Três vezes Camões

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Mário Cláudio é um escritor interessante. Dele já li alguns livros, um dos quais, soberbo: Retrato de rapaz e o não menos soberbo, As batalhas do Caia. Em ambos, a marca da escrita romanesca deste português bem humorado, de um humor fino e sofisticado, simples no falar e no tratar com o outro. O primeiro trata de história que envolve Leonardo da Vinci e um de seus modelos que, neste caso, enreda-se junto à personagem histórica num labirinto sócio afetivo de refinado cariz. Um exercício de releitura que se repete no outro livro. Neste, a personagem chave é Eça de Queiroz, ou Queirós, ou Queiros, ou ainda Queiróz. Sempre fico na dúvida, dado que já vi as quatro grafias. Confesso: estou com preguiça de ir à estante e buscar a biografia do gajo para ver se lá a explicação se encontra para definir a grafia “correta”. Deixa estar… Desses dois romances pode-se inferir um dos traços característicos da escrita de Mário Cláudio: a tentativa de preenchimento de lacunas que se insinuam nas brechas entre fato biográfico e firulas exegéticas. Neste intervalo, nasce a ficção de Mário Cláudio. No caso de Os naufrágios de Camões (Lisboa, Dom Quixote, 2016, 187) não há chance de decepção. Volume sóbrio, de dimensões que me agradam mais que o comum dos mortais, ilustrado de maneira igualmente sóbria e instigante, o título aparece bem no meio da capa que envolve as páginas de mais uma história fascinante. Pra começo de conversa, aproprio-me do pequeno parágrafo que o portal Leya online disponibiliza:

“Timothy Rassmunsen enceta uma correspondência com Mário Cláudio, na qual defende que o autor d’Os Lusíadas não teria sobrevivido ao naufrágio no delta do Mekong, e o capitão da nau onde viajavam, Bartolomeu de Castro, se teria feito passar por ele, dando continuidade à epopeia. Tão insólito arrazoado, mesmo que alegadamente apoiado nos escritos do explorador britânico Richard Burton, enche Mário Cláudio de desconfiança, mas dá-lhe a ideia de elevar o transtornado Timothy a figura de romance. Uma tragédia impede-o, porém, de perseguir o objectivo. Falho de personagem, vira-se o escritor para Burton, o descobridor das Nascentes do Nilo e tradutor d’Os Lusíadas, narrando-lhe as peripécias na busca de uma das musas do poeta português, e da localização da Ilha dos Amores, ou em delírios mediúnicos nos quais Burton encarna Camões, e conversa com o fantasma de Bartolomeu de Castro. É então altura de dar voz a Ruy, o escrivão de bordo da nau anual da China – aquela que viria a naufragar –, o único que poderá afinal esclarecer-nos sobre o que realmente aconteceu. Poderosamente imaginativo, polémico e inteligente, com um trio de personagens irresistíveis, o romance Os Naufrágios de Camões constitui uma peça literária fascinante.”

Parece que o parágrafo, que bem pode responder pelo epíteto de sinopse, consegue apontar para traços interessantes do romance. É fato. O que este parágrafo não consegue é delinear certas idiossincrasias da narrativa construída por Mário Cláudio, no escopo das páginas que comportam o enredo inesperado. Este último epíteto está aqui por minha conta. Penso que, como eu, muitos dos leitores deste romance jamais supuseram a oportunidade de articular os elementos que Mário Cláudio oferece em seu texto. Timothy Rassmunsen, Richard Burton, Bartolomeu de Castro e Ruy, o escrivão. São quatro, os cavaleiros deste apocalipse ficcional que envolve a figura mater da Literatura Portuguesa, Luis Vaz de Camões. O primeiro é parente de Tiago Veiga que, por sua vez, faz-se personagem de outro romance de Mário Cláudio. Burton, não o ator, mas o viajante, faz-lhe companhia na saga igualmente inusitada que serve de perímetro para a hipótese que sustenta a narrativa: a suposição de que Camões não sobrevive ao naufrágio e que, relacionadamente com isso, faz-se duvidosa a integral autoria da epopeia. Já o escrivão, ainda que amarrado por liames historiográficos, de alguma forma, consolidados e documentalmente comprováveis, ajuda a ecoar a tal hipótese que o fantasma de Bartolomeu de Castro compartilha com o narrador. Neste romance, como em outro do mesmo autor, pode-se encontrar mais que farto material para a discussão acerca desta figura impoluta e nada unânime: o narrador. Cabe a pergunta – mesmo correndo o risco de parecer ingênuo, ainda que sabendo não o ser: será o próprio Mário Cláudio o narrador de seu romance. Aqui, como alhures, a pergunta vai ficar sem resposta. Enquanto isso, mantém-se a oportunidade de ler mais estas páginas fascinantes de um escritor que a cada dia conquista mais respeito e admiração, de minha parte, pelo menos: ainda que isso não chegue a significar alguma coisa…

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