Desejo

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Pode alguém escrever poesia em prosa? Dizem alguns críticos e outros teóricos e os demais que os seguem, cegamente – perdão, a fonética trai-se às vezes. Dizem que pode. Será que pode mesmo? Em podendo, será que qualquer assunto é passível de ser prosaicamente poetizado? Ou, por outra, poeticamente proseado? Se por prosa se considerar apenas o papo de dois que, em nada mais encontrando o que fazer, olham para o horizonte e começam a falar… Começam a falar por falar, falar pra esvaziar a alma e o coração, para apaziguar o pensamento, para afugentar fantasmas – ou enfrentá-los, de frente (de novo, perdão pelo deslize fonético). Começam a falar. E do nada que falam, dizem tudo. Se não tudo, ao menos, mais do que cotidianamente se fala. Ainda que o cotidiano não escape a nada. Nada escapa do cotidiano. Nem ele mesmo. Ah… as palavras. E será, por fim, que nisso tudo de poder, alguém poderia escrever o desejo? Não escrever sobre o desejo. Não escrever a partir da ideia de desejo. Não representar o desejo em palavras, mas escrevê-lo. ESCREVR o desejo. Fórmula que me parece impossível, por isso mesmo desejada, ponto de fuga de toda poesia. Em qualquer língua, em qualquer circunstância, em qualquer tempo. Assim… simplesmente. Escrever o desejo. Alguém pode? Penso ter encontrado alguém que pode – no pretérito e no presente do indicativo. Alguém que escreveu o desejo. Alguém que escreve o desejo. Há de ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. Caso contrário, o desejo escapa e vão ficas apenas as palavras. É ler pra perceber a serpente, o susto do pássaro que pula, o “drede”, o “desmisturado”, o “entreonde-os-campos”. O deslugar do trânsito e do movimento que dizem o desejo, escrito nas linhas de um livro. A expressão d’ “Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia”. A mudança, o passar do tempo que não se calcula. Há alguém que escreve e escreveu o desejo. O nome dele é João Guimarães Rosa. Vejam:

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“Os quem-quem, aos casais, corriam, catavam, permeio às reses, no liso do campo claro. Mas, nas árvores, pica-pau bate e grita. E escutei o barulho, vindo do dentro do mato, de um macuco – sempre solerte. Era mês de macuco ainda passear solitário – macho e fêmea desemparelhados, cada um por si. E o macuco vinha andando, sarandando, macucando: aquilo ele ciscava no chão, feito galinha de casa. Eu ri – “Vigia este, Diadorim!” – eu disse; pensei que Diadorim estivesse em voz de alcance. Ele não estava. O macuco me olhou, de cabecinha alta. Ele tinha vindo quase endireito em mim, por pouco entrou no rancho. Me olhou, rolou os olhos. Aquele pássaro procurava o quê? Vinha me pôr quebrantos. Eu podia dar nele um tiro certeiro. Mas retardei. Não dei. Peguei só num pé de espora, joguei no lado donde ele. Ele deu um susto, trazendo as asas para diante, feito quisesse esconder a cabeça, cambalhota fosse virar. Daí, caminhou primeiro até de costas, fugiu-se, entrou outra vez no mato, vero, foi caçar poleiro para o bom adormecer.

O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente – “Diadorim, meu amor…” Como era que eu podia dizer aquilo?

Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas – como quando a chuva entreonde-os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus

mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele  Diadorim-que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas – de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu

pudesse morrer, não me importava.

O que sei, tinha sido o que foi: no durar daqueles antes meses, de estropelias e guerras, no meio de tantos jagunços, e quase sem espairecimento nenhum, o sentir tinha estado sempre em mim, mas amortecido, rebuçado. Eu tinha gostado em dormência de Diadorim, sem mais perceber, no fofo dum costume. Mas, agora, manava em hora, o claro que  rompia, rebentava.

Era e era. Sobrestive um momento, fechados os olhos, sufruía aquilo, com outras minhas forças. Daí, levantei.”

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2 comentários sobre “Desejo

  1. A obra de Guimarães Rosa, toda ela, está no limiar entre prosa e poesia. Sua escritura é absolutamente única e, no meu pensar, está acima de qualquer crítica, por seu estilo lapidar. Linda – a obra! Beijinho.

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