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Li na edição de hoje do jornal Estado de Minas uma notícia que me fez pensar. Geralmente, leio as manchetes e, quando muito, a legenda da foto – quando é o caso. No entanto, hoje, depois de fazer a leitura de praxe, dei-me ao trabalho de ler a matéria na íntegra. Trata-se de um caso que ocorreu há quase dois anos, se não me engano em Pernambuco. O professor chama a atenção de uma estudante, em sala de aula, mudando-a de lugar porque ela estava conversando e, assim, atrapalhava o andamento do seu trabalho. A “estudante” (Ou seria “estudanta”, a seguir as regras de gramática recentemente revisadas por alguém investido de “poder”…?) teria dito ao professor que já tinha 18 anos e que ninguém mandava nela (Minha vontade é de usar as aspas, mas não me atrevo: preguiça de procurar fontes e referências para ter certezas igualmente questionáveis…). Se li direito a matéria, no dia seguinte, a mãe (Ou teria sido o pai? Nas atuais “condições de temperatura e pressão” isso faz mesmo diferença?) foi até a escola e fez reclamação contra o professor, “argumentando” que a filha foi constrangida diante dos colegas e que estaria sofrendo consequências psicológicas em seu comportamento por conta da violência do professor. A referida “mãe” acionou o Conselho Tutelar e o Ministério Público de Pernambuco. O professor, ao que parece, registrou boletim de ocorrência e o processo “correu”. Levou um tempo, mas, ao final, a família da “aluna” foi condenada a pagar R$ 5.000,00 de indenização ao professor, parece, por danos morais. A matéria termina com uma “pérola” da psicóloga (Não coloquei aspas na segunda palavra para não ficar pesado… o visual da frase!), que afirma que o professor tinha razão pois “O professor tem direito a ditar regras e os alunos devem estar preparados para ouvi-lo” (Declaração da “especialista”).

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Pois bem. A primeira coisa que me veio ao pensamento foi a atitude da aluna. Pouco a comentar. Tenho primas professoras e diretoras de escola. Sou professor universitário. Escuto relatos os mais variados daqui e d’acolá. Logo, pouco a comentar. A atitude desta “garota” nada mais revela que a falência da educação que ela não recebeu. Fico imaginando o que deve ter sido dito a ela, que exemplo ela terá presenciado, que tipo de relação com a realidade ela estabeleceu a partir do que vê, escuta e faz em casa. Aqui ratifico um bordão: educação se adquire em casa e é responsabilidade dos pais. Na escola, o processo é de escolarização, portanto, complementar. No meu tempo (Fala Matusalém!) a gente entrava na escola sabendo escutar, obedecendo ordens, reconhecendo a autoridade e comportando-se adequadamente. A segunda, diz respeito às atitudes da mãe e do professor. Quanto ao segundo, imagino o que deve ser passado por sua cabeça quando da reação da aluna. Em seu lugar, não sei se teria sangue frio e sensatez suficientes para saber reagir de maneira adequada. Já em relação à “mãe”, bem, que coceira na língua… Essa mãe deve ser mais um exemplar do estereótipo que, infelizmente, hoje impera nas famigeradas “redes sociais” e peças publicitárias. Não deve passar disso: um estereótipo. Pelo que a notícia traz de declarações da dita cuja, a atitude que toma é, igual e infelizmente, típica. Guardei o melhor para o final, coincidentemente, seguindo a ordem cronológica da “narrativa” que a notícia explicita (Alguém pode me explicar como foi que nasceu e tem se desenvolvido esse novo conceito de “narrativa”? Intrigante…). A psicóloga, “especialista”, segundo o texto da notícia. A dita cuja afirma que – e repito –: “O professor tem direito a ditar regras e os alunos devem estar preparados para ouvi-lo”. Li corretamente?: “direito a ditar regras”? Até onde acompanhei a procissão, penso que não se trata de “direito” e, muito menos, de “ditar regras”. Estas preexistem a qualquer volição subjetiva. Depois, o professor é responsável pela execução de atividades condicionadas a princípios e regulações que devem ser seguidos, independentemente da vontade de outrem. Ou seja, ao entrar na escola – se educado, obviamente – o estudante introjeta as regras da instituição em que inicia suas atividades exatamente por força da educação que recebeu em casa. Ou seja, não se trata de direito, mas de responsabilidade, obrigação. E não de “ditar regras”, mas de fazer segui-las, obedecê-las, operacionalizar os princípios de comportamento e execução das atividades formativas. A sequência da assertiva “especializada” por aquela que é identificada como “psicóloga” é por demais óbvia: prescinde de exegese…

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É isso. Assim caminha a humanidade…

