Poema azedo

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Hoje foi domingo.

Pediu cachimbo.

O cachimbo era de ouro e bateu no touro.

O touro era valente e bateu na gente.

A gente, fraca, caiu no buraco. Buraco fundo. Acabou o mundo.

Nostradamus estava certo?

O verbo no passado e a pergunta sem resposta. Vi ser sempre assim.

Sempre… desde quando?

O sujeito abre a boca e diz que entre as dezenas de livros que recebe, de editoras e de pessoas, apenas um ou dois, quando muito, são passíveis de leitura. “Valem” alguma coisa.

Quem disse?

Como é que isso começou?

Quem foi que disse a Aristóteles que as anotações que fazia para suas aulas eram exatas, muitos bem escritas, articuladas, bem embasadas, argumentadas consistentemente, respaldadas por referências… canônicas?

Quem?

E, no entanto, estas mesmas anotações correram o mundo, rasgaram o tempo, estilhaçaram o espaço e continuam sendo lidas e discutidas e referidas e citadas e… e… e…

Como é que é isso?

Quer dizer que o que eu digo não pode simplesmente ser tomado como palavra minha, dedução minha, articulação minha, resultado de minhas leituras, fruto de minha imaginação, opinião gratuita…

Minha?

Não?!

E o sujeito em e pontifica o que é bom e o que não é?

Isso é justo?

Isso está certo?

O outro tira uma foto de si mesmo, num ônibus de luxo, com vestuário estereotipado, põe uma legenda estudada e repetida aos borbotões, sorri – ensaiado – e se sente muito feliz porque vai se desidratar numa estapafúrdia convulsão sociopática que tem nome… esdrúxulo.

A outra sorri comovida ao ouvir os ganidos infantis de sua cria, ao microfone, em estridentes grunhidos aos quais, pudicamente, cola o rótulo de canções…

Só porque é uma criança?

Só porque a festa de aniversário de criança “é” assim?

E o bando de desocupados imbecilizados que dão risada por conta do casal de turistas atordoado por um enxame de abelhas.

Em lugar de socorro e amparo oferecem o escárnio estúpido e ignorante da cínica situação de estudantes universitários que vivem em repúblicas “federais”.

E ainda querem que eu defenda o direito ao ensino superior público, gratuito e de qualidade, cegamente.

Defender… cegamente… não!!!

Jamais!!!

Não indiscriminadamente.

Há de haver um limite.

Há um limite.

A morte é um limite.

Mas esta senhora é incognoscível… inacessível… inexplicável…

Apesar de recorrente.

Um paradoxo.

Como o do amigo judeu que cita frase recorrente no Evangelho – “Vá e não peques mais” (ou qualquer coisa parecida) – como contraponto para a insistência freudiana em chafurdar no passado, sempre mais, mais e mais fundo, sempre se refestelando em cacos de memória, fragmentos de afeto perdido no tempo e no espaço, na pocilga do desejo que não se satisfaz por impossível

A natureza do desejo é sua insatisfação eterna.

Estaria errado ele em sua ilação?

Não o Evangelho.

Não o psicanalista.

O judeu.

Estaria errado?

Por que estaria?

Se a solução dada pela frase que quase se faz uma parataxe, no conjunto em que se encontra, e aponta para outra dimensão exegética a indicar um caminho mais plausível, mais possível, menos repetitivo e mais saudável para a cura…

Perdão.

Foi domingo…

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2 comentários sobre “Poema azedo

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