Do prazer da leitura

Já são três os livros que dele eu já li. Devo dizer, com muito prazer. Já não me lembro como e porque cheguei nele. Sei que o primeiro que li, salvo engano de memória – que já não anda lá uma Brastemp… O ofício obriga a ler e reler muitas coisas, a mesma obra de vários autores. O prazer pode até ser equiparado, não nego. No entanto, devo dizer, por dever de ofício e por honestidade intelectual, que a surpresa causa prazer imenso… Ops, lembrei-me de Camões. De quebra, segue a primeira estrofe do poema dele, a Ode VI, da edição de 1598 das Rimas:

Pode um desejo imenso

arder no peito tanto

que à branda e à viva alma o fogo intenso

lhe gaste as nódoas do terreno manto,

e purifique em tanta alteza o esprito

com olhos imortais

que faz que leia mais do que vê escrito.

livro 1

O desejo imenso… O mesmo que inspirou Frederico Lourenço a escrever sua trilogia, cujo primeiro volume tem por título o primeiro verso do poema camoniano. Coincidência? Intenção? Licença poética? Estratégica? Pode ser uma de várias coisas. Ou todas as coisas simultaneamente. Mas não é de nada disso que desejo (ops…) falar/escrever hoje. O ponto de fuga desta postagem (um tanto preguiçosa, devo confessar) está num conjunto dos três volumes que dele já li. Mas quem é ele? Calma. Já, já, o nome dele aparece. Pode ser que mesmo antes de você que me lê adivinhá-lo. Tudo é possível… Vai saber! Pois então. O primeiro livro que dele li contava a história de duas irmãs gêmeas. A morte é a sombra que envolve o enredo, a trama, e as palavras do autor que vai desenredando uma relação complexa, delicada, um tanto triste, mas acima de tudo e antes de mais nada, de uma beleza inenarrável. Quedei-me estupefato. A contracapa do volume traz a seguinte observação: “O livro mais plástico de (…). Um livro de ver. Uma utopia de purificar a a experiência difícil de se estar vivo.” São 238 páginas de pura e melancólica poesia, com tonalidades de tragédia, sem prender-se a estereótipos, inclusive, no exercício de construção do texto em si, como diz a nota, de matéria “plástica”.

livro 3

O segundo livro, já em casa (Agora lembrei-me de que a primeira leitura se deu em terra estrangeira. Só não digo o nome, ara não desfazer o suspense… ai, ai…). O livro, o objeto, é, em si mesmo, um convite à especulação. O amarelo das capas contrasta com o fúcsia das lombadas. O tamanho é também cômodo e a narrativa vai se desenrolando em ritmo que lembra o círculo. Sem início e/ou fim delimitados, mas acertando o cerne do instante, o momento de visada que a palavra constrói num caleidoscópio de vidas que digladiam (já há séculos!) em terreno que ora é próprio, ora, alheio. Lembrou-me Claraboia, de José Saramago: das as personagens são apresentadas de um único ponto de vista, como se fosse observados de cima. No caso do livro de que falo, a diferença se faz na interlocução de suas personagens e, dado o grau de “loucura”, outra referência me ocorre: As naus, do António Lobo Antunes. Outra hora eu falo disso. O que interessa aqui é que este segundo livro e seu plot: as diferenças, as disputas, as idiossincrasias, as querelas entre dois povos que (ainda) vivem a se medir, a se cutucar, a se provocar. O humor predomina neste caso…

livro 2

O terceiro livro já extrapola qualquer expectativa (minha!). Uma surpresa, outra, igualmente instigante e prazerosa. Desta feita, a história leva o leitor pelo mundo íntimo de um homem em busca de seu pai. Ou o contrário, o pai que vai reconhecendo seus mil filhos. De um jeito ou de outro, o que está em jogo aqui é o estilhaçamento da subjetividade que se busca, freneticamente, numa saga eu atravessa o tempo e não se localiza em lugar algum. Esse trânsito é sentida pelo leitor que passeia pelas sendas destes cacos, ouvindo as diversas vozes que ecoam uma mesma busca, a da compreensão da travessia que se derrama página depois de página. Numa revisitação de mitos arquetípicos, bem à sua moda, o autor apresenta uma história instigante que vai se compondo tal quebra-cabeças multicolorido pelas muitas facetas que a existência humana vai pintando.

livro4

Bem, não vai ser preciso falar o nome do autor a que me refiro. Pelo simples fato de que, se o leitor chegou até aqui, já viu as imagens com as capas dos livros. Há que acrescentar um ou outro detalhe: o uso indiscriminado de minúsculas, a inusitada preferência por uma aparente desorganização do texto: a perspectiva é sempre diversa daquela que o desejo do leitor desenha no inconsciente. Boa leitura, para quem quiser ler os livros aqui apresentados!

antonio     walter     jose

Pronto! Minha missão está completa.

leitura

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