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Daqui e de lá…

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Li, hoje, um artigo bem longo, bem escrito, irônico e sarcasticamente arrasador. Depois dele, havia ligações para outros artigos do mesmo autor cujo nome, obviamente, ne escapa enquanto escrevo estas linhas. O tal de artigo falava sobre uma nova biografia de Sigmund Freud, ainda inédita na língua de Camões. Escrita em Inglês, por um eminente professor de Literatura numa eminente universidade europeia, nas palavras do articulista, ai acender u incêndio devastador sobre a herança do austríaco que, nas palavras dele, identificado (ainda) está como mito. O artigo fala das descobertas sobre traições, fraudes metodológicas, apropriações indébitas de ideias, articulações maculosas para se livrar de potenciais inimigos, uma miríade de malfeitos e “deslizes” do famoso médico. Pois… Fiquei curioso, curiosíssim0. Vou esperar sair em Português. Não me atrevo a isso na língua (de que não gosto nem um pouco) de Shakespeare. Tais comentários fizeram-me pensar numa coisa que sempre me incomodou: o processo que leva a eleger fulano o cicrano como o mito, a referência, o modelo, o mestre. A partir desse ponto, reduzir tudo e todos a magotes de seguidores fervorosos, em certos casos, fanáticos incorrigíveis. Algo parecido ocorreu, faz algum tempo, com os estudos literários no Brasil. A “referência” atende pelo nome de Antonio Candido. Faz um tempo que tenho repetido um bordão que faz sentido, pelo menos, para mim: o de que a Literatura Brasileira é “ramo secundário” da Literatura Portuguesa. Não vou entrar no mérito discursivo do adjetivo “secundário”. No entanto, na simples e cristalina superfície da frase, a assertiva é irrefutável. Afinal, foram os “tugas” que aqui aportaram e para aqui trouxeram a língua que se misturou e acabou por forjar o que se conhece como Literatura Portuguesa. A ideia, um tanto provocativa, tem que ser modalizada, pois há um número incontável de variáveis que podem flexibilizar a aparente inflexibilidade da afirmação. É neste sentido que trago aqui alguns parágrafos de um sujeito brilhante que “rele” esse tópico de maneira provocativa e instigante, da qual comungo e que aqui compartilho. O nome dele é Martim Vasques da Cunha. O título do seu livro é  A poeira da glória: uma inesperada história da literatura brasileira (Rio de Janeiro, Record, 2015). Dele trago aqui alguns trechos e deixo para quem ler estas páginas a missão de entender e interpretar e… e… e… Lá vai:

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Este impasse entre abraçar uma ideologia política e aceitar o abismo que invade a realidade percorre todos os escritos de Candido. É certo que ele faz questão de dissimular isso com frequência — como está formulado numa espécie de confissão indireta num trecho da introdução de Formação da literatura brasileira. Ali, ele explica que o seu desejo de integrar métodos sociológicos e artísticos é uma maneira de encontrar o externo do texto literário (as circunstâncias históricas e sociais) no seu interior — ou seja, na sua forma especificamente literária, dentro dos mais rigorosos padrões estéticos. A função do crítico seria perceber e analisar simultaneamente essas duas coisas que estão sempre em oposição, pois, quando atinge o equilíbrio pretendido, consegue vislumbrar a contradição e aceita-a como “o próprio nervo da vida”.(p. 375)

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Em 1928, quando Antonio Candido era um garoto de 10 anos de idade, foi lançado na França um livro polêmico chamado A traição dos intelectuais [La trahison des clercs], escrito por Julien Benda. Seu argumento era muito simples e, ao mesmo tempo, extremamente profético: os intelectuais seriam, na verdade, os clérigos (os clercs do título original), uma classe de homens, sacerdotes do espírito “cuja atividade, por essência, não persegue fins práticos, e que, obtendo sua alegria do exercício da arte ou da ciência ou da especulação metafísica, em suma, da posse de um bem não temporal, dizem de certa maneira: ‘Meu reino não é deste mundo’”.65 Ocorre que, na transição do século XIX para o XX, esses mesmos sacerdotes resolveram se preocupar não com a observação desapaixonada dos valores e princípios universais que movem a humanidade de maneira imperceptível e, muitas vezes, invisível — e sim com a adesão às paixões políticas que, na falta de um nome melhor na época de Benda, hoje poderíamos chamar, sem hesitação, de ideologia. O intelectual deixa de ser um clerc, um sujeito preocupado com os problemas da alma humana, e passa a ser um leigo, um integrante da massa que só vê sentido nas modas do momento — deixando-se fascinar por um irracionalismo que se traveste de uma razão impossível de destruir porque se alimenta do abismo da própria condição humana. (p. 379)

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Há, sem dúvida, um espírito militante em todas essas ações — um espírito que criaria a sua própria tradição de crítica literária, um novo círculo de sábios que cooptaria a literatura brasileira e o jornalismo cultural de tal forma que não se poderia escrever uma única linha sem passar pelo crivo dos discípulos que seguiam o seu cânone. Alguns nomes desses escolhidos pescados a esmo mostram como Antonio Candido se tornou o verdadeiro “interesse dominante” da nossa sensibilidade moral e como sua influência permeia naturalmente a nossa leitura dos grandes autores brasileiros, sem nenhum questionamento.

Ela vai de Roberto Schwartz (que transformou Machado de Assis em um protomarxista) e Davi Arrigucci Jr. (um ensaísta talentoso, sem dúvida, mas capaz de escrever várias páginas falando sobre a poesia de Manuel Bandeira apenas no aspecto formal, sem tocar no conteúdo de sua obra), passando por Walnice Nogueira de Galvão (estudiosa séria de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa) e Telê de Ancona Lopez (protetora feroz dos arquivos e da obra de Mário de Andrade), terminando com João Luiz Lafetá (falecido precocemente, mas que causou um estrago permanente no estudo do Modernismo Brasileiro ao desprezar escritores de calibre, como Octavio de Faria e Agripino Grieco, simplesmente porque teriam posições opostas à esquerda moderada, defendida por Mário de Andrade após a Revolução de 1930) e Augusto Massi (impetuoso professor que, em nenhum momento, consegue discorrer sobre o problema do Mal na obra de Otto Lara Resende — um sujeito que, conforme veremos no próximo capítulo, só pensava nisso dia e noite).71

Cada um destes iluminados tem (ou tiveram) atualmente um cargo acadêmico garantido, mantido pelo Estado, com bônus e benesses salariais que fariam a alegria de qualquer brasileiro — e os jornais e as editoras sempre estiveram de portas abertas para eles, especialmente para tecer loas ao antigo e amado mestre. Candido conseguiu transformar o reino da literatura numa espécie de Cuba literária onde a liberdade de discordar é paga com o desprezo solene de quem não se opõe às ideias superficiais de seu líder, porque eles mesmos não querem admitir para si mesmos que tudo o que fizeram até tem algum talento, mas ficou perdido na fragilidade de seus pensamentos. Ainda assim, isto não é nada perto do prejuízo que provocaram nas cabeças dos leitores. Foi uma catástrofe sem precedentes. Este círculo dos sábios simplesmente impediu qualquer possibilidade de aprendermos a fitar o abismo, tirando o prazer de estudar a literatura e inculcando na cabeça de cada um de nós que ela só seria útil se tivesse uma meta adequada à tão esperada revolução.

