Um livro

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Foi com muito gosto que li O sujeito feminino em “O despertar” e “Riacho doce”: um estudo comparativo da obra de Kate Chopin e de José Lins do Rego, de autoria de José Vilian Mangueira (Curitiba, Apris Editora, 2017, 282 p.). Texto oriundo da esse de doutoramento do autor, o livro é um primor por conta do cuidadoso trabalho de pesquisa e da galharda e cristalina argumentação teórica e crítica que é apresentada. Claro está que o inusitado que envolve as duas obras escolhidas e dois autores não impede em nada o sucesso da empreitada. O inusitado é por minha conta. Li José Lins do Rego – não ouso dizer que “todo”, nem por protocolo – e não conheço a outra autora que constitui, com o brasileiro, o objeto da tese de Vilian. De cara, um dado me cama a atenção e sustenta a minha admiração desse amigo querido, com quem fiz contato através de outra amiga, igualmente querida, a Cida. Refiro-me à operacionalização da água como elemento da natureza que aproxima a chave de leitura proposta por Vilian. Num e noutro caso, é pela água e na água (ficcionalmente) que as protagonistas fazem a travessia em que se encontram por obra e graça dos respectivos narradores. A delicadeza de Vilian ao abordar a construção e representação do sujeito feminino nos romances que ele como corpus é tocante. A argúcia com que desenvolve sua argumentação revela a capacidade de articular conceitos no âmbito de um comparatismo lúcido, atento e simples. Como instrumento que qualificação para obter seu título de doutor, José Vilian Mangueira supera dificuldades – inerentes a este nível de investigação acadêmica – com galhardia, sem deixar de imprimir personalidade própria nos dizeres teórico críticos de que se vale no passeio hermenêutico que faz quando da leitura dos romances escolhidos.

Mudando o foco desta minha falação, destaque há de se dar à capa do livro. O conjunto de manequins metalizados que a compõem sintomaticamente se apresenta “protegido” por uma faixa – graficamente esta funciona como espaço de alocação do título do livro – como a dizer que ainda existe certa interdição quando se oca neste “vespeiro”. Não faço ideia de como transcorreu o processo de editoração da obra, portanto, só posso registrar impressões e palpites. Um deles aponta para uma possibilidade semiótica: a tal faixa anuncia a possível e pressuposta interdição que vai sendo, ao longo da análise de Vilian, dissolvida, para deixar explícito o “feminino” que marca o sujeito textual observado por ele. Se foi proposital, a estratégia funciona. Caso contrário, mesmo que sem querer, funciona como relé que dispara possibilidades instigantes de abordagem. Se isto não é qualidade a se valorizar no bojo de um texto acadêmico tout court, por favor, digam-me o que é!

Em nome da honestidade intelectual que aprendi com os jesuítas e da sinceridade com que tento pautar minhas ideias, devo afirmar que perfeição não existe… sobretudo na academia. Evidente a minha preferência pelo destaque das qualidades e dos agrados que este livro me causou. Assim não posso deixar de afirmar que há problemas, aqui e ali, como sempre os há. Sempre os há! Por que, como eu disse: perfeição não existe. Talvez uma escorregadela no desenvolvimento argumentativo a partir de conceitos voláteis e, por isso mesmo, escorregadios e maliciosos, que acabam por conferir certa ingenuidade a constatações que poderiam ser um pouco mais, digamos, vitaminadas. Nada de comprometedor. O livro realiza o que promete. Mas somos todos humanos. A tal da “ingenuidade” pode, talvez, ser explicada pela excessiva cobrança que ainda se faz a certos “protocolos” que, por sua força “persuasiva” impõem soluções que deixam de lado, absolutamente marginalizadas, algumas intuições que, como diz o adagiário popular. Morrem na casca. Refiro-me, especificamente, ao aproveitamento argumentativo do elemento “água”. O mesmo que mereceu minha admiração pelo espanto (em tudo e por tudo platônico) que o mesmo elemento me causou durante a leitura do livro. No entanto, sou instado a reafirmar que em algumas passagens o texto deixa a desejar… Isso não é defeito… é circunstância. Repito: tem a ver com a excessiva cobrança protocolar que a escrita dita “acadêmica” impõe. Consigo perceber com clareza, em boa parte da argumentação de Vilian, a sua marca personalíssima – porque o conheço um pouco, a partir dos contatos pessoais que mantivemos ao longo do tempo. Isto põe sob suspeita as minhas opiniões? No lo creo, hombre! Ao contrário, penso que é em função desse “conhecimento”, muito pessoal e afetivo e sincero que me sinto à vontade que o que percebo de personalíssimo no texto de Vilian, em algumas passagens cede lugar, por força de certa opressão circunstancial, a soluções que deixam a desejar e transformam tais passagens em constatações um tanto, digamos apressadas (apenas aparentemente); porque sei que os referidos protocolos disseram “presente” nestas ocasiões.

Declino do direito de opinar e dar pitacos no que diz respeito às escolhas teóricas feitas pelo autor. Não me cabe fazer isso neste espaço de ensaio de resenha. Faria isto caso estivesse presente, no momento da defesa, caso fosse um dos arguidores. Este ponto já foi vencido e, repito uma vez mais, com galhardia, pelo autor, que merece os parabéns pelo feito! Aqui apresento uma série de argumentos opinativos, construídos a partir de um texto (em forma de livro) que nasceu de outro texto (o da tese), diferente, mas ainda guardando aqueles maneirismos aos quais nenhum doutorando escapa. Isso também não é um defeito e não pode, mesmo que falaciosamente, ser usado como elemento de elogio. Este sairia “estudado”, quase falso, protocolar, para ficar no mesmo paradigma.

Voltando ao começo, o livro de Vilian é digno de leitura e de elogio, de cumprimento pelo esforço de construção e de resultado. Linguagem clara que cumpre o seu papel para conseguir alcançar os objetivos a que se propõe. Penso que, assim, cumprimento o autor, elogio (com sinceridade!) o livro e recomendo a leitura. Não fosse por mais nada, pelo prazer da leitura o que, infelizmente, anda rareando pelo tout petit monde acadêmico. Infelizmente… Parabéns, Vilian!

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