Cópia

Eu pensei em escrever um poema que andei utilizando nas aulas de Literatura Compara: que coisa inútil, do ponto de vista pragmático… Pensei, juro que pensei, do fundo de minh’alma, pensei; mesmo com toda preguiça, pensei. Pensei, mas não escrevi. Enquanto pensava, li por aí mais um texto de Arnaldo Jabor de que resolvi me apropriar (como manda o figurino, a fonte está no fim), pois diz o que penso, entre tantas coisas em que penso. penso no que diz o texto também… Será mais quem vai pensar? Segue aí:

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“A idiotice é vital para a felicidade.
Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre.  A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.
No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.
Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto.
Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça? Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor ideia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?
É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar? Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não. Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas… a realidade já é dura; piora se for densa. Dura, densa, e bem ruim. Brincar é legal. Entendeu? Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva. Pule corda! Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte. Ser adulto não é perder os prazeres da vida – e esse é o único “não” realmente aceitável. Teste a teoria. Uma semaninha, para começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras. Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir… Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!

Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora? A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche!

Arnaldo Jabor”

Fonte: https://osegredo.com.br/2015/09/seja-um-idiotaa/

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Fora da agenda

Já não aguento mais ouvir jornalista falando “fora da agenda”. É a mesma sensação incômoda quando ouço/leio “libera aí”, “mulheres empoderadas”, “protocolizar” e os enjoadíssimos gerúndios mal construídos/empregados. Estou ficando a cada dia mais chato. Deve ser do tempo… No caso da tal “agenda” há um componentes, digamos, ideológico, para não dizer político, que envolve figuras públicas de expressão. Parece que virou moda enfatizar que o presidente da república costuma ter encontros “fora da agenda”. Existe crime nisso? Santa ignorância! Haja saco. E mais não digo…

Mudando completamente de assunto… vi, en passant, uma entrevista da Glória Pires feita por Tony Ramos, no Canal Brasil. Por acaso. E foi também por acaso que me dei conta da beleza de um poema de João Cabral de Melo Neto “Os três mal amados”. Destes, destaco a personagem “Joaquim”, cujos trechos seguem:

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O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia
“Os Três Mal-Amados”, constante do livro “João Cabral de Melo Neto – Obras Completas”, Editora Nova Aguilar S.A. – Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

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Vida inteligente

O charco de tédio e sensaboria continua… a existir e resistir, incólume à minha volta. Lama, lama mesmo, já não há. Só o pó que a tudo cobre e a tudo embaça como a secura ventosa deste agosto que não passa…

Neste paradeiro, deparo-me com uma página aberta a esmo no mundo virtual, que me diz da música de Chico Buarque de Holanda – que eu nem sabia que tinha sido composta e publicada (Vejam bem: eu disse “publicada” e não publicizada como querem alguns do/no tribunal do facebook…

Li a matéria depois de ouvir a música. Em que pesem certas divergências de opinião da autora do comentário (a fonte segue, comme d’habittude, ao fim da postagem), gostei da música e gostei também do comentário que segue abaixo. De fato, citar nomes para determinar parâmetros e pontos de viragem na rasteirice que aperta e sufoca a música popular brasileira – indevida e pecaminosamente circulantes em “bocas de matildes”… -, bem, citar nomes para este fim é inócuo, pois o gosto e a subjetividade ainda imperam, solenes, incólumes, impávidos. Gostei tanto que vou ouvir de novo e sou até capaz de comprar o cd em que ela estiver listada, se ele for colocado à venda…

“Nathalí Macedo em artigo irretocável sobre a pendenga que envolve “Tua Cantiga”: “Fica difícil construir um debate saudável com uma militância que não ouve ninguém, não respeita quem lutou antes dela e que preside, como diria Tom Zé – sim, inatacavelmente – o Tribunal do Facebook”.

Por Nathalí Macedo, no DCM 

A nova música de Chico Buarque é sobre um casal de amantes adúlteros. Nada de novo sob o sol: ele adora falar de adultério em suas canções tanto quanto sobre política.

Qualquer musiquinha de Chico é melhor que os singles de alguns dos lacradores da neoMPB. Sorry.

Quanto ao adultério, ok, pra mim, mesmo porque adultério deixou de ser crime há algumas décadas. Mas não OK para a internet, que caiu de pau e pedra em cima da canção em questão – uma música cafona e objetificadora que não representa a sociedade artística revolucionária do Século XXI.

A mesma esquerda que condena a caretice condena também uma música porque ela fala de adultério.

Eu perdi alguma coisa?

“O Chico Buarque não me representa”, eles dizem, como se Chico quisesse representar alguém. Como se representar alguém, um grupo ou uma ideologia fosse a única função da arte.

Como se todas as contribuições de Chico Buarque para a música brasileira devessem ser anuladas só porque ele não tem como musa a mulher empoderada do Século XXI.

Essa geração deve achar que tem nove planetas a girar ao seu redor.

Música cafona é o que há. Aliás, eu não sei o que seria da música sem a cafonice. Eu vou tirar você desse lugar. Eu vou levar você pra ficar comigo. Garçom aqui nessa mesa de bar. No Corcovado quem abre os braços sou eu.

E, vamos combinar, cafona é condenar uma letra com métrica perfeita, metáforas finíssimas e arranjos fofos a la Chico Buarque só porque não foi escrita com o vocabulário que reza a cartilha: (cante no ritmo!) “subiu na lacração como se fosse viada/ ergueu na militância duzentos gêneros sólidos/ minissaia com batom num manifesto mágico/ seus olhos embotados de cílios postiços /tentou delinear como se fosse lacre!!!!!!!!!!!11’”

Assim fica menos cafona?

A julgar pelas gargalhadas do Chico Buarque lendo comentários a seu respeito na internet, ele provavelmente não se considera inatacável. Tampouco eu o considero. Ninguém é inatacável. Aliás, como diz a pensadora contemporânea Inês Brasil, se me atacar, eu vou atacar.

O ataque é necessário, move a engrenagem. O debate é necessário. O que é desnecessário – e ridículo – é agir como se essa geração fosse a responsável por práticas “revolucionárias” que vêm sendo feitas desde mil e novecentos e bolinha e vêm sendo feitas exatamente por essa gente cafona que os artistas revolucionários lacradores do Século XXI sentem-se no direito de desprezarem.

Eles, que não são ídolos de ninguém, apenas de si mesmos, porque todo o eco que se cria em torno da arte que eles produzem é um eco vazio de ideologia e cheio de ego.

O eco do ego poderia aliás ser o título de um filme indie sobre a nossa geração.

Eles, que dizem quebrar tabus que vêm sendo destruídos há décadas, como Johnny Hooker referindo-se à sua matriz, Ney Matogrosso.

Fica difícil construir um debate saudável com uma militância que não ouve ninguém, não respeita quem lutou antes dela e que preside, como diria Tom Zé – sim, inatacavelmente – o Tribunal do Facebook.

E no Tribunal do Facebook, Chico Buarque, em algum momento, assim como todos nós, precisaria cair.”

(https://www.revistaforum.com.br/2017/08/11/reacao-nova-musica-de-chico-buarque-e-o-moralismo-desta-geracao/)