Ficção rasteira

Nas andanças entre salões de bibliotecas, escritórios abarrotados de livros, porões e sótãos com muito papel velho, cafés tomados com gente idosa, leituras e mais leituras de tudo o que aparece impresso, a gente costuma encontrar textos que podem ser considerados, no mínimo, surpreendentes. O assunto nem sempre é explicitado pelo título ou pela referência. Entretanto, há sempre a surpresa – nem sempre no sentido platônico do espanto – que faz elevar tais textos a categorias antes insuspeitadas para eles. É o caso da parábola que segue. Não consegui identificar o autor. Encontrei assim como está escrito, entre páginas de um jornal velho, num sótão embolorado e úmido, às margens do Atlântico, na região norte da península, lá onde “A Europa jaz, posta nos cotovelos…”. Boa leitura

“Era uma vez alguém.

Era uma vez alguém que agia de maneira truculenta, autoritária e nada sensata.

Era uma vez alguém que agia de maneira truculenta, autoritária e nada sensata, sempre falando muito, muito, e deixando claro sua posição de mando e sua dedicação irrestrita e ‘altruísta’ em favor do coletivo.

Era uma vez alguém que agia de maneira truculenta, autoritária e nada sensata, sempre falando muito, muito, e deixando claro sua posição de mando e sua dedicação irrestrita e ‘altruísta’ em favor do coletivo, ressaltando ad nauseam sua obediência às normas e regras institucionais.

Alguém que não merecia o respeito de mais ninguém, ainda que de maneira velada.

Alguém que não merecia o respeito de mais ninguém – ou melhor, talvez de um outro alguém, quase clone seu –, ainda que de maneira velada.

Um dia, esse alguém resolveu que podia atormentar a vida alheia, sem desrespeitar as normas e regras.

Um dia, esse alguém resolveu que podia atormentar a vida alheia, sem desrespeitar as normas e regras, e começou a mostrar a que veio e começou a fazer exigências, a criar novas regras para regular as regras anteriores. Assim, esse alguém revelou, de maneira inequívoca, a sua verdadeira ‘personalidade’.

Esse alguém começou a exigir que todas as lacunas fossem preenchidas. E aí residia seu equívoco – como dizia ‘o outro’, aí que mora o busílis –: não eram lacunas. Por prática sensata e acordada, sem desrespeito às normas e regras, aqueles espaços eram constitutivos de um desenho, um desenho esquemático, um desenho esquemático de um formulário.

Esse alguém não despejava sua prepotência, seu autoritarismo, sua truculência. Esse alguém escondia, oprimia, recalcava covardia, falta de bom senso, ignorância, nenhuma tolerância, mediocridade – no sentido pejorativo do termo, não no etimológico! Numa palavra bem chula: seu cagaço. Esse alguém não tem capacidade/competência/habilidade de agir por si, ainda que sua job list assim o indicasse/permitisse.

Esse alguém tem no papel um fetiche, patológico e insalubre. Esse alguém só merece uma coisa: DESDÉM.”

(Autor desconhecido)

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2 comentários sobre “Ficção rasteira

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