientar a pesquisa, desde então, ainda que, agora, o corpus seja constituído de obras da Literatura Portuguesa. Com base no meu percurso de investigação, considero a obra de Alberto de Oliveira e de António Nobre, bem como sua correspondência, elementos fundamentais para o desdobramento orgânico e coerente de atividades de pesquisa e produção científica no âmbito dos Estudos Literários. Por isso, o desenvolvimento da pesquisa propiciou o aprofundamento da minha reflexão teórica e analítica sobre esta Literatura.

Na primeira etapa do trabalho de escrita deste livro, desenvolvi pesquisa bibliográfica acerca, principalmente, da correspondência ativa de António Nobre (já publicada), releitura crítica de sua poesia e aprofundamento teórico acerca da epistolografia. Esta etapa constituiu alicerce necessário para o desenvolvimento do texto do livro. Em Portugal, no período compreendido entre novembro de 2014 e Abril de 2015, consultei e coletei informações junto às Bibliotecas das Universidades de Coimbra, de Lisboa e do Porto, além da Biblioteca Nacional, em Lisboa e da Biblioteca Pública Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos, depositárias de obras de referência, dissertações e teses acerca dos poetas cuja correspondência constitui o corpus da investigação. Nestas bibliotecas, consultei também periódicos (jornais, revistas e Anais de eventos científicos) com vistas ao exame dos artigos, ensaios e resenhas produzidos sobre os poetas citados, bem como a bibliografia de apoio crítico e teórico, sobretudo a voltada para os estudos da recepção literária. Há que acrescentar o espólio de António Nobre. Para complementar, a pesquisa investiu na busca, leitura e comentário de escritos de Alberto de Oliveira como elemento que consolida o propósito mais amplo da investigação.

Aqui cabe uma pequena digressão explicativa. Na “Introdução” do volume editado da correspondência de António Nobre – conforme referência bibliográfica ao final da tese –, o responsável pela publicação, Guilherme de Castilho, relata que foi projeto de Alberto de Oliveira publicar as cartas por ele escritas em resposta às recebidas de António Nobre. Porém, como explica o próprio Guilherme de Castilho, Alberto de Oliveira veio a falecer antes de consumar o projeto. Além disso, teria deixado expresso desejo de que todos os seus papéis – notadamente as cartas e os postais trocados com António Nobre (estes constituindo o que ambos denominaram de “Diário”), como poderá ser visto mais adiante – fossem incinerados. Tal fato, até prova em contrário, deu-se a contento do poeta. Isto pode, aparentemente, ser uma pá de cal nas pretensões do projeto do livro. No entanto, minha “esperança” era a de poder encontrar algum vestígio destes mesmos papéis. À parte o fato de poder ser considerada ingênua, essa esperança alimentava-se da possibilidade de uma “surpresa”, ou do inusitado encontro de documentos até então considerados extintos. Acreditando nesta plausível possibilidade, desenvolvi a pesquisa proposta e, a partir dela, escrevi o livro.

A leitura da correspondência dos dois autores – sobretudo a carta escrita por Alberto de Oliveira para António Nobre que sobreviveu ao fogo –, como instrumento de abordagem da recepção literária, poderia consolidar hipóteses as mais variadas. Do ponto de vista da constituição de uma fortuna crítica consistente e instigante, esta correspondência é instrumento valioso para uma hermenêutica do final do século XIX em Portugal. Ambos os escritores tiveram participação ativa em eventos e publicações de sua época, produção esta que muito contribui para o desenho do quadro finissecular da Literatura Portuguesa que pode ser tomado como antessala do seu Modernismo. É nesta direção que a investigação proposta procurou enquadrar a ideia de amizade literária como instrumento de abordagem hermenêutica da amizade vivenciada pelos dois poetas lusitanos.

Wolfgang Iser, Hans Robert Jauss, Hans Ulrich Gumbrecht, diretamente, e Regina Zilberman, Tania Franco Carvalhal, Eduardo Coutinho, entre outros, são nomes referencias dos estudos de Estética da Recepção, campo específico de abordagem comparatista eleito para o desenvolvimento para a proposta de investigação. Mais uma vez, esta escolha aponta para o primado do leitor, no bojo do processo de constituição de sentido:

 

A estética da recepção parece (…), a tentativa mais inovadora para constituir uma sociologia da literatura não marxista, para, de um só golpe, renovar, reanimar, deslocar a história literária. Retraçar as leituras sucessivas de uma obra por várias gerações críticas não é constituir um monte de tolices, mas destacar a dialética do livro e da leitura coletiva e revelar aspectos sempre novos de um autor, de um mito, de uma palavra. (TADIÉ, 1992, p. 192)

 

A proposta se respaldou na perspectiva aqui anunciada, reafirmada pelo trecho acima. Como consequência imediata, o enfoque englobou estudos de História da Literatura, sobretudo no que é desenvolvido epistemologicamente por Jacques Le Goff e Paul Ricoeur, a partir das obras elencadas na bibliografia (ao final). Este desdobramento contou com o apoio das propostas de releitura da literatura finissecular no Ocidente anunciadas por David Baguley (vide referências bibliográficas), a partir do que subsidia o rompimento da crítica com leituras cristalizadas desse período, destacando os desdobramentos possíveis de uma retomada da consideração da estética naturalista e adjacências. O autor em Le naturalisme et ses genres, oferece dois caminhos para esta retomada: a) um naturalismo trágico, objetivo, clínico, dinâmico; b) um naturalismo desiludido, autobiográfico, estático e repetitivo. Dessa reorganização, vê-se um deslocamento empreendido no campo literário (BOURDIEU, 1992). Sua visão do Naturalismo rompe a lógica da escola e do estilo de época para estender seu raio de atuação a montante e a jusante da produção literária finissecular – o que inclui os dois poetas em questão. A meu ver, esta retomada propicia outra(s) leitura(s) da correspondência entre Alberto de Oliveira e António Nobre, o que ilumina a crítica à poesia de ambos. Daí a efetividade desejadamente eficaz do recurso ao operador de leitura chamado “pacto homossocial” – instrumento instigante para desdobrar a relação crítica entre correspondência e amizade literária.

Nesta altura, já em sua segunda etapa (em Portugal), a pesquisa voltou-se para a coleta, leitura e análise do material colecionado. Dado que as cartas de Nobre se encontram já, em grande parte, publicadas – as surpresas na pesquisa de fontes podem ainda ser muitas –, carece ainda de sua contrapartida: as que Alberto de Oliveira escreveu. Neste ponto do projeto, os trabalhos acadêmicos – teses, dissertações e artigos – realizados/publicados em Portugal, foram de grande valia para a consolidação do propósito da pesquisa.

