Trecho

Resolvi colocar aqui um trecho de um diário escrito por uma personagem de romance. Nada mais digo. Sem referências de título de obra ou de autor. Apenas o trecho do diário, escrito por uma personagem de ficção…

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“E, de repente, assim como não quer nada, o sujeito se vê diante de um caneco de Budweiser, servido da garrafa de 600 ml, uma das três que ele vai tomar. Diuturnamente, isso acontece. Sempre aos finais de semana. Raramente, no meio da semana: afinal os dias são chamados de úteis… Mas beber, à toa, também suas utilidades. Não cave aqui enumerá-las, como se uma taxonomia fosse… Mas que é útil, ah… isso, de certeza que é… Vai tudo bem até que começam a pipocar as ideias. Aquelas que aparecem sem convite ou convocação. Estas, as duas únicas possibilidades de aparecimento desse ser estranho, intraduzível, às vezes, em palavras, as ideias. Mormente, quando as ideias giram em torno da situação de um idoso. Um idoso muito querido. Um idoso muito querido que até outro dia estava muito bem. Um idoso muito querido, que até outro dia estava muito bem, mas que por força da visita inesperada caiu em desassossego. De um desassossego incurável, incontornável, porque causado por aquela visita anunciada. Anunciadamente nefasta e pouco querida. O oposto do idoso mito querido que até outro dia estava bem. A visita não quis se dar conta do despropósito de seu ato: a visita. Sob o falso pressuposto de que poderia vir a ser apreciada, a visita, quem visitou não se deu conta do contrário. Sim, contrário porque houve ali, para acontecer a visita, uma agregação. Não havia ali, no ambiente que criou a oportunidade da visita, um laço de sangue. E a ausência deste laço é tudo. Foi tudo. Tudo o que transtornou o idoso muito querido. O tempo passa e quem visita não se quer dar conta de sua própria inapropriação da oportunidade. Se, ao menos, quem visita ficasse em silencia, em lugar de deixar escapar pela bocarra uma quantidade inumerável de impropriedades. Impropriedades que abalaram a tranquilidade do idoso muito querido. Uma visita inesperada que se fez, uma vez mais, indesejada, Que não volte mais! Agora, no lugar do silêncio, um burburinho. Um burburinho alto e incômodo. Um burburinho, alto e incômodo, que fala alto da situação insustentável. E, de novo, isso atinge em cheio ao idoso muito querido. Este pode ser homem ou mulher. Não interessa. Não importa. O que importa, o que vale a pena, o que está em conta, é a certeza de que não mais haverá a oportunidade de se ver o idoso muito querido como antes era visto. E não é por falta de vontade. Longe disso. Há algo de natural nisso tudo. Mas essa natureza poderia ser menos cruel, poderia levar quem visita a evitar sua própria visita. Podias levar quem visita a não mais pensar em fazer a visita, para o bem de todos. De todos e, sobremaneira, do idoso muito querido. É isso. Outra garrafa de Budweiser de 600 ml foi aberta. Mais uma…”

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