Chatice

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Uma coisa é você dizer que gosta. Outra coisa é dizer que não gosta. Simples, não? Nem tanto. Não é o que parece. Não é bem assim. Vou eu dizer que gosto disso e não daquilo. Antes de mais, eu preciso explicitar “isso” e “aquilo”. Depois tenho de contextualizar “isso” e “aquilo”. Em seguida justifico porque “isso” e porque “aquilo”. Cansei das aspas. Pra continuar, tenho que dizer para que isso ou aquilo. Então eu posso demonstrar como isso ou como aquilo. Finalizando, listo as referências para isso e aquilo. Pronto! Qual nada. Não tem nada pronto. Depois disso tudo, vem um gaiato e diz tudo ao contrário. E só porque ele é famoso, só porque é popular, só porque ele vende mito, só porque é convidado para as flips, flops, flups da vida, só porque isso ou aquilo. Vai quase todo mundo atrás. Quem tiver opinião/posição diferente… lascou-se. Ou bem se sustenta como “do contra” ou luta galhardamente para explicar tudo… e ninguém vai aceitar as explicações. Oblivium

É assim, sem tirar nem por, com as devidas adaptações idiossincráticas de tempo, lugar, modo e pessoa…

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Ontem eu falei de Guimarães Rosa. Em muitas aulas já disse e repeti que ler os textos dele é uma chatice, à primeira vista. No entanto, no que se começa e se deixa levar por sua maleabilidade fonética, por sua variabilidade sinestésica, por suas miríades de configurações imagéticas… é o paraíso. Que beleza. Sem tirar nem por. O mesmo eu digo de Camões, sobretudo Os lusíadas. Pra mais de mil versos, todos em estrofes de outo, com exata métrica e esquema de rima pra lá de rígido. A mesma “monotonia” estrutural. Mas em voz alta, quando se modaliza a voz e se deixa marear pelos versos que se enlaçam… Outra maravilha. Pura beleza em forma de palavra! Um primor. Hoje falo de algo que sempre tive vontade de dizer, de escrever, de tornar público e sempre me senti tolhido. Chega! Não gosto de Marcel Proust. O tal de À la recherche du temps perdu é uma chatice. E a mim não conquistou. Já tentei inúmeras vezes ler os sete volumes. Juro que tentei. A última encerrou-se ontem quando, definitivamente, decidi que não vou tentar mais. É muito chato. Chatíssimo. Um porre. Um amontoado de palavras que não me seduziu, ao contrário de ouros tantos amontoado de palavras que seduzem automaticamente. É bom prestar atenção: eu não disse que Marcel Proust não presta. Eu disse que não gosto dele. Punto i basta. Se Al Berto, o poeta português, numa entrevista, pode dizer que não lê livros que não o incomodem no começo, que não o façam se sentir bem, que não causem prazer. Eu também posso. Por que não poderia. Al Berto diz que livros assim, que não agradam, nem na estante dele ficavam. Não chego a tanto, mas sou como ele, não leio mais livros que não me agradem, pra começo de conversa. Diferentemente de Al Berto, não tiro os livros da estante, mas não os leio. Um dia quem sabe, se alguém o quiser, eu faço a doação. Mas de uma coisa eu tenho certeza: não vou mais tentar ler o chatíssimo Marcel Proust. Ai que porre…

Estou aliviado…

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2 comentários sobre “Chatice

  1. Coincidência: também gosto de Guima e Luis Vaz e não gosto de Proust. Acho pedante demais. Sou muito simplória para acompanhar sua escritura empolada, e(ou i)mpostada e depressiva. Não tenho seu conhecimento para fazer qualquer crítica, apenas não me atrai. Beijinho.

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