Considerando a produção epistolográfica entre Alberto de Oliveira e António Nobre como o locus discursivo no qual a produção poética de ambos se espraia implicitamente, na troca de impressões que retroalimenta a amizade que une os dois poetas, o estudo desta “memória individual” partilhada pode sustentar a presente hipótese de leitura: a influência da amizade o desenvolvimento da poética de ambos, por um lado; e, por outro, o caminho contrário, a correspondência como exercício do afeto que acaba por sustentar a produção poética, sobretudo se considerada, a amizade, no influxo do já referido pacto homossocial. Ainda que este direcionamento não vá ser seguido aqui, sua evidência tem de ser destacada. Isto deixa em aberto a possibilidade de tal abordagem. Ao fim e ao cabo, ela é operacional e inescapável na relação de amizade que se mantém e expressa na correspondência: núcleo de minha investigação.

Entendo que a correspondência entre os dois poetas pode deixar transparecer uma espécie de jogo discursivo que acaba por fazer com que o missivista procure, mesmo que inconscientemente, chamar sobre si a atenção de seu interlocutor sem, no entanto, ter a prerrogativa da transparência do discurso: ele necessita de uma “resposta”, na verdade, pede por ela. A opção, então, foi ater-me ao sustentáculo da relação hermenêutica: a leitura da correspondência. Como expressão da amizade entre os poetas, o desdobramento poderá ser feito, em outra oportunidade, com mais consistência. Este seria um desdobramento óbvio da proposição implícita na pesquisa que foi realizada.

Tal situação dialoga de forma evidente com o conceito de “pacto referencial” apresentado por Lejeune, em O pacto autobiográfico, como sendo uma espécie de contrato da memória com a verdade, sempre reduzida à esfera das possibilidades, levando-se em consideração a série de rasuras, deformações e imprecisões às quais está submetido aquele que escreve as cartas. Da mesma forma, em Lete: arte e crítica do esquecimento, Weinrich comenta acerca do descrédito a que Platão lança o “sistema gráfico”, matéria-prima das cartas, quando afirma que a memória definha na medida em que o tempo passa e fragiliza as “certezas” que esta mesma memória consolida. Tal definhamento pode ser sanado com a releitura das cartas em articulação com a poesia produzida por ambos os autores portugueses, como proposto aqui. Considerando, ainda, as missivas como campo de tensões que estimulam a colisão de perspectivas distintas sobre a dominante literária da época, torna-se necessário, como contraponto da correspondência – esse camarote da criação literária, o projetado espaço para treino da escrita poética –, a sua articulação com a poesia de ambos os poetas, na perspectiva aqui adotada. Tais cartas, sobretudo as de Alberto para António – por que pouco estudadas – funcionam como uma espécie de laboratório de criação poética, no âmbito da leitura, mesmo que não tenha sido essa a “intenção” dos dois.

Se a amizade é laço afetivo que pode unir pessoas independentemente de uma explicação racional, a perspectiva dos estudos de homoerotismo pode especular sobre liames mais implícitos que a moralidade de uma época ou mesmo os princípios dormentes que, na organização social, tendem a ser recalcados, limitados e, por vezes, dissimulados. O que Sedgwick pressupõe é que haja um investimento afetivo – do naipe daqueles descritos por Freud em sua saga intelectual – nas relações entre sujeitos de mesmo sexo (daí a importância do prefixo “homo”), objetos de eleição de muitos escritos sejam escritos. Longe de circunscrever um perímetro de elucubrações que seja reduzido ao exame de “preferências” e ou práticas, da ordem do sexual, o conceito por ela cunhado – homossociabilidade, ou mesmo, pacto homossocial – respalda o olhar inquisitivo do leitor que passeia por índices escritos desse desejo que se faz palavra. Daí a importância da conceituação de Jurandir Freire Costa que, com o mesmo embasamento psicanalítico que Sedgwick, operacionaliza o conceito de homoerotismo, ampliando de maneira incomensurável o leque de possibilidades hermenêuticas quando a operacionalização e tal conceito.

Dito de outra forma, pouco importam as preferências sexuais dos autores dos textos que se coloquem em epígrafe. Desinteressante se faz, por consequência, defender esta ou aquela justificativa para os chistes linguísticos que a literatura agencia no/pelo texto que o sujeito escreve. De todas as possibilidades, o texto da carta pode ser tomado como exemplo mais afeito a esse tipo de análise/observação, dado que o autor dela fala de si, ainda que na superfície da letra a mensagem se reduza, aparentemente – e apenas assim –, ao comunicado de conteúdo diverso, de informação útil (ou não!) de referência “objetiva”.

Neste sentido, aproximar o texto dos escritos de Alberto de Oliveira numa articulação dialogal – via leitura atenta e verticalizada – é atitude que se explicita na constituição de um corpus de investigação mais plausível. A orientação desta investigação, portanto, coloca-se muito além de moralismos e/ou respeitos que possam agilizar assertivas redutoras que procuram impedir que o olhar do leitor atento encontre, nas linhas pelas quais caminha, os índices da afeição partilhada pelas cartas. Desta forma, a afetividade que alimenta a amizade de ambos não deixa de ser o eixo da referida homossociabilidade, ou, por outra, a leitura que deste material se pode fazer leva à certeza de que um pacto homossocial foi estabelecido prévia e, até, inconscientemente, pelos autores das cartas. Cabe ao leitor atento aceitar esses índices, examiná-los à luz de sua evidência e dinamizá-los na hermenêutica possível dos textos nos quais e pelos quais se explicita. Deste ponto, mais que consistente e relevante fica a abordagem deste corpus na perspectiva do já referido olhar homoerótico.

Fica, então, a título de corroboração do que aqui se propõe, o conjunto de “insinuações” – o sentido deste termo aqui não carrega nenhuma intenção pejorativa e/ou condenatória – feitas por Mario Cláudio que, de maneira um tanto apressada, são rechaçadas por Vasco de Castro em texto que “comenta” a publicação da Fotobiografia de António Nobre (CLÁUDIO, 2007). Nesta, ao que parece, Mário Cláudio teria percebido alguns destes índices.[4] A última frase do referido “comentário” – “Vou lavar-me as mãos” –, aponta ambiguamente para uma atitude de desprezo que muito bem pode encerrar sentido mais profundo, aquele dinamizado por preconceito, revestido de recalcamento gratuito. Em igual medida, pode-se concluir que o discurso do mesmo comentário aponta para alguma coisa como “não vou tocar nesse assunto delicado pra não ‘me sujar’ com isso”. Constatação plausível e, em igual medida, instigante.

