Ficção rasteira

Nas andanças entre salões de bibliotecas, escritórios abarrotados de livros, porões e sótãos com muito papel velho, cafés tomados com gente idosa, leituras e mais leituras de tudo o que aparece impresso, a gente costuma encontrar textos que podem ser considerados, no mínimo, surpreendentes. O assunto nem sempre é explicitado pelo título ou pela referência. Entretanto, há sempre a surpresa – nem sempre no sentido platônico do espanto – que faz elevar tais textos a categorias antes insuspeitadas para eles. É o caso da parábola que segue. Não consegui identificar o autor. Encontrei assim como está escrito, entre páginas de um jornal velho, num sótão embolorado e úmido, às margens do Atlântico, na região norte da península, lá onde “A Europa jaz, posta nos cotovelos…”. Boa leitura

“Era uma vez alguém.

Era uma vez alguém que agia de maneira truculenta, autoritária e nada sensata.

Era uma vez alguém que agia de maneira truculenta, autoritária e nada sensata, sempre falando muito, muito, e deixando claro sua posição de mando e sua dedicação irrestrita e ‘altruísta’ em favor do coletivo.

Era uma vez alguém que agia de maneira truculenta, autoritária e nada sensata, sempre falando muito, muito, e deixando claro sua posição de mando e sua dedicação irrestrita e ‘altruísta’ em favor do coletivo, ressaltando ad nauseam sua obediência às normas e regras institucionais.

Alguém que não merecia o respeito de mais ninguém, ainda que de maneira velada.

Alguém que não merecia o respeito de mais ninguém – ou melhor, talvez de um outro alguém, quase clone seu –, ainda que de maneira velada.

Um dia, esse alguém resolveu que podia atormentar a vida alheia, sem desrespeitar as normas e regras.

Um dia, esse alguém resolveu que podia atormentar a vida alheia, sem desrespeitar as normas e regras, e começou a mostrar a que veio e começou a fazer exigências, a criar novas regras para regular as regras anteriores. Assim, esse alguém revelou, de maneira inequívoca, a sua verdadeira ‘personalidade’.

Esse alguém começou a exigir que todas as lacunas fossem preenchidas. E aí residia seu equívoco – como dizia ‘o outro’, aí que mora o busílis –: não eram lacunas. Por prática sensata e acordada, sem desrespeito às normas e regras, aqueles espaços eram constitutivos de um desenho, um desenho esquemático, um desenho esquemático de um formulário.

Esse alguém não despejava sua prepotência, seu autoritarismo, sua truculência. Esse alguém escondia, oprimia, recalcava covardia, falta de bom senso, ignorância, nenhuma tolerância, mediocridade – no sentido pejorativo do termo, não no etimológico! Numa palavra bem chula: seu cagaço. Esse alguém não tem capacidade/competência/habilidade de agir por si, ainda que sua job list assim o indicasse/permitisse.

Esse alguém tem no papel um fetiche, patológico e insalubre. Esse alguém só merece uma coisa: DESDÉM.”

(Autor desconhecido)

Literatura Comparada

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Era uma vez uma gata.

Era uma vez uma gata que pariu dois gatinhos.

O dono (ou a dona… ai que preguiça dessa “coisa” de gênero”…) da gata que pariu os dois gatinhos deu um dos filhotes para sua empregada doméstica e outro para um médico veterinário. (Mais preguiça…)

A empregada doméstica não sabia ler e escrever. Vivia na casa de seu patrão. Não tinha família e não tinha vontade de estudar. Jamais teve um animal de estimação na vida e recebeu com muita alegria o gatinho.

O médico veterinário (Idem, ibidem) era especialista em felinos. Tinha uma clínica veterinária e era um estudioso contumaz. Ele também recebeu com muita alegria o gatinho.

Desta historinha, aparentemente, banal e sem graça, surge uma pergunta: quem trata melhor o gato?

O dilema que se institui me leva, como narrador desta historieta, a uma sugestão de resposta. Quem pode dizer se o gato foi bem tratado é o gato, uai!

O médico veterinário, especialista em felinos, possui toda a qualificação “profissional” e “científica” para tratar do animal, em que pese suposta capacidade de ter carinho pelo animal. Já a empregada doméstica, poderia esmerar-se em carinhos e cuidados, mais da ordem do afetivo do que que do “científico”. Quem pode dizer o que foi mais eficiente, prazeroso, eficaz, saudável, gratificante, sensato, etc., etc., etc., é o gato!