Graças a esta traição dos intelectuais, ninguém mais se importa com o ser humano que foi triturado em carne e osso. O mito da “revolução permanente” contribuiu para que as contradições de Antonio Candido se transformassem em insanidades ratificadas pelas nossas instituições nacionais. Pois foi isso que aconteceu: atordoados por sonhos que não conseguiram transformar em realidade, elas destruíram definitivamente a sensibilidade moral do país, contribuindo para aumentar o abismo que há entre o Brasil real e o Brasil oficial. (383-384)

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Do prazer da leitura

Já são três os livros que dele eu já li. Devo dizer, com muito prazer. Já não me lembro como e porque cheguei nele. Sei que o primeiro que li, salvo engano de memória – que já não anda lá uma Brastemp… O ofício obriga a ler e reler muitas coisas, a mesma obra de vários autores. O prazer pode até ser equiparado, não nego. No entanto, devo dizer, por dever de ofício e por honestidade intelectual, que a surpresa causa prazer imenso… Ops, lembrei-me de Camões. De quebra, segue a primeira estrofe do poema dele, a Ode VI, da edição de 1598 das Rimas:

Pode um desejo imenso

arder no peito tanto

que à branda e à viva alma o fogo intenso

lhe gaste as nódoas do terreno manto,

e purifique em tanta alteza o esprito

com olhos imortais

que faz que leia mais do que vê escrito.

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O desejo imenso… O mesmo que inspirou Frederico Lourenço a escrever sua trilogia, cujo primeiro volume tem por título o primeiro verso do poema camoniano. Coincidência? Intenção? Licença poética? Estratégica? Pode ser uma de várias coisas. Ou todas as coisas simultaneamente. Mas não é de nada disso que desejo (ops…) falar/escrever hoje. O ponto de fuga desta postagem (um tanto preguiçosa, devo confessar) está num conjunto dos três volumes que dele já li. Mas quem é ele? Calma. Já, já, o nome dele aparece. Pode ser que mesmo antes de você que me lê adivinhá-lo. Tudo é possível… Vai saber! Pois então. O primeiro livro que dele li contava a história de duas irmãs gêmeas. A morte é a sombra que envolve o enredo, a trama, e as palavras do autor que vai desenredando uma relação complexa, delicada, um tanto triste, mas acima de tudo e antes de mais nada, de uma beleza inenarrável. Quedei-me estupefato. A contracapa do volume traz a seguinte observação: “O livro mais plástico de (…). Um livro de ver. Uma utopia de purificar a a experiência difícil de se estar vivo.” São 238 páginas de pura e melancólica poesia, com tonalidades de tragédia, sem prender-se a estereótipos, inclusive, no exercício de construção do texto em si, como diz a nota, de matéria “plástica”.

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O segundo livro, já em casa (Agora lembrei-me de que a primeira leitura se deu em terra estrangeira. Só não digo o nome, ara não desfazer o suspense… ai, ai…). O livro, o objeto, é, em si mesmo, um convite à especulação. O amarelo das capas contrasta com o fúcsia das lombadas. O tamanho é também cômodo e a narrativa vai se desenrolando em ritmo que lembra o círculo. Sem início e/ou fim delimitados, mas acertando o cerne do instante, o momento de visada que a palavra constrói num caleidoscópio de vidas que digladiam (já há séculos!) em terreno que ora é próprio, ora, alheio. Lembrou-me Claraboia, de José Saramago: das as personagens são apresentadas de um único ponto de vista, como se fosse observados de cima. No caso do livro de que falo, a diferença se faz na interlocução de suas personagens e, dado o grau de “loucura”, outra referência me ocorre: As naus, do António Lobo Antunes. Outra hora eu falo disso. O que interessa aqui é que este segundo livro e seu plot: as diferenças, as disputas, as idiossincrasias, as querelas entre dois povos que (ainda) vivem a se medir, a se cutucar, a se provocar. O humor predomina neste caso…

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O terceiro livro já extrapola qualquer expectativa (minha!). Uma surpresa, outra, igualmente instigante e prazerosa. Desta feita, a história leva o leitor pelo mundo íntimo de um homem em busca de seu pai. Ou o contrário, o pai que vai reconhecendo seus mil filhos. De um jeito ou de outro, o que está em jogo aqui é o estilhaçamento da subjetividade que se busca, freneticamente, numa saga eu atravessa o tempo e não se localiza em lugar algum. Esse trânsito é sentida pelo leitor que passeia pelas sendas destes cacos, ouvindo as diversas vozes que ecoam uma mesma busca, a da compreensão da travessia que se derrama página depois de página. Numa revisitação de mitos arquetípicos, bem à sua moda, o autor apresenta uma história instigante que vai se compondo tal quebra-cabeças multicolorido pelas muitas facetas que a existência humana vai pintando.

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Bem, não vai ser preciso falar o nome do autor a que me refiro. Pelo simples fato de que, se o leitor chegou até aqui, já viu as imagens com as capas dos livros. Há que acrescentar um ou outro detalhe: o uso indiscriminado de minúsculas, a inusitada preferência por uma aparente desorganização do texto: a perspectiva é sempre diversa daquela que o desejo do leitor desenha no inconsciente. Boa leitura, para quem quiser ler os livros aqui apresentados!