A investigação que se desenvolveu desfaz esta dúvida. Complemente-se que o próprio Mário Claudio publicou um livro de contos, Triunfo do amor português, do qual faz parte uma narrativa intitulada “António Nobre e Alberto de Oliveira” (CLÁUDIO, 2014). Na perspectiva que se desenha a partir dos comentários feitos à Fotobiografia, parece pertinente articular a leitura das cartas em diálogo com a ficção de Mário Cláudio, o que vai ser feito em um dos capítulos deste livro. Mais uma vez, desta forma, reitera-se o caráter comparatista da investigação (e de seus resultados), bem como reinvestindo nos pressupostos estabelecidos a partir da leitura dos trabalhos de Eve Kosofsky Sedgwick e Jurandir Freire Costa, conforme já referido anteriormente.

Reler a correspondência de Alberto de Oliveira e António Nobre, à luz de articulação crítico-discursiva de sua correspondência pessoal, levando-se em consideração o horizonte de expectativas desenhado pelo “fim de século” português, no âmbito da História da Literatura Portuguesa é o primeiro passo para que o estudo realizado ganhe fôlego, no sentido da produção de conhecimento renovador acerca da matéria que constitui o “objeto” de investigação. Da mesma forma, desenvolver abordagem que persegue o pressuposto de que a partir da leitura da correspondência entre os dois poetas leva a alargar o horizonte de expectativas que se cria com o aparecimento de ambos no quadro da História da Literatura Portuguesa. A amizade entre os dois deixa, assim, de ficar relegada ao âmbito estreito de mera curiosidade literária.

Outra possibilidade é fundamentar, ainda que introdutoriamente, os pressupostos para (re)ler a produção poética de Alberto de Oliveira e António Nobre, como exercício – mesmo que inconsciente – do fazer poético. Este seria elemento que viabiliza a abordagem do Simbolismo/Naturalismo, como algo que desenha um laboratório de experiências estéticas re(i)novadoras, na economia da História da Literatura Portuguesa, então integrada ao quadro similar da/na Literatura Ocidental. As cartas são, então, nesta perspectiva, instrumento mais que viável e eficaz, trazendo a amizade este António Nobre e Alberto de Oliveira: sustentáculo para a renovação dos estudos de Literatura Portuguesa, no capítulo em que os dois estão inseridos. Por isso mesmo, estudar a correspondência entre Alberto de Oliveira e António Nobre como espaço privilegiado de análise da amizade literária é instrumento de explicitação de um pressuposto pacto homossocial – nos termos expostos nesta proposta de investigação –, a interagir com a criação poética de ambos, apresenta todas as condições para sustentar a tão propagada renovação. Este tópico considera a correspondência fonte de informação acerca de um contexto de época já mapeado, no foco de uma perspectiva atualizada, no que diz respeito a temas que, por motivo vário, foram sendo deixados de lado, como, evidentemente, seu caráter homoerótico.

A realização da pesquisa proposta, como procedimento inicial para a escrita do presente livro, conta com fundamentação teórico-metodológica do campo que se constitui: o da abordagem da correspondência como instrumento de construção e consolidação de uma amizade literária. Para tanto, como primeiro passo, defino o comparatismo, por óbvio, como perímetro epistemológico a definir a investigação desejada. A bibliografia da História, consolidação e prática investigativa da Literatura Comparada é extensa. Literatura Comparada, de Sandra Nitrini; Comparative literature: a critical introduction, de Susan Bassnett; Literatura Comparada: textos fundadores, de Tania Franco Carvalhal e Eduardo Coutinho podem ser aqui elencados como alguns dos inúmeros estudos importantes para o desenho do referido perímetro. Estes livros, entre outros, apresentam os fundamentos da Literatura Comparada e apontam para os principais encaminhamentos que a disciplina disponibiliza. Sem limitar, em sentido pejorativo, o campo de investigação, tais referências abrem espaços suficientes para a constituição e operacionalização de nichos, sub campos de investigação, igualmente abrangentes. Tal possibilidade corrobora a operacionalidade teórico-metodológica das propostas exaradas nos/pelos volumes em sua operacionalização investigação, conforme a proposta apresentada.

Acompanhando, consequentemente, o direcionamento da pesquisa, a Estética da Recepção é responsável pelo refinamento das comparações propostas, delineando o perfil do leitor como agente suficientemente competente para a articulação pretendida. Igualmente inumerável, a bibliografia sobre o assunto sobeja possibilidades, características e abordagens epistemológicas. A título de indicação metodológica, podem ser destacados: O ato da leitura: uma teoria do efeito estético, de Wolfgang Iser; Pour une esthétique de la réception, de Hans Robert Jauss; Reception theory: a critical introduction, de Robert Holub. Estes, num universo mais numeroso, identificam aqui como balizas referenciais da linha de curso da investigação em seus fundamentos. Na mesma medida, os volumes aqui apresentados não esgotam o assunto. No entanto, desenham o esboço mínimo necessário para a operacionalização dos princípios teórico-metodológicos que o primeiro conjunto de referências constitui. Sua orientação é, por isso mesmo, suficiente para o desenvolvimento da argumentação pretendida.

Um segundo passo, mas adstrito à determinação do corpus, leva à leitura do volume intitulado António Nobre: correspondência, organizado por Guilherme de Castilho. Nele, encontram-se 38 cartas destinadas a Alberto de Oliveira, ponto de partida da constituição do corpus específico. Para elas, devem existir correlatas escritas pelo destinatário. Este, o objeto primordial da pesquisa de fontes realizada em Portugal, conforme mencionado anteriormente. Na medida do possível, como baliza do processo investigativo, a bibliografia registrada ao final será, na medida do possível, consultada. O estudo desta correspondência far-se-á na perspectiva comparatista, buscando delinear o escopo da amizade literária entre os poetas. Em outras palavras, a aproximação das cartas e dos poemas pode, quando for o caso, asseverar o papel do leitor na construção de possíveis sentidos que a correspondência possa vir a corroborar. O estudo das cartas, por outro lado, pode também agenciar, ainda sob a mesma perspectiva, uma releitura crítica da contextualização de ambos no quadro da estética literária preponderante em Portugal no final do século XIX.