Essa parábola, eu usei numa prova de concurso quando questionado sobre uma crítica que fiz à pressuposta e presunçosa superioridade da Teoria da Literatura sobre a própria Literatura. O meu “ponto de fuga” foi, então, a ideia de que a Literatura, acima de tudo e antes de mais nada, é um “fenômeno” cultural que se materializa e não um “objeto” que se constrói e se dá como “natural”, por força da própria construção… A ideia de fenômeno me parece mais eficaz, por conta de sua espessura semântica e de sua extrema flexibilidade discursiva.

Foi partindo desta premissa – claro está que reconheço a possibilidade irrecorrível de seu questionamento, para o bem e para o mal! – que argumentei a favor de uma crítica à afirmação de que “Literatura Comparada” é uma “disciplina nova”. As aspas se justificam, no meu raciocínio, claro!  A primeira expressão é resultado de sua similar em língua francesa, sem tirar nem por: Littérature Comparée. Há que se destacar que rios de tinta já correram no esforço sempre contínuo de elucidar o alcance do sentido desta expressão. Os franceses são mestres nesta arte. Os sucedâneos, de qualquer nacionalidade ainda insistem neste caminho. Penso que, ao fim e ao cabo, a expressão apenas identifica um novo arranjo (quase) epistemológico para os estudos literários que sofreram um primeiro golpe (quase mortal) com a reviravolta que se processou nos estudos de linguagem, sobretudo os oriundos do grupo do Port Royal e imediatamente depois… culminando com a (famigeradamente aparente) pá de cal ensejada por Ferdinand de Saussure e seu Cours Linguistique Général.

Por outro lado, a segunda expressão entre aspas “disciplina nova” enseja dois planos de discussão. O primeiro diz repito à novidade. O segundo, ao conceito de “disciplina”. De antemão, vislumbro neste último, boa oportunidade de rever e reagenciar ideias de Michel Foucault, sobretudo aquelas vinculadas a duas outras: controle e poder. Para usar o adagiário: fica a dica. Quanto à novidade, a meu ver, não cabe gastar muita pólvora com jacu listrado (vide adagiário gauchesco). A novidade está no rearranjo e não na matéria. De fato, é o que penso, a Literatura Comparada acaba por estabelecer um princípio metodológico, de efeito epistemológico. Tal qual a Psicanálise, a Literatura Comparada se propõe (ou dever-se-ia propor) o constante colocar-se em dúvida, o recorrente questionar-se, deixando de lado a pretensa vocação a sustentáculo de verdades terminais que, semanticamente, decretariam o seu próprio fim. Dada a natureza da Literatura e, por via de consequência, de seus estudos, esta seria uma maneira mais efetiva de aproveitar as lições que os diversos “manuais” preconizaram na viradinha final do século 19 para o século 20.

Já estamos no final de segunda década do novo século e ainda há muito ranço, em que pesem os avanços e a evolução que marca a trajetória humana e sua inteligência sobre a face do planeta. Mas há que estar sempre se colocando a mesma questão de fundo, para não perder o fio da meada: aquele da transitoriedade…

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Fim de tarde

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Poema de ocasião

 

Denegando Carlos, com o espírito de Álvaro

Silenciosamente, a água vai ficando lisa, em superfície

Espelho mudo que reflete o chumbo refinado céu de chuva apenas anunciada

Da memória chegam, então, com o vento um tanto frio, as imagens de Coimbra

O correr lento e denso do miasma fluvial que segue, no Mondego, a juntada de lágrimas de Inês, ecoando melancólicas na saudade

O tempo que não passa

A nostalgia que se renova

As imagens envoltas em água que no diálogo fraternal traz de volta imagens de um passado nem tão remoto: a certeza das vicissitudes que se esgotam na imagem que se esfuma com o tempo sem perder o risco do afeto

A lágrima, o pó, a nuvem, a fala e mais nada: certo é que não se perde o som, aquele que embala o que ficou pra trás, sem comemoração, sem publicidade; ficou e só

Sem fim, sem começo e no meio o trânsito de nada entre um polo e outro de tudo, variado e misto, múltiplo e ínfimo, a indefinição que desenha e impõe o perímetro do afeto

