Por fim…

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Os dois parágrafos que seguem foram retirados de um texto de Freud intitulado “Recordar, repetir, elaborar”. Eu ainda insisto na tentativa de fazer meus alunos lerem este texto – sobretudo nas disciplinas Literatura Comparada e Seminário de narrativa – ao longo destes quase trinta anos de magistério superior. Em que pese o questionamento que se possa vir a fazer do epíteto “superior”… Vou deixar passar a oportunidade! Voltando… O texto é de Freud e faz menção a alguns processos terapêuticos por ele articulados na formação do que vem a ser a Psicanálise. Não vou fazer uma exegese dos parágrafos, mas vou, dele, retirar uma ideia. Antes disso, é preciso ler os parágrafos mencionados:

“Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para com o médico. Não se recorda de como chegou a um impotente e desesperado impasse em suas pesquisas sexuais infantis; mas produz uma massa de sonhos e associações confusas, queixa-se de que não consegue ter sucesso em nada e assevera estar fadado a nunca levar a cabo o que empreende. Não se recorda de ter-se envergonhado intensamente de certas atividades sexuais e de ter tido medo de elas serem descobertas; mas demonstra achar-se envergonhado do tratamento que agora empreendeu e tenta escondê-lo de todos. E assim por diante.

Antes de mais nada, o paciente começará seu tratamento por uma repetição deste tipo. Quando anunciamos a regra fundamental da psicanálise a um paciente com uma vida cheia de acontecimentos e uma longa história de doença, e então lhe pedimos para dizer-nos o que lhe vem à mente, esperamos que ele despeje um dilúvio de informações; mas, com freqüência, a primeira coisa que acontece é ele nada ter a dizer. Fica silencioso e declara que nada lhe ocorre. Isto, naturalmente, é simplesmente a repetição de uma atitude homossexual que se evidencia como uma resistência contra recordar alguma coisa [ver em [1]]. Enquanto o paciente se acha em tratamento, não pode fugir a esta compulsão à repetição; e, no final, compreendemos que esta é a sua maneira de recordar.” (Estes parágrafos foram copiados da edição digitalizada da edição standard das obras de Sigmund Freud, disponíveis para quem quiser ler. Basta pegar na mão do Dr. Google e deixar que ele leve até o texto).

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Pois bem. Destes dois blocos retiro a ideia que me interessa: repetição. Atitude comum, corriqueira, banal, nas mais diversas situações da existência humana. Para Freud, esta atitude pode ser reveladora de outras que, articuladas numa narrativa autoral do paciente, instigam o analista a pontuar constantes, reconhecer recorrências e administrar vínculos que chegam a ilações que podem dirimir o sofrimento – ainda que inconsciente, sofrimento – do paciente. Isto posto, não é muito exagero dizer que a repetição é instrumento terapêutico indispensável para que a vida psíquica de alguém, possa vir a contar com boa dose de apoio, na busca de diminuir a intensidade do sofrimento que acomete este mesmo sujeito – e repito: ainda que inconsciente, sofrimento.

Agora vem o busílis: o que é que isso tem a ver com as linhas que escrevi ontem? Aparente e incialmente, nada. Mas convenhamos, ontem falei de imperativo e hoje de repetição. No texto evangélico a mesma cena se repete e hoje afirmo que a repetição é terapêutica. Fato é que, em conversa com um amigo judeu, amigo mito querido, pessoa ilustre de inteligência brilhante, perspicácia refinada e humor sutil e igualmente refinado, este amigo propôs uma espécie de axioma. Há de se prestar atenção no fato de que Jesus perdoa a presumida adúltera e faz andar o coxo. Ele repete a ação para a salvação da alma de ambos. Faz isso com um imperativo taxativo: Vá e não peques mais! Isso quer dizer (ou pode querer dizer) que, para Cristo, não interessa a argumentação que tente justificar o passado, a explicação das circunstâncias em que o pecado se deu, qualquer justificativa ou protesto de mudança do perdoado. Jesus simplesmente usa o imperativo. E isso quer significar (ou pode querer significar) que o que interessa é começar daquele ponto. Seguir adiante sem se voltar para o passado. Exatamente o oposto do que é proposto pelo raciocínio de cariz terapêutico do vienense. Há uma contradição? Não creio. Existe uma oposição clara e excludente? Não acredito. Admito que as perspectivas podem até caminhar de maneira oposta, como na Física: dois vetores de mesma direção e sentido oposto. Digo isso porque, ao fim e ao cabo, ambas as atitudes, ambos usos do discurso acabam por atingir o mesmo objetivo, mesmo que aparentemente isso não seja explicitado. No caso de Cristo, o perdão. No de Freud, a “cura”. Ora, penso que essa situação (seria um sofisma?) leva a pensar na relatividade da ciência e da religião, simultaneamente, na mesma medida. Para Cristo não interessa vascular o passado em busca de indícios de solução (=gratificação, satisfação, saúde, fim do sofrimento). Para Freud é tudo o que interessa (=idem). Isso faz pensar. Pode ser que faça pensar pouco, mas faz pensar…

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Estão explicadas as aspas de ontem. Bem, pelo menos, em tentativa…

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5 comentários sobre “Por fim…

  1. Esse texto é muito utilizado em aulas de psicanálise na faculdade e o seu conteúdo é muito valioso. Uma boa análise de Freud sobre nosso comportamento, apesar dessa área não trabalhar com o comportamento, a análise é precisa.

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