Ordens

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Há dois momentos, no texto dos evangelhos, que marcam uma posição radical de Jesus Cristo. No primeiro deles, episódio da adúltera, encontrado no oitavo capítulo do evangelho de São João, Jesus, faz um discurso para aqueles que tentavam “lapidar” a mulher acusada de adultério. Para além do penso intenso de cada palavra nesta alocução, o que pode ser destacado é a finalização de cristo quando diz (mais ou menos literalmente) “Vá e não voltes a pecar”. Antes que me acusem de qualquer coisa – porque qualquer coisa nos dias que correm é motivo para “acusação”, infelizmente…) – é bom prestar atenção no que escrevi entre parênteses. Não sou capaz de ser literal aqui, porque não estou com um exemplar dos evangelhos debaixo do meu nariz e porque não vou me levantar daqui para buscar um desses exemplares, só para agradar aos “puristas”. Então… voltando à vaca fria. A frase dita pelo filho de Deus é taxativa. O verbo no imperativo e ponto. A segunda oração, com a segunda pessoa gramatical em foco, ecoa esse mesmo espírito de autoridade e de mando: o imperativo. Penso não ser equivocado dizer que esta “ordem” faz desaparecer completamente qualquer possibilidade de “revisão” por parte de quem é instado a obedecer. Tratando-se da mulher supostamente adúltera, a reação não é outra. Se não me engano, não há qualquer menção à possível reincidência da “pecadora”, o que faz crer que a ordem foi obedecida sem questionamento. Sem “mais”, nem “porém”, nem “por acaso”. O recado está dado. Quem ter ouvidos de ouvir que ouça. “Vá”, primeiro. “Não voltes a pecar”, em seguida. Interessante notar que, explicitamente, não há qualquer liame, textual ou discursivo, que articule a possibilidade exegética da consideração do “arrependimento” como instrumento da obediência à ordem dada. Ao imperativo, obedece-se. Neste caso, o imperativo é duplo. A obediência, então, me parece, tem de ser absoluta, radical, sem questionamentos, sem intermediação. Pura e simplesmente obediência. Tal situação se “repete” (estas aspas aqui terão mais significado logo adiante). No mesmo evangelho, agora no quinto capítulo, lê-se a narrativa do paralítico que volta a caminhar depois de receber a ordem de Jesus para tanto. Um milagre. Da mesma forma, a mesma expressão de ordem e imposição. Um mandamento, na verdade. Talvez, numa longa distância semântica, tal imperativo concentre em si medula óssea do decálogo, mas isso é uma outra história.

Ao fim e ao cabo, o que eu quero com isso: destacar a radicalidade da ordem divina: não pecar mais. O verbo no imperativo aponta a direção a seguir: pra frente. Do ponto da queda (do erro, do pecado) para frente. Sempre. Radical e Definitivamente: pra frente. Sem olhar pra trás. Sem revisões. Sem explicações. Sem projetos. Sem delongas. Sem dúvidas. Vá! Como as aspas sobre as quais comentei antes, também esta finalização pode vir a ser explicada mais adiante. É esperar pra ver!

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3 respostas para “Ordens”.

  1. Estou a esperar pelo “adiante”. Porque a impressão que tenho é que esta postagem é “to be continued…” Não havia pensado na ausência – talvez pouca importância – do perdão para eximir a pecadora de seu delito; na verdade, a única demanda é que o fato não se repita. Interessante. Dá o quê pensar. Aguardando. Beijinho.

  2. Também aguardando a continuação desse assunto!

  3. Uma ou duas postagens depois…

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