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Três vezes Camões

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Mário Cláudio é um escritor interessante. Dele já li alguns livros, um dos quais, soberbo: Retrato de rapaz e o não menos soberbo, As batalhas do Caia. Em ambos, a marca da escrita romanesca deste português bem humorado, de um humor fino e sofisticado, simples no falar e no tratar com o outro. O primeiro trata de história que envolve Leonardo da Vinci e um de seus modelos que, neste caso, enreda-se junto à personagem histórica num labirinto sócio afetivo de refinado cariz. Um exercício de releitura que se repete no outro livro. Neste, a personagem chave é Eça de Queiroz, ou Queirós, ou Queiros, ou ainda Queiróz. Sempre fico na dúvida, dado que já vi as quatro grafias. Confesso: estou com preguiça de ir à estante e buscar a biografia do gajo para ver se lá a explicação se encontra para definir a grafia “correta”. Deixa estar… Desses dois romances pode-se inferir um dos traços característicos da escrita de Mário Cláudio: a tentativa de preenchimento de lacunas que se insinuam nas brechas entre fato biográfico e firulas exegéticas. Neste intervalo, nasce a ficção de Mário Cláudio. No caso de Os naufrágios de Camões (Lisboa, Dom Quixote, 2016, 187) não há chance de decepção. Volume sóbrio, de dimensões que me agradam mais que o comum dos mortais, ilustrado de maneira igualmente sóbria e instigante, o título aparece bem no meio da capa que envolve as páginas de mais uma história fascinante. Pra começo de conversa, aproprio-me do pequeno parágrafo que o portal Leya online disponibiliza:

“Timothy Rassmunsen enceta uma correspondência com Mário Cláudio, na qual defende que o autor d’Os Lusíadas não teria sobrevivido ao naufrágio no delta do Mekong, e o capitão da nau onde viajavam, Bartolomeu de Castro, se teria feito passar por ele, dando continuidade à epopeia. Tão insólito arrazoado, mesmo que alegadamente apoiado nos escritos do explorador britânico Richard Burton, enche Mário Cláudio de desconfiança, mas dá-lhe a ideia de elevar o transtornado Timothy a figura de romance. Uma tragédia impede-o, porém, de perseguir o objectivo. Falho de personagem, vira-se o escritor para Burton, o descobridor das Nascentes do Nilo e tradutor d’Os Lusíadas, narrando-lhe as peripécias na busca de uma das musas do poeta português, e da localização da Ilha dos Amores, ou em delírios mediúnicos nos quais Burton encarna Camões, e conversa com o fantasma de Bartolomeu de Castro. É então altura de dar voz a Ruy, o escrivão de bordo da nau anual da China – aquela que viria a naufragar –, o único que poderá afinal esclarecer-nos sobre o que realmente aconteceu. Poderosamente imaginativo, polémico e inteligente, com um trio de personagens irresistíveis, o romance Os Naufrágios de Camões constitui uma peça literária fascinante.”

Parece que o parágrafo, que bem pode responder pelo epíteto de sinopse, consegue apontar para traços interessantes do romance. É fato. O que este parágrafo não consegue é delinear certas idiossincrasias da narrativa construída por Mário Cláudio, no escopo das páginas que comportam o enredo inesperado. Este último epíteto está aqui por minha conta. Penso que, como eu, muitos dos leitores deste romance jamais supuseram a oportunidade de articular os elementos que Mário Cláudio oferece em seu texto. Timothy Rassmunsen, Richard Burton, Bartolomeu de Castro e Ruy, o escrivão. São quatro, os cavaleiros deste apocalipse ficcional que envolve a figura mater da Literatura Portuguesa, Luis Vaz de Camões. O primeiro é parente de Tiago Veiga que, por sua vez, faz-se personagem de outro romance de Mário Cláudio. Burton, não o ator, mas o viajante, faz-lhe companhia na saga igualmente inusitada que serve de perímetro para a hipótese que sustenta a narrativa: a suposição de que Camões não sobrevive ao naufrágio e que, relacionadamente com isso, faz-se duvidosa a integral autoria da epopeia. Já o escrivão, ainda que amarrado por liames historiográficos, de alguma forma, consolidados e documentalmente comprováveis, ajuda a ecoar a tal hipótese que o fantasma de Bartolomeu de Castro compartilha com o narrador. Neste romance, como em outro do mesmo autor, pode-se encontrar mais que farto material para a discussão acerca desta figura impoluta e nada unânime: o narrador. Cabe a pergunta – mesmo correndo o risco de parecer ingênuo, ainda que sabendo não o ser: será o próprio Mário Cláudio o narrador de seu romance. Aqui, como alhures, a pergunta vai ficar sem resposta. Enquanto isso, mantém-se a oportunidade de ler mais estas páginas fascinantes de um escritor que a cada dia conquista mais respeito e admiração, de minha parte, pelo menos: ainda que isso não chegue a significar alguma coisa…

