Outro trecho

th (1)

“De repente, a sensação é, ao mesmo tempo, de déjà vu e de falta de qualquer perspectiva. O jeito se senta para ler. O sujeito se senta para ler para se preparar para um outro momento. O sujeito se senta para ler, para se preparar para um outro momento, que ele sabe não vai acontecer como imaginado. A imaginação é traidora. Mais traidora que a mulher/o homem adúltero/adúltera. Essa traição é fácil de digerir, simples de entender, se comparada com a outra. A do sujeito que se põe a ler para se preparar para um momento que ele sabe, de antemão, que não vai se dar do modo como ele imagina. De novo, o mesmo nó de Moebius. É como quando você se depara com camadas de personalidade ainda não reveladas. De repente, como num susto – o espanto de Platão não pode ser descartado aqui! –, alguma coisa que jamais foi imaginada se manifesta. Alguém, em quem o sujeito confia, a quem o mesmo sujeito admira, de quem o sujeito gosta, fala alguma coisa que não se encaixa. E você fica imaginando – cuidado com a traição! – que aquilo não pode ser. Que toda a gente já sabia, menos você mesmo. O quê? Não vai mais fazer o que vinha fazendo? Retirou-se completamente de qualquer situação de supervisão ou participação em decisões importantes? Nega e aos seus a ação de passar a noite cuidando, vigiando, monitorando como já vinha, há tempos, fazendo? Por quê? Ah… sei! Olha aqui, você tem que se lembrar que em certas circunstâncias, com este conjunto de variáveis, em função do processo de deterioração que é de conhecimento público, o que se disse tem que ser relativizado. Se cada palavra for tomada ao pé da letra… ih… então a coisa pode ficar complicada. Pode não. Fica. Irrevogavelmente. É uma questão de lógica e bom senso. Nem mesmo o cheiro de laranja madura que vem no colo da brisa quente, não amenizando a canícula que oprime nestes meses, pois é, nem mesmo o cheiro refrescante de laranjas maduras. Nem ele…”

th

Seguindo a mesma “onda” de ontem, vai aí mais um trecho do tal diário (quem não leu a postagem de ontem não vai saber do que estou falando!). Valeu a intenção. Não sei porque, mas este trecho fez-me pensar num poema do Drummond que segue abaixo:

Procura da PoesiaNão faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

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