Considerados os dois conjuntos de referências teóricas e metodológicas, e operacionalizando seus princípios à releitura das cartas de António Nobre, a investigação cria as condições para, depois de (se pudessem ser) localizadas as cartas de Alberto de Oliveira, proceder à análise comparativa da correspondência. O trabalho, sempre em curso, não vai ser paralisado para a consideração da proposta eletiva deste projeto: estudar a correspondência como instrumento de construção, consolidação e explicitação da amizade literária de que são sujeitos os dois poetas portugueses. Para tanto, a minha proposta é abordar este “processo” escrito a partir das ideias de Eve Kosofsky Sedgwick, sobretudo a partir de suas propostas exaradas em dois volumes: Epistemology of the closet e Between men: English literature and male homosocial desire. Ambos os livros são acompanhados de instigante estudo realizado por Jurandir Freire Costa, A inocência e o vício, a ser aqui igualmente considerado/estudado. Este polo teórico-metodológico orienta o desenvolvimento da abordagem da leitura da correspondência entre os poetas portugueses, a partir da possibilidade de se entender a amizade dos dois como exercício poético de um pacto homossocial, nos termos em que essa conceituação é apresentada, inicialmente, pelos volumes acima citados. Tal abordagem vai ao encontro do diálogo que se estabelece com o texto de Mário Cláudio, igualmente referido alhures.

Por fim, o estudo da contextualização historiográfica de ambos os poetas faz-se necessário, como complemento operacional da investigação. Neste sentido, História social da literatura e da arte, de Arnold Hauser e os volumes que cobrem a passagem do século XIX para o século XX da coleção História crítica da Literatura Portuguesa, sob coordenação de Carlos Reis são as referências básicas. Em ambos, encontro a abordagem da História da Literatura numa perspectiva ampla em que se inserem os dois poetas aqui estudados. Esta etapa do processo investigativo visa à fundamentação historiográfica da contextualização da amizade entre os poetas estudados, respaldando as constatações advindas do estudo de sua correspondência, nos termos aqui estabelecidos. Claro está que uma série de outros textos de diversos autores – Roland Barthes, Roger Chartier, Paul Ricoeur, Michel Foucault, Sigmund Freud, entre outros (vide referências bibliográficas) – constituem as referências gerais, de caráter epistemológico e teórico, que complementam e respaldam a investigação.

O trabalho investigativo, articulado às análises realizadas – das cartas, dos textos de referência e a fortuna crítica dos dois poetas – resulta em material interessante e suficiente para a elaboração do presente livro como “resultado da pesquisa”. Da mesma forma, em igual medida, a busca pelas cartas de Alberto de Oliveira é objetivo que – mesmo sob o risco de ter se mostrado infrutífero – alimenta a investigação e a justifica como poderá ser constatado.

Para a consecução desse plano, o livro apresenta a seguinte organização: uma “Introdução” em que, por óbvio, é apresentado um panorama geral da ideia inicial e de seu equacionamento a partir de um projeto de pesquisa, desenvolvido durante o período de realização do estágio pós-doutoral financiado pela Capes. Na sequência, um conjunto de quatro capítulos. O primeiro deles apresenta uma análise o conto de Mário Cláudio intitulado “António Nobre e Alberto de Oliveira”, constante de seu livro Triunfo do amor português, aqui já referenciado. Esta análise visa “ambientar” a leitura a ser feita das cartas de ambos os poetas na perspectiva anunciada na “Introdução” do livro. O objetivo é fazer apreciações acerca de “indícios”. Além disso, essa primeira abordagem é marcada por caráter de provocação. Invertendo certa lógica protocolar na, desloco o axiomático capítulo “teórico”, menos eficaz a meu ver que a provocação que proponho. De mais a mais, elegi o raciocínio dedutivo como eixo desta mesma abordagem.

Em outras palavras, o que António Nobre escreve em suas cartas que leva à conclusão acertada de que Alberto de Oliveira teria, de fato, escrito cartas em resposta às que recebia de seu amigo. A partir disso, começa o desenho da hipótese que sustenta o livro. Esta análise se complementa com a leitura anotada do que chamo de perquirição dos indícios da existência das cartas de Alberto de Oliveira. Isto será feito através da leitura anotada das cartas de António Nobre, publicadas em volume igualmente já referido aqui. O segundo e o terceiro capítulos apresentam a Estética da Recepção como instrumento que, no âmbito do comparatismo literário, vai sustentar a operacionalização dos dois conceitos-chave deste trabalho: homossociabilidade e homoerotismo. No quatro capítulo, desenvolvo a argumentação a que poder-se-ia chamar de Análise do corpo de prova.

A leitura anotada das cartas de António Nobre para Alberto de Oliveira – ou, pelo menos, daquelas em que os referidos indícios se explicitam – conclui o percurso da abordagem proposta. Diz o adagiário popular que não se deve oferecer “o ouro aos bandidos”. Seguindo o princípio dessa idiossincrasia cultural, deixo em segredo a explicitação do que chamei aqui de “provocação”. De fato, no quarto capítulo, procedo a uma análise comentada das cartas. Nesta, a ideia central é a de que a amizade entre os dois poetas pode ser lida à luz do “modelo” eleito por mim. O olhar homoerótico – que operacionaliza as ideias de pacto homossocial e homoerotismo – ganha relevância deslocando o eixo das tradicionais leituras que a respeito da amizade entre os poetas têm sido feitas. Percebe-se, claramente, a inversão no direcionamento que estrutura meus argumentos. Este fato deixa clara a minha intenção de conduzir o leitor nos meandros de meu raciocínio, propositadamente. Por fim, a “Conclusão” apresenta as assertivas finais, salientando que estas não esgotam as possibilidades de leitura das cartas. A “conclusão” ratifica o caráter de “obra aberta” numa explícita referência a certo passo do pensamento de Umberto Eco, ainda que este não tenha sido considerado instrumento efetivo na construção de meu trabalho.