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Pronto! Minha missão está completa.

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Releitura

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Já fiz algumas resenhas de livros que li. Umas a pedido, outras a convite, muitas sob submissão (ih… uma cacofonia? Deixa pra lá…) Há vários tipos, para vários gostos, sobre as mais diversas espécies de textos. Uma das que mais gostei foi feita a convite da Revista Colóquio Letras, de Portugal. Foi um trabalhão. Recebi o livro (autografado do poeta). Li. Reli. Li de novo,. Fiz a resenha. Mandei para a editora da revista que devolveu dizendo que o texto estava opinativo demais. Reescrevi. Mandei de novo. Voltou, desta feita, com a reprimenda de que faltou caráter “científico”. Reescrevi uma terceira vez e voltou uma vez mais. Agora a desculpa era de que o texto estava subjetivo. Daí enfezei. Mandei para uma amiga, para ler e cortar tudo que apontasse para caráter “subjetivo” na porcaria do texto. A mulher disse que não poderia publicar porque não atendia aos reqisitos da revista. Mas o convite veio de lá, por indicação… Mandei mensagem para o poeta, com quem me relaciono virtualmente. Ele ficou uma fúria. escreveu carta de desagravo, a meu favor, e proibiu a revista a publicar o que quer que fosse sobre sua obra. Tomou as minhas dores. Fiquei envaidecido e assustado. Consegui publicar alhures, para gratificação minha e do poeta. Este texto é o que segue. O poeta é o Carlos Nejar, gaúcho que, até prova em contrário, vive em Vitória-ES. Ele é pai de outro poeta: Carpinejar. Tomara que seja de agrado…

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Fantasmas, influências, inspirações: Odysseus, o velho, de Carlos Nejar

Resumo

Apresentação de livro de poesia do escritor Carlos Nejar. O texto apresenta a obra poética que revisita o mito de Odisseu, no contexto da cultura greco-latina. Visão lírico-épica do mito, revisitada pelo poeta que descreve pensamentos, conversas, considerações da personagem clássica, no percurso de seu retorno épico. Texto de plasticidade inquestionável, constituído de linguagem poética marcada por experimentação estética personalíssima, escapando de classificações convencionais, em linguagem musical eloquente e imagerie fascinante. O autor debruça-se sobre tema já revisitado de maneira única, desenvolvendo discurso poético de ritmo singular. A obra de Carlos Nejar enseja viagem poética sobre incursões intimistas da personagem épica, deixando entrever sugestões e constatações subjetivas que revisitam o mito recobrindo-o de imagens que desvelam visão contemporânea sobre a experiência existencial. Os poemas constituem exercício poético que “narra” a trajetória de Ulisses como sujeito que se debruça sobre seu próprio destino, na aventura de descobrir-lhe sentido, sem avaliações e/ou julgamentos.

Palavras-chave: Odisseu, epopeia, poesia, Carlos Nejar, experiência

O adjetivo sofisticado é comumente utilizado em muitas situações. Eu diria que, sobretudo, naquelas em que a visualidade é o sentido mais instigado a agir. Um restaurante sofisticado – pela comida e pelo ambiente, com tudo o mais que o circunda: uma roupa sofisticada, modos sofisticados, festa sofisticada. Um adjetivo “comum” que se relaciona sempre a situações, pessoas e/ou ideias sempre tidas como “mais elaboradas”, diferentes, nada comuns. O estranho é que – na espessura semântica que o discurso de Freud imprimiu ao vocábulo –, no dicionário, o verbete apresenta cinco acepções inesperadas para a palavra. O adjetivo, formado pelo particípio de um verbo transitivo direto remete à ideia de falsificação, burla, afetação, engano, adulteração, rebuscamento – no sentido pejorativo. Nada mais estranho quando se pensa nas situações corriqueiras em que este vocábulo é utilizado. Prova de que a linguagem é manhosa e não se deixa “dominar”, de maneira alguma!

Entretanto, quando se pensa exatamente nela, a linguagem, o equívoco se desfaz, uma vez que as acepções apontam para ideias de requinte, originalidade, bom gosto, conhecimento profundo sobre a matéria de que se trata, avanço, eficiência e aprimoramento. É este o diapasão que me dá o tom do presente texto de recensão: exercício de exame crítico da obra em epígrafe. Aliás, esta aponta para uma aparente contradição de sabor bakhtiniano: “o auxílio luxuoso de um pandeiro”. Os grifos, meus, ressaltam a aparente falta de sintonia entre os dois termos. O luxo de um pandeiro está associado à ideia de carnaval que, como festa popular, aposta na aparência desse mesmo luxo: uma fantasia para a comemoração do tríduo momesco, principalmente no Brasil. O pandeiro, instrumento popular, marca o ponto de fuga do luxo que, na letra da música de Luiz Melodia, compõe a harmonia de uma vida simples, típica da favela carioca, cenário exuberante da criação do samba, herança cultural de priscas eras. É sob esta perspectiva que venho apresentar a obra de Carlos Nejar.

A primeira impressão que tenho é a de que Camões, Dante, Homero e, em certa medida, Cervantes, passeiam pelo texto do poeta gaúcho de maneira sutil, elaborada e eficiente. Portanto, eu poderia dizer que se trata de um texto sofisticado. Odysseus, o velho é um emaranhado de referências míticas, históricas, literárias que enredam um discurso elaborado. Sua construção tange a beleza plástica da palavra. Trata-se da elaboração poética de uma epopeia, sem, necessariamente, seguir os passos clássicos do gênero. No entanto, a “essência” deste transparece clara e lucidamente em cada linha do longo poema. Estruturado em quatro conjuntos de poemas – em números variados –, remodelam a saga de um herói legendário em suas reflexões sobre a vida, suas relações, seus feitos, a mulher, o amor e a família. Cronos é a divindade que conduz o texto nas entrelinhas, tornando possível ler todo o volume “sofisticado” e primorosamente encadernado. O leitor saberá em que sentido utilizo, aqui, o adjetivo.

Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos 37 escritores epigonais do período compreendido entre 1890-1990. Ele constrói uma voz poética emblemática e universal, de original e abundante produção lírica. O poeta encarna, de maneira muito convincente, ainda que modesta e discretamente, a síntese, sobejamente desejada e raramente alcançada, entre inovação e tradição, entre a crítica do mal-estar e a esperança. A figura do mito e da personagem que o encarna, na epopeia clássica revisitada, é uma espécie de porta-voz da simplicidade da dicção poética do autor – exata, mas sugestiva, crítica e esperançada. A criação poética do texto, intensa e passional, atinge o ápice da solidariedade humana. A figura esboçada pelas linhas dos poemas oscila entre a loucura e a santidade: espécie de túnel visualmente delirante e, simultaneamente, terrível, que leva o leitor a repensar a experiência subjetiva de um desesperado amor.

Nejar usa o discurso alegórico, gerando outra realidade paralela que redimensiona e refaz a argamassa verbal da realidade real, ora para criticá-la, ora para satirizá-la, mas sempre de forma a celebrar a experiência da existência humana, nas ondas da poesia. O poeta redimensiona os modelos e paradigmas da crítica literária, talvez com a intenção secretamente irônica de dissolvê-los todos, instaurando potente anarquia nos movimentos poéticos que orquestra. Sua poesia irriga o território tão reflorestado da linguagem, provocando certo translado semântico: tráfego e trânsito de símbolos, transferência de sentidos outros, sempre procurados pelo fazer poético.

Em Odysseus, o velho, a escrita de Carlos Nejar, própria dos poetas que são também videntes, é um tecido denso de imagens e ritmos com efeito dinamizante. Poeta da poesia, mais que do verso – dado que o verso costuma ser perecível – usa e abusa da palavra que fala, ou se cala, para além dos limites do verso: compósito de camadas diversas, que se entrecruzam, se dispersam, retornando sempre ao mesmo estuário, ao mesmo núcleo energético, de onde irrompem, em sequência solidária. A voz poética, no conjunto dos poemas, jamais se deixa enredar nas malhas de um texto enigmático, porque explicitamente referencial. Seu enredo poético alarga o princípio da realidade, alcançando os limites da transparência do mistério cosmogônico, telúrico mesmo. Concentrado e lúcido, o poeta encontra fórmulas exatas, em que irrompem perturbantes visões e vivências, tecendo o texto feito de palavra e sombra: poço das origens, etapa de um Gênesis particular.

Poeta do tempo, do amor, da esperança, da morte e de Deus, Nejar entretece fios de uma mesma urdidura cujo paralelo pode ser encontrado, no exercício pictórico de Bosch, dado que pinta, com palavras, a criação de um mundo arquetípico, rasurado pelo caminhar da cultura no/do Ocidente. Nesta pintura, o poeta gaúcho não denega suas origens: preocupa-se com “a poesia do homem pelo homem”, o que sobressai de seu texto firme, viril, delicado e aberto, como o pampa. A variedade dos temas – amor, elegia, meditação, mística, épica – não significa dispersão, mas o domínio de um sopro poético que se adensa e refina. Não faltam idéias à poética muito particular de Carlos Nejar. O que o destaca é sua capacidade de verbalização geométrica. São as palavras, em sua bem cuidada arquitetura, que revelam a prosa poética, recortada pelo cume da construção dos poemas. Na verdade, o ritmo da frase se parece com a prosa, lírica e visual, que dá consistência a sentimentos e ideias, num ritmo inesperado. Tem-se a impressão de que o texto é a narrativa de um retorno. Este não se deixa recalcar pelas regras de uma poética “clássica”, mas renova-se na sintaxe do verso livre, com ritmo em nada acelerado:

 

Sou teu pai. E dura tão pouco

a vida do homem.

para que não

me reconheças.

Ulisses sou

e outro não virá. (p.63)

 

A pontuação, escassa, é instrumento de organização visual da frase. Sua musicalidade vem da ideia que flui das palavras, criando a sensação de que o caráter prosaico das situações poeticamente desenhadas desmancha a dureza da realidade, tingindo liricamente a intenção da voz poética. Os diálogos, como no trecho acima, ainda que hermeticamente implícitos, revelam o caráter discursivo da épica, sem a subserviência à métrica e à rima. Arrisco afirmar que o sucesso de Camões, com seu trabalho de ourivesaria poética em Os lusíadas, é igualmente alcançado pela aventura textual de Carlos Nejar. Em Língua Portuguesa, ambos atingem o sucesso que só se consolida com o tempo: espécie de desejada eternidade da palavra, quando orquestrada pela mão firme sonhadora do poeta. Poeta completo. A lírica e a épica coexistem na lavra poética do autor gaúcho: regional e universal, lírico e épico, simples e complexo, telúrico e oceânico, sintético e úmido. A linguagem de Nejar tem qualquer coisa de ígneo: consome, ao mesmo tempo que ilumina, a experiência humana do mito fixada no seu verso. Sua arte, reafirmo, é própria dos poetas que são também videntes: um tecido denso de imagens e ritmos. A fusão do épico com o lírico pode explicar o gosto pelo sensível que marca a dicção da voz poética. O tom subjetivo de uma possível épica, que narraria o demiúrgico, “sopra” a forma expressiva da frase.