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Cinema, ainda…

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Recentemente, vi dois filmes que me fizeram pensar numa série de coisas. O primeiro deles se chama Madame, dirigido por Amanda Sthers, lançado em 2017. Adicionando um pouco de tempero a um casamento decrescente, Anne (Toni Collete) e Bob (Harvey Keitel), um casal americano rico e bem conectado, se mudam para uma casa senhorial em Paris. Ao preparar um jantar particularmente luxuoso para amigos internacionais sofisticados, a anfitriã descobre que há treze convidados. Anne, muito afeita a superstições e protocolos de “etiqueta”, resolve que número par de convivas é o ideal e convence sua governanta e lela empregada, Maria (Rossy de Palma, uma das atrizes preferidas por Almodovar), a se fazer passar por sua amiga, milionária e convidada para o tal jantar. O enteado da anfitriã convence outro convidado sobre a nobreza e riqueza da misteriosa convidada que, depois de um pouco de vinho e uma conversa divertida, se atrapalha. Um romance se desenha e a patria passa o resto da narrativa tentando desfazer as alegres, sinceras e divertidas aventuras da empregada ue se envolve com o outro convidado. O plot parece idiota, banal, vulgar. No entanto, o desemprenho de Toni Collete e sua colega espanhola transformam essa aparentemente divertida comédia romântica num filme que, com tintas suaves, toca em questões sérias, profundas e, por que não chocantes. A personagem interpretada pela atriz australiana é sagaz, inteligente, fútil, sexy, dissimulada e inconsequente. Tdo misturado. Depois que vê o desenrolar inesperado de uma história que a incomoda – a alegria e a felicidade do romance que se desenha – faz de tudo para dissuadir sua empregada de continuar mantendo essa história. O envolvido não se dá conta do que se passa e acredita estar apaixonado pela misteriosa milionária. A par disso, o enteado da anfitriã, real criador da situaão inusitada, tenta escrever mais um romance, ressionado que está por seu editor – outro dos convidados. O que “pega” é que a anfitriã mantém um caso amoroso tórrido com um outro convidado, não ingenuamente, o que vai tirar seu marido da inevitável bancarrota financeira. O caso amoroso da patroa não “vinga”, por isso, seu desespero em ver a felicidade da outra. No meio de muitas peripécias – há uma cena hilária do casal de protagonistas anfitriões, devorando sanduíches fast food, enquanto espionam o feliz casal, cena muito bem escrita com um diálogo pra lá de sutil e engraçado – a patroa consegue armar uma situação. Não vou contar pra deixar a curiosidade de quem me leu até aqui procurar pelo filme. Bom proveito!

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O outro filme se chama Victoria e Abdul – o confidente da rainha (2017, Stephen Frears), protagonizado por Judy Dench e Ali Fazal. Ambientado na Inglaterra vitoriana, colonial, soberba de seu poderia no Índia, o filme passeia pela inesperada intimidade que vao sutilmente sendo construída através de diálogos primorosos entre a rainha e um serviçal indiano. Este vem a Londres para, simplesmente, segurar uma bandeja com uma moeda que é presenteada a uma rainha entediada, obesa, que dorme à toa, come vorazmente e arrota sem a menor cerimônia. Mas ele tem que obedecer a uma ordem irrecorrível: não deve olhar para a rainha. Diz o adagiário que tudo que é proibido é mais gostoso: ele olha para ela e ela para ela. É o que basta para a amizade (íntima) se estabeleça. Em paralelo, a “corte” se preocupa, se desdobra e se desespera com os desmandos da rainha que , a cada passo, confia mais no indiano e menos em seu staff. Acontece de tudo e mais um pouco. Há peripécias e reviravoltas, obviamente. O filme é leve. Como o que comentei antes, toca em questões espinhosas do ponto de vista político, ético e afetivo. Para minha surpresa o final não foi oque minha imaginação desenhou. Este desenho, eu não vou apresenta-lo aqui. Tenho a esperança de sucesso na provocação que repito uma vez mais. Declino da oportunidade de falar sobre Judy Dench, impecável – se é possível “definir o talento de alguém em uma única palavra. O ator indiano, não conhecia, mas encanta, seduz, mesmeriza e dá veracidade irretocável a uma personagem escrita a partir de um sujeito cartorial com certidão de nascimento e óbito. Vejam o filme. Vale muito a pena!

