Literatura Comparada

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Era uma vez uma gata.

Era uma vez uma gata que pariu dois gatinhos.

O dono (ou a dona… ai que preguiça dessa “coisa” de gênero”…) da gata que pariu os dois gatinhos deu um dos filhotes para sua empregada doméstica e outro para um médico veterinário. (Mais preguiça…)

A empregada doméstica não sabia ler e escrever. Vivia na casa de seu patrão. Não tinha família e não tinha vontade de estudar. Jamais teve um animal de estimação na vida e recebeu com muita alegria o gatinho.

O médico veterinário (Idem, ibidem) era especialista em felinos. Tinha uma clínica veterinária e era um estudioso contumaz. Ele também recebeu com muita alegria o gatinho.

Desta historinha, aparentemente, banal e sem graça, surge uma pergunta: quem trata melhor o gato?

O dilema que se institui me leva, como narrador desta historieta, a uma sugestão de resposta. Quem pode dizer se o gato foi bem tratado é o gato, uai!

O médico veterinário, especialista em felinos, possui toda a qualificação “profissional” e “científica” para tratar do animal, em que pese suposta capacidade de ter carinho pelo animal. Já a empregada doméstica, poderia esmerar-se em carinhos e cuidados, mais da ordem do afetivo do que que do “científico”. Quem pode dizer o que foi mais eficiente, prazeroso, eficaz, saudável, gratificante, sensato, etc., etc., etc., é o gato!

Essa parábola, eu usei numa prova de concurso quando questionado sobre uma crítica que fiz à pressuposta e presunçosa superioridade da Teoria da Literatura sobre a própria Literatura. O meu “ponto de fuga” foi, então, a ideia de que a Literatura, acima de tudo e antes de mais nada, é um “fenômeno” cultural que se materializa e não um “objeto” que se constrói e se dá como “natural”, por força da própria construção… A ideia de fenômeno me parece mais eficaz, por conta de sua espessura semântica e de sua extrema flexibilidade discursiva.

Foi partindo desta premissa – claro está que reconheço a possibilidade irrecorrível de seu questionamento, para o bem e para o mal! – que argumentei a favor de uma crítica à afirmação de que “Literatura Comparada” é uma “disciplina nova”. As aspas se justificam, no meu raciocínio, claro!  A primeira expressão é resultado de sua similar em língua francesa, sem tirar nem por: Littérature Comparée. Há que se destacar que rios de tinta já correram no esforço sempre contínuo de elucidar o alcance do sentido desta expressão. Os franceses são mestres nesta arte. Os sucedâneos, de qualquer nacionalidade ainda insistem neste caminho. Penso que, ao fim e ao cabo, a expressão apenas identifica um novo arranjo (quase) epistemológico para os estudos literários que sofreram um primeiro golpe (quase mortal) com a reviravolta que se processou nos estudos de linguagem, sobretudo os oriundos do grupo do Port Royal e imediatamente depois… culminando com a (famigeradamente aparente) pá de cal ensejada por Ferdinand de Saussure e seu Cours Linguistique Général.

Por outro lado, a segunda expressão entre aspas “disciplina nova” enseja dois planos de discussão. O primeiro diz repito à novidade. O segundo, ao conceito de “disciplina”. De antemão, vislumbro neste último, boa oportunidade de rever e reagenciar ideias de Michel Foucault, sobretudo aquelas vinculadas a duas outras: controle e poder. Para usar o adagiário: fica a dica. Quanto à novidade, a meu ver, não cabe gastar muita pólvora com jacu listrado (vide adagiário gauchesco). A novidade está no rearranjo e não na matéria. De fato, é o que penso, a Literatura Comparada acaba por estabelecer um princípio metodológico, de efeito epistemológico. Tal qual a Psicanálise, a Literatura Comparada se propõe (ou dever-se-ia propor) o constante colocar-se em dúvida, o recorrente questionar-se, deixando de lado a pretensa vocação a sustentáculo de verdades terminais que, semanticamente, decretariam o seu próprio fim. Dada a natureza da Literatura e, por via de consequência, de seus estudos, esta seria uma maneira mais efetiva de aproveitar as lições que os diversos “manuais” preconizaram na viradinha final do século 19 para o século 20.

Já estamos no final de segunda década do novo século e ainda há muito ranço, em que pesem os avanços e a evolução que marca a trajetória humana e sua inteligência sobre a face do planeta. Mas há que estar sempre se colocando a mesma questão de fundo, para não perder o fio da meada: aquele da transitoriedade…

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