A confecção de versos adaptáveis à situação e musicais, são propriedades da poesia de Carlos Nejar. Ele sabe dar às vozes que aparecem nos quatro “livros” o barroquismo de sua linguagem poética que hiperboliza, repete cristalizadas antíteses e dá o tom de choque de repulsão para expressar a fugacidade do tempo. Se de outras coisas não falasse, seria o amor uma das linhas mestras da força tanto épica, quanto lírica deste seu livro. Penélope também comparece como “personagem” no contexto da saga lírica enfrentada pelo velho herói em seu retorno, não tanto físico, material, épico, mas, como quer a poesia, um retorno lírico de memória e consumação:

 

Envelheceste

Quando o abraço de Odysseus

Te desabotoou.

O abraço não te poupou.

Envelheceste quando os vinte anos

De peixe de fisgaram pelo meio.

Ou quando vinte faróis

Girassolaram seu casco

De pensamento veleiro.

Sem demorar o acaso

Nas rodas de nau e roca,

Foste rejuvenescendo

Ao findar o abraço, a onda.

E mesmo no arder do gozo,

Alvos azuis sobrevoam

Os corpos. Também o espírito

Plana, jovem. Romã

No galho de onde saltas.

Com amor cerzindo

As abas da manhã. (p. 92)

 

Fica claro nesses versos a alusão fatídica ao amor desesperado do herói por sua escolhida. O mito gera a situação narrativa que os versos do poeta recortam em sintaxe particular. As alusões metonímicas ao mar – “peixe”, “veleiro”, “nau”, “onda”, para ficar com apenas algumas ilações – conotam a viagem do retorno à ilha desejada, assim como, por tabela, a memória das vicissitudes da busca desesperada na viagem de ida. O tecer de Penélope – metonimizado no substantivo “roca” e no gerúndio “cerzindo”, para além de referenciar a mulher, remetem à ideia de tempo, de fluxo contínuo de acontecimentos e situações que demarcam o território da própria existência. A plasticidade da frase, quebrada em versos que podem ser considerados “irregulares”, não prescinde do ritmo que vem, antes, do movimento das ideias por eles veiculadas. A substituição da tradição rimático-métrica não se faz sentir, dado que o fluxo lírico do discurso se consolida na referência sempre segura ao mito, em todas as suas variações. Os versos destacados são apenas pequena amostra do universo de fantasias e experiências sensoriais que a leitura do livro de Nejar oferece ao leitor. Fica o convite para esta aventura repleta de prazer e sedução.

Referência: NEJAR, Carlos. Odysseus, o velho: poemas. Porto Alegre: CiaE, 2010. 140 p.

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Placebo

Como é que faz? Como é que fica. Seis homens. Doze cones de sinalização. Uma máquina. Um homem conduzia a máquina. Os outros cinco olhavam. Na avenida, os cones de sinalização fechavam o trânsito de duas pistas da avenida, por um trecho considerável. A obra não atingia toda a faixa da direita. Eram dez e meia da manhã de uma quinta-feira, da semana de reinício das aulas. Chovia. E alguém ainda duvida que a falta de educação dos espertinhos de plantão e dos azes do volante cria o inferno na terra.

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Faz uns anos, escrevi uma parábola. Ela contava a história de um homem que vendia laranjas. Ele tinha o costume de vender as laranjas em caixas de cinco. De repente, o mercado começou a cobrar que as laranjas fossem vendidas em embalagens com três. O vendedor de laranjas se negava a comprar as embalagens para três laranjas e insistia também em continuar vendendo cinco laranjas na embalagem para três. Explicação desnecessária… As laranjas continuam sendo seguidas. Já não há controle sobre as embalagens. Os vendedores se multiplicaram. Mas a cidade não está nem aí para as laranjas… Não só a população da cidade…

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Diz o adagiário popular que a preguiça é o mesmo grave dos pecados. Se alguém perguntar porque, responda: por que ele evita que o sujeito cometa algum dos demais pecados… ou todos eles, vai saber…

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Por que será que alguém se põe a escrever? Gasta tempo e dinheiro e vontade e esforço e imaginação para escrever? A certeza da leitura inexiste. Mas o sujeito insiste. Ops… uma rima… De brincadeira, costumo dizer que quem faz isso tem um parafuso a menos na cabeça. Há quem ria… Daí, fico pensando em quem lê. Gasta tempo, dinheiro, espaço e vontade para ler (Pra não falar no acúmulo dos volumes, na falta de espaço e no atual e absoluto desinteresse de bibliotecas pelas coleções particulares escolas e faculdades e universidades e instituições afins, por seus bibliotecários – parece que o governo extinguiu essa categoria – chegam a ter alergia quando escutam a palavra “doação”… de livros. O argumento é sempre o mesmo: falta de espaço. Serão dois parafusos a menos? Não encontro explicação plausível…

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A moça cresce, amadurece(?) e sai de casa. Defende o pai na separação. Acusa a mãe de responsabilidade pela situação. Tem uma filha depois de um casamento um tanto apressado. Antes disso, bate a porta de casa na cara da mãe quando esta aparece para presentear a filha no dia de seu aniversário. A filha cresce e a moça muda-se de endereço, de cidade, de estado. A moça proíbe os irmãos a contarem para a mãe o seu paradeiro. A mãe da moça quer conhecer a neta. A moça não deixa. A moça diz pra filha que a avó morreu. Será isso um plot de ficção científica?

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Chega.

 

 

A razão que a própria razão desconhece…

Acabei de ler o texto que segue (http://www.contioutra.com/razonite-uma-enfermidade-grave-que-esta-se-espalhando-pelo-mundo/). Ri muito, mas comecei apensar. Comecei, continuei… Pelo sim, pelo não, coloco aqui. Assim, pra não deixar de ser sincero, livro-me da ansiedade de vencer a preguiça e ter de escrever do próprio punho, hoje especialmente, um texto para colocar aqui. Como penso que o texto vale a pena, deixei de lado o prélio contra a preguiça e a ansiedade e reproduzo aqui o dito cujo. Boa leitura…

Razonite: uma enfermidade grave que está se espalhando pelo mundo

Por  Gustl Rosenkranz

 Razonite é uma doença altamente contagiosa que causa uma inflamação da razão e disfunções cerebrais sérias, além de um desequilíbrio emocional que torna as pessoas agressivas, intolerantes e impacientes. Sua principal característica é um forte impulso de querer ter razão, custe o que custar.