 

Ao longo desse percurso, fui ainda aprovado – sempre em terceiro lugar – em quatro concursos: três na UFMG e um na UFF. O exercício docente não deixou de seguir seu rumo por conta disso. Ao contrário, há regularidade que pode ser atestada pelas publicações que fiz até aqui e pelas participações em eventos da área, o que sempre e mais, é uma contribuição não apenas para a interlocução com os pares, como também para a apresentação dos resultados de todas as iniciativas que o dia a dia acadêmico proporciona. Ainda que não esteja listado como docente permanente no Mestrado em Letras, a atuação na pós-graduação pode ser atestada pelos inúmeros convites para participação em bancas em outras universidades, inclusive estrangeiras, como foi o caso da Université de Poitiers, onde tive a hora de presidir o juri de defesa de uma tese de doutoramento (vide Lattes). Neste sentido, liste-se a aprovação de artigo a ser publicado na Revista AGALIA, na Galícia (pela segunda vez –Anexo 2) e o projeto de pesquisa que comecei a desenvolver, informalmente, no ano passado. Desta forma, acredito que o momento atual demonstra bem a contribuição que consegui dar à academia, fruto do trabalho desenvolvido ao longo desses anos e que tem todas as condições de ter continuidade. Isto, por si só, é relevante não apenas para minha carreira, mas, por via de consequência direta, para o departamento em que estou lotado, para a UFOP e para os estudos literários, deixando toda a falsa modéstia de lado.

 

 

 

 

 

Da docência

 

Antes de iniciar qualquer atividade da carreira docente, trabalhei na Prefeitura de Contagem, especificamente como assessor do gabinete do prefeito. Trabalhei também, como desenhista copista – dado que me formei em Edificações pela Escola Técnica de Minas Gerais (hoje, CEFET) – no escritório de Gustavo Araújo Penna, em Belo Horizonte. Em Brasília, trabalhei numa loja de decorações, como gerente; trabalhei como secretário de Stefano (hair designer, como ele se intitulava), no Hotel Carlton, em Brasília e trabalhei como digitador, na SEINF (Secretária de Informática), do Ministério da Educação. Voltando a Belo Horizonte, trabalhei no Hotel Lorman, como recepcionista e retomei o Curso  de Letras na PUC-MG. Este período de atividades profissionais foi concluído em 1985. Sua importância para minha formação se deve ao caráter multifacetado das atividades, o que enriqueceu o horizonte de expectativas da opção pela carreira docente.

Minha primeira atividade como professor foi, obviamente, no período dos estágios curriculares do Curso de Letras. No primeiro semestre de 1986, fiz o estágio numa escola municipal de Belo Horizonte, lecionando Língua Portuguesa para uma turma de recuperação do ensino de primeiro grau da escola. No segundo estágio, de segundo grau, lecionei Literatura Brasileira-Modernismo, para o terceiro ano, no Colégio São Bento (à época) da PUC-MG.  Durante o período do Mestrado, trabalhei no Colégio Nossa Senhora das Dores, em Belo Horizonte, e na FAFI-BH (atualmente Uni-BH). Neste mesmo período, houve uma pequena estadia profissional na hoje denominada Universidade Newton Paiva, ministrando disciplinas dos Cursos de Administração de Empresas e Secretariado.

No Colégio, lecionei Língua Portuguesa para o científico e de magistério, Literatura Brasileira para o Curso científico, Literatura Infantil para o Curso  de magistério e redação para o Curso  científico e a quinta série do primeiro grau. Na FAFI-BH, lecionei Língua Portuguesa-Revisão para o Curso de Pedagogia, Redação, para o primeiro semestre de Comunicação Social, Redação e Expressão Oral, para o Curso de Comunicação-Social-Jornalismo e Teoria da Literatura para o Curso de Letras. Nesta instituição, cheguei a ser “regente” (denominação institucional da época, o que equivale a “titular”), por conta de meu Mestrado ter sido em Teoria da Literatura, nos termos do contrato assinado com a instituição. Foi neste período de trabalho na FAFI-BH (1987-1991) que dei início a meu doutoramento e que trabalhei como substituto na UEL, onde lecionei Literatura Portuguesa para o Curso de Letras e Redação para o Curso de Turismo, por cinco meses.

No segundo semestre de 1991, fiz o concurso para Professor Assistente de Teoria da Literatura, na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Classificado em primeiro lugar, tomei posso no mês de abril de 1992. Lecionei, naquela universidade: Teoria da Literatura, Literatura Brasileira, Literatura Comparada, Cultura de Língua Portuguesa e Crítica Literária. Este período é marcado por intensa atividade profissional na universidade. Simultaneamente às atividades didático-científicas, exerci o cargo de vice-diretor do entro de Artes e Letras, membro do Colegiado do Curso de Pós-graduação em Letras (em seguida, fui eleito, coordenador acadêmico do mesmo Curso); membro da Comissão de Pesquisa da UFSM e membro do conselho editorial da editora na/da mesma universidade. As aulas (em média três disciplinas na graduação e uma na pós-graduação) demandaram constante esforço – físico e mental –, numa conjugação com o tempo que, até hoje, ainda me espanto. Posso dizer que foi o período mais difícil e, por isso mesmo, mas profícuo de minha carreira, em termos de aprofundamento e consolidação de ideias e convicções de toda ordem.

Durante os cinco anos em que trabalhei na UFSM, tive oportunidade de conhecer os meandros institucionais do ensino superior em duas de suas facetas, principalmente: a pesquisa e o ensino. Sempre acreditei que a extensão, em certo sentido, é consequência desta dupla atividade. Tenho minhas dúvidas sobre a exigência de obrigatoriedade dela no famoso “tripé”. Esta foi uma das discussões de que aprendi a participar. Do ponto de vista científico, as ideias que já circulavam em meu pensamento desde o final da graduação, tornaram-se vividamente consistentes, consolidando minhas convicções na fértil proficuidade das relações comparatistas entre Literatura, História e Psicanálise. Outra convicção que se mantém é a da imensa e inegável eficácia/efetividade da inscrição das possíveis abordagens do literário sob a batuta da Estética da Recepção. Epistemologicamente, estas convicções enveredaram pelos mais diversos meandros do pensamento acerca dos estudos literários e não se furtaram ao embate com a proposta dos estudos culturais.

Durante os cinco anos de docência na UFSM, sendo membro do corpo docente permanente do Curso de Mestrado em Letras, tive oportunidade de orientar seis dissertações (vide Lattes), para além das disciplinas que, no mesmo Curso, ministrei. O trabalho de orientação, conjugado com as atividades de coordenação acadêmica do referido Curso, constituiu campo fértil de operacionalização de ideias e conceitos que foram ratificados e consolidados por convicções que foram muito úteis para o exercício na docência no ensino superior. A experiência profissional na UFSM, num momento em que esta universidade passava por um processo de amadurecimento e expansão, criou espaço mais que profícuo de aprofundamento científico, epistemológico, administrativo e institucional. Do ponto de vista pessoal, algumas questões se interpuseram, levando-me a sair desta universidade.