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Um livro

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Foi com muito gosto que li O sujeito feminino em “O despertar” e “Riacho doce”: um estudo comparativo da obra de Kate Chopin e de José Lins do Rego, de autoria de José Vilian Mangueira (Curitiba, Apris Editora, 2017, 282 p.). Texto oriundo da esse de doutoramento do autor, o livro é um primor por conta do cuidadoso trabalho de pesquisa e da galharda e cristalina argumentação teórica e crítica que é apresentada. Claro está que o inusitado que envolve as duas obras escolhidas e dois autores não impede em nada o sucesso da empreitada. O inusitado é por minha conta. Li José Lins do Rego – não ouso dizer que “todo”, nem por protocolo – e não conheço a outra autora que constitui, com o brasileiro, o objeto da tese de Vilian. De cara, um dado me cama a atenção e sustenta a minha admiração desse amigo querido, com quem fiz contato através de outra amiga, igualmente querida, a Cida. Refiro-me à operacionalização da água como elemento da natureza que aproxima a chave de leitura proposta por Vilian. Num e noutro caso, é pela água e na água (ficcionalmente) que as protagonistas fazem a travessia em que se encontram por obra e graça dos respectivos narradores. A delicadeza de Vilian ao abordar a construção e representação do sujeito feminino nos romances que ele como corpus é tocante. A argúcia com que desenvolve sua argumentação revela a capacidade de articular conceitos no âmbito de um comparatismo lúcido, atento e simples. Como instrumento que qualificação para obter seu título de doutor, José Vilian Mangueira supera dificuldades – inerentes a este nível de investigação acadêmica – com galhardia, sem deixar de imprimir personalidade própria nos dizeres teórico críticos de que se vale no passeio hermenêutico que faz quando da leitura dos romances escolhidos.

Mudando o foco desta minha falação, destaque há de se dar à capa do livro. O conjunto de manequins metalizados que a compõem sintomaticamente se apresenta “protegido” por uma faixa – graficamente esta funciona como espaço de alocação do título do livro – como a dizer que ainda existe certa interdição quando se oca neste “vespeiro”. Não faço ideia de como transcorreu o processo de editoração da obra, portanto, só posso registrar impressões e palpites. Um deles aponta para uma possibilidade semiótica: a tal faixa anuncia a possível e pressuposta interdição que vai sendo, ao longo da análise de Vilian, dissolvida, para deixar explícito o “feminino” que marca o sujeito textual observado por ele. Se foi proposital, a estratégia funciona. Caso contrário, mesmo que sem querer, funciona como relé que dispara possibilidades instigantes de abordagem. Se isto não é qualidade a se valorizar no bojo de um texto acadêmico tout court, por favor, digam-me o que é!

Em nome da honestidade intelectual que aprendi com os jesuítas e da sinceridade com que tento pautar minhas ideias, devo afirmar que perfeição não existe… sobretudo na academia. Evidente a minha preferência pelo destaque das qualidades e dos agrados que este livro me causou. Assim não posso deixar de afirmar que há problemas, aqui e ali, como sempre os há. Sempre os há! Por que, como eu disse: perfeição não existe. Talvez uma escorregadela no desenvolvimento argumentativo a partir de conceitos voláteis e, por isso mesmo, escorregadios e maliciosos, que acabam por conferir certa ingenuidade a constatações que poderiam ser um pouco mais, digamos, vitaminadas. Nada de comprometedor. O livro realiza o que promete. Mas somos todos humanos. A tal da “ingenuidade” pode, talvez, ser explicada pela excessiva cobrança que ainda se faz a certos “protocolos” que, por sua força “persuasiva” impõem soluções que deixam de lado, absolutamente marginalizadas, algumas intuições que, como diz o adagiário popular. Morrem na casca. Refiro-me, especificamente, ao aproveitamento argumentativo do elemento “água”. O mesmo que mereceu minha admiração pelo espanto (em tudo e por tudo platônico) que o mesmo elemento me causou durante a leitura do livro. No entanto, sou instado a reafirmar que em algumas passagens o texto deixa a desejar… Isso não é defeito… é circunstância. Repito: tem a ver com a excessiva cobrança protocolar que a escrita dita “acadêmica” impõe. Consigo perceber com clareza, em boa parte da argumentação de Vilian, a sua marca personalíssima – porque o conheço um pouco, a partir dos contatos pessoais que mantivemos ao longo do tempo. Isto põe sob suspeita as minhas opiniões? No lo creo, hombre! Ao contrário, penso que é em função desse “conhecimento”, muito pessoal e afetivo e sincero que me sinto à vontade que o que percebo de personalíssimo no texto de Vilian, em algumas passagens cede lugar, por força de certa opressão circunstancial, a soluções que deixam a desejar e transformam tais passagens em constatações um tanto, digamos apressadas (apenas aparentemente); porque sei que os referidos protocolos disseram “presente” nestas ocasiões.