Uma pandemia é uma epidemia descontrolada que se espalha pelo mundo. E é o que está acontecendo com a razonite, que tem se alastrado por todos os continentes de uma forma assustadora.

pandemia de razonite é um problema sério, que afeta cada dia mais pessoas e que põe em risco o bem-estar de toda a humanidade.

O que é a razonite?

Razonite é uma doença altamente contagiosa que causa uma inflamação da razão e disfunções cerebrais sérias, além de um desequilíbrio emocional que torna as pessoas agressivas, intolerantes e impacientes. Sua principal característica é um forte impulso de querer sempre ter razão, custe o que custar.

Pessoas que sofrem de razonite comportam-se de maneira pouco sociável, são provocativas, hostis, com tendências coléricas e insultuosas.

Em estágios mais avançados, o transtorno pode levar à perda de qualquer senso de realidade. A capacidade de comunicação e a empatia do paciente são extremamente limitadas ou completamente perdidas e, não raramente, se registra uma propensão à violência verbal e psicológica ou mesmo física.

Por que a razonite é perigosa?

Porque pode se alastrar, contagiando mais e mais gente e nos colocando numa situação na qual todos achariam que têm razão, atacando uns aos outros e destruindo a si mesmos e tudo que há de bom neste mundo.

Mais problemático ainda é quando a enfermidade atinge pessoas com papel-chave na sociedade, como políticos, jornalistas, professores ou qualquer um que tenha acesso ao poder ou grande influência sobre outras pessoas.

Os principais sintomas da razonite

Quem sofre de razonite costuma apresentar os sintomas listados a seguir:

  • Tendência severa e irracional de querer sempre ter razão.
  • Narcisismo extremo.
  • Agressividade, intolerância e impaciência/nervosismo acentuados sem motivos reais que justifiquem tal comportamento.
  • Perda da capacidade de ver cores, o que faz com que o paciente comece a ver tudo em preto e branco. Até mesmo a capacidade de enxergar vários tons de cinza pode ser extremamente restringida ou suprimida.
  • Problemas de comunicação, com o paciente perdendo a capacidade de argumentar e formar novas frases, o que o leva a repetir todo o tempo a mesma coisa, o que é conhecido na medicina moderna como Síndrome do Disco Arranhado.
  • Também o sistema auditivo do paciente é atingido pela infecção, causando-lhe uma surdez seletiva, que o impede de escutar argumentos alheios, por mais óbvios que sejam, sempre que contradigam sua opinião.
  • Perda de qualquer senso de realidade, fuga para uma bolha de supostas verdades, fatos criados ou torcidos e teorias conspirativas.
  • Vitimismo crônico e mania de perseguição (“quem não concorda comigo tem algo contra mim!”).
  • Teimosia e insistência, com tendência a querer discutir ou mesmo brigar até que o outro ceda e aceite que ele tem razão, perdendo a paciência e insultando quando isso não ocorre.
  • Falta de empatia.
  • Comportamento arrogante para disfarçar suas frustações.

Como ocorre a infecção

A infecção com a razonite ocorre normalmente já dentro de casa, na família, que muitas vezes já tem a enfermidade e a passa para as crianças.

Uma infecção pode ocorrer também mais tarde, em outros meios sociais, como no círculo de amizades, no trabalho ou mesmo numa igreja, seita ou em grupos ideológicos.

Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Razonite (Razonite International Research Institute), redes sociais como Facebook são hoje o principal canal de infecção da doença. Dr. Robert Stopandthink, diretor do instituto, relata que as redes sociais têm contribuído de uma forma extrema para que esse transtorno se espalhe rapidamente pelo planeta.

“A pessoa, que muitas vezes já carrega consigo uma predisposição para a razonite, entra numa rede social, participa de alguma discussão com pessoas infectadas e passa a pensar e agir como elas, aceitando os delírios de outros enfermos como se fossem seus e querendo ter razão de qualquer maneira, não medindo esforços para isso e se sentindo dono exclusivo da verdade”, explicou Robert Stopandthink.

Razonite é uma coinfecção!

Um dos problemas da razonite é que ela não surge sozinha. Pessoas que se contaminam com esse mal normalmente já tinham o organismo afetado por outras infecções.

É muito comum, por exemplo, que pessoas com razonite tenham se contaminado anteriormente com o vírus vaidadis imbecilis, que causa um excesso de vaidade e egocentrismo anormal.

Estudos indicam que muitos pacientes com razonite carregam também consigo uma bactéria chamada complexus fragilis, adquirida ainda na infância (essa bactéria é normalmente passada aos filhos pelos pais) e que é responsável pelo complexo de inferioridade que igualmente acomete essas pessoas.

Diagnóstico diferencial

A razonite é um transtorno que atinge normalmente pessoas em idade adulta e não deve ser confundida com o comportamento birrento de crianças, mesmo que alguns sintomas sejam muito semelhantes.

Tratamento

O tratamento da razonite é difícil, principalmente porque demora muito até que o paciente perceba que foi infectado (muitos terminam levando toda sua vida sem perceber que têm o transtorno). Tentativas de pessoas próximas ao paciente de alertá-lo sobre seus sintomas claros são ignoradas ou vistas por ele como uma afronta que deve ser combatida.