Em fevereiro de 1997, prestei concurso para Adjunto em Literatura Luso-Brasileira, na Universidade Federal de Ouro Preto. Tendo sido classificado em primeiro lugar, tomei posse ainda no primeiro semestre daquele ano e iniciei minhas atividades docentes em Mariana, no Departamento de Letras do Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Inicialmente, as disciplinas de Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Literatura Comparada formaram o escopo de minha atividade docente. Em poucos meses, assumi a chefia do Departamento de Letras e me tornei membro da comissão de pesquisa da UFOP. Entre 2000 e 2002, pela primeira vez, e entre 2005 e 2007, presidi o Colegiado de Letras que, na UFOP, corresponde à Coordenação da Graduação em Letras (vide Lattes). No segundo interstício, coordenei, como presidente desse colegiado, o processo de reformulação curricular do Curso de Letras, por força das imposições das Novas Diretrizes Curriculares do MEC, o que não obteve sucesso, por força de idiossincrasias institucionais em vigor na época.

Assim que iniciei minhas atividades no Departamento de Letras, tramitava na Capes o processo de credenciamento do Curso de Metrado em Literatura Comparada. Funcionando em condições um tanto precárias, este Curso ficou ativo por um período de mais ou menos quatro anos, o suficiente para a conclusão de quatro estudantes. Dentre eles, uma foi minha orientanda (vide Lattes). Lecionei Literatura Comparada neste Curso e auxiliei o então coordenador, Prof. Dr. Leopoldo Comitti. Depois da diligência imposta pela Capes, o Curso foi extinto. Os estudantes, que já haviam concluído (e defendido) suas dissertações, foram transferidos para o Doutorado em Literatura Comparada da UFMG. Os demais estudantes seguiram o mesmo trajeto, desta feita, para o Mestrado na mesma universidade em Belo Horizonte. Com a conclusão de seus trabalhos, participei das bancas de defesa destas dissertações (em número de seis, salvo engano – vide Lattes) substituindo o professor Leopoldo, então aposentado.

Em seguida, foi criada uma comissão interdepartamental que, por um longo período, tentou ultimar projeto de programa de pós-graduação denominado História Social da Linguagem, o que, por fim, não se consolidou. Passei, então, a atuar apenas na graduação, lecionando Literatura Portuguesa, Literatura Comparada, Literatura Brasileira e outras disciplinas eletivas constantes da matriz curricular do Curso de Letras. Foi neste período que tive a oportunidade de orientar diversos projetos de Iniciação Científica (vide Lattes). É preciso salientar que desde o período de trabalho na UFSM, também na UFOP, sempre procurei manter certa regularidade na publicação de artigos e na participação de eventos acadêmicos da área com apresentação de trabalhos (vide Lattes), que sempre procuraram perseguir as linhas de investigação que sempre se explicitaram em minha produção.

Simultaneamente, entre 1998 e 2004, participei de diversas comissões nomeadas pela SESU-MEC, para avaliar condições de funcionamento e reconhecimento de Curso de Letras (vide Lattes). Esta experiência, do ponto de vista da formação, foi de suma importância para solidificar de vez minhas convicções profissionais, sobretudo no que diz respeito à necessidade de constante avaliação e reformulação de matrizes curriculares, com vistas à formação de professores. A principal delas, diz respeito à existência da necessidade de formar professores (na universidade) que tenham sua atenção vinculada ao papel que vão desempenhar profissionalmente no ensino fundamental e médio. Este período, metaforicamente, foi “a pá de cal” na ilusão de que a pós-graduação é mais importante que a Licenciatura no processo de formação de professores. Em outras palavras, tem início o meu exercício profissional sempre mais atento à Licenciatura, sem demérito da pesquisa nem da formação de bacharéis, obviamente. No entanto, a experiência de avaliar projetos pedagógicos dos mais diversos matizes, deitou por terra qualquer dúvida, ou ilusão como já dito, sobre a supremacia da licenciatura, nos Curso s que se pautam pela formação de professores.

Entre 2002 e 2003, afastei-me por um ano das atividades regulares na UFOP para realizar o primeiro estágio de pós-doutoramento. A supervisão deste estágio ficou a cargo do Prof. Dr. José Carlos Barcellos (in memoriam), da UFF. O projeto, que obteve parcial financiamento da FAPERJ, buscava dar vazão a especulações que eu vinha fazendo a partir da leitura de dois livros: de Jurandir Freire Costa, A inocência e o vício: estudos sobre o homoerotismo (2 ed., Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1992) e de Eve Kosofsky Sedgwick, Epistemology of the closet (Berkeley: Los Angeles, University of California Press, 1990). Este projeto é a culminância de ideias que, implicitamente, se explicitavam diuturnamente desde o primeiro trabalho apresentado em eventos acadêmicos, ainda em 1985, intitulado “Clarice Lispector: na intimidade do humano”. Desta proposta de investigação, resultou o livro “Os herdeiros de Sísifo: teoria da literatura e homoerotismo” (publicado em 2007), desenvolvido, basicamente, a partir de duas perguntas feitas a cinco “manuais” de Teoria da Literatura e cinco de teorização acerca do homoerotismo, quais sejam: “Que lugar a sexualidade ocupa no campo de especulação da Teoria da Literatura?” e “Como o homoerotismo pode ocupar este lugar?”. Jonathan Culler, Vicente Altamiranda, Carlos Reis, José Luiz Jobim e Terry Eagleton foram os autores de “manuais” escolhidos; Judith Butler, Jurandir Freire Costa, Eve Kosofsky Sedgwick, Jonathan Dollimore e Didier Eribon, para a teorização acerca da sexualidade/homoerotismo. O livro tem caráter teórico e propositivo, não se circunscrevendo a estudo de caso em particular, mas procurando debater as questões de amplo espectro, na busca de equacionamento da proposição do “olhar homoerótico” como mais um operador de leitura do literário. Em certo sentido, este livro dá continuidade ao que, ainda que implicitamente, está apresentado na dissertação de Mestrado e na tese de doutorado. O percurso profissional no campo dos estudos literários foi, ao longo do tempo, criando e desenhando questões que voltam e acabam por circunscrever o âmbito da discussão apresentada.