Declino do direito de opinar e dar pitacos no que diz respeito às escolhas teóricas feitas pelo autor. Não me cabe fazer isso neste espaço de ensaio de resenha. Faria isto caso estivesse presente, no momento da defesa, caso fosse um dos arguidores. Este ponto já foi vencido e, repito uma vez mais, com galhardia, pelo autor, que merece os parabéns pelo feito! Aqui apresento uma série de argumentos opinativos, construídos a partir de um texto (em forma de livro) que nasceu de outro texto (o da tese), diferente, mas ainda guardando aqueles maneirismos aos quais nenhum doutorando escapa. Isso também não é um defeito e não pode, mesmo que falaciosamente, ser usado como elemento de elogio. Este sairia “estudado”, quase falso, protocolar, para ficar no mesmo paradigma.

Voltando ao começo, o livro de Vilian é digno de leitura e de elogio, de cumprimento pelo esforço de construção e de resultado. Linguagem clara que cumpre o seu papel para conseguir alcançar os objetivos a que se propõe. Penso que, assim, cumprimento o autor, elogio (com sinceridade!) o livro e recomendo a leitura. Não fosse por mais nada, pelo prazer da leitura o que, infelizmente, anda rareando pelo tout petit monde acadêmico. Infelizmente… Parabéns, Vilian!

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Das cartas

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Escrever cartas. Uma prática que pode beirar o inusitado para algumas gerações. Escrever cartas é prática que não encontra mais espaço no horizonte de expectativas de muita gente, sobretudo se se considerar as quatro últimas décadas – isso para ser bastante generoso. Certa feita, em casa de uma amiga, pedi papel de carta e envelope para enviar a alguém a quem estava a dever uma resposta. Meu espanto: não havia, nem papel de carta, nem envelope. Em minha casa, há uma quantidade enorme de envelopes – daqueles emoldurados por uma tarja verde e amarela… coisa de museu quase… ainda que eu insista em manter correspondência postal com a Elaine. Vamos ver quanto tempo ela ainda vai durar…

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Por falar em carta, lembro-me de Camões e as suas, as “ridículas”, do Pessoa; as incineradas do Alberto e as três que Al Berto escreveu: uma para a mulher, outra para o pai e a terceira para o amigo. Se mulher, pai e amigo os são do sujeito cartorial que responde por Alberto Raposo Pidwell Tavares, ou Al Berto, já não sei. Há controvérsias. Costumo dizer que a biografia de um sujeito, desde que pistas sejam encontradas em seu texto (de gênero imponderável, por princípio), pode ser um instrumento, no mínimo, instigante para abordagem hermenêutica, de qualquer cariz, deste mesmo texto. Assim o faço com as Três cartas da memória das Índias. São três que, por intertextualidade, remetem A Camões e Pessoa, dialogando com Al Berto. Memória remete a tempo passado e articulada a “Índias”, faz logo pensar em Camões e sua homenagem épica às navegações portuguesas que para tão longínqua terra os levou. Também faz pensar em algo que não aconteceu e sua falta instiga a rememoração; da mesma forma que remete a um sonho abortado. Tudo isso, num clima de despedida, portanto, melancólico, o que faz olhar para Pessoa.

À primeira delas, deu o poeta o nome de “Carta da árvore triste (à minha mulher)”. O possessivo põe lenha na fogueira das possibilidades de leituras a que acima me referi. “Árvore” é substantivo comum que circunscreve campo semântico que aglutina ideia de mulher, de fertilidade; ao mesmo tempo que, por metonímia, leva à associação com madeira, caravela, viagem. Bem vindos de volta, Pessoa e Camões!

o telefone parou de tocar 
atiras o jornal para o caixote do lixo 
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono 
surge subitamente nítido e coberto de luz 
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida 
no fundo dalguma gaveta forrada a papel manteiga
o dia instalar se á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos 
ouves rádio enquanto o café aquece 
deixas queimar um pouco as torradas 
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita 
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado

depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar 
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui 
onde encontrarás esta carta 

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é me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue 
a noite cola se me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta 
onde gostaria de deixar explicadas tantas coisas 
não consigo 
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem 
eu sei 
comemos a lucidez do asfalto 
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar 
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade 
mas nada disto chegou para nos entendermos 
o tempo transformou se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas 
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever te
sob o peso da luz do dia 
a excessiva claridade amputar me ia todo o desejo
cegar me ia
tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite 
sou frágil planta nocturna e triste 
o sol ter me ia sido fatal
conduzir me ia ao entorpecimento da memória

A segunda carta recebe o título de “Carta da região mais fértil (a meu pai)”. A fertilidade, triste na primeira carta, associa-se à virilidade, infusa no substantivo “pai”, do gênero masculino, construindo clara antítese com a tristeza que particulariza a pedra de toque da primeira carta: o abandono da mulher. Aqui, a identificação da/com a masculinidade é cristalina e, por oposição à primeira carta, remete à ideia de fertilidade, subtítulo do poema. A mudança, o anonimato dos afetos e desejos partilhados contrapõem-se ao marasmo da vida confortável com a mulher e à memória afetiva da educação recebida do pai.

vai certamente estranhar esta quase interminável carta 
pai 
há muito que o silêncio se fez entre nós 
o pai com os seus trabalhos por aí onde o tempo custa a passar 
e eu pobre de mim 
tão aflito me sinto com a velocidade desse mesmo tempo 
a cidade é veloz 

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(…) é certo que arranjei outras compensações 
a amizade segura de um amigo 
talvez seja melhor não revelar grande coisa sobre este assunto 
poderia chocar o pai por demasiado íntimo e delicado 
duvido mesmo que conseguisse entender a amizade como eu a entendo 
que quer 
sempre gostei da travessia das noites e das pessoas 
e de beber 
muitas vezes nem sei quem são as pessoas com quem falo 
o pai dir-me-á que tudo isto são simples fugas
é possível 
desde que me conheço que me fujo 
amo essas fugas esses pedaços doutras vidas cruzando se
com pedaços sombrios da minha 
não leve a mal estes desvarios

Por fim, a terceira carta que se intitula “Carta da flor do sol (a um amigo)”. Na indefinição pronominal proposta no título, a definição do direcionamento de minha leitura: o real motivo da partida, do abandono, inclusive, do “melhor amigo”. Implicitamente, o homoerotismo que marca as palavras do poeta se faz explícito na aproximação de sentidos que “flor” e “sol” imprimem sobre a expressão de desejo tão peculiar. A beleza, o hedonismo, o desabrochar e a luminosa energia que, entre sol e flor, viceja, faz vislumbrar o definido desejo que indefine outras relações na busca insaciável de satisfação.

vou partir 
como se fosses tu que me abandonasses

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conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos 
cruzámos olhares cúmplices 
falámos muito não me recordo de quê 
e no calor dos corpos crescia o desejo 

O poema mistura experiências e constatações. Pulveriza ideias e protótipos – para não dizer estereótipos. Aponta diversas possibilidades de leitura. Aqui esboçada, está apenas mais uma, umazinha, simples e humilde, sincera, mas feita de coração, com a mente aberta às outras possibilidades, reconhecendo sua pequenez e limitação, afirmativa de minha autonomia. Assim não fosse, não existiria a tal de crítica literária. A cada dia que passa, e muito mais agora, quando começo a descer a ladeira, confirmo a constatação de que o soco no estômago que a poema (no caso) e qualquer outro texto literário (no geral) dão no leitor é primordial, essencial, irrecorrível, inescapável, para fazer  a análise interpretativa a que se arvora certa crítica que se quer como imposição de parâmetros teóricos como conditio sine qua non desta mesma leitura. Teoria vem depois, é consequência que não pode prescindir da leitura mesma do texto. Entenda quem tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir. Alea jacta est. E mais não digo: punto i basta!

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