Indicada como parte importante do tratamento da razonite seria uma psicoterapia, no intuito de ajudar o paciente a reconhecer que sofre da enfermidade e entender quando foi infectado e que estratégias poderiam ajudá-lo a recuperar o tempo e o desenvolvimento perdidos por causa da doença.

Outro tratamento, infelizmente nem sempre eficaz, seria confrontar o paciente com seu comportamento e com as bobagens que anda dizendo e escrevendo por aí. Isso nem sempre funciona por causa da teimosia e da tendência ao vitimismo do paciente (ao ser confrontado com a realidade, ele se sentirá atacado  e tentará assumir o papel de vítima!), mas principalmente por causa do narcisismo, que também é um sintoma comum desse distúrbio.

A terapia mais eficaz é o tratamento de choque: o paciente é trancado em um recinto fechado, sem janelas, juntamente com várias outras pessoas também infectadas com razonite e em estado mais grave que o dele. Depois de passar uns dias batendo boca (e a cabeça!) com os outros, o paciente termina esgotando toda sua energia de “dono da verdade” e tem a chance de perceber que algo está errado, de reconhecer o absurdo do próprio comportamento e, assim, começar a mudá-lo.

Chances de cura

Quanto mais cedo o paciente reconhecer que está afetado pela doença, maiores são suas chances de cura.

Especialistas têm observado que pacientes de idade mais avançada, que não raramente já carregam a razonite consigo por muitas décadas, têm uma maior dificuldade de admitir que estão transtornados, já que os sintomas teimosia e perda do senso de realidade tendem a aumentar com o tempo.

Pacientes terminais

Algumas pessoas que sofrem de razonite se encontram num estágio tão avançado que não têm mais chances de cura. Um diálogo não é possível, qualquer forma de tratamento/ajuda é recusada pelo paciente e insistir pode fazer com que ele parta para a violência.

Nesses casos, Dr. Robert Stopandthink recomenda a isolação da pessoa afetada, devendo-se evitar qualquer forma de contato, já que a vida é muito curta para ficar se ocupando com gente contaminada pelo mal de querer ter razão o tempo todo. Sem falar do risco de se contagiar e se tornar um deles.

O PROBLEMA DO MUNDO DE HOJE É QUE AS PESSOAS INTELIGENTES ESTÃO CHEIAS DE DÚVIDAS E AS PESSOAS IDIOTAS ESTÃO CHEIAS DE CERTEZAS.
Charles Bukowski

Imagem de capa:  Kues/shutterstock

Publicação original deste artigo no site Caminhos em 01 de junho de 2017

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Chatice

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Uma coisa é você dizer que gosta. Outra coisa é dizer que não gosta. Simples, não? Nem tanto. Não é o que parece. Não é bem assim. Vou eu dizer que gosto disso e não daquilo. Antes de mais, eu preciso explicitar “isso” e “aquilo”. Depois tenho de contextualizar “isso” e “aquilo”. Em seguida justifico porque “isso” e porque “aquilo”. Cansei das aspas. Pra continuar, tenho que dizer para que isso ou aquilo. Então eu posso demonstrar como isso ou como aquilo. Finalizando, listo as referências para isso e aquilo. Pronto! Qual nada. Não tem nada pronto. Depois disso tudo, vem um gaiato e diz tudo ao contrário. E só porque ele é famoso, só porque é popular, só porque ele vende mito, só porque é convidado para as flips, flops, flups da vida, só porque isso ou aquilo. Vai quase todo mundo atrás. Quem tiver opinião/posição diferente… lascou-se. Ou bem se sustenta como “do contra” ou luta galhardamente para explicar tudo… e ninguém vai aceitar as explicações. Oblivium

É assim, sem tirar nem por, com as devidas adaptações idiossincráticas de tempo, lugar, modo e pessoa…

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Ontem eu falei de Guimarães Rosa. Em muitas aulas já disse e repeti que ler os textos dele é uma chatice, à primeira vista. No entanto, no que se começa e se deixa levar por sua maleabilidade fonética, por sua variabilidade sinestésica, por suas miríades de configurações imagéticas… é o paraíso. Que beleza. Sem tirar nem por. O mesmo eu digo de Camões, sobretudo Os lusíadas. Pra mais de mil versos, todos em estrofes de outo, com exata métrica e esquema de rima pra lá de rígido. A mesma “monotonia” estrutural. Mas em voz alta, quando se modaliza a voz e se deixa marear pelos versos que se enlaçam… Outra maravilha. Pura beleza em forma de palavra! Um primor. Hoje falo de algo que sempre tive vontade de dizer, de escrever, de tornar público e sempre me senti tolhido. Chega! Não gosto de Marcel Proust. O tal de À la recherche du temps perdu é uma chatice. E a mim não conquistou. Já tentei inúmeras vezes ler os sete volumes. Juro que tentei. A última encerrou-se ontem quando, definitivamente, decidi que não vou tentar mais. É muito chato. Chatíssimo. Um porre. Um amontoado de palavras que não me seduziu, ao contrário de ouros tantos amontoado de palavras que seduzem automaticamente. É bom prestar atenção: eu não disse que Marcel Proust não presta. Eu disse que não gosto dele. Punto i basta. Se Al Berto, o poeta português, numa entrevista, pode dizer que não lê livros que não o incomodem no começo, que não o façam se sentir bem, que não causem prazer. Eu também posso. Por que não poderia. Al Berto diz que livros assim, que não agradam, nem na estante dele ficavam. Não chego a tanto, mas sou como ele, não leio mais livros que não me agradem, pra começo de conversa. Diferentemente de Al Berto, não tiro os livros da estante, mas não os leio. Um dia quem sabe, se alguém o quiser, eu faço a doação. Mas de uma coisa eu tenho certeza: não vou mais tentar ler o chatíssimo Marcel Proust. Ai que porre…

Estou aliviado…

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