Sem título

Entre uma e outra aula, às vezes, a gente deixa a cabeça voar pelos infinitos campos do pensamento e o espírito plana no planeta palavra. Os astros são poucos, mas os corpos celestes inúmeros, como elas, as palavras. Surpreendentes coisas/entes de utilidade múltipla, de malícia aliciante, cuja abrangência não tem limites, não e pode medir. Assim, é possível pensar no que é um poema. Repetindo o mesmo leitmotiv, entre uma e outra aula, deparo-me com um poema de Álvaro de Campos. Não tenho vergonha de fazer esta afirmação. Há quem fique envergonhado. Há quem nem chega a admitir a hipótese de fazê-la. De sequer considerar a possibilidade desta falta. Não tenho vergonha: não conhecia este poema. A ocasião fez o ladrão, para afagar o ego do adagiário popular. Tinha que falar de heteronímia e dei de cara com este poema, por força do meio xará, o José, aluno que disse ter decorado este poema para uma aula de teatro. Larguei o raciocínio que estava desenvolvendo para explicar a tal de heteronímia e li o poema em voz alta, para uma turma um tanto desatenta e sem muita curiosidade – para manter certo nível de educação. Li, tentando dar entonação adequada a cada palavra, cada frase, cada verso. Aí vai ele:

 th

Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

 

O autor do poema é o Álvaro de Campos, o heterônimo que, junto com Alberto Caeiro, me levam a gostar do ortônimo. O livro se chama Poesias de Álvaro de Campos, foi publicado em Lisboa pela Ática, em 1944. A sua primeira publicação se deu em 1929, na edição do número de Abril-Maio, da Revista Presença, nº 20 (Lapsos corrigidos segundo: Álvaro de Campos – Livro de Versos. Fernando Pessoa. Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes, Lisboa,

Estampa, 1993.

th (1)

Os primeiros quatro versos são, a meu ver, a pedra de toque para uma possível definição de “heteronímia”. O “vaso vazio”, de certa forma, pode ser lido como alegoria da própria subjetividade. Sujeito=vaso vazio. O advérbio, no segundo verso, leva o leitor por um caminho indicado pela voz poética, aquele que aponta para o mais fundo da alma, da existência: o fundo do poço, numa linguagem popular. “Baixo” não necessariamente é uma palavra com sentido pejorativo aqui. Muito ao contrário, o baixo confirma a ideia contida na imagem do fundo do poço. A parataxe com a terceira pessoa do pretérito perfeito do indicativo do verbo “cair” que compõe o conjunto de três versos que concluem a primeira estrofe. A criada descuidada é a vida (?). Se é mesmo a vida, o seu descuido acaba por revelar o que antes parecia obscuro e inatingível. Os mais “pedaços do que havia loiça no vaso” vão então revelar a essência, o que identifica e, simultaneamente distingue os vários eus em que se dilacera a subjetividade do poeta. A mim não deixa de parecer, por metonímia, a expressão poética do fenômeno tão estudado: a heteronímia.

Escrevi mais três parágrafos sobre o poema, mas não sei o que houve: o wordpress não os aceita… o texto completo vai estar no Academia.edu. Uma pena…

 

 

 

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