Entre 2014 e 2015, novo afastamento permitiu a realização do segundo estágio pós-doutoral. Desta feita, a supervisão ficou sob a responsabilidade da Profª Drª Ana Paula dos Santos Duarte Arnaut, da Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra. Durante seis meses do período de afastamento, fiquei em Coimbra. Aqui cabe uma pequena digressão explicativa. Na “Introdução” do volume editado da correspondência de António Nobre (António Nobre – correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982), o responsável pela publicação, Guilherme de Castilho, relata que foi projeto de Alberto de Oliveira publicar as cartas por ele escritas em resposta às recebidas de António Nobre. Porém, como explica o próprio Guilherme de Castilho, Alberto de Oliveira veio a falecer antes de consumar o projeto. Além disso, teria deixado expresso desejo de que todos os seus papeis – notadamente as cartas e os postais trocados com António Nobre (estes constituindo o que ambos denominaram de “Diário”) – fossem incinerados. Tal fato, até prova em contrário, deu-se a contento do poeta. Por efeito de um chiste durante a leitura desta introdução, entendi que  as cartas de António Nobre para Alberto de Oliveira teriam sido queimadas. O projeto partiu, então, da possibilidade de encontrar as cartas que respondiam a estas. Este estudo seria absolutamente original, mas impossível, como hoje sei, depois de explicado, para mim mesmo, o chiste que não impediu o desenvolvimento da proposta de investigação. Deste modo, o “resultado” é constituído pela matéria do livro “As cartas não mentem: da amizade entre António Nobre e Alberto de Oliveira”, a ser publicado em Coimbra. (Anexo 1)

Entre 2008 e 2010, trabalhei na Universidade de Zagreb, em Zagreb, capital da Croácia, como Leitor de Português. Aprovado em processo seletivo conjunto (Capes-Itamarati), afastado de minhas atividades na UFOP, sem perda de vínculo, obviamente, exerci atividades atinentes ao ensino da variante brasileira da Língua Portuguesa (vide Lattes). O trabalho realizou-se com assessoria da embaixada brasileira em Zagreb, em articulação com o CLP-Centro de Língua Portuguesa, órgão vinculado ao Instituto Camões, representado por sua leitora em Zagreb, a professora Sofia Soares. Foram dois anos de uma experiência reveladora e instigante, durante a qual o contato com uma cultura estrangeira, absolutamente desconhecida por mim, propiciou enriquecimento acadêmico, institucional, científico e cultural. O aprendizado, em nível inicial, da língua croata foi prática sedutora que abriu o leque de possibilidades na articulação de conceitos e práticas circunscritos aos estudos de linguagem.

Em Maio de 2009, a CAPES, na 108ª Reunião do Conselho Técnico Científico, aprovou a criação do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Ouro Preto, em nível de Mestrado Acadêmico. O início das atividades de ensino e pesquisa do Programa se deu em meados de 2010. Para minha surpresa – e, porque não dizer, decepção – meu nome não constava do corpo docente permanente do programa, por causas até hoje por mim desconhecidas. Continuo, então, até a presente data, exercendo minhas funções de docente na graduação, sempre na expectativa de algum aluno procurar-me para orientação – seja de monografia de conclusão de Curso, seja para iniciação científica – tentando manter em ritmo regular a produção de artigos e a publicação – quando financeiramente viável – de livros. Com a entrada de um número elevado de professores para o departamento – sobretudo durante o período em que estive afastado para o trabalho na Croácia – as atividades administrativas têm decrescido.

No decorrer desses anos de docência, há que destacar minha participação em várias bancas de defesa de trabalhos de conclusão de Especialização à Distância da UFOP; Dissertação de Mestrado; de qualificação e defesa de Tese de Doutorado em várias universidades brasileiras (UFMG, UERN, UFSM, UFRN, UFRGS, UFBA, UFRJ, UFF, UFV, UFSC) e na Université de Poitiers, França, na qual atuei como presidente de júri. Ademais, fui coorientador duas Dissertações de Mestrado (UFRJ e UFV) (vide Lattes)  NA mesma medida, faz-se necessário registrar minha participação em eventos da área de estudos literários, ao longo de minha docência, tais como: FILM – Fédération Internationale de Langues et Littératures Modernes, AIL – Associação Internacional de Lusitanistas, AILC – Association Internationale de Littérature Comparée, ABRAPLIP – Associação Brasileira de Literatura Professores de Literatura Portuguesa e ABRALIC – Associação Brasileira de Literatura Comparada, entre outros eventos não necessariamente promovidos/propostos por este tipo de associações, tais como Semanas de Letras, Congressos e Seminários das mais diversas denominações. Tudo isso, quero crer, constitui contribuição efetiva de minha parte para o campo dos estudos literários, ao mesmo tempo que consolida minhas convicções na constante busca de aprendizado e aprofundamento científico, acadêmico, profissional e intelectual.

 

 

 

 

 

Das publicações

 

  1. Caderno de viagem, ficção, 1985, edição do autor (ver Lattes). Minha primeira experiência de criação. Livro produzido artesanalmente com fragmentos poéticos que foi impresso em Belo Horizonte e representa uma primeira tentativa de criação literária.
  2. Exercícios de leitura (organizador), ensaios, 2001, Scortecci (ver Lattes). Este livro é composto por vários textos de autoria diversa. Trata-se do conjunto de artigos escritos pelos alunos inscritos numa das disciplinas que lecionei no Mestrado em Literatura Comparada, na UFOP, conforme registro anterior. A disciplina chamava-se Introdução à Literatura Comparada e a proposta foi desenvolver trabalhos que privilegiassem aspectos deste campo de investigação dos estudos literários. Este livro é relevante, tanto por conta da divulgação da produção discente de um Curso de Mestrado, quanto por consolidar convicções teóricas e metodológicas do organizador. Ele funciona como uma espécie de introdução aos estudos de Literatura Comparada, a partir de exemplos pontuais em que esta orientação metodológica se faz fundamental.
  3. Literatura e Homoerotismo: uma introdução (organizador), ensaios, 2002, Scortecci (ver Lattes). Este volume reúne ensaios de um grupo de professores de várias universidades (UFOP, UFF, UERJ e University of Arizona). Este grupo foi uma dissidência de outro, criado na UFF, que realizou três encontros (Encontro de Professores Universitários Brasileiros: Literatura e Homoerotismo, na UFF). Este grupo se reuniu algumas vezes, depois do encerramento do projeto da UFF e destes encontros surgiu o livro que propõe uma proposta de estudos literários circunscritos ao binômio Literatura e Homoerotismo. Como é fruto de experiências inicias neste campo de investigação, o livro pode servir de “Manual”, no sentido de indicar principais linhas para o desenvolvimento de pesquisas neste campo específico. Foi uma publicação importante para mim, dado que consolida minhas convicções sobre a eficácia do homoerotismo como elemento operacional dos estudos literários de caráter comparatista.
  4. Os herdeiros de Sísifo: teoria da literatura e homoerotismo, ensaio, 2007, Aldrava Letras e Artes, (ver Lattes). Na esteira dos estudos circunscritos pela interlocução entre Literatura e Psicanálise, este livro – resultado do primeiro estágio de pós-doutoramento, realizado na UFF, sob a supervisão de José Carlos Barcellos, financiado em parte pela Faperj – apresenta um conjunto de considerações de cunho teórico-metodológico para o exercício da abordagem do literário sob o enfoque do olhar homoerótico. O conteúdo do livro, celebra vinte anos de carreira docente e se pretende mais uma contribuição para os estudos literários de cariz comparatista, sem perder de vista as ilações possíveis com os estudos culturais.
  5. Anais da IX Semana de Letras: as Letras e seu ensino (coorganizador), ensaios, 2008, Aldrava Letras e Artes (ver Lattes). Como parte do exercício profissional docente, organizar eventos é uma das atividades de que se tem que valer para consolidar ideias, difundir propostas e partilhar experiências. É bem este o caso deste volume que reúne as conferências – não todas por força da abstenção de alguns convidados – e comunicações – na mesma medida – de um evento já tradicional na UFOP, constante de seu calendário acadêmico.
  6. Makančeva 14, ficção, 2012, Aldrava Letras e Artes (ver Lattes). Segunda experiência de criação literária. Desta feita, o volume pretende expressar uma experiência estética muito próxima dos princípios modernistas, em contato com a recuperação da experiência árcade: o Aldravismo. Na mistura de gêneros narrativos – conto, romance, diário, memória, roteiro, resenha – e uma pitada de poesia e tradução, o livro é fruto de dois anos (2008-2010) de experiência vividos na Croácia, em Zagreb, capital do país, mais especificamente, trabalhando como Leitor de Português na Universidade de Zagreb. Gosto imenso deste livro por ser resultado de uma experiência sui generis.
  7. Você ou a certeza da proximidade das coisas, ficção, 2014, Oficina Raquel (ver Lattes). Terceira experiência ficcional. O livro é uma narrativa que se aprofunda no intimismo – no sentido de uma tradição do romance brasileiro, como já referido aqui – e no Aldravismo como balizas da escrita.
  8. As cartas não mentem: da amizade entre António Nobre e Alberto de Oliveira, ensaio, no prelo – a ser publicado pela Imprensa Universitária da Universidade de Coimbra e a Aldrava Letras e Artes (Anexo 1). Este livro é resultado da pesquisa realizada entre 2014 e 2015, em Coimbra, durante meu segundo estágio de pós-doutoramento, como já referido e comentado aqui. Dele, pretendo aí desenvolver outra ficção que vai se originar numa proposta bastante ousada: responder às cartas que António Nobre escreveu a Alberto de Oliveira. O narrador, no livro, vai “encarnar” o segundo poeta e vai materializar as cartas que foram destruídas pelo fogo – até prova em contrário.

 

 

 

 

De Associações

 

Sou membro correspondente da ALA – Academia de Artes e Letras (Estoril, Portugal), da APEx (academia Portuguesa de ExLibris) e da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Sou membro efetivo da ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências do Brasil-Mariana e da SBPA – Sociedade Brasileira dos poetas aldravianistas.

 

 

 

 

 

Da projeção

 

Atualmente, dando continuidade às atividades docentes, preparo três livros: um estudo da obra do escritor brasileiro Bernardo Carvalho, um estudo da obra do escritor português Almeida Faria (em colaboração com Gerson Luiz Roani-UFV e Thiago Ribeiro-IFSC) e um livro de ficção, já mencionado, que vai ser constituído pela escrita de cartas em resposta àquelas escritas por António Nobre a Alberto de Oliveira. Tenho trabalho inscrito a ser apresentado no XXVI Congresso Internacional da ABRAPLIP – Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, a ser realizado em Curitiba-PR, entre 2 e 6 de Outubro do corrente ano. Um terceiro projeto é o de pesquisa que vou submeter – inicialmente como Iniciação Científica, entre 2017 e 2018, que trata da relação entre Literatura e Morte. Incialmente, o projeto enfoca quatro narrativas da Literatura Luso-Brasileira, num segundo momento pretendo ampliá-lo para um período mais extenso no âmbito da Literatura Portuguesa (a pretensão final é a escrita, em alguns anos, de mais um livro). Estas atividades, previstas, acenam para a continuidade de minha atuação como docente e pesquisador, no sentido do constante aprimoramento científico e intelectual, com o intuito de continuar contribuindo para o desenvolvimento dos estudos literários.

[1] Estes cinco primeiros artigos constituem o primeiro bloco de publicações acontecidas exclusivamente em periódicos locais, da UFSM. De qualquer maneira, a esta altura – meu ingresso e o processo de reestruturação do Mestrado em Letras – minhas publicações não ficaram restritas a estas revistas, como pode ser verificado no Lattes.

[2] Até aqui, os artigos por mim selecionados e apresentados – os demais constam da lista no Lattes – representam o ponto de maior convergência de ideias, de desenvolvimento metodológico e teórico e de amadurecimento intelectual na e para a atividade docente. Não apenas as publicações, mas as participações em banca de qualificação e defesa de doutorado e de defesa de mestrado – vide Lattes –, constituem o “olho do furacão” de minha carreira profissional. Ainda que não tenha sido considerado para compor o corpo docente permanente do Mestrado na UFOP por razões desconhecidas, como já referido, tenho a certeza de que minha contribuição se faz consistente.

[3] Para além destes destaques, é preciso referir que o artigo intitulado “Metonímias do desejo” foi aceito para publicação na Revista Agalia (La Coruña) em novembro do corrente ano (vide Anexo 2).

[4]A íntegra do texto de Vasco de Castro pode-se ler lida na ligação que segue. Não a transcrevo aqui por longa que é. Verificar: http://www.trasosmontes.com/eitofora/numero20/opiniao